Escola de Redes

RESISTA À TENTAÇÃO DE PERTENCER A UM GRUPO

Sobre as dificuldades de se atirar na correnteza quando é tão mais fácil construir diques e ficar boiando na tranqüilidade da represa

As reflexões expostas a seguir são sobre redes sociais voluntariamente articuladas. Mais precisamente sobre a interação entre pessoas em prol de objetivos comuns fora de organizações hierárquicas ou do que chamo de grupos proprietários. Venho ruminando-as há algum tempo. A primeira versão dessas idéias publiquei-a, ainda no início de 2009, no texto Cada um no seu quadrado.

Na mesma época expressei mais ou menos assim uma convicção que estava se formando:

"- Não faça patotas, não construa igrejinhas".

O mundo girou, a luzitana rodou, e tal convicção somente amadureceu. Então vou publicá-la antes que apodreça (sim, conhecimento guardado costuma estragar).

Em geral as pessoas estão acostumadas a interagir em espaços proprietários (fechados), não em redes (abertas). Não estão abertas à interação com o que chamei de outro-imprevisível. Por isso fazem escolas, erigem igrejas, urdem corporações e partidos e servem à instituições hierárquicas (sejam sociais, estatais ou empresariais). E, às vezes, seu quadradinho é um espaço proprietário virtual, um blog ou uma página no Facebook.

Mesmo quando se aventuram a fazer redes, as pessoas, em geral, organizam grupos proprietários, estabelecem contextos que separam quem está dentro de quem está fora, criam sulcos que acabam disciplinando a interação por meio de regras (muitas vezes tácitas, mas não por isso menos efetivas), de um glossário próprio (pelo qual ressignificam os termos que usam recorrentemente gerando algum tipo de jargão) não importando para nada se esta "wikipedia" (ou "contextopedia") privada está ou não publicada em um site aberto ou fechado; enfim, fazem tudo para promover o seu grupo – às vezes chamado de comunidade – à condição de instância mais estratégica do que as demais (os outros ambientes em que interagem, inclusive as midias sociais onde se registram). Este é um dos motivos pelos quais sua interação nesses outros ambientes é, em geral, tão pouco intensa ou tão pouco freqüente. Pudera! Seu tempo está tomado pelo seu próprio grupo (seja uma organização da sociedade formal ou informal, seja um órgão estatal, seja uma empresa).

E o mais interessante é que, muitas vezes, essas pessoas estão convencidas intelectualmente de que devem se organizar em rede. Não raro denominam de redes suas organizações hierárquicas ou seus grupos proprietários. Não estão – em sua maioria – mentindo ou fazendo propaganda enganosa. Elas acreditam mesmo que suas organizações sejam redes, desde que seus membros estejam convencidos (ou “tenham consciência”) de que agora entramos na era das redes (por algum motivo elas acham que consciência é algo capaz de determinar comportamentos coletivos).

Chega a ser fascinante observar como essas pessoas não conseguem viver fora do seu quadrado. E como racionalizam tal aprisionamento lançando mão das mais variadas teorias sociológicas sobre grupos (a sociologia vem aqui, não raro, como um socorro contra a política, como uma proteção contra a experiência direta de uma política não-autocrática). Ah! é difícil, como é difícil se atirar na correnteza quando é tão mais fácil construir diques e ficar boiando na tranqüilidade da represa!

 

 

Pois bem. Tudo isso - que já foi dito e repisado, por mim e por outros, nos últimos dois anos - me leva agora a refletir sobre o seguinte: se quiserem realmente tecer redes as pessoas não devem se agregar a outras pessoas em grupos proprietários, comunidades exclusivas, inner circles, bunkers para se proteger do mundo exterior ou outras formas de organização constituídas na base do “cada um no seu quadrado”. Sim, pode parecer surpreendentemente contraditório, à primeira vista, dizer o que vou dizer agora:

- Se você quer fazer redes, resista a tentação de pertencer a um grupo.

Se você se deixa capturar por um grupo ou se põe a capturar outras pessoas para um grupo (que seja considerado - ou funcione como, dá no mesmo - o seu grupo), então você terá imensas dificuldades de interagir em rede de modo mais distribuído do que centralizado. Se você quer, porque acha que precisa, porque sente, às vezes desesperadamente, a vontade de se juntar a outras pessoas para executar algum projeto coletivo, compartilhar com elas suas idéias, seus sonhos (e também suas ansiedades), somar esforços, apoiar e receber apoio praticando a ajuda-mútua dentro de um campo de cumplicidade, enfim, constituir um grupo e coesioná-lo a partir de uma visão comum, de um “falar a mesma língua”, de uma sintonia fina de sentimentos e emoções, então se prepare para fazer o mais difícil: matar essa vontade!

Simplesmente mate essa vontade. Se preciso, vá para o deserto e passe um tempo lá. Se você já está conectado a outras pessoas, por que diabos quer também forçar uma clusterização que selecionará a priori  algumas conexões como mais fortes do que outras, alguns caminhos como mais válidos do que outros, alguns planos feitos intra muros (quer dizer, dentro daquele clusterzinho que foi urdido antes da interação) como mais estratégicos do que outros?

Não há qualquer problema em se reunir com muitos grupos para propósitos diversos, públicos ou privados, interagir em vários aglomerados, atuar coletivamente em várias instâncias. O problema só surge quando você faz tudo isso não a partir de você mesmo, mas sempre a partir de um grupo que encara os demais ambientes coletivos como campo de atuação (e uma atuação inevitavelmente tática, mesmo quando você proteste o contrário) desse grupo.

Trabalhar em rede distribuída é diferente de trabalhar num grupo proprietário, numa organização nuclear que compartilha uma visão comum e exige essa visão comum para continuar interagindo. Na verdade, o problema está na construção de mundos baseados na participação.

Portanto, se você quer experimentar redes (mais distribuídas do que centralizadas), nada de grupo participativo, nada de chegar a algum formato com base em participação. Redes não são ambientes de participação e sim de interação. Não temos que decidir o que todos farão em bloco. Vamos interagir e ver o que acontece. O formato final de qualquer ação coletiva será sempre uma combinação fractal, emergente, de certo modo inédita e imprevisível, das contribuições de cada um.

Em outras palavras, se você quer fazer redes não pode esquecer jamais uma coisa: você é uma pessoa. Paulo Brabo (2007), em um texto que não me canso de citar, escreveu assim:

A primeira coisa a fazer, se você ainda não fez, é desiludir-se por completo de todas as iniciativas comunitárias ou governamentais, por mais bem intencionadas que sejam, e raramente são. Esqueça, meu caro discípulo, o coletivo. A salvação não virá de ongs ou ogs, Gogues ou Magogues, poderes ou potestades. A salvação não virá de igrejas, assembléias, organizações de bairro, sindicatos, asilos, orfanatos ou campanhas de assistência. As ongs têm a tremenda virtude de não serem governamentais, mas contam com a imperdoável falha de serem organizações. Repita comigo: as instituições não existem. Só existem pessoas”.

É claro que é necessário entender o contexto confessional (ou teologal) em que Brabo escreveu sua bela homilia herética e fixar-se nas suas mensagens centrais: desiluda-se por completo das iniciativas comunitárias, esqueca o coletivo, reconheça a imperdoável falha das organizações (aquela que deriva do fato de serem organizações) e convença-se de que as instituições não existem: só existem pessoas.

Fale como uma pessoa. Seja uma pessoa. Não aja como se fosse um grupo, um projeto, uma organização (nem mesmo tuite como se fosse uma coletividade abstrata). Uma pessoa jurídica é uma pessoa imaginária (ou seja, uma não-pessoa). A vida gastou 3,9 bilhões de anos e as coletividades humanas formadas pela convivência gastaram uns 300 mil anos para constituirem essa tão surpreendente quanto improvável realidade que somos (o humano, a pessoa: o encontro fortuito do simbionte natural em evolução com o simbionte social em prefiguração) e na hora em que vamos nos apresentar a alguém, sobretudo a alguma coletividade, temos vergonha de dizer que somos “apenas” uma pessoa e preferimos declarar que estamos representando alguma dessas organizações vagabundas que, em média, não conseguem sobreviver mais do que poucos anos e que, além de tudo, são não-humanas, quando não desumanas.

Mas... atenção! Pessoa não é o mesmo que a abstração chamada indivíduo. Redes sociais não são redes de indivíduos e sim de pessoas. O conjunto dos pensionistas do previdência social não constitui uma rede social, assim como não constitui uma rede social a população de um país. O social, como sempre dizemos, não é a coleção dos indivíduos e sim as configurações móveis geradas a partir do que ocorre entre eles (que, então, deixam de ser indivíduos para passar a ser pessoas). Quando interagimos, tornamos-nos pessoas. Assim, pessoa já é rede.

Se você não tem liberdade para interagir nos seus próprios termos, como uma pessoa, se você diz: “vou consultar primeiro meu chefe ou meus companheiros” antes de decidir sobre isso ou aquilo, então sua porção-borg cresce e sua porção-social diminui. Em outras palavras, sua porção-rebanho cresce e sua porção-pessoa diminui. Em outras palavras, ainda: você perde um pouco daquela qualidade da alma que chamamos de humanidade.

Se você se define como participante de qualquer grupo, quer dizer, restringe suas possibilidades de interagir para se enquadrar nos termos já estabelecidos por outrem (ou, até, por você mesmo, porém antes da interação), então você terá muitas dificuldades de entender, experimentar e atuar em rede (distribuída).

Toda realização em rede distribuída é um projeto que vai se construindo à medida que avança, que vai se formando ao sabor de fluzz, que vai gerando ordem a partir – e no ritmo – da interação. Em tal contexto é desnecessário, a rigor, combinar antes o script. É inútil – e frequentemente contraproducente – mobilizar energia para direcionar um grupo.

Se você quer fazer redes, nada de formar uma comunidade que vá além do seu propósito específico e declarado (como se fosse um comunidade de destino). Não existe ‘a’ comunidade: existem múltiplas, diversas, comunidades. Se você acha que existe aquela comunidade que é ‘a’ comunidade (porque é “a sua”, a escolhida, a predestinável), é sinal de que você se deixou aprisionar por um grupo (às vezes uma prisão que você mesmo engendrou). E aí não vão tardar a surgir aquelas manifestações horríveis de pertencimento exclusivo, de fidelidade... Mesmo que você aceite o direto de uma pessoa de abandonar uma comunidade, isso não basta. É necessário aceitar o direito de uma pessoa de pertencer a várias comunidades ao mesmo tempo! Ou seja, é necessário desconstituir a cultura (ou quebrar a linha de transmissão de comportamento) do “cada um no seu quadrado”.

Você já notou que este direito não é reconhecido nas organizações hierárquicas, mesmo nas privadas, como os partidos e as empresas? Nas empresas esse direito só existe para os donos ou acionistas. Quando lhe pagam um salário, é como se dissessem: “comprei você e agora você é meu; nada de transar fora do meu quadrado”.

Se você quer fazer redes, nada de alinhar visões. Na maioria das organizações burocráticas, sejam sociais, empresariais ou governamentais, o tempo das pessoas é gasto em reuniões para alinhamento (ou seja, agrupamentos forçados para discutir como realizar melhor as diretivas estabelecidas por cima ou por fora da sua interação). Mal saem de uma reunião os “colaboradores” (um eufemismo empresarial para empregados, quer dizer, subordinados) já entram em outra reunião. E assim passam o dia: entre o computador, o banheiro, o café e as indefectíveis reuniões. Revela-se óbvio o motivo de tais reuniões: são ambientes de direcionamento voltados à reprodução de comportamentos, são campos de adestramento, são artifícios para proteger as pessoas da experiência de empreender, de criar, de inovar.

Se você quer fazer redes, nada de virar escola, nem mesmo escola de pensamento. As comunidades ditas de livre adesão, em sua maioria, são algum tipo de escola de pensamento, ou de igreja, ou de corporação, ou de partido, ou de alguma coisa que exija que você adote e professe uma visão coletivamente construída para pertencer ao grupo e poder falar em seu nome. Mas se você quer fazer redes, nada de criar coesões que separem os de dentro dos de fora.

Estar em rede é sempre uma aposta: a aposta de que da nossa interação desorganizada vai surgir algo interessante, não antes, no ensaio (“a vida é beta”, como diz o Silvio Meira), mas sobretudo ali, na hora exata em que ocorre, bottom up.

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Comentário de Augusto de Franco em 12 abril 2011 às 6:00

Não é fácil mesmo aceitar o fluxo, Guilherme. São seis mil anos de inseminação de uma metafísica como esta que você expõe abaixo. Tenho para mim - seguindo as especulações do matemático Ralph Abraham - que isso começou em uma calma tarde sábado, em algum momento da pré-história sumeriana. 

E tão influente foi essa metafísica que até hoje, seis mil anos depois, ainda continuamos ignorando as descobertas científicas ou mentindo em nome da ciência.

Vamos ver.

Centralidade. Não há qualquer evidência de que todo sistema tenha um centro. Em termos topológicos, nenhum sistema distribuído tem centro. Qual é o centro da vida (a capa biosférica que envolve o planeta Terra)? Qual é o chefe do cérebro? Quem é o comandante de um bando de pássaros que voam em formação delta (seguindo sua metafísica diríamos que é aquele que está no vértice, conquanto a ciência já tenha desmascarado isso: não existe aquele, eles se revezam e a formação visa apenas diminuir a resistência do ar ao deslocando do bando)? Existe mesmo uma rainha nas colmeias e nos formigueiros (ou isso foi apenas uma projeção dos nossos padrões societários: veja as descobertas de Deborah Gordon)?

Familiaridade. Tudo que interage tende a clusterizar, mas isso nada tem a ver com afinidade (tal como usamos este conceito em nossa sociedade). Não ocorre por efeito de alguma imanência, como supõem os esquemas míticos de interpretação do mundo. A própria origem da palavra 'familiaridade' é reveladora da tentativa de transposição não-hermenêutica de padrões da sociedade hierárquica para outras esferas da realidade.

Individuação. Não é bem que toda parte de qualquer sistema queira ser única. Na maioria dos casos elas não podem "querer" nada (posto que não têm vontade, suas características intrínsecas não podem explicar o comportamento dos emaranhados onde existem como tais). Nossas observações - da cibernética à matemática do caos e dos sistemas complexos - revelam outros padrões que remetem a conceitos como holon e fractal.

Um conjunto de pessoas em interação constitui, sim, sempre, um tecido. Mas isso não é a mesma coisa que patota, igreja, grupo proprietário. Os exemplos que você cita refutam suas premissas. O fígado, como parte de um organismo, tem um padrão de rede. Toda a vida - organismos, partes de organismos e ecossistemas - se organiza em rede (como disse nossa querida bióloga Lynn Margulis, "a vida não se apossa do globo pelo combate e sim pela formação de redes" e vale a pena ler aqui na E-R o post A vida como rede fractal de seres interdependentes). Tudo que é sustentável tem o padrão de rede.

Por último, a hipótese do câncer como resultado de uma ignorância das células hepáticas que, como você aventa, "não sabem trabalhar de maneira harmoniosa". Que coisa, heim Guilherme? Este é exatamente o mesmo schema mítico da queda dos anjos. Tudo estava planejado pelo grande arquiteto para ser justo e perfeito... mas aí houve a queda. Alguns seres da hierarquia se corromperam e o mal foi introduzido no mundo. Veja que é o mesmo padrão de pensamento que urdiu a idéia do pecado original. Sobre isso tuitei outro dia que o problema não é a queda dos anjos e sim os anjos.

Ao entender fluzz - que foi a maneira que encontrei para falar do fluxo, quer dizer, da ordem que surge continuamente a partir da interação - entendemos que não existe uma ordem preexistente, que o universo se cria a medida que se desenvolve.

Para quem teve sua consciência colonizada por idéias feita para escravos (sim, é disso que se trata), é realmente muito duro descobrir que estar interligado a tudo é estar realmente só, como um viajante dos multiversos...

Comentário de Guilherme de Barros em 11 abril 2011 às 21:00

hmmmm...fica sempre minha dúvida se é possível construir algum sistema (rede) sem os padrões presentes em todos, TODOS os sistemas (redes) do universo conhecidos por nós:

Centralidade - todo sistema tem um centro visível ou não, tangível ou intangível;

Familiaridade - todos os sistemas se agrupam por afinidade formando sistemas menores (ao infinito) e maiores (ao infinito tb);

Individuação - toda parte de qualquer sistema quer ser única e um universo ou sistema por si só;

 

Pretender que um conjunto de pessoas possa exisitir sem constituir 'tecido' (igrejinha, patotinha, etc) é o mesmo que querer que haja um fígado sem células ou células (úteis) que não façam parte de um tecido qualquer. Tudo se encadeia no universo para servir e ser útil em um sistema sempre mais complexo que a parte. 

Agora, se as célualas de um fígado formam um câncer, esse problema não é do fígado como idéia original, e sim das células que não sabem trabalhar de maneira harmoniosa.

Comentário de Augusto de Franco em 11 abril 2011 às 20:45
Pois é, que bom que o post gerou bons comentários. O que pretendi dizer é simples e poderia talvez ser resumido naquela sentença inicial (de 2009): não faça patotas, não construa igrejinhas, articule redes. Não chame suas organizações hierárquicas ou seus grupos proprietários de redes (no sentido em que a palavra vem sendo entendida aqui, como redes mais distribuídas do que centralizadas).
Sei que é difícil. Queremos nos proteger do outro, do concorrente, daquele que julgamos como adversário ou inimigo porque divide ou disputa (ou pode vir a dividir ou disputar) conosco alguma posição. Passei anos e anos amargando e chafurdando mesmo em ambientes deletérios, alguns dos quais compostos por pessoas que hoje ocupam as mais destacadas posições no topo das hierarquias mais altas da República... Lembro bem que dizia, fazendo piada de humor um tanto sinistro, que o mais difícil era aguentar a vontade de ir ao banheiro por horas a fio (sim, as reuniões demoravam uma eternidade), pois que do contrário corria-se o risco de alguém (não um inimigo, mas um companheiro) sentar no seu lugar... Era isso: todos eram potencialmente inimigos, todos disputavam. É claro que num ambiente assim (e a maioria dos ambientes hierárquicos são assim, mesmo quando queiramos vestir o manto da humildade, da compaixão, do amor ao próximo, como fazem os cardeais no seu colégio) alguém só sobrevive entrando em uma patota. Mais ou menos como ocorre nas prisões.
Me revoltei contra isso muito antes de entender a possibilidade de organização em rede distribuída. Quando descobri as redes, vi que era possível, sim, interagir sem pertencer, se conectar sem professar, se associar sem obedecer e sem mandar, atuar junto sem se deixar arrebanhar. Desde, é claro, que se aceite a lógica da abundância.
Mas o fato é que, mesmo se não tivemos oportunidade de vivenciar essas manifestações de desumanidade em seu paroxismo, continuamos procurando proteção de um grupo para chamar de nosso (o que, no fundo, é uma proteção contra o mundo exterior). Não é nossa natureza gregária ou social, como se diz, que nos leva a isso e sim exatamente o contrário: são tendências anti-sociais (geradas por programas verticalizadores que rodam na rede social) que nos compelem a nos proteger do outro-imprevisível.
Parodiando nosso amigo José Pacheco (no que diz em relação à escola tradicional), hoje posso declarar que estou nisso (articulação e animação de redes) por vingança.
Comentário de Guaraciara de Lavor Lopes em 11 abril 2011 às 19:09

Primeiramente, adoro os textos do Augusto porque eles sacodem, mas confesso que precisei imprimir o texto para entender melhor. Pois é, sem o papel não consigo ser minimamente inteligente. Se eu entendi, a questão é o rabo balançar o cachorro. A instituição é o rabo e o cachorro perde a identidade se ficar cotó. É a velha historia, quando a gente se apresenta logo perguntam de onde, de qual família (sim, isto ainda é comum) e a titulação. Minha resposta é geográfica: - de Volta Redonda e não tenho titulação porque não pertenço à nobreza. Acredito que a necessidade do pertencimento vem da construção de nossa identidade. Como somos identificados pelo outro e assim nos estruturamos, precisamos de um grupo. Realmente o grupo é necessário, mas a interação não precisa do grupo. Pra mim a interação surge quando algo ou alguém desperta meu interesse, se vai acontecer alguma coisa ou não, não importa. Valeu porque de algum modo cresci. E seu entendi corretamente o Augusto, vou enlaçando e esparramando minha rede na maior parte do meu tempo. Se não entendi nem um cadiqui, por favor, providenciem tradução simultânea

 

 

Comentário de Augusto de Franco em 11 abril 2011 às 14:52
Acho que dentro da E=R, Clara, se formam comunidades. Aliás, era este o propósito desde o início: a escola-não-escola que é esta rede deveria almejar a formação de múltiplas comunidades a partir de agendas compartilhadas, lembra? Isso de fato tem ocorrido, aqui e ali.
O diabo é que as pessoas usam a palavra comunidade com vários sentidos. Há aquela grande comunidade (de que falava Althusius, que acabou se confundindo até com o conceito de nação), há a pequena comunidade vicinal de convivência de Dewey e, mais recentemente, qualquer grupo de aprendizagem, de prática ou de projeto é chamado também de comunidade (mesmo quando, claramente, é um grupo proprietário).
Não delinei regras propriamente para a Escola-de-Redes e sim para iniciar esta plataforma que utilizamos, que exige isso porque, como sabemos, é uma plataforma p-based e não i-based (mais baseada em participação do que em interação). Então "o criador" (hehe, é assim que chama ou chamava o Ning) obriga você a optar: aceita a adesão de qualquer um ou tem que pedir para entrar? (Conquanto depois, o próprio Ning Team nos aconselhou a modificar o que era totalmente aberto, para evitar os programas invasores); aceita comentários (em que lugar? - e aí vem uma lista imensa)?; qualquer membro de um grupo pode enviar comentários para os outros membros do grupo? etc. etc. A lista de opções de administração é realmente extensa.
É claro que numa plataforma p-based, que logo atingiu milhares de membros, não se pode - e não se deve - submeter tais decisões e outras (como as regras básicas de convivência sem as quais não sobreviveríamos, como, por exemplo, a proibição de fazer propaganda política ou de produtos e serviços comerciais) a nenhum tipo de consulta capaz de gerar artificialmente escassez. Se isso ocorresse teríamos que discutir antes, quais as condições, quem seria o colégio apto a se manifestar e cairíamos em um sem-número de armadilhas semelhantes. Parece que não haverá solução para isso enquanto não tivermos plataformas baseadas em interação. A participação, qualquer participação, obriga as pessoas a se conformarem em ambientes com regras já estabelecidas ex ante à interação (e disso não escapa este Ning da E=R).
Mas o que o texto queria explicitar é que se não falamos em nosso próprio nome, seja onde for, nos nossos próprios termos e sim em nome de um coletivo mais estratégico, quer dizer, como "representantes" do nosso quadrado (constituído ex ante à interação), então temos dificuldades imensas de interagir com o outro-imprevisível.
Comentário de Jaime Tak em 11 abril 2011 às 14:50
Concordo plenamente com:

"Toda realização em rede distribuída é um projeto que vai se construindo à medida que avança, que vai se formando ao sabor de fluzz, que vai gerando ordem a partir – e no ritmo – da interação. Em tal contexto é desnecessário, a rigor, combinar antes o script. É inútil – e frequentemente contraproducente – mobilizar energia para direcionar um grupo".

Estruturar e direcionar não adianta mesmo mas treinar como interagir e conhecer as ferramentas das redes é fundamental, como um arqueiro zen precisa estar aberto e preparado para o que acontecer.

Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 11 abril 2011 às 13:38

Interessante o texto! Só fico me perguntando o seguinte:

1. Somos seres sociais. Clusterização é fenômeno de rede. Parece-me que regras para clusterização, sobram! Esse "deve/não deve" ser assim me incomoda demais.

2. A ER é uma "comunidade" (ou esse termo não se aplica aqui?) de estudo de redes,  cujas regras foram delineadas por você, Augusto. Qual a diferença desta comunidade para outras? Pra mim não ficou claro!

Comentário de Jaime Tak em 11 abril 2011 às 11:53
'Se você quer fazer redes, resista a tentação de pertencer a um grupo'. Se vc entrar numa rede seja o mais aberto possível, não seja preconceituoso e não se ache o mais preparado de todos, entre para aprender e criar com os membros as condições e o conteúdo  da rede. Nas redes não estamos numa competição, estamos numa pessoalização e em uma customização que satisfaz a maioria.
Comentário de jose de assis silva em 11 abril 2011 às 11:41
Achei super bacana o texto de Augusto Franco.  Acredito que é um bom material para se trabalhar numa sala de aula onde adolescentes se gabam por terem e fazerem parte de uma comunidade de 2000 amigos. Disputam entre si quem tem mais amigos e se esquecem que na verdade, estão solitários e meio sem rumo, atirando para qualquer lado.
Comentário de Augusto de Franco em 11 abril 2011 às 11:12
Tarás e Ceila, talvez para entender o que pretendia dizer (ou aumentar ainda mais a confusão, o que não é ruim em princípio) seja preciso ler o textos linkados. Penso que se não entendermos a diferença entre interação e participação, o restante fica meio sem sentido. Então vou tornar a linkar aqui um texto que trata especificamente desta distinção:


Raulino, o bom da história é que não precisamos para nada ver o que fazer com esta patota aqui. Não é uma patota, como você já deve ter percebido. Abração também.

Daisy, gostei imensamente de sua imagem: "Lendo o texto é inevitável sentir um certo arrepio, típico de quem está prestes a se lançar num esporte radical, quando, por melhor que sejam os equipamentos, você percebe que está por sua conta e risco".

Boyle, concordo. As diferenças entre o que você disse e o texto são mais terminológicas do que conceituais. Um ser humano concreto é sempre uma unidade biológico-cultural, não um exemplar da espécie (biológica), nem somente uma particular configuração (cultural). Chamo de pessoa a esta unidade, que não é algo dado e sim em construção. Tornamo-nos pessoas à medida que interagimos com outros seres humanos. Daí que pessoa já é rede e o indivíduo, como tal, é uma abstração (não é um ser humano concreto, se for um exemplar da espécie é uma condição do humanizável, não uma consumação do humano).

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