Escola de Redes

8 OBSERVAÇÕES SOBRE O TEXTO DA VENESSA MIEMIS


Traduzimos colaborativamente na Escola-de-Redes o excelente texto de Venessa Miemis (2010): Uma idéia que vale espalhar: o futuro é a rede.

Jaqueline de Camargo fez um blogpost sobre essa tradução. Quis fazer um comentário lá, mas como ela acionou a mediação de comentários, corri prá cá (abrindo um novo post). Depois vi que minhas observações sobre o texto ficariam melhor mesmo - dado que muito extensas - num artigo separado. Segue abaixo.

Bem, fui um incentivador da tradução colaborativa desse texto da Venessa Miemis aqui na Escola-de-Redes. Fizemos um bom trabalho, que ainda pode ser melhorado com uma boa revisão de estilo. Fiquei feliz com o resultado.

Sim, gostei do texto, mais pelo sua abordagem franca e, sobretudo, pela idéia-força fulcral de que o futuro é a rede do que pela estrutura conceitual do trabalho. Não disse essas coisas antes para não desestimular a adesão de pessoas à iniciativa.

Mas agora vou fazer alguns comentários, aproveitando este post da Jaqueline.

1 - Não sei bem até onde Venessa compreendeu que a rede social é a própria sociedade. Ela está muito antenada para as inovações. Quando diz que o futuro é a rede, está captando sinais da transição em curso para uma sociedade em rede. Talvez seja isso que ela queira dizer com a frase "o futuro da sociedade é a rede" (página 2). Por certo, mas o passado da sociedade também é a rede. Entender que 'no princípio era a rede...' me parece fundamental para não cair na tentação de afirmar que só agora, com os recursos tecnológicos disponíveis, podemos adotar uma morfologia e uma dinâmica de rede. Qualquer grupo humano pode se organizar em rede, independentemente da tecnologia: isso pode ser feito com sinais de fumaça, tambores, encontros presenciais, cartas escritas em papel e transportadas à cavalo... Rede é um padrão de organização, não o nome para um tipo de organização que só possa se configurar em virtude de um ambiente tecnológico com estas ou aquelas características.

2 - Venessa afirma (ainda na página 2) que não compreende a política. É fato. Por causa disso, com certeza, ela não entendeu que netweaving não é nada mais do que política. Ela tem uma visão ingênua do tema, que vai se refletir nas soluções que julga ter encontrado, sobretudo naquela já apontada acima pela Jaqueline: a de que o sistema vai funcionar melhor se cada agente der o melhor de si para si.

3 - Venessa define tecnologia social como "tudo que nos permite comunicar informações em nível global". Mas todas as evidências apontam que as tecnologias sociais surgem sempre no nível local. Então, a meu ver, faltou aqui a visão do glocal. Surgindo sempre em um local, as novas "tecnologias sociais" só são globais em virtude da globalização do local (o local conectado é o mundo todo). Talvez essa compreensão tenha nascido da visão, que ela coloca no mesmo contexto, de que "tudo é informação". Há uma visão informacionalista aqui, que já foi superada pela nova ciência das redes, mesmo se considerarmos, com Norbert Wiener, que informações são padrões (e que um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal). Como as informações estão globalizadas, então... Mas redes sociais não são (apenas) redes de informação; não, pelo menos, no sentido corrente da palavra. São muito mais do que isso: são fluições que se configuram formando padrões, inclusive pessoas... hehe!

4 - Venessa dá uma explicação básica demais (na página 7) para o aumento da complexidade social. A visão é ingênua (olha a falta que faz a política!). Ela imagina que os governos foram implementados porque os grupos sociais se tornaram mais complexos e que isso ocorreu em razão da escassez de recursos que levou os sistemas a se basearem na competição. Não percebeu que a escassez de recursos era uma conseqüência do modo-de-vida coletivo, ou seja, dos padrões (de novo!) de convivência social. E que a escassez que levou à organização de governos autocráticos (pois que assim foi) era uma escassez introduzida artificialmente para manter determinados padrões de convivência (se não houvesse o desejo de manter, por exemplo, as estruturas criadas para o sedentarismo, não haveria necessidade de ensejar um economia política, quer dizer, uma administração da escassez: quando os recursos de uma localidade se esgotassem, um grupo nômade mudaria de localidade! Ah!... mas aí não dava para fazer templo, nem palácio, nem Estado).

5 - Venessa - tendo descoberto recentemente os blogs e o Twitter - insiste na importância de toda pessoa ter um site pessoal. Isso não é hoje tão importante quanto foi há dez anos. Hoje qualquer um pode, com vantagem, alimentar uma página pessoal em uma plataforma interativa de rede.

6 - Venessa tem uma visão ainda muito elementar de empowerment. Ela crê que empoderamento pode ser definido como "equipar ou suprir com uma habilidade; tornar-se capaz". Sim, mas a única maneira de conceituar empowerment do ponto de vista das redes (posto que é sobre isso que ela está escrevendo) é mostrando que não se trata de um "poder" que possa ser auto-atribuído, mas que depende da configuração onde a pessoa se insere. Ou seja, quem empodera é o campo social (é, portanto, uma função coletiva, que vai do coletivo para o indivíduo e não o oposto). Basicamente a explicação que ela dá está correta: tudo está baseado na confiança (ou no capital social). Mas faltou aqui um passo a mais na compreensão do fenômeno (que, por exemplo, foi dado recentemente pelos autores do Connected (2009) - Christakis & Fowler). Não são ações conscientes (individualmente conscientes, voluntárias), quer dizer, não são escolhas racionais, que empoderam: você é empoderado (pela rede) sem saber e sem querer.

7 - Um ponto muito positivo do texto: Venessa (na página 16) sacou que pobreza é insuficiência de conexões: "Saí para dar um passeio em NYC neste fim de semana... e passei por um mendigo sentado na rua pedindo esmolas. Naquele momento, percebi que eu estava olhando para um homem sem uma rede social". Exato! É uma outra maneira de dizer (na frase atribuída no Brasil a Antonio Ermírio de Moraes) que "o problema do pobre é que seus amigos são pobres". A pobreza como um aprisionamento (pela falta de atalhos) em um cluster de pobres.

8 - Venessa (na página 18) afirma que "já temos tudo que precisamos para fazer isso [a organização em rede como rede de aprendizagem, desapegada de "velhas hierarquias e pirâmides"]. Tudo já está no lugar certo". Bem, mas aí vem de novo a visão ingênua (meio pré-rede) quando afirma: "Tudo o que é necessário mudar é a mentalidade". Ora... mas o que é a mentalidade senão o resultado de uma rede de conversações que reproduz certas regularidades inerentes? Faltou ver, a meu ver, que a mente é social e não individual e que, portanto, mudança de mentalidade não depende de crenças, valores, convicções do indivíduo. Registre-se que ela é honesta ao dizer: "Então, como é que vamos resolver tudo? Não tenho absolutamente nenhuma idéia". Mas aí acrescenta: "Nós seremos flexíveis, adptativos e inteligentes, porque nós seremos capazes de, rápida e livremente, alocar os recursos onde eles são necessários para fazer a mudança". De que mudança mesmo está falando Miemis? Da mudança de mentalidade (a chave de tudo, segundo ela)? Mas, se é assim, porque isso dependeria da alocação correta de recursos? O que os recursos têm a ver com história? Aqui está o ponto. A mudança não é outra coisa que devamos fazer para reorganizar o mundo realocando recursos e, então, mudar a mentalidade das pessoas (ou vice-versa): a mudança (já) é a rede!

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Comentário de Edna Costa em 26 abril 2010 às 19:25
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olá Augusto e demais,

Estou gostando bastante dos diálogos, mas antes de emitir alguma opinião quero ler o texto da Venessa, reler todos os comentários e aí sim, formatar alguma coisa... ou não.

abs.

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Comentário de Augusto de Franco em 22 abril 2010 às 18:25
É isso mesmo Jaqueline. Talvez não tenha sido muito claro quando disse que você já havia apontado esse juízo da Venessa, de que todos dando o que têm de melhor para si o sistema também melhora. Eu entendi que você estava fazendo a mesma observação que fiz. No limite essa visão (da Venessa) dispensa a rede (embora creio que ela não tenha se dado conta disso). Não basta cada qual cuidar de si da melhor maneira possível porque a sociedade não é a soma dos indivíduos e sim o que está entre os indivíduos (e se houver um entre, já não temos mais indivíduos e sim pessoas).

Claro que cada um que se associa voluntariamente a uma tarefa colaborativa (refiro-me agora a tradução que fizemos aqui) julga por si e pensa com sua própria cabeça. Mas disse que, disposto que estava a incentivar a iniciativa, não julguei conveniente começar com uma penca de observações críticas. Isso sempre influencia. Ainda que pudéssemos julgar com total independência (o que não é provável), mesmo assim somos interdependentes e as opiniões alheias sempre provocam em nós um emocionar que está na raiz da ação.

Esclarecido esses dois pontos, concordo no geral com suas demais observações.

Para concluir, uma questão de procedimentos. Não estava criticando a sua mediação de comentários e sim constatando. Agora sim vou criticar: em uma rede aberta como esta não soa muito bem mediar comentários (toda a mediação é um filtragem de fluxos, uma centralização). Não sei se tem alguém aqui na E=R que continue fazendo isso. Já ocorreu antes e eu sempre dei minha opinião desfavorável. Não há questão de segurança envolvida (uma pessoa só pode comentar quando entra na plataforma e os programas maliciosos não estão conseguindo entrar desde que acatamos temporariamente a sugestão do Ning Team para remover o registro automático).

Abraços.
Comentário de Jaqueline de Camargo em 22 abril 2010 às 17:04
Augusto, estou com muito pouco tempo esses tempos, comento aqui o que acho mais importante.

Realmente aceitei fazer parte da tradução do post da Vanessa Miemis Uma Ideia que Vale Espalhar_trad_WORD.doc porque achei que valia a pena o texto tal como ele é. Dgo isso em resposta à sua opinião de que não fez seus comentários antes "para não desestimular a adesão de pessoas à iniciativa." Normalmente sou bastante independente para avaliar o que quero fazer. Aprendo e busco a medida de coisas cooperativas que fazemos como um indicador de rede. E cada vez que escolho alguma coisa para ajudar e/ou interagir, aprendo e recebo.

Concordo com grande parte do que você pontua. Sobre o ponto 8. preciso entender melhor o que você afirma. Em todo o caso acho que quando ela fala "Nós seremos flexíveis, adaptativos e inteligentes, porque nós seremos capazes de, rápida e livremente, alocar os recursos onde eles são necessários para fazer a mudança" [você perguntava no seu post a que mudança ela estaria se refrindo] penso que se ela refere [intuitivamente] a mudança cultural, embora ela chame de mudança de mentalidade. O conceito de cultura poucas vezes é referido na literatura de redes, com o sentido antropologico - e ele dá conta, na minha visão, dessa dimensão de que a pessoa já é rede [como você afirmou em outro lugar] e que a mentalidade não é individual porque faz parte de uma dinâmica coletiva de construção e reafirmação de sentidos.

Sobre a visão que ela tem de empowerment, o seu ponto 6., sinto que ela - de novo - intui corretamente mas transporta a visão norte-americana do conceito [auto-capacitação]. No Brasil isso tem uma história diferente, o empoderamento, e creio que Paulo Freire recriou esse conceito, o adaptou para o sentido que veio sendo usado de que tenho poder porque estou no coletivo, com uma perspectiva coletiva. Não estou afirmando que essa é a sua compreensão de empowerment, mas o Gracio Antonio dos Reis também levanta uma questão e talvez valesse a pena aprofundar essa discussão [quero pesquisar sobre, assim que puder]. Mas o que quero mostrar aqui é que, para mim, de novo, a relação entre empowerment e construção de capital social vejo como pertencente à dimensão da Cultura.

Sobre o seu ponto 2., "Ela tem uma visão ingênua do tema, que vai se refletir nas soluções que julga ter encontrado, sobretudo naquela já apontada acima pela Jaqueline: a de que o sistema vai funcionar melhor se cada agente der o melhor de si para si". Não sei se não fui clara ou você não entendeu bem: eu não reafirmei o que ela teria julgado como solução, de que "o sistema vai funcionar melhor se a gente der o melhor de si para si". O contrário, embora ela tenha afirmado isso, apontei um certo ruido que esse tipo de percepção causou, pelo menos pra mim. Usei o exemplo das pessoas da floresta [no bebate com o Jorge Bodansky no Festival Tudo é Verdade] se auto-organizando porque quis justamente destacar que as pessoas estavam simplesmente precisando integrar seus projetos individuais ao coletivo, autonomamente e com objetivos coletivos, e ao fazer isso estavam recriando suas identidades. "Que é no fundo, para mim, uma coisa da mesma natureza, em diferentes graus, que fazemos em qualquer rede".

Por fim, acho que uma das coisas que mais gosto no post da Vanessa Miemis é sua 'intuição', que veio junto com a certa 'inocência' [o que talvez você refere como a ingenuidade pela falta de experiencia ou sensibilidade politica] e também gosto do que reconheço nos insights que ela tem como 'fé na vida'. Essas tres qualidades me foram enviadas por email como sendo atribuidas a Gurdjieff, ao referir ás "nossas tres grandes amigas" na vida.

Sobre seu questionamento de que eu uso [assim como outros] a ferramenta de aprovação dos comentarios, vou pensar. Antes de mais nada penso que nessa rede publicamos até nosso telefone e endereço quando é o caso - pelo menos alguns de nós. Mas não sei bem das poossibilidades de invasão no Ning e no ano passado no meu blog fui chanteageada, com comentarios caluniadores, numa época em que eu estava resistindo a uma determinada pressão. Mas publico todos os comentarios.

Last, but not least,... sobre seu comentário sobre melhorarmos as questões de estilo da tradução. Super concordo! Quando disponibilizei a minha revisão, avisava: "Dei uma boa olhada mas sempre há campo para melhorar;- então, os demais tradutores e eventuais colaboradores, fiquem à vontade para propor mudanças!"
Um abraço,
Comentário de Augusto de Franco em 22 abril 2010 às 14:29
Penso que as plataformas interativas ultrapassaram em muito as possibilidades comunicativas dos sites e blogs proprietários (até porque qualquer um pode ter nelas o seu próprio blog e divulgar tal endereço). O problema é, a meu ver, a cultura do cada um no seu quadrado. Não é uma questão de entendimento (no sentido de compreender as possibilidades) mas é uma questão de entendimento (no sentido mais profundo de que o que publicamos faz sentido quando estamos conectados). Muitas pessoas que usam seus sites e blogs para broadcasting não querem abrir mão deles porquanto não querem compartilhar, difundir em rede, mas afirmar e reafirmar uma marca proprietária, em que tenham total e absoluto controle sobre a ferramenta de publicação (foi o que chamei do "reizinho com seu bloguinho") - e tanto é assim que boa parte (a maior parte, na verdade) dos blogueiros mais famosos ativam a mediação de comentários (só deixando passar o que lhes parece conveniente). Tem a turma que quer falar para milhões (ou, mesmo que fale apenas para centenas, querem ter a pretensão - ou a impressão tão ilusória quanto emocionalmente compensatória - de que vão acabar falando para milhões). É claro que se pode perceber aqui traços daquela sociopatia que conhecemos sob o nome de fama (ou da sua busca compulsiva). Então esse pessoal não entra em plataformas interativas (e se entra raramente interage). Eles não querem se misturar ao vulgo, acham que vão ficar expostos aos "paparazzi" do relacionamento... Sei que esse juízo pode ser visto como rigoroso em demasia, mas estou convencido de que é assim.
Comentário de Edna Costa em 22 abril 2010 às 13:15
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olá Augusto,

Queria entender uma afirmação no item 5: "Hoje qualquer um pode, com vantagem, alimentar uma página pessoal em uma plataforma interativa de rede."
A questão é porque então nós, que estamos aqui na ER, uma plataforma interativa de rede, ainda alimentamos e divulgamos nossos blogs? É o reflexo do não entendimento?
obrigada :)

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Comentário de Gracio Antonio dos Reis em 22 abril 2010 às 10:46
Olá Augusto, caso tenha tempo e disposição fale- um pouco mais sobre o fluxo do empoderar, rede x individuo considerando " O positive deviant" ou seja aquele que escapa do rebanho e estabelece um caminho novo. Obrigado.

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