Escola de Redes


Poderíamos muito bem passar sem este post. Afinal, sob certo aspecto, está indo tudo muito bem. Nossa Escola-de-Redes tem quase 2.200 pessoas conectadas (precisamente 2.189 no momento em que escrevo), das quais pelo menos 500 são humanas e estão comprovadamente vivas. No mundo dos sites de relacionamento e das chamadas "redes sociais" (digitais ou virtuais), esta é uma marca invejável: 23% ! Sim, 23%, quase 6 dias depois de enviada (134 horas), a mensagem POR FAVOR, DÊ UMA RESPOSTA A ESTA MENSAGEM, recebeu cerca de 500 retornos (entre comentários, mensagens de correio do Ning e e-mails).

A pergunta 'Vamos nos enganar?' acena outra pergunta: o "tamanho" real desta rede em construção é mais ou menos esse mesmo: 500 pessoas (já considerando os bumblebees e as butterflies) e não pouco mais de 2 mil?

À primeira vista parece que sim. Pois onde estarão as demais 1.600 pessoas?

Levantei, em um comentário de 19 de agosto, algumas alternativas possíveis:

=> Registraram e-mails que raramente (ou nunca) verificam?

=> Estão tão assoberbadas de trabalho que não dispõem nem dos 10 segundos necessários para digitar "OK" e enviar?

=> Estão viajando, acamadas ou impossibilitadas, por outros motivos contingentes, de ter acesso à internet ou de responder?

=> Viram as mensagens mas, por algum motivo, não quiseram ou não puderam abri-las?

=> As mensagens enviadas pela E=R estão sendo consideradas como span pelos seus programas de e-mail?

Bem, mas o fato é que a quarta parte cheia do nosso copo está "viva". Respondeu. Quem administra plataformas interativas extensas (com grande número de registrados) - e até mesmo quem faz pesquisas online - sabe que é difícil atingir esse patamar de respostas.

É claro que isso não altera a dinâmica do dia-a-dia que foi diagnosticada no post citado, que desencadeou a consulta referida aqui (reforçada por dois alertas gerais): aproximadamente 4% aparecem regularmente (pelo menos uma vez a cada trimestre) e cerca de 1% comparecem proativamente de modo recorrente.

Voltamos assim, mais uma vez, ao nosso misterioso 1%.

Almoçando ontem no Mercure Ibirapuera com a Maria Raquel (da FDC) e com o Luiz Algarra e o Ronaldo Richieri ("Papagaios" incluídos no 1% da E=R), surgiu - como um relâmpago, hehe - uma idéia neste ceu tão azul quanto abscôndito:

O 1% depende dos 99%...

Ou seja, o 1% não surge de si mesmo, não se constitui por razões intrínsecas ou por motivos endógenos, senão que emerge da multidão dos 99%.

Em rede, precisamos dos 2 mil para ter os 20 interagentes de "alta-freqüencia".

Em 7 de agosto já havia twittado isso em resposta a uma mensagem do Marcelo Estraviz - retwittada pelo Algarra e pelo Nilton Lessa - que lembrava aquela célebre sentença da antropóloga Margaret Mead: "Nunca duvide do poder de um pequeno grupo de pessoas de mudar o mundo" (que na sua forma original talvez seja assim: "Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas dedicadas é capaz de mudar o mundo: de fato, essas são as únicas pessoas que já conseguiram").

Escrevi na ocasião:

#E_R @nlessa @lalgarra @marceloestraviz Pois é, mas esse pequeno grupo é um cluster de uma rede: é aquele 1%! Desconetado nada é...

#E_R @nlessa @lalgarra @marceloestraviz Quero dizer com isso que para um grupo de 20 pessoas cumprir essa função temos que ter + 2 mil

Twittei, confesso, mas não tive o pleno entendimento, que só veio, como um insight, ontem, no almoço do hotel Mercure.

Mas se é assim, não estamos enganados. Precisamos mesmo dos 2 mil conectados e não apenas dos 500 que deram algum sinal de vida. Do contrário estaríamos reduzidos a 5 interagentes de "alta-freqüencia", por assim dizer (e, comprovadamente, somos bem mais do que 5 nesta condição). É isso mesmo? O que você acha?

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Comentário de Augusto de Franco em 27 agosto 2009 às 6:13
Hehe, caro Marcelo. Quero apenas investigar. Quando entrei no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos famosos idos de 1968, ganhei um livro de Eric Rogers - que já passei adiante, em 1994, para um jovem iniciante na ciência - chamado Physics for the Inquiring Mind: the methods, nature and philosophy of physical science". Livro grosso, capa dura e belíssimo, todo ilustrado a mão pelo autor. Mas pouco retive da leitura e do olhar as figuras, senão do título: inquirings minds. Foi o que me levou à ciência física, desde que minha inquiring mind foi despertada quando ganhei do meu pai, na feira do livro da Cinelândia, numa noite gelada (para o Rio de Janeiro) de junho de 1964, a obra de divulgação de Lincoln Barnett "O universo e o Dr. Einstein" . Trinta anos e poucos anos depois, foi o mesmo impulso - quase uma pulsão - que me levou à investigação das redes sociais.

Uma mente inquisitiva quer entender. Não quero convencer, quero entender. Sua resposta me ajuda a entender. E é por isso que estamos conversando.

Você acrescentou novamente uma observação importante que contribui para a explicação que busco e, creio, muitos de nós buscamos: "Não. Não eram redes. Nem sites de relacionamento ou assemelhados. Eram simplesmente sites. Ou seja, coisas".

A proliferação de sites e, sobretudo, de sites de relacionamento gerou uma relação com coisas. Como observou - ou deu a entender por meio de uma pergunta - o Ronaldo Richieri, no quarto comentário a este post, mesmo quando entram em um grupo, "as pessoas nas plataformas virtuais não se conectam à outras pessoas... mas à temas (?)".

Os sites de relacionamento colocaram no lugar da conexão a um grupo de pessoas, a relação de usuário com um serviço. A rigor, usuários de um serviço não formam comunidades. E quando alguém diz: "A minha comunidade no Orkut" está se referindo não a uma configuração particular e recorrente de interação entre pessoas mas a indivíduos que se agregaram em torno de um tema que foi proposto ou ao qual se aderiu. Ou seja, não há emergência de identidade coletiva, assim como não há entre os aposentados do INPS ou entre os bolsistas da Capes. A identidade não é construída por um processo intrínseco, mas por atribuição externa: aquele é o conjunto dos que se associaram ao fundo de pensão X ou dos que seguem Paulo Coelho no Twitter.

Isso ajuda a explicar, pelo menos em parte, por que 1.600 pessoas não deram sinal de vida. Sim, disse que não queria pensar que elas receberam as mensagens as se recusaram, por um ato deliberado, a responder. Neste debate, acho que avancei um pouco em meu entendimento. Descontando os que, por algum motivo técnico, não receberam o reiterado pedido, "porque não quiseram! Just it!", como disse o Marcelo. Mas por que não quiseram? Não quiseram não porque tenham deliberado racionalmente não-querer e sim porque não valorizaram emocionalmente o pedido. Elas se registraram num site, numa coisa, não estabeleceram relacionamentos com outras pessoas. (Não é bem a mesma coisa que ocorre quando convidamos amigos para uma festa e eles não aparecem).

Nem viram, tais pessoas, que não era necessário se registrar aqui para usufruir dos serviços compartilhados. Que podiam ler tudo, assistir todos os vídeos, baixar todos os textos da biblioteca sem qualquer necessidade de registro. o registro virou um ato banal nos serviços abertos ao público na Internet: é só mais um login e senha. Se o assunto me interessa, vou lá e faço login e senha e pronto. Viro um cadastrado. Ou um seguidor de alguém, mas esse alguém, muitas vezes, não é assumido como uma pessoa concreta e sim um nome - coisificado - e, assim, a transitividade da relação não é sequer cogitada.

É curioso - e irônico até - que as plataformas interativas tenham potencializado enormemente a nossa capacidade de netweaving e, ao mesmo tempo, tenham contribuído para esvaziar o sentido das relações humano-sociais sem as quais o próprio netweaving perde o sentido.

Bem, mas a questão que remanesce é a seguinte: será que, nesta vertente explicativa, os que se registram a coisas por afinidade a temas cumprem, em seu conjunto, a função daquele "ecossistema" que aventei (em comentário anterior), como ambiente sistêmico no qual "vivem" muitas comunidades, de sorte que essas comunidades são necessárias para o "ecossistema" existir como tal na mesma medida em que ele (o "ecossistema") é necessário para as comunidades subsistirem como tais?

A inquiring mind excita e a exploração continua.
Comentário de Marcelo Estraviz em 26 agosto 2009 às 21:07
Pois é. Sabe quando você manda um email pros teus 30 melhores amigos pra tua festa e manda mais um por via das dúvidas dois dias antes e no final aparecem uns 15? É a mesma coisa. O grau de importância que damos a algo é diferente pra cada um. Eu adoraria poder enviar um convite pros meus 12 melhores amigos virem jantar comigo, mas aprendi na pele que não é assim. Pois eles não tem noção o quanto são importantes pra mim. Provavelmente eu sou bem menos importante pra vários deles. Por isso faço festas pra 300 amigos onde convido uns mil, e mando uns 10 emails de vários tipos e as vezes aparecem "só" 200. Por isso faço "truquinhos dizendo que reservei uma mesa para meus 10 amigos mas mando isso por cópia oculta pruns 30. Ou seja: É assim, just it.

Talvez em outros países as medidas sejam outras. Na Espanha por exemplo eu sei que se convidava 20 viriam uns 18. Talvez na Alemanha se eu convidar 20 venhasm 20. Eu sei que no Rio por exemplo (os cariocas aqui que me perdoem, mas eu vivencio isso) em geral marco umas 3 reuniões a cada ida pra lá e já aprendi que provavelmente 1 ou 2 serão desmarcadas horas ou minutos antes.

Sobre sua pergunta: "Foram redes em que o Marcelo entrou ou sites de relacionamento e assemelhados? " Eu já chamei de redes virtuais justamente pra não dar mais pano pra manga chamando-as de redes sociais. Mas estou percebendo onde queres chegar: Não. Não eram redes. Nem sites de relacionamento ou assemelhados. Eram simplesmente sites. Ou seja, coisas. Ou seja, grau de comprometimento zero. Mas como disse no parágrafo acima, mesmo no caso de não serem coisas, mesmo entre pessoas, temos um nivel de compromisso bastante baixo. Variações mil, mas uma média baixa. Um cara pode ter se inscrito aqui e é uma nulidade. Mas no ning do time do Olaria é um astro de opiniões e comentários.

Mas volto ao começo: porque isso tudo te intriga? Queres descobrir a fórmula mágica da comunicação universal? Queres expandir o conceito mosqueteiro de "um por todos e todos por um" ad infinitun?
:)
Comentário de Augusto de Franco em 26 agosto 2009 às 20:51
Aha! Vou dizer em outro post porque isso me intriga. Talvez Marcelo tenha dado a resposta, não quando aventou as hipóteses que já haviam sido levantadas aqui (não recebe, spam etc.) e sim quando disse "Eu entrei em várias redes virtuais e muitas eu não respondo, mesmo quando me pedem que participem etc." Foram redes em que o Marcelo entrou ou sites de relacionamento e assemelhados? A pergunta pode parecer ociosa a esta altura, mas... a explicação provavelmente está aí.
Comentário de Maria Thereza do Amaral em 26 agosto 2009 às 19:29
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Engraçado.
A pulga atrás da minha orelha fez a mesma pergunta que o Marcelo: "mas o que me intriga não é isso e sim por que isso te intriga? "
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Comentário de Marcelo Estraviz em 26 agosto 2009 às 19:21
Augusto, fico surpreso que você se surpreenda com isso... Elas não deram sinal de vida porque não querem!! Just it!!! Várias não receberam mensagens mas tem também várias que receberam e nem ligaram. Tem outras onde as mensagens vão parar num filtro de spam, outras que vão parar num filtro que encaminha pra um grupo chamado "ler depois" e provavelmente não será lido nunca. mas porque essa sua surpresa? Eu entrei em várias redes virtuais e muitas eu não respondo, mesmo quando me pedem que participe. Eu leio, ou nem leio, ou nem me chega. mas o que me intriga não é isso e sim por que isso te intriga?
Comentário de Augusto de Franco em 26 agosto 2009 às 17:22
Considerando tudo o que foi dito aqui nesta interassante conversação, permanece a dúvida. Está certo que existem pessoas que mantêm silêncio e cujo silêncio e fundamental e blá-blá-blá. Está certo que a dinâmica de uma rede virtual não pode ser compreendida pelos parâmetros nem submetida às métricas dos grupos humanos tradicionais, presenciais etc. Parece certo que o 1% depende (é função) dos 99%. Tudo ótimo, tudo muito bacana e estimulante e novo e supreendente.

Mas permanece a dúvida: onde estão 1.600 pessoas que, desde o dia - o domingo retrasado, dia 16 de agosto - que enviamos o pedido de um "OK", até hoje, pedido reiterado duas vezes (já lá se vão quase duas semanas), não deram qualquer sinal de vida?

Fica difícil acreditar que essas pessoas não tiveram 10 segundos para digitar O+K e enviar. Como não foram abduzidas a única hipótese plausível é que não receberam as mensagens (nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira). Não quero pensar que elas receberam mas se recusaram, por um ato deliberado, a responder. Isso pode ter acontecido em muitos casos, mas não - imagino - nessa proporção.

Veja-se que não estou cobrando participação, presença, proatividade. A maioria das quinhentas e tantas (arrendondando com dados atualizados, praticamente 600 pessoas) que responderam, também não são tão proativas assim e tudo bem, pelas razões que já comentamos aqui e no post Por favor, dê uma resposta a esta mensagem. Não é isso, portanto, que estamos discutindo. Não tem nada a ver com bumblebees e butterflies. Não tem nada a ver com quase nada do que aventamos para explicar as proporções de proatividade, de reatividade ou de passividade.

É compreensível que existam 1.600 pessoas que tiveram o trabalho de se conectar aqui e nunca mais voltaram porque não recebem as mensagens. Mas se existem 1.600 pessoas que se registraram aqui mas não recebem as mensagens enviadas pela plataforma (ou porque registraram e-mails que nunca verificam ou porque tiveram o trabalho de modificar o default - de vez que, se não fizessem isso, continuariam recebendo os avisos, alertas e compartilhamentos enviados pela plataforma), temos em mãos um bom tema para investigação, não?

Levantei algumas hipóteses explicativas. Ronaldo já ajudou a levantar outras. Mas nada do que foi levantado parece suficientemente convincente. Para mim, o fenômeno permanece inexplicado. Quem gostaria de ajudar a explicar?
Comentário de Augusto de Franco em 26 agosto 2009 às 14:05
E talvez baste aprendizado.
Comentário de Maria Thereza do Amaral em 26 agosto 2009 às 12:14
.
Talvez os netweavers sejam fractais diferenciados, com capacidade de se auto-programarem, com capacidade de aprendizado e ensino.
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Comentário de Carlos Boyle em 26 agosto 2009 às 10:47
Cada vez me gusta mas, en realidad es un fractal compuesto por comunidades que se van ensamblando unas con otras que dan emergencias cada vez mayores
Comentário de Augusto de Franco em 26 agosto 2009 às 10:25
Acho que sim, Maria Thereza. É o papel dos netweavers (os novos políticos, stricto sensu, no sentido grego, original, democrático, do termo, da sociedade-em-rede). Mas penso que não são propriamente as pessoas que passam pelas "membranas" e sim as pessoas que percebem os fluxos que as atravessam e as sinergias que produzem.

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