Escola de Redes

A BLOGOSFERA COMO REDE DISTRIBUÍDA E OS BLOGS NEM TANTO


Há muito tempo queria escrever sobre isso. Mas não tinha a clareza necessária para abordar a questão. Talvez ainda não tenha. Mas vou tentar assim mesmo.

Mais de uma centena de milhões de blogs – State of Blogosphere, Technorati, David Sifry (2008) – compõem hoje um conjunto que foi chamado de blogosfera.

A emergência de uma blogosfera foi, sem dúvida, uma novidade importante. Ela é, como percebeu David de Ugarte (2007), o primeiro meio de comunicação realmente distribuído da história. Ou seja, o espaço gerado pelo conjunto de ferramentas eletrônicas de edição e publicação pessoal se organiza como uma rede social distribuída, no sentido de que a eliminação de qualquer conjunto de blogs não pode impedir o fluxo das informações que circulam na blogosfera.

No entanto, os blogs, em si, não se estruturam, necessariamente, segundo a lógica das redes distribuídas. Boa parte deles constituem organizações fechadas, que não admitem interação a não ser com aprovação prévia do seu dono (por meio da tal “mediação dos comentários”). Isso nos leva mais para a lógica do ‘Cada um no seu quadrado’ do que para a lógica aberta das redes sociais distribuídas. Nesse caso, cada blog é uma espécie de reinado do eu-sozinho.

Ainda que, objetivamente, o conjunto dos blogs adquira – inegavelmente – as características de uma rede distribuída, o que move cada blogger pode não ter nada a ver com o desejo de compartilhamento. Do ponto de vista subjetivo, portanto, o ânimo do reizinho-que-publica-seu-bloguinho não é lá tão cooperativo como se poderia imaginar ou se deveria esperar (ou não?).

A dinâmica é semelhante à de um mercado. E não é por acaso que a mentalidade dos donos dos mais famosos blogs – desses que ganham prêmios (e que se inscrevem e participam de concursos ou ficam orgulhosos e publicam os resultados das tão freqüentes quanto duvidosas enquetes com internautas) – é meio mercadocentrista. Um sinal de sucesso é o número de pageviews. Lembro-me agora (e cito de memória) que o blog do professor Glenn Reynolds – o Instapundit – que chegou a alcançar 12 milhões de pageviews, é (e sempre foi) fechado para comentários. Outro sinal de sucesso é o número de comentários (em geral mediados, quer dizer, controlados pelo dono do pedaço). Não é raro que bloggers rivalizem entre si para ver quem obtém um número maior de comentadores. Para tanto, fazem coisas que não seriam próprias da atividade de blogar: por exemplo, os blogs de política se dedicam a fazer uma espécie de clipping diário, reproduzindo as notícias que saíram na chamada grande imprensa, muitas vezes sem qualquer contribuição pessoal, sem ao menos um comentário dos autores dos blogs dizendo se gostaram ou não da matéria que publicam (parcialmente) em segunda mão. Na competição com outros bloggers, para não perder leitores, vai tudo na base do copia-e-cola mesmo. Se o Ricardo Noblat faz isso, o Reinaldo Azevedo também tem que fazer. Aqui não vai nenhuma crítica a esses dois excelentes blogueiros nacionais, mas apenas a constatação de que a “lógica” é mercantil: é predominantemente competitiva, não colaborativa. Mesmo porque os blogs mais visitados têm, em geral, patrocínio institucional (ou pertencem a um grande grupo de comunicação) e os blogueiros mais premiados recebem pagamento por seu trabalho, mais ou menos como qualquer outro jornalista empregado (seja, no caso do Brasil, pelo Globo, pela Abril – Veja –, pelo UOL, pelo Estadão ou por outras empresas). Além disso, blogs tocados como atividades comerciais precisam mesmo de verbas de propaganda, o que só conseguirão se tiverem muitos visitantes. Mas não deixa de ser curioso o fato de que os bloggers mais famosos, expoentes da avançadíssima blogosfera (que se estrutura como rede distribuída) estejam abrigados nos meios de comunicação mais tradicionais (organizados como estruturas centralizadas).

Nada contra. Para os bloggers que estão no mercado é um meio de vida como outro qualquer.

Meu problema é com o fechamento dos blogs. O que me espanta – e não deixa de ser profundamente irônico – é que os mais destacados blogueiros (nodos visíveis da primeira rede informativa realmente distribuída da história) desconfiem tanto das redes distribuídas. Sim, trata-se de des-confiança mesmo. Eles têm medo de que as pessoas pisem lá no seu quadrado, ficam incomodados com aqueles suburbanos que podem “invadir sua praia” (o exemplo vale para a classe média do Rio Zona Sul dos anos 70 e 80) trazendo frango com farofa (“e tem também a vitrolinha...”)? De que falem besteira, escrevam errado, usem palavras de baixo calão ou façam propaganda pornográfica rebaixando o nível da publicação ou sujando sua linda página?

Há, é claro, diversas racionalizações para justificar esse, vamos dizer, “cuidado”. Alguns argumentam que o proprietário do blog vai ter que responder na justiça por eventuais transgressões legais cometidas por terceiros, que nem mesmo se identificam corretamente, nos comentários. Outros sustentam que existem grupos políticos que se organizarão para fazer uma espécie de guerrilha digital, ocupando de tal sorte o espaço dos comentários com calúnias, injúrias e difamações de toda ordem até inviabilizar a publicação. Pode até ser. Mas confesso que todos os meus sites e blogs, em quase dez anos, sempre foram abertos e nunca sofri esse tipo de problema (e não se pode alegar, no caso, que o autor não seja suficientemente conhecido por afrontar poderosos grupos organizados, como atestam dezenas de artigos na Folha de São Paulo).

Diga-se o que se quiser dizer, a mediação é uma obstrução de fluxos e, como tal, é um movimento hierarquizante ou centralizador feito na contra-mão da tendência das redes sociais abertas à mais-distribuição. Não deixa de ser incrível que até os mais árduos defensores da blogosfera como rede distribuída adotem esse fechamento, protegendo zelosamente seu “patrimônio” e abrindo-o somente para aqueles que julgam ser de sua confiança (a quem conferem um Open ID ou outro tipo de registro para poder se logar e/ou enviar comentários). Em suma essa é uma proteção contra o outro, contra o desconhecido ou – cabendo ao proprietário do blog a última palavra ex ante – contra aquele que possa dissentir do que ele publicou. E ele fica garantido: só vai “ao ar” o que eu aprovo. Assim, sim.

Apesar de tudo, a blogosfera é rede distribuída. Isso é certo. Mas é igualmente certo que ela não é um bom instrumento de netweaving – ou seja, uma boa ferramenta de articulação e animação de redes distribuídas – na medida em que os blogs, em volume considerável, não são, eles próprios, redes distribuídas. Ahá! Sim, senhor! São coisas diferentes. Ainda estão para ser construídas as tecnologias de netweaving (eis um bom desafio para a Escola-de-Redes) capazes de colocar um conjunto de blogs em um meio eficaz de interação. Por enquanto, não existem. Inclusive porque a mentalidade dos bloggers não acompanhou a inovação que, objetivamente, sua atividade representa. E muitos daqueles que fazem o proselitismo das redes distribuídas nos seus blogs, organizam, lá no seu quadrado, suas igrejinhas hiper-centralizadas, algumas vezes quase-monárquicas.

Agregadores de blogs que foram inventados com base em RSS – como o Infante e o Feevy – não resolvem o problema. O fato de se ter vários blogs em uma mesma página, atualizando automaticamente as primeiras palavras das postagens mais recentes de cada blog, não garante, nem favorece muito, qualquer tipo de interação mais efetiva. Esses softwares produzem apenas índices ilustrados dos blogs que foram agregados por iniciativa única e exclusiva do administrador da página. Caso haja reciprocidade, ou seja, se todos os agregados por um blog também agregarem os demais nos seus blogs, essas ferramentas são boas para formar um grupo seleto (e necessariamente pequeno, por motivos óbvios) de pessoas que se lêem. Também podem ser bastante úteis no caso de uma corporação (onde, porém, o acesso à página agregada é, via de regra, fechado, pois, afinal, uma corporação precisa se proteger da concorrência...) ou de uma comunidade já existente. Mas, em geral, não são ferramentas eficazes de netweaving, pois ninguém fica sabendo – a não ser que abra seguidamente, várias vezes por dia, todos os blogs – o que cada um está dizendo, no seu próprio blog, sobre o que outros postaram nos deles. Ademais, não são viáveis para organizar o compartilhamento de agendas (a única coisa que pode realmente “produzir” comunidade). As velhas listas de e-mails com seus fóruns derivados – e suas versões atuais, como o Google Groups – são mais eficazes para esse propósito.

Já existem hoje mais de duas centenas de plataformas (dentre as quais o Ning) que permitem interatividade e compartilhamento de conteúdos ou ensejam a experimentação de algum grau de identidade coletiva. Esses ambientes de troca pessoal ou de prestação de serviços personalizados que permitem, de alguma forma, a publicação de conteúdos no mesmo endereço e a conexão virtual de pessoas com pessoas por meios digitais, não são, por certo, redes sociais – de vez que redes sociais são pessoas conectadas (umas-às-outras) interagindo (entre-si) e não ferramentas –, mas podem ajudar a articulação e animação de redes sociais distribuídas. Os velhos arautos da blogosfera resistem a essas plataformas, muitas vezes com razão. Outras vezes, porém, não, pois eles também resistem pelos maus motivos. Resistem porque não aceitam a (quase) inevitável abertura ao outro-desconhecido que tais ferramentas proporcionam (ou, quando não, não se conformam com o constrangimento ao fechamento que elas criam: no caso do Ning, por exemplo, mesmo que você possa moderar comentários em um blog, publicando apenas aqueles que previamente aprovar, não “pega bem” fazer isso). É claro que existem sérios problemas com essas plataformas, desde o indevido uso comercial que seus proprietários podem fazer dos dados pessoais e de outras preferências observáveis dos cadastrados, passando pelo controle que alguma esfera centralizada de poder (como uma grande corporação associada a um Estado, por exemplo) é capaz de exercer a partir de tais informações, até os privilégios excessivos que concedem aos administradores (que podem arbitrariamente obstruir fluxos, eliminar postagens, impedir interações e banir membros). Alguns desses problemas já podem ser resolvidos ou contornados, outros ainda não. Mas desconfio que grande parte dos que se recusam a adotar essas plataformas interativas como instrumentos de netweaving está resistindo, de fato, à abertura que elas proporcionam.

Voltamos assim ao tema da resistência à abertura. Blogueiros famosos não gostam muito de abertura. Aliás, pessoas famosas (ou que querem ficar famosas), não gostam de abertura. A fama como indicador de sucesso – assim como a riqueza e o poder – é um atributo da sociedade hierárquica, aquele tipo de sociedade na qual você é educado desde pequeno para se destacar dos demais e não para se aproximar dos semelhantes (o que seria, convenhamos, mais humano e humanizante). A fama só é alcançada com mecanismos de broadcasting (vias de mão única do tipo um-para-muitos) e não com mecanismos interativos (vias transitivas P2P) e isso diz tudo. O fechamento decorrente da desconfiança a priori (quer dizer, daquele tipo de desconfiança que não foi construída a partir de uma história, de uma seqüência observada de interações, a desconfiança em princípio ou por princípio, porque não se conhecendo quem é o outro, julga-se que ele pode ameaçar o reinado que estabelecemos no nosso quadrado, aquela desconfiança que toma o outro – na linha da realpolitik – como um provável adversário antes de como um potencial parceiro), dizia, esse fechamento é típico dos programas de comando-e-controle.

E é por isso que, raramente, encontramos blogueiros famosos e pessoas famosas conectadas em instrumentos abertos de netweaving. Se eles precisam se destacar dos semelhantes como é que agora vão ficar lá, juntos dos outros, sem qualquer distinção devida à sua posição diferenciada, vulneráveis aos “paparazzi do relacionamento” que, ainda por cima, não terão o bom-senso de ficar no seu lugar e podem cometer o abuso de se dirigir diretamente a eles, fazer alguma crítica...? Que horror! Não, nada disso! Interagir sim, mas em petit comitê, com gente escolhida, bem selecionada de antemão.

Acho que tudo isso revela uma resistência, muitas vezes surda, escondida, mal ou bem-disfarçada, às redes sociais. É quase inacreditável que essa resistência também parta dos bloggers, agentes tão importantes mas, pelo visto, ainda inconscientes, dessa formidável revolução que está ocorrendo com a emergência da blogosfera.

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Comentário de Claudio Estevam Próspero em 1 março 2009 às 23:28
Boa noite.

Fico impressionado com certas coincidências.

Ao ler este multiálogo (gostei deste neologismo(?)) fiquei impressionado com a coincidência desta colocação do Augusto ("a desconfiança em princípio ou por princípio, porque não se conhecendo quem é o outro, julga-se que ele pode ameaçar o reinado que estabelecemos no nosso quadrado, aquela desconfiança que toma o outro – na linha da realpolitik – como um provável adversário antes de como um potencial parceiro), dizia, esse fechamento é típico dos programas de comando-e-controle.") com a linha de nosso multiálogo sobre Confiança.

Muito interessante!

Abraços.
Claudio
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 26 fevereiro 2009 às 19:57
É Augusto, colocou muito bem, como sempre. Também venho refletindo muito sobre essa necessidade de "reconhecimento social" que me parece é comum a todos nós. Creio que ainda vai demorar um tempo para que, de fato, emerja uma sociedade de redes distribuídas... Existe ainda uma grande distância entre o discurso e a prática...

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