Escola de Redes

Eva Lupe, Eleanor Nevins, Tom Nevins: White Mountain Apache Reservation, Arizona, Summer 1998.


Bill Wilson: co-founder of Alcoholics Anonymous


Publiquei aqui dois artigos intitulados Nós já descobrimos a "fórmula" I (04/07/09) e II (02/09/09). Em síntese, estes posts, que receberam mais de uma centena de comentários, diziam que nós já descobrimos a "fórmula" "porque a mudança é a rede! Ou seja, a transição de um padrão hierárquico para um padrão de rede é a rede. É impossível atingir esse fim por quaisquer outros meios. Porque, aqui, o fim é o meio".

Todavia, não se trata apenas da transição da empresa hierárquica para a empresa em rede. Não se trata de um novo modelo de administração, de uma nova moda de consultoria - dos 5 "isso" ou dos 7 "aquilo" -, não tem a ver com marketing e nem apenas com branding. A "fórmula", no caso, tem a ver com um padrão civilizatório. Tem a ver com a verticalização do mundo operada pelos programas centralizadores.

Transcrevo abaixo uma excelente passagem do livro de BRAFMAN, Ori & BECKSTROM, Rod (2006). Quem está no comando? A estratégia da estrela-do-mar e da aranha: o poder das organizações sem líderes. Rio de Janeiro: Elsevier/Campus, 2007. Nela fica claro como atuam os programas centralizadores. (Estou fazendo uma espécie de campanha para que todos os conectados à Escola-de-Redes interessados no assunto da transição organizacional leiam esse livro). As observações [entre colchetes] e os links foram introduzidos por mim.

A ESTRATÉGIA DA CENTRALIZAÇÃO

A última vez que vimos os Apaches, eles estavam dominando o Sudoeste. Os espanhóis tentaram em vão controlá-los, e os mexicanos, que vieram em seguida, também não tiveram sorte. Quando os americanos conseguiram o controle da região, também fracassaram. Na verdade, os Apaches permaneceram como uma grande ameaça até o século XX. Mas depois a maré mudou. Aí os americanos venceram. Quando Tom Nevins explicou isso, ficamos de queixo caído ao descobrir como algo tão simples poderia ter um efeito tão poderoso.

Nevins nos contou a história. "A verdade é que os Apaches representaram uma ameaça até 1914. O exército ainda marcou presença na reserva White Mountain até o início do século XX". Por que era tão difícil derrotar os Apaches? Os Nant'ans [espécie de catalisadores da rede social apache] apareceram, disse Nevins, e "as pessoas desejavam apoiar quem elas acreditavam ser o líder mais eficaz, com base em suas próprias ações ou em seu comportamento. E não tardaria a acontecer". Como surgiam cada vez mais Nant'ans, os americanos finalmente "perceberam que precisavam atacar os Apaches no nível mais básico para poder controlá-los. Essa foi a política adotada pela primeira vez com o grupo Navajo - que também era Apache, e aperfeiçoada com o grupo Western Apache".

Eis o que acabou com a sociedade Apache: os americanos deram gado aos Nant'ans. Foi simples assim. Como os Nant'ans tinham recursos escassos - as vacas -, seu poder passou de simbólico a material. Antes, os Nant'ans lideraram pelo exemplo, mas agora eles poderiam recompensar e punir membros da tribo oferecendo ou retirando esse recurso.

As vacas foram as responsáveis pela grande mudança. Como os Nant'ans ganharam poder autoritário, eles começaram a brigar entre si por assentos nos recém-criados conselhos tribais e começaram a ter um comportamento cada vez mais parecido com os futuros "presidentes da Internet". Membros da tribo começaram a fazer lobby junto aos Nant'ans para obter mais recursos e ficavam aborrecidos quando as alocações não funcionavam a seu favor. A estrutura de poder, que antes era horizontal, se tornou hierárquica, com o poder concentrado no topo. Isso arruinou a sociedade Apache. Nevins reflete: "O grupo Apache agora tinha um governo central, mas, a meu ver, isso foi desastroso para eles, pois gerou uma baralha sem lucros em troca de recursos entre linhagens". Com uma estrutura de poder mais rídiga, os Apaches ficaram semelhantes aos Astecas e, assim, ficou mais fácil para os americanos os controlarem.

Quase um século depois, na cidade de Nova York, um padrão semelhante surgiu no AA (Alcoólicos Anônimos). Vamos voltar ao tempo em que Bill W., o fundador do AA tomou a decisão importante de renunciar ao poder e permitir que vários círculos pudessem se autogovernar. Bill e os membros do AA escreveram as histórias de suas vidas e as formas com que o AA tinha trabalhado para eles. A idéia era manter viva a ideologia da organização. Bill W. esperava que a leitura do livro fosse como escutar um palestrante em uma reunião do AA.

Como medida máxima de transferência de controle, Bill W. e seus co-autores concordaram que todos os procedimentos do trabalho, apelidado de The Big Book, seriam revertidos para o Alcoholics Anonymous World Services, Inc., uma organização sem fins lucrativos destinada a apoiar organizações locais no mundo inteiro. Esses procedimentos não eram muito significativos quando Bill W. organizou o The Big Book; o AA contava apenas com cem membros àquela época. Ele provavelmente pensou que as receitas do livro seriam revertidas para a compra de cadeiras para reuniões e impressão de folhetos. Mas o AA acabou crescendo e já tinha 100 mil organizações. Com o passar dos anos, The Big Book vendeu como banana - 22 milhões, segundo o último cálculo. Esse índice inesperado de vendas do livro gerou enormes receitas, todas revertidas para o Alcoholics Anonymous World Services, Inc.

As vacas eram para os Apaches o que a venda de livros se tornou para o AA. Como os lucros do Big Book dispararam, aquilo que parecia ser um negócio pouco lucrativo se transformou em uma grande e próspera organização. O que fazer com tanto dinheiro sobrando? A Alcoholics Anonymous World Services, Inc. decidiu investir alguns milhões de dólares na renovação de seus escritórios de negócios. Isso não agradou os membros do AA. Os executivos da World Services se consideravam Montezumas. A maioria dos membros do AA, contudo, não se importava nem um pouco com a sede. Afinal, o valor da organização residia nos círculos [que eram uma espécie de nodos da rede social AA].

Quando membros independentes do AA começaram a traduzir The Big Book para vários idiomas e distribuí-lo de graça, a sede chegou a processá-los. Assim como a MGM, a World Services foi aos tribunais a fim de proteger sua propriedade intelectual. Esse ato reduziu as chances de inovação e autogestão das filiais locais. A World Services estava levando o AA à centralização.

Na essência, o que movia os Apaches e o AA era a concentração de poder. Após adquirirem o direito à propriedade, seja ela em forma de vacas ou royaltes de livros, as pessoas rapidamente buscam um sistema centralizado para proteger seus interesses. É por isso que queremos bancos centralizados. Desejamos ter controle, estrutura e prestação de contas, pois o que está em jogo é nosso dinheiro.

No momento em que direitos de propriedade entram na equação, tudo muda: a organização estrela-do-mar se transforma em aranha. Se você realmente quiser centralizar uma organização, passe o direito de propriedade ao catalisador [os catalisadores funcionam como netweavers em uma rede social] e peça-o para distribuir recursos conforme adequado. Ao deter o poder sobre os direitos de propriedade, o catalisador se transforma em CEO e os círculos passam a ser competitivos.

É por isso que a Wikipedia correrá risco se levantar muito capital. Ironicamente, o sistema funciona porque não é financiado e porque quase todos são voluntários. Se fossem incluídas posições pagas e muito cobiçadas, provavelmente isso resultaria em lutas pelo poder e um sistema hierárquico. Com o poder concentrado, a Wikipedia se tornaria mais centralizada e começaria a perder seu ambiente de cooperação. Da mesma forma, se o Burning Man incluísse tíquetes VIP que dessem às pessoas acesso a acampamentos melhores e privilégios sem precedentes, os participantes não teriam mais os mesmos direitos. Os direitos de propriedade criariam uma hierarquia dentro do sistema.

Mas e quanto às organizações como a eMule, que são tão descentralizadas [distribuídas] que não há ninguém para receber direitos de propriedade? As gravadoras poderiam ter interrompido a avalanche se tivessem criado incentivos financeiros para Napster, Kazaa e eDonkey se legalizarem [...]


Bem... é isso aí. Espero que você tenha ficado animado(a) com essa pequena mostra do que Ori Brafman e Rod Backstrom escreveram e leiam o livro (se alguém tiver em formato digital - ou puder digitalizar - e quiser disponibilizar aqui, seria interessante, embora viole as leis do copyright: o ideal seria que os autores tomassem tal iniciativa e devolvessem seu trabalho ao Domínio Público, inclusive para ficar mais coerente com o que escreveram).

Mas o motivo principal deste post vai além do estímulo à interessante leitura desse livro que trata do poder das organizações sem líderes (como diz o subtítulo da edição brasileira). É o que veremos em breve, na continuação do presente artigo.

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Comentário de Edna Costa em 21 setembro 2009 às 17:21
Também adorei a degustação. Ainda não está em mídia eletrônica?
abs,
Edna
Comentário de Sérgio Luis Langer em 17 setembro 2009 às 15:07
As redes sociais, devem apresentar-se como projeções dinâmicas, emergentes num sistema gestor de conflitos generalizados; interalizadas, por sua vez, com os fragmentos experimentais associativos aos seus conceitos de compartilhamento, cuja responsabilização pessoal, torna-as admissíveis à independência de uma pessoalidade temática. A estrutura organizacional, determinante pela humanização e focada na sustentabilidade ecossocioeconômica (impregnada na integridade do desenvolvimento estimado), vem a delinear antíteses pragmáticas, quando confrontadas com o "engessamento" ideológico hierárquico em sua formação do pensamento, como essência do homem. A conduta, respeitosamente cultivada pela ética, torna-se (diferenciada e significativamente) preferencial quanto ao seu grau de significância e reciprocidade construtiva, instituida no meio em que inserimo-nos, onde o pensamento torna-se liberto pela concepção de sua autonomia; porém, limítrofe da coerência prepoderante.
Comentário de Marcelo Estraviz em 17 setembro 2009 às 10:35
amigo storch: meu unico inimigo é a hierarquia (e os hierarcas)...
Comentário de Raulino Oliveira em 16 setembro 2009 às 9:58
Primum vivere, deinde philosophari.
Os caminhos existem desde que começamos a caminhar, as dificuldades em caminhar e o tempo gasto é que sempre foram o busilis do problema, no caso, chamado sobrevivência.
Foi sempre na medida em que o homem diminuiu o tempo necessário para o caminhar e descobriu que poderia ficar em sites se comunicando, é que jogou a roupa de antropóide fora e passou a viver como ser social. Foi trabalhando e falando que viramos esta coisa toda chamada História. E veja que já éramos rede enquanto pessoas!!!! Como bem lembra o Augusto.
A Dona Revolução não pode ser esquecida meus nobres companheir@s de rede! E que Revolução? A de sempre; aquele momento da história humana em que uma nova base tecnológica propõe a possibilidade de que um NOVO MODO SOCIAL de PRODUÇÃO se hegemonizando sobre os processos consagrados até aquele momento.
As redes humanas usando as novas tecnologias da comunicação e da informação estão criando valor de forma inédita na sociedade! E Mais! Criam tanto mais valor quanto usam um padrão possibilitado pelas redes distribuídas – A COLABORAÇÃO!
Mesmo que o jogo bruto dos interesses continue sendo o motor da criação, a novidade é que a criação de valor em redes, portanto se aproximando dramaticamente a diferença entre tempo histórico e tempo real, só é efetivamente transformado em produtos e serviços se e somente se, com uso intenso da colaboração.
Aqui dois aspectos instigantes e animadores pra quem gosta do vir a ser, eh eh:
1- Quanto mais se agrega valor trabalhando em redes menos precificação se consegue para os resultados conseguidos. O novo Marketink quase já pode ser: “OQUE É BOM NÃO TEM PREÇO”, mas agregou valor como nunca!
2- O que vale é a colaboração independente dos níveis de interesse e de competição. Embates, combates e quejandos rapidamente se voltam às velhas formas tayloristas, fordistas e toyotistas de produção, com todos os seus ideológicos mantras sobre a qualidade e a produtividade, eh eh.
Finalmente a cereja nesta nova torta: ao invés do terror bíblico de que só nos resta sofrer muito pelo pão de cada dia, a descoberta de que em rede o lúdico é motor da criação do novo.
Comentário de Maria Thereza do Amaral em 16 setembro 2009 às 9:01
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Só uma contribuição, por que a observação "Marx (sem estigmas, por favor)" fez a historiadora da ciência aqui se agitar...

1) Um autor só pode ser analisado em seu contexto sócio-histórico. Analisar Marx destacando-o de seu contexto, sem levar em consideração estes fatores, é ser anacrônico.

2) Não confundir Marx com os marxistas. Os seguidores, além de darem uma visão própria do que lêem (o que é normal), as vezes são "mais realistas que o rei".

E eu estou sendo boazinha e considerando os que realmente leram Marx e não os que só o citam de fontes secundárias.
.
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Comentário de Sergio Storch em 16 setembro 2009 às 8:42
Querido Marcelo,
Hehe. Ai que gostoso responder a seu comentário.
Que bom! Fica explicitada uma polarização, com a qual teremos que conviver...
É isso que eu quis dizer com a Comuna de Paris, pois já vimos esse filme antes: girondinos e jacobinos, anarquistas e socialistas, mencheviques e bolcheviques, Ação Popular e Partidão etc etc. Faz parte da fenomenologia dos grupos sociais. E não temos que estar de acordo. Haverá clusterização em torno do seu pensamento, em torno do meu etc.

Meu ponto: não dá tempo para esperar. Aquecimento global é bomba relógio. Segurança pública é bomba relógio. Crise na educação é bomba relógio. Além de pensar, temos que fazer. Marx (sem estigmas, por favor) na última Tese sobre Feuerbach: "Até hoje os filósofos procuraram interpretar...

Sorry, entre as diferenças individuais está a paciência histórica. Sou impaciente.

Prefiro participar de mudanças com hierarquias mais ou menos controladas socialmente (Movimento Nossa São Paulo, Instituto Ethos etc.), do que totalmente desarmado. Discordo de algumas teses do Augusto, quando diz que a rede não decide, que não há necessidade de voto etc. Vejo isso como uma construção teórica, muito útil para facilitar nosso aprendizado sobre tudo isso que há de novo, a Ciência das Redes. Porém, para mim aprender é fazer. Se não levarmos a discussão para o lado dos processos decisórios e do controle social, vamos ficar derrapando no velho Feuerbach.

Me deliciei com o comentário pelo seguinte, hehehe: ao procurar o texto da tese sobre Feuerbach e escolher o blog do Alon, eu me questionava: peraí, deve já fazer uns 150 anos... Aí vi na Wikipedia. Não, já passou. Foi em 1845. Não, peraí. O titio Carlinhos escreveu em 1845, mas o titio Frederico só publicou em 1888.

Dá tempo!!! Vamos lançar um movimento para comemoração do sesquicentenário das teses sobre Feuerbach, em 2038?

Bem, enfim, sobre Marx e os programas verticalizadores. Sem estigmas. Não vamos jogar fora a criança com a água do banho. Marx ainda dá samba, assim como Wittgenstein, Durkheim, Freud, Anísio Teixeira, Paulo Freire, João 23 e tantos outros que estão na nossa memória em rede. Temos que prosseguir a marcha com tudo de bom que todos eles nos deram. Temos inimigos sim, mas o inimigo principal NÃO É A HIERARQUIA.

Porisso temos que trazer para a ciência das redes a teoria política: o voto, os processos de persuasão, a teoria dos jogos etc.

Vou abrir esta discussão no blog, para que ela prospere mais, pois aqui eu acho que ela começa a ser off-topic.

Um grande abraço

Sérgio
Comentário de Marcelo Estraviz em 15 setembro 2009 às 22:46
Olá Sergio! Eu já conhecia a história do Bom samaritano mas fazia muito tempo que não a ouvia. Obrigado por relembrá-la pra mim! Sobre o controle social, o que me dá "nojinho" é a ideia de "controle" saca? Eu entendo onde queres chegar e e stou contigo, mas ainda acho que o caminho pra chegar lá não é por aqui e sim por ali. Esse ali eu não sei onde é direito. hehe.

Eu sei que queres pegar algo prático pra concretizar em solução (o tal "como", ou "processo"). Mas eu me pergunto se não é melhor continuar acompanhando os fluxos pra sabermos onde isso vai dar do que forçar uma barra para que algo aconteça.

Dizes o seguinte: Eis a questão: como pode se dar o controle social dos meios de produção (aí incluídos também os serviços de educação, saúde, justiça etc.)? Os meios que temos hoje para isso são fantásticos e inéditos, e podem dar concretude a formas de regulação da escassez, sem recorrer à centralização.

Eu acho que não tem que regular nada, porque a escassez é forjada, percebe? Onde há escassez, há alguém brincando de represa, alguém com uma chavinha, uma porta e uma placa de proibido entrar.

Retomando seu destaque: Trata-se do controle social (NÃO ESTATAL) dos meios de produção. Pra mim tanto faz se é estatal ou não, o que sobra é a ideia de controle.

abs!
Comentário de Sergio Storch em 14 setembro 2009 às 21:28
Marcelo, gostei muito de aprender mais essa sobre a guerra civil espanhola, infelizmente tão menos conhecida do que o III Reich. As sacanagens entre os "bons" dizem muito mais sobre a natureza humana do que as sacanagens dos "ruins". Aliás, acabo de ler sobre um experimento em que seminaristas ouviram a história do Bom Samaritano, e depois tinham que ir para uma outra aula. Um grupo foi informado de que já estava atrasado, e o outro não. No caminho para a outra aula havia um ator fazendo de conta que era uma pessoa doente caída no chão. Os seminaristas, todos bonzinhos e com a história do Bom Samaritano na cabeça, se comportaram assim (não tenho os números à mão, porisso vou chutar): 20% dos que achavam que estavam atrasados parou para ajudar, enquanto o mesmo aconteceu com 60% dos que não estavam atrasados. Bota qq um de nós bonzinhos nessa situação para ver como ele se comporta.

Mas essa lição não corta meu barato não.
Acho que vc não leu a frase central do que escrevi:
Trata-se do controle social (NÃO ESTATAL) dos meios de produção.
Este é um ponto que entendo que devamos aprofundar, por ser a derivação desse conjunto de idéias no plano dos processos (ou seja, do "como"). Eis a questão: como pode se dar o controle social dos meios de produção (aí incluídos também os serviços de educação, saúde, justiça etc.)? Os meios que temos hoje para isso são fantásticos e inéditos, e podem dar concretude a formas de regulação da escassez, sem recorrer à centralização. Veja, por exemplo, Patient Opinion. Até hoje não havia forma mais justa do que a centralização para fazer um racionamento necessário do que é escasso (Cuba, Chile de Allende etc). Através do sistema de preços haveria o açambarcamento e especulação, como a escassez artificial de papel higiênico que foi parte do golpe armado pela CIA-Médici-Pinochet contra Allende.

RAcionamento, necessariamente centralizado, era a forma mais justa, mas frágil, portanto insustentável. Hoje, com a transparência trazida pela Web, embora seja muito novo para podermos tirar conclusões , a equidade na distribuição do escasso pode ser garantida pela quantidade de olhos que podem acompanhar o que é feito. Controle social instantâneo.

Foi essa a minha colocação, que a sua lição da Guerra Civil não abala.

Aproveito para dar a dica de um livro que explora bem as questões de controle social, e coloca um excelente contraexemplo que mostra que a coisa é mais complexa do que parece.
Andrew Shapiro, "The control revolution: how the internet is putting individuals in charge and changing the world". O contraexemplo é o ParoleWatch, um serviço Web que dá poder aos cidadãos interferirem nos procedimentos da Justiça, e acaba operando de fato como um mecanismo de linchamento.

Porei na biblioteca as páginas do livro que tratam disso.

Um abraço
Sérgio
Comentário de Fabio Andriani Paiva em 14 setembro 2009 às 20:46
Obrigado pelos exemplos! Contextualizar estas questões de rede é um desafio. Novas estratégias são urgentes. Estarei atento. ABS!
Comentário de Augusto de Franco em 14 setembro 2009 às 19:11
Dialogando com Filipe:

1 - Sobre o exemplo do livro: não, o problema não foram as vacas (recursos afluentes) e sim a atribuição aos Nant'ans de administrar as vacas (os recursos). Isso é centralização e por isso os autores acertaram quando batizaram a coisa de "estratégia da centralização".

2 - Não há qualquer evidência de que a escassez é uma motivação para a centralização. O que há aqui é apenas, a meu ver, a sua alegação. Nem de que surtos de recursos ativam a ganância. Não é assim com os macacos bonobos (foto). E não é assim com humanos.


3 - Small World tem a ver com clusterização, não com centralização (aliás, é exatamente o oposto). São coisas diferentes. Por outro lado, a redução do tamanho social do mundo (diminuição dos graus de separação - que eu chamo de crunching) tem a ver justamente com a distribuição. Quanto mais distribuida for a rede social, mais ela se torna um ambiente favorável à emergência desses fenômenos que só muito recentemente foram percebidos (como o clustering, o crunching e o swarming).

4 - Redes não são panacéia para os problemas da civilização. O que chamamos de civilização, isto sim, foi o resultado de intervenção desarmonizante em relação à rede-mãe. Sobre esse ponto, valeria a pena dar uma espiadinha no livro Ismael de Daniel Quinn (por acaso pendurado hoje em nossa BIBLI.E=R). Ou no capítulo 8 do meu Capital Social (intitulado Sociedades de parceria e sociedades de dominação também disponível em html). Ou nos escritos de Ralph Abraham. Ou, melhor ainda, nos de Humberto Maturana.

5 - A visão de redes (a filosofia) e o netweaving (a arte de articular e animar redes = AARS) não é a mesma coisa que análise de redes (ARS). Nem a nova ciência das redes se reduz à ARS (englobando também Redes como sistemas dinâmicos complexos e Redes como estruturas que se desenvolvem).

6 - As redes sociais são, por certo, tão antigas quanto a pessoa (pessoa já é rede, hehe). Mas essa filosofia, essa ciência e essa arte são novas. O que significa que, sim, estamos propondo muita coisa de novo, absolutamente novo. Para dar dois exemplos, a propósito do seu comentários: a) ter descoberto que a clusterização, o crunching e o swarming são função do grau de distribuição e conectividade da rede; b) ter descoberto que o que chamamos de civilização foi o resultado do fato da rede social que existe independentemente de nossos esforços conectivos ter começado a rodar programas verticalizadores.

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