Escola de Redes

Estou reeditando este post em 29 de setembro de 2009. A parte acrescentada segue abaixo da parte original.

Parte original

Sérgio Storch abriu no último 9 de julho um fórum intitulado Questões éticas relacionadas a negócios em nossa rede.

Seu texto inaugural abrindo a discussão foi o seguinte:

Caros

Ética não é uma coisa absoluta, e sim uma construção social.

Não sei se vejo fantasmas, mas creio haver algumas questões éticas que podem nos constranger ao falarmos de negócios, especialmente numa escola, e especialmente na Escola de Redes, onde há tanta ênfase às trocas não monetizadas.

Se alguém mais sente esse tipo de constrangimento, creio ser legal trazermos essas discussões para este fórum, para facilitar o confronto de visões alternativas, e para ficarmos à vontade (ou não) nas discussões de negócios nos tópicos específicos.

Um abraço

Sérgio Storch

O que vcs acham?

- devemos gerar negócios a partir de nossa rede?

- devemos desenvolver produtos que possam ser comercializados?

- como devem ser respeitados e valorizados os direitos de autoria? ou não, a autoria é sempre coletiva?

- como devem ser reconhecidas as participações na criação intelectual ou no netweaving?

Cada um desses temas poderá continuar aqui, ou dar origem a um novo tópico.

Mas vamos fazer aqui uma primeira rodada?

Eu pediria também a orientação do Augusto, que estabeleceu princípios para a Escola de Redes, e que deve ter bastante quilometragem nesse tipo de discussão.

Pois bem. Aí ocorreram as seguintes intervenções:

Augusto de Franco | O Sergio me convidou para opinar sobre esse assunto. Entrei no grupo para poder fazê-lo. Vou direto às questões práticas, colocadas pelas perguntas acima:

Penso o seguinte: em qualquer circunstância a Escola-de-Redes deve ser favorável ao Domínio Público. Nada de patentes, propriedade intelectual (e, nem mesmo, o arremedo meio-caminho chamado de Creative Commons). Minha posição sobre isso é a que está em um texto já pendurado aqui em nossa biblioteca: UGARTE, David & EEEE (2008): Das primeiras patentes ao movimento pela devolução: ascensão e queda do conceito de propriedade intelectual (Tradução de Luiz de Campos Jr.).

Bem, mas o Domínio Público assegura o direito moral do autor ou autores. Assim, como sugeri no grupo Transição Organizacional, creio que devem ser considerados autores os que trabalharem no desenvolvimento de qualquer projeto ou produto (seja um artigo, um livro, um programa, uma metodologia, uma tecnologia etc.).

Uma vez desenvolvido coletivamente um projeto ou produto, ele será de Domínio Público. Isso significa que qualquer pessoa poderá aplicá-lo em qualquer organização, seja por meio de trabalho voluntário ou remunerado, desde que seja preservado o direito moral dos seus autores e - no caso do projeto ou produto ter sido desenvolvido aqui - da Escola-de-Redes.

Gerar negócios a partir da Escola-de-Redes me parece ótimo. Criar produtos que possam ser comercializados também. Em que condições? Quem participou da produção, deve ter seu direito moral de autoria reconhecido e proclamado. Mas não pode privatizar o produto. E quem trabalhar na sua implantação - ou aplicação comercial desse produto - pode receber por seu trabalho, se quiser. Pode vendê-lo, alugá-lo, emprestá-lo, doá-lo, modificá-lo, customizá-lo. Mas não pode impedir que outros também o façam.

Sérgio Storch | Legal, Augusto, muito obrigado pelas reflexões. São parâmetros bem sólidos para irmos adiante.

Confesso que ainda preciso assimilar melhor a premissa Domínio Público, pois ainda sou daqueles que acreditam que não haja almoço grátis... A lógica da abundância me seduz mas para ela me convencer ainda tem tempo...

Mas os conceitos estão bem claros, e era isso que estava faltando para encararmos de frente a questão de negócios na rede.

Um abraço

Sérgio

Augusto de Franco | Hehe, o almoço não precisa ser grátis, Sérgio. Se você vai prepará-lo, pode cobrar por ele. O que não pode é impedir os outros cozinheiros de fazerem o mesmo...


Sérgio Storch
| Ô Augusto, impedir o outro cozinheiro não, mas tenho que dar pra ele, de graça, a receita que minha avó me ensinou, e que faz o sucesso de meu restaurante? Pra ele me tirar a clientela se instalando na esquina?

Acho que há um "missing link" nessa aplicação da lógica da abundância, que é a desconsideração do valor dos intangíveis na geração de valor.

Concordo com a tese como princípio ético e voluntário na Escola de Redes, mas é ético e não econômico. Ainda. Até que a peer production vingue em muitos outros setores além daqueles onde ela hoje é reconhecida. Algumas décadas pela frente. Enquanto isso, a peer production do Benkler é um modelo belo mas que se sustenta sobre hipóteses heróicas sobre um outro homo economicus.

A lógica de que, ao abrir o conhecimento, ele pode crescer e se fortalecer, não se aplica a todas as situações. Até que, como profetizou Isaías, o lobo deite ao lado do cordeiro... Tem chão...

Augusto de Franco | Não acho que a questão aqui seja ética, caro Sérgio. Nem estritamente econômica, mas social mesmo (a economia, como sabemos, não vem de Marte, mas é um dos pontos de vista explicativos para fenômenos que ocorrem na sociedade, quer dizer, na rede social). O homo economicus é uma abstração reducionista. O que existe mesmo é o homo sapiens (ou sapiens-sapiens), que só pode se constituir como tal na relação e, inclusive, na troca.

A aplicação, o esforço, o trabalho, deve ser remunerado, mas não o conhecimento. Ninguém, a rigor, é dono do conhecimento que é sempre resultante de um processo coletivo. Alguma coisa rodou naquela nuvem que chamamos de mente (e que não está restrita ao nosso cérebro).

Sua avó lhe cobrou pela receita? Não? Então por que você não pode fazer o mesmo? Ah! Ela deu então para o próprio neto mas não daria para o neto de outra avó? Por que? Porque a estrutura familiar, no caso, privatizou o capital social. Vou dizer a você que isso gerou improdutividade, diminuiu a intensidade do fluxo econômico. E que, como conseqüencia, muitos perderam enquanto todos poderiam ganhar.

Sim, isso é pura sócio-economia, Sérgio, economia do capital social. Nossa produtividade aumentaria muito se o capital social - que é uma espécie de recurso sistêmico que enseja a geração dos outros capitais (para continuar com a metáfora, além dos capitais propriamente ditos, como o físico e o financeiro, aqueles outros que são considerados externalidades pelos economistas: como o capital natural, o capital humano e o social) - não fosse privatizado. Quero dizer com isso que aumentaria a geração de valor... para todos!

Não parece ser verdade que a peer production seja uma coisa para um futuro longínquo. Temos hoje milhares de produtos (bens intangíveis e, inclusive tangíveis) sendo produzidos assim. Não preciso insistir no exemplo sempre citado do Linux. Posso lembrar a você toda a produção científica: retrocederíamos à idade da pedra sem a peer production.

Bem, você dirá, mas o mundo não é (ainda todo) assim. É claro que não é. Se fosse, este nosso debate nem teria começado. E não seria necessário fazer escolas de redes e tantas outras coisas. Mas a tendência aponta nessa direção. Na medida em que a privatização do conhecimento vai se tornando, cada vez mais, impossível, vão perdendo sentido os esquemas que visam o seu aprisionamento.

A empresa tradicional se baseava nessa capacidade de aprisionar o conhecimento, deter o segredo, guardar a fórmula a sete chaves. Só que nós - os hackers - estamos encontrando "O Chaveiro" (aquele programa do filme The Matrix interpretado por Randall Duk Kim, lembra?). E nenhuma empresa conseguirá, sozinha, se manter na ponta da inovação (sem o que verá suas chances de futuro se reduzirem ou não será sustentável) sem lançar suas "hifas" para importar capital humano (conhecimento) e social (relações) do ambiente onde existe. Duzentos cérebros aprisionados trabalhando para um dono não podem competir com vinte mil cooperando para encontrar uma solução (de gestão, processo ou produto). Veja que estou falando disso que chamam de 'economia', mas sem manter uma posição genuflexória em relação ao princípios ideológicos proclamados pelos novos sacerdotes da modernidade (os economistas). Um desses princípios, muito conveniente para os privatizadores de conhecimento (como Gates) é aquele que reza que o principal incentivo para a inovação é o interesse material egotista (toda economia ortodoxa, como você sabe, se baseia na idéia de que o comportamento da sociedade pode ser explicado a partir do comportamento dos indivíduos, que os indivíduos se comportam fazendo escolhas racionais a fim de maximizar a obtenção dos seus interesses e que esses interesses são sempre, ao fim e ao cabo, egotistas. Isso é alguma coisa parecida com religião, mas aqui não é o lugar de tratar mais exaustivamente da questão).

Bem, mas então o Sr. Gates diz isso. E a realidade mostra que o mundo não funciona (mais) assim (se é que alguma vez funcionou). Os grandes inovadores da humanidade - em sua maioria - nunca agiram assim. Descobriram coisas porque deram curso àquela surpreendente capacidade humana de se maravilhar com o desconhecido e de caminhar na escuridão em direção à luz. E polinizaram com suas descobertas outras descobertas. Toda inovação surge dessarte, por polinização mútua, por fertilização cruzada. Ora, isso não acontece nos marcos do jogo comercial de interesses e nem poderá acontecer, no volume exigido pelo ritmo alucinante das inovações contemporâneas, apenas dentro de uma unidade fechada de aprisionamento de corpos e de cérebros (como a empresa como unidade administrativo-produtivo isolada). Isso ocorrerá, cada vez mais, dentro de redes de stakeholders que serão as novas comunidades de negócios do mundo que já se anuncia, demarcadas por membranas (permeáveis ao fluxo) e não por paredes opacas.

Assim como está ficando cada vez mais difícil aprisionar o conhecimento, ainda há uma outra evidência a favor do domínio público: o conhecimento aprisionado estraga. É um bem que cresce quando compartilhado e descresce e perde valor quando não se modifica continuamente pela polinização.

Bem, o diálogo está neste ponto. E vai continuar certamente. Avaliei, porém, que valia a pena abrí-lo para toda a Escola-de-Redes e não apenas para os inscritos no grupo Profissionais e consultores.

Parte acrescentada em 29/09/09

O assunto dessa conversa estava apenas começando. Mas o tempo é cruel. O que fica para trás é esquecido, sobretudo porquanto o Ning não tem uma forma de indexar conteúdos que sequer relembre o que ficou para trás. E nós não descobrimos ainda um modo eficaz e não-centralizante de "organizar o conhecimento" aqui nesta escola.

Bem, mas quero retomar a discussão por um outro viés. Quando começamos a discutir a questão em tese, vem logo a pergunta...

COMO SOBREVIVER?

Como podemos - a maioria de nós, que não vive de rendas - ao mesmo tempo ganhar dinheiro para sobreviver e participar ativamente da Escola-de-Redes e de outras redes e grupos formais ou informais sem fins lucrativos?

Muitos aqui já colocaram essa questão. Começo dando um depoimento pessoal.

Sou escritor, palestrante, consultor e netweaver. Tenho que viver dessas atividades. Como escritor nada ganho, pois não escrevo textos de interesse geral, auto-ajuda ou romances (e romances, bem que gostaria de escrever, mas não tenho talento para tanto). Escrevo livros teóricos sobre desenvolvimento, sociedade civil, democracia e redes sociais. São livros considerados "técnicos". Meu livro mais "saído" atingiu a marca de pouco mais de 15 mil exemplares (o que já é muito - dizem - quase um recorde para esse tipo de literatura). Ademais, devolvi todos os meus livros ao Domínio Público e muita gente, estimulada por mim, faz o download dos textos ao invés de adquirir exemplares em papel (o que em geral não é verdade para livros de muita saída: destes, as pessoas querem adquirir exemplares em papel, mesmo que estejam disponíveis versões online ou para download; mas para artigos e livros teóricos de pouca demanda e circulação restrita, isso acaba valendo).

Como palestrante, ganho alguma coisa. Mas, freqüentemente, sou chamado a dar palestras e a participar de mesas em simpósios, conferências e encontros... de graça ou por um valor tão abaixo do que pratico que me recuso a aceitar e acabo atuando pro bono (ou seja, de graça mesmo). Muitos organizadores de eventos alegam que não podem pagar, que o evento não tem fins lucrativos ou que no seu orçamento institucional não cabem os valores que cobro. Em alguns casos, chega a ser engraçado. Um funcionário de uma empresa ou organização, que ganha um salário (e férias e 13 salário e outros benefícios diretos ou indiretos), alega que não tem orçamento para pagar por uma palestra de alguém que (como eu) não tem salário (e nem qualquer outro benefício) e que só pode sobreviver do trabalho que faz. Às vezes o funcionário faz isso para mostrar serviço ao chefe ("- Viu só, consegui trazer o fulano sem gastar quase nada!"). Neste caso, deixando a graça de lado, trata-se de um comportamento abusivo e ofensivo. Trata-se de exploração mesmo. Mas é impressionante a freqüencia com que acontece. Semanalmente recebo convites desse tipo. Mas não confundo tais propostas com os convites que recebo para atividades sem fins lucrativos, baseadas no voluntariado e voltada para causas importantes, aos quais procuro atender de bom grado (embora tudo deva ter um limite: eu, por exemplo, não tenho a cara de pau de ficar promovendo eventos sem me preocupar com o necessário fund raising para pagar as pessoas que vivem das palestras que ministram; uma vez ou outra, vá lá , mas praticar sistematicamente tal esperteza, vamos dizer assim, é meio indigno, acho). Talvez um boa prática aqui seja a troca: eu vou falar de graça no seu evento e você vai fazer o quê em contrapartida (não-financeira)? Por exemplo, vai pesquisar, salvar e entregar em PDF novos livros para a Biblioteca; ou vai bolar um novo sistema de catalogação; ou vai contribuir para fazer isso ou aquilo em outro projeto (que não o seu).

Como consultor ganho pelos serviços que presto a instituições e empresas. Tenho um valor por hora trabalhada in Company e in Office (60% do anterior). Sem prestar tais serviços não poderia sobreviver. Como resolvi, décadas atrás, não ter propriedades, nem poupança e como decidi, há cerca de 5 anos, nunca mais participar de organizações hierárquicas (sejam empresas, empresas disfarçadas como ONGs ou cooperativas, ONGs, Cooperativas e assemelhadas, corporações, partidos, governos ou órgãos de Estado de qualquer nível), tenho que prestar tal serviço efetiva e diariamente como pessoa física.

Como netweaver nada ganho. Há cerca de dois meses, resolvi fazer uma conta aproximada do tempo de trabalho que dediquei à Escola-de-Redes (desde junho de 2008) e à administração desta plataforma Ning (desde o final do ano passado). Monetizando pelos valores que cobro como consultor in Office, o total chegou a aproximadamente 600 mil reais. Para se ter uma idéia, só para organizar a Biblioteca E=R foram cerca de 200 horas (pesquisar + selecionar + baixar (download) + salvar + subir (upload no 4Shared) + publicar na home (às vezes com imagem também pesquisada, baixada, salvada e "uploadada") em dois lugares, indexar na lista, indexar no grupo), ufa! Demora mesmo. E tem todas as outras coisas, que vão desde a administração normal mesmo da plataforma, aos textos escritos, aos comentários, aos vídeos e fotos, à divulgação de novidades no Twitter, em sites e outras plataformas etc.... Esse trabalho, conquanto às vezes bastante cansativo, é prazeiroso. E não é uma espécie de propaganda das minhas atividades: raramente (acho que nunca mesmo) recebi algum convite para atividade lucrativa por meio da Escola-de-Redes ou tendo como referência minha função de netweaver nesta escola. Dos meus trabalhos remunerados atuais nem um sequer chegou por essa via ou a partir dessa referência. Pode ser que isso mude algum dia, mas até o momento em que escrevo foi assim.

Pois bem. Meu caso não pode ser generalizado, até porque as escolhas que fiz estão meio fora da curva. Mas serve para ilustrar a problemática. O melhor não seria poder aliar as duas coisas - e que eu não tivesse que trabalhar tanto "fora" para poder me dedicar mais ao netweaving aqui - fazendo da Escola-de-Redes um ambiente também de negócios e uma fonte de receita? Isso ela hoje não é. E o argumento de que participando pro bono da Escola-de-Redes alguém poderá ficar mais conhecido ou famoso e aí ser convidado para trabalhos remunerados é falso, para não dizer ridículo. O que torna alguém famoso é, invariavelmente, o broadcasting, nunca ou dificilmente o netweaving. Basta ver quem são os mais seguidos no Twitter. Basta ver quem são os mais premiados blogueiros. Todos, sem exceção, são frutos do broadcasting (hoje: rádio, televisão, cinema, mídia impressa, jornais e livros editados e distribuídos pelos cartéis de distribuidoras e grandes "redes" de livrarias, aninhamento em grandes meios de comunicação etc.; ontem: aparições frequentes na Ágora, no Circus Maximus, no Coliseu, na "carreatas" - de carroças ou bigas - de Triunfo, nas estátuas, relevos e afrescos etc). Netweavers e hubs (os novos papéis sociais emergentes e relevantes na sociedade em rede) são, em geral, reconhecidos por comunidades específicas, mas não conhecidos do grande público.

É uma discussão complicada. E solução não parece ser trivial.

COMO SERÁ POSSÍVEL FAZER NEGÓCIOS NA ESCOLA-DE-REDES SEM QUE ELA DEIXE DE SER UMA REDE?

Sobre isso, tenho pensado e conversado com alguns conectados aqui o seguinte:

Podemos, sim, fazer negócios na Escola-de-Redes, aproveitando a crescimento da plataforma (ainda que a plataforma não seja a rede) e o conhecimento nela embutido e constantemente desenvolvido e atualizado pela entrada constante de novas pessoas e pelas manifestações das pessoas já conectadas, para propor empreendimentos que possam gerar remuneração para quem neles quiser trabalhar.

Não há nenhum problema, ético ou econômico, em ganhar dinheiro em troca de atividade desenvolvida ou trabalho ou esforço realizado. Não há problema, nem mesmo, em ganhar muito dinheiro assim. Também não há problema em gerar excedente, sobrevalor ou o que valha. Ter resultado positivo em qualquer atividade econômica é uma condição de sobrevivência e uma obrigação social (haja vista que o prejuízo terá que ser arcado por alguém e afeta a todos os stakeholders). O problema só aparece quando queremos administrar o excedente, (aquilo que derrotou os Apaches: não foram as vacas que eles ganharam e sim a atribuição aos Nant'ans - os netweavers da rede social apache - de administrar centralizadamente o excedente, redistribuindo as vacas pelos membros das comunidades). Se você administra o excedente, então introduz centralização. Ora, em uma rede que quer ser mais distribuída do que centralizada, isso, por certo, é um problema!

Portanto, a meu ver, quem quiser pode propor aqui algum empreendimento que remunere os que dele participam, mas desde que siga algumas orientações. Trata-se apenas de uma sugestão pessoal.

1 - O empreendimento seja apresentado como de pessoas conectadas à Escola-de-Redes (que devem se identificar, no caso de optarem por mencionar a escola) e não da Escola-de-Redes.

2 - Nunca seja feito por uma organização hierárquica e sim por uma rede de pessoas.

3 - Todo o conhecimento (na forma de textos, metodologias, tecnologias, vídeos, software ou programa) desenvolvido para o empreendimento, seja entregue ao Domínio Público e disponibilizado aqui na escola para download. As pessoas receberão por seu trabalho e não pelo domínio privado individual ou coletivo sobre qualquer conhecimento.

4 - Qualquer pessoa que quiser usar o material referido acima, com ou sem fins lucrativos, poderá fazê-lo, desde que siga estas orientações e não omita, jamais, a autoria desse material. Em qualquer circunstância o direito moral do autor (ou autores) sobre a obra deve ser garantido, proclamado e reconhecido.

Particularmente, gostaria de acrescentar mais uma opinião: não me parece muito condizente com a natureza e os propósitos da Escola-de-Redes recrutar pessoas para trabalhar aqui (uma espécie de "pesca em aquário", no caso, não política, mas empresarial) em projetos em que há apropriação privada de excedente. Por exemplo, uma pessoa promove um curso de 8 horas para 30 alunos, cobra 1.000,00 de cada aluno, paga , digamos, 500,00 a outros 4 conectados que vão trabalhar, cada qual, 2 horas como facilitadores, cobre 10.000,00 de despesas efetivas (não vale computar os riscos inerentes a qualquer empreendimento para cobrir eventualidades: desde inadimplência, cheque sem fundo até furacões) e embolsa os 8.000,00 restantes a qualquer pretexto. Se houver excedente, ele pode ser distribuído por todos os envolvidos. Ou, quem sabe, pode ser destinado a um fundo de bolsas (para financiar uma parte da matrícula de alunos que não podem pagar o preço integral mas estão dispostos a retribuir com uma contrapartida não-financeira).

Nada contra ganhar dinheiro. Se for viável, se houver mercado, uma pessoa pode organizar uma atividade remunerada na qual ganhe 10 mil por hora por seu trabalho: o que não pode é subremunerar trabalhos equivalentes para ficar com o (ou uma parte maior do) excedente a pretexto de ter tido a idéia ou o trabalho de administrar pessoas (que, no fundo, é uma maneira de conduzí-las de tal sorte que elas gerem valor não-pago). E isso nada tem a ver com qualquer ideologia igualitarista. Não, nem todo mundo precisa ganhar a mesma coisa. Quem trabalha mais, quer desenvolvendo um produto, quer aplicando-o ou customizando-o, pode (e deve) ganhar mais. O problema não está aí e sim na administração do excedente que gera centralização e, consequentemente, exercício de comando-e-controle sobre os outros. É claro que isso não é um problema em organizações hierárquicas (a rigor, mais centralizadas do que distribuídas). Mas será um problema em uma rede (mais distribuída do que centralizada). Esta, evidentemente, não é uma receita aplicável a uma empresa hierárquica que está querendo fazer sua transição para uma empresa em rede. As empresas nessa situação deverão encontrar outras formas de equacionar os problemas do lucro, da remuneração do capital e da gestão de pessoas. É apenas a minha opinião particular para esta Escola-de-Redes, que não é, nunca foi e nunca será uma empresa, senão uma rede em construção de pessoas interessadas em estudar, investigar e experimentar redes sociais.

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Comentário de Augusto de Franco em 3 outubro 2009 às 19:19
Ei Vera! Ig Farben na verdade era uma conglomerado (Agfa, Casella, Basf, Bayer, Hoeschst, Huels, Kalle), que juntamente com Krupp e Siemens apoiaram o nazismo nascente na Alemanha. Citei como exemplo da aliança empresa-Estado.

Bem, mas você tem razão de que o conhecimento acadêmico não está disponível para todos. Ainda. Mas vai estar. Veja o exemplo dos astrofísicos que ficavam esperando das burocracias sacerdotais que comandam as revistas científicas meses para ter publicado um trabalho (revistas caras, que só podiam ser adquiridas por instituições com muitos recursos). De repente esses caras começaram a publicar suas pesquisas em seus próprios blogs... Hoje são milhares de blogs de cientistas, abertos a qualquer um. Essa tendência é irreversível, me parece.


Bem, agora dialogando também com Sergio Storch. Não sei se precisamos chegar a um consenso. Tendo a achar que não. Sobretudo porque não precisamos dele. A construção administrada de consenso é tão geradora de escassez quanto a votação. Sua boa síntese reflete apenas uma convergência / divergência ocasional de argumentos das poucas pessoas que interagiram nesta discussão. Sim, ela é válida. Não precisa ser validada. Já está validada pelos que concordam com ela, com ou sem restrições. Numa rede, o que é validado não é propriamente um ou outro conteúdo, mas o processo dialógico que o gerou.

Minhas observações são as seguintes:

1 - Negócios. Como "parte da vida em comunidade" são uma interpretação possível de um tipo de interação. O tipo de interação que denominamos assim permanece ainda relativamente desconhecido do ponto de vista do que se passa naquele mundo em que as redes existem (o espaço-tempo dos fluxos). Uma coisa que a nós parece ser um negócio, em uma sociedade não-mercantil talvez pareça ser uma troca e em uma sociedade fortemente verticalizada de predadores ecossociais (como, por exemplo, entre cavaleiros medievais), pareceria ser uma disputa. As interações entre pessoas que estão na raiz do fenômeno têm uma precedência ontológica (se for possível falar assim) às intepretações de suas manifestações em sociedades determinadas: para o persa vendedor de seda no mercado, comércio era uma coisa diferente do que era para o mercador veneziano e do que é para o vendedor da Avon. Não quero divagar e sim dizer que o status do conceito (a epistemologia) varia com a ontologia; ou seja, negócios em uma rede não são anteriores ao tipo particular de interação que, numa dada circunstância, interpretamos como negócio. Conclusão em forma de pergunta: são os negócios que fazem parte da vida em comunidade ou aqueles intercâmbios de energia (incluindo matéria) e informação que fazem parte do metabolismo do corpo comunitário? Imaginando uma comunidade como um ecossistema, o que seria um negócio?

2 - Negócios em nome da Escola-de-Redes, como todas as outras coisas, seguem os princípios fundantes da escola.

3 - Foco no negócio. Sim, como você diz, Sérgio, nosso foco é na aprendizagem. Mas aí voltamos ao primeiro ponto. Aprendizagem também é um tipo de interação, que, inclusive, dependendo das circunstâncias, pode ser interpretado como negócio (e vice-versa). E aprendizagem também pode ser interpretada como desenvolvimento (a organização que aprende é aquela que se desenvolve). E desenvolvimento pode ser interpretado como vida (do ponto de vista da sustentabilidade). E vida pode ser interpretada como conhecimento (como nos mostraram Maturana e Varela na chamada de teoria do conhecimento de Santiago). Veja que estamos como aqueles caras que olham a mesma montanha de diferentes perspectivas e juram, um, que a montanha é assim, com um bico para o lado esquerdo, outro, que a montanha é assado, com uma inclinação para a direta, outro, ainda que ela tem a forma de cone... Mas como ela é realmente? Quero dizer com isso que enquanto não desvendarmos o que se passa no espaço-tempo dos fluxos, enquanto não decifrarmos os padrões que transitam como mensagens na rede, não podemos saber o que é, e de que forma é, próprio da fisiologia da rede. Isso significa que não podemos julgar negócios como negativos e nem como positivos. Depende, a meu ver, do que contribui para aumentar a conectividade e a distribuição da rede. Ou, dizendo de outro modo, depende do que incrementa ou dilapida capital social. Ou, ainda, depende do que aumenta a cooperação. Se a introdução de negócios na rede aumentar a competição e diminuir a cooperação, então os negócios terão um impacto negativo. O critério só pode ser esse e não o de que negócios são "naturais" ou expressões do viver humano, de que fazem parte da vida da comunidade.

4 - Remunerações. Este é um ponto complicado. Já sabemos como devem funcionar em uma estrutura hierárquica (ou mais centralizada do que distribuída). Não sabemos, entretanto, como devem funcionar em uma rede (mais distribuída do que centralizada). E não sabemos porque as estruturas de negócios até hoje (ou, pelo menos, desde que se chamaram negócios) foram estruturas mais centralizadas do que distribuídas. Desconfio, entretanto, que qualquer repartição de excedente em uma rede distribuída que reserve uma parcela maior ao administrador não pelo fato de ele ter trabalhado mais ou inovado mais e sim pelo fato dele ter um acesso diferencial a fatores que poderiam ser compartilhados (conhecimento mantido em sigilo "segurança da informação" -, apoio político privilegiado e outros) gera centralização, diminui o capital social, diminui a cooperação. A questão não está resolvida.

5 - "Economia" da dádiva. Sim, por que não? E sem qualquer presunção. Pois na verdade a dádiva é ecologia, não economia. Quero dizer que a dádiva não é troca. Quando você troca uma coisa por outra não ganha nada, substitui uma coisa por outra. A máxima cínica "tudo que não é dado está perdido" significa "é dando que se recebe", sim, mas não porque você dá instrumentalmente esperando receber e sim porque, na ecologia do seu ecossistema comunitário, dar é maneira de deixar passar o fluxo da vida. Voltará para você na forma de maior capacidade de se transformar em congruência com as mudanças no meio.

6 - Não temos um consenso sobre negócios, nem precisamos. Nem precisamos da ideologia de "há desafios lá forma em que o melhor enfrentamento é através de negócios". A "ideologia" da rede é o viver-em-rede. Não quer enfrentar qualquer desafio a não ser aquele das pessoas poderem conviver, serem humanas plenamente validadas pelos outros seres humanos; ou, dizendo de outro modo, se relacionarem entre si segundo um padrão distribuído. Não há nenhum lugar para chegar. Não há um porto a abordar, obstáculos a atravessar ou inimigos a vencer numa perspectiva heróica. Há um modo de caminhar. O ethos da rede é lírico, não épico.

Também não creio que já estejam se cristalizando visões contrapostas. Nosso debate é ainda bastante incipiente. Por exemplo, o nosso debate sobre o poder.

O poder não pode ser comparado, como você faz, Sérgio, com a lei da gravidade. Não podemos naturalizar assim um fenômeno social, quer dizer, colocá-lo sob a regência de forças (no caso da gravidade, físicas) extra-humanas. O poder surgiu na sociedade dos seres humanos em função das relações que os seres humanos estabeleceram entre si. Não sobreveio de alguma instância superior. Não foi imposto pela natureza. Não é um fenômeno observável na biosfera não-humana.

Nas redes sociais, existem, sim, relações de poder, na medida do seu grau de centralização e conectividade. O fato das relações não serem simétricas não implica que as relações de poder sejam imanentes à natureza humana ou à natureza da sociedade humana. Simetria, reciprocidade e transitividade das relações são conceitos distintos, designam fenômenos diferentes. Mas este é um ponto para aprofundarmos em outra oportunidade.

Bem, este comentário já está ficando muito extenso. E escrevendo aqui neste campo estreito do Ning corremos o risco de perder o fio da meada.
Comentário de Vera Maria dos Santos Moreira em 3 outubro 2009 às 16:49
Só uma observação: o conhecimento acadêmico não está disponível para todos. Os artigos publicados em revistas são pagos, a menos que você esteja inserido no meio universitário. Artigos médicos na íntegra não são disponibilizados nos hospitais assistenciais, só nos hospitais universitários. O ministério da saúde disponibiliza alguns pela BVS em qualquer lugar, mas ter acesso a alguns artigos é o mesmo que não ter acesso a a coisa alguma, você não consegue fazer uma pesquisa decente. Parece que o pessoal que presta atendimento médico à população não precisa estudar.
Sobre o IG Farben que o Augusto citou, era o laborátório que fazia pesquisas com prisioneiros e fornecia gás para os campos de concentração nazistas. Os documentos disso estão no processo de Nuremberg. De estarrecer.
Abc
Vera
Comentário de Sergio Storch em 3 outubro 2009 às 15:15
Caros, acho que podemos ter uma síntese de um consenso a que chegamos. Vejam se falta alguma coisa importante:
1. Negócios? Concluímos que sim, são parte da vida em comunidade, e na ER não há por que não serem também.
2. Negócios em nome da ER? Somente conforme os padrões que estamos concordando para negócios em nome da ER, e que talvez devam ser detalhados numa outra discussão, para permitir fecharmos essa. O que acham?
3. Não haver foco em geração de negócio? Sim, nosso foco é na aprendizagem. Negócios surgem naturalmente (pode ter sido paranóia minha achar que negócios poderiam ser vistos negativamente, e agora estou convencido de que não o serão). Alívio!
4. Remunerações? conforme a contribuição de cada um, livremente assentida entre as partes, nos negócios lá fora. Nos negócios em nome da ER, creio que ainda há algo a discutir.
5. Economia da dádiva? Sim, por que não? Sem que haja presunção de que toda troca será na base da dádiva (o que me pareceu inicialmente ser um pressuposto).
6. Já que temos este consenso sobre negócios, vamos fazê-los (eu adiciono: ... pois há desafios lá fora em que o melhor enfrentamento é através de negócios).

Não estou propondo encerrar esse tópico não, só acho que podemos validar ou não essa síntese, e se não concordarmos, prosseguirmos nos pontos em que ainda estivermos em desacordo,

___________________________________________________________

Do ponto de vista teórico, me parece que aqui começa a haver a cristalização de visões distintas, que vale a pena demarcar, usando a frase do Augusto como divisor de águas:

"No highly connected world tende a deixar de ser assim. Ou seja, a negociação tende a ser cada vez mais equilibrada (e eqüidade tende a aumentar). Porque o conhecimento - desaprisionado, inclusive das escolas e academias - tende a estar igualmente disponível para todos os players." E que é acompanhada pela frase da Clara: "Essa história de mentor... pra que mesmo? "

A outra visão parece, pegando apenas as frases mais recentes, aquela que o Haroldo transmite com: "O que desejei em parte expressar é que "ser o mentor, ou aquele que faz a coisa acontecer é muito mais dificil do que parece (por exemplo: as vezes o risco do Nome, é o dele). Então fazer uma comparação entre mentor e executor em valores, é dificil. "

A minha visão é a seguinte, acompanhando o Haroldo: poder é um fenômeno social que se produz conforme a estrutura (sim, aí concordo com o Augusto), mas também conforme o desempenho de diversos papéis sociais (líder, mentor, confidente etc.). O poder, como a lei da gravidade, me parece ser inegável, por mais que "o conhecimento - desaprisionado, inclusive das escolas e academias - venha a estar igualmente disponível para todos os players." . Pelo simples fato de que o poder não depende apenas de conhecimento, mas também de confiança, amor, lealdade e outras dimensões que podem não ter nada a ver com a distribuição de conhecimento. Numa rede totalmente distribuída também teremos poder, pois as relações não serão nunca simétricas.

Por outro lado, acho que discutir se há poder ou não obscurece uma pergunta que, essa sim, me inquieta: COMO são as relações de poder nas redes sociais?

Há todo um conhecimento científico acumulado sobre o poder, e que pode ser trazido para o ambiente de redes, onde poderá ser testado e validado. Certamente haverá diferenças em relação ao mundo das hierarquias, e é nessas diferenças que eu acho que devemos nos concentrar.

Mas enfim, isso já é bem outro tópico... Estão de acordo que vale a pena pinçarmos para uma outra e nova discussão, com ar e água para que floresça?

Um abraço sabático a todos
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 3 outubro 2009 às 12:28
Escrevi sentindo ao invés de sentido, corrigi.

Tenho acompanhado esta discussão e fico me perguntando o que seria o simples, o coerente com a idéia da ER?
Estou plenamente de acordo com o Augusto. Acho que:

1. Quem quiser usar o nome da ER tem que seguir as regras estabelecidas aqui;
2. Seria muita hipocrisia (e quem precisa de mais?) que pregassemos algo por aqui e não fossemos minimamente coerentes com o discurso nas nossas práticas;
3. Por outro lado, penso que talvez a ER seja um espaço de troca de conhecimento sem ter foco em geração de negócios. Os negócios surgem naturalmente... Não é preciso pescar! Quem precisar de um profissional pra desenvolver um projeto de redes pode pesquisar aqui na ER e descobrir a pessoa que julgue mais adequada!
4. Não vejo sentido num grupo de consultores aqui na ER (e fechado ainda por cima!). Cada um de nós tem um jeito de trabalhar, é toda uma diversidade. Por que necessariamente precisamos gerar aqui produtos ou serviços? O que acho que podemos fazer são construções dinâmicas: pintou um trabalho pra alguém e essa pessoa acha que precisa de ajuda, ótimo! Ela chama outras pessoas com as quais queira compor uma equipe, essa equipe combina o trabalho dentro do contexto e tá tudo certo! Não compreendo a necessidade de institucionalizar algo aqui!
5. Acharia muito legal que nos engajassemos em pesquisas, para isso estamos aqui, para aprendermos e desvendarmos juntos todo esse saber das redes.

Enfim, essa é minha forma de ver...
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 3 outubro 2009 às 12:17
Haroldo,

Enxergo uma equipe em cada projeto. Todos correm riscos. Essa história de mentor... pra que mesmo?
Comentário de Haroldo Vilhena em 3 outubro 2009 às 12:11
Entendo e concordo com muito do que disseram, inclusive que este não é o foco aqui.
O que desejei em parte expressar é que "ser o mentor, ou aquele que faz a coisa acontecer é muito mais dificil do que parece (por exemplo: as vezes o risco do Nome, é o dele). Então fazer uma comparação entre mentor e executor em valores, é dificil.
Comentário de Augusto de Franco em 3 outubro 2009 às 11:13
Entendi caro Haroldo. Estava discutindo outros aspectos dos negócios em uma rede. Minha referência ao seu nome foi com base na referência às "crianças" (de que não devemos tratar ninguém assim - com o que concordo) fazendo um paralelo com a negociação mencionada pelo Sérgio.

O nosso tema aqui é bem concreto e foi lançado pelo Sérgio: "Negócios e Escola-de-Redes". Devemos fazê-los? Como?
Comentário de Haroldo Vilhena em 3 outubro 2009 às 10:19
Amigos,

Espero deixar mais claro aquilo que acredito em relação as questões expressas por aqui.
Apoio programas de renda mínima para cidadãos de todo o mundo pois acredito que um cidadão mereça um mínimo de dignidade em sua subsistência.
A historiadora e filosofa Virginia Fontes, em seus trabalhos tem demonstrado que hoje a sociedade tem criado uma massa de incluídos na exclusão. Se no passado uma pessoa sem um espaço na sociedade quisesse fazer um barraco numa área publica e ali morar, caçando, plantando ou vivendo de doações, poderia assim viver, mas hoje nem isso é mais legal, daí a necessidade da garantia da dignidade.
Historicamente nós brasileiros, em muitos países, tivemos dificuldades de sermos levados a serio, como chegou a ser comentado por nosso presidente nesta escolha do Rio como sede das Olimpíadas. Esta era uma percepção comum lá forma. Uma terapeuta amiga minha comentou que na índia os brasileiros eram considerados uns chorões, pois não agüentavam passar pela dor.
Talvez na analise feita pelo Augusto em seu livro sobre a dificuldade dos cidadãos vitimas de governos populistas em se associar e trabalhar em rede possa ser um caminho da reflexão.
Desejo deixar claro que se por um lado os brasileiros sempre tiveram esta fama, não é apenas disso que falo, mas sim que acredito que todos os habitantes de nosso planeta estão sendo chamados para virar Homens e Mulheres Integrais (que usam suas potencialidades), e neste novo tempo será pelo amor ou pela dor.
Comentário de Augusto de Franco em 3 outubro 2009 às 7:54
Mas... voltando ao nosso tema depois de percorrer algumas, vamos dizer assim, alças digressivas. Storch fala da negociação e Haroldo de que não se deve tratar os outros como "crianças". Certo. Mas o problema é a partir de que lugar você negocia (ou do seu poder de negociação, que é diretamente proporcional às relações que você construiu ao longo da vida e, muitas vezes, como consequencia, ao conhecimento e a outros capitais econômicos e extra-econômicos que você reuniu ou acumulou/aprisionou). Assim como não existe o tal mercado perfeito da máquina econômica inventada pelos economistas, também não existe a negociação simétrica (mesmo entre "adultos").

Isso é assim nos empreendimentos empresariais, não há dúvida. Se não fosse, alguém não precisaria abandonar seu sonho para trabalhar em prol do sonho alheio (para usar uma linguagem cara aos arautos do empreendedorismo). Mas afirmo que isso é assim em um mundo de baixa conectividade e distribuição. No highly connected world tende a deixar de ser assim. Ou seja, a negociação tende a ser cada vez mais equilibrada (e eqüidade tende a aumentar). Porque o conhecimento - desaprisionado, inclusive das escolas e academias - tende a estar igualmente disponível para todos os players. Porque o capital (stricto sensu, econômico mesmo: a renda e a riqueza) tende a não ter tanta importância diferencial para alguém iniciar um empreendimento. E porque as relações que garantiam a um empreendedor condições especiais para fazer um negócio alugando força de trabalho alheia e cérebros de terceiros - em geral, relações de natureza política, sim, senhor - também não conferirão apenas a alguns (poucos) tal diferencial.

Em outras palavras e para exemplificar: o empreendedor capitalista nascente não teria conseguido prosperar sem o Estado (discuti esse assunto com alguma profundidade no post "O empresariado e a política na sociedade hierárquica e na nova sociedade em rede". Ele tinha relações políticas privilegiadas. Isso valeu para Ig Farben, passando por Gerdau e chegando aos atuais capitalistas chineses. Ocorre que no mundo que se avizinha (o HCW), "o novo empresário não precisará mais de uma estrutura hard instalada para produzir e nem, muito menos, de apoio político privilegiado para manter em suas mãos sua estrutura funcionando". Será um mundo - ao que tudo indica - muito mais aberto aos empreendedores (inovadores).

O capitalismo que vem tende a ser um capitalismo de muitos capitalistas e não apenas de poucos. Se considerarmos que o capitalismo foi o resultado de uma associação entre empresa monárquica e Estado hobbesiano, talvez não seja nem muito correto chamá-lo de capitalismo. Será alguma coisa assim como um "capitalismo" do capital social.

Pois bem. O que tudo isso tem a ver com nossa discussão aqui? Tem tudo a ver. Se somos uma rede, negócios entre nós - com a "marca" da nossa rede - não podem ser feitos segundo padrões
do mundo hierárquico (mesmo que seja ainda este o mundo realmente existente "lá fora").

Agora, individualmente é outra coisa: cada um faça o que quiser em suas empresas, alugue gente, aprisione corpos, subremunere colaboradores e administre pessoas com base em suas vantagens competitivas comparativas.

Depois de muito refletir formei a opinião de que, em rede, para repetir mais uma vez Mohandas Ghandi, nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Não propriamente para dar um exemplo ético e sim por coerência adaptativa: o Highly Connected World é a sociedade em rede que sempre fomos (e somos, desde quando não rodamos programas verticalizadores). É the unnamed origin that is now upon us...
Comentário de Haroldo Vilhena em 2 outubro 2009 às 18:05
Será uma super aquisição para o Grupo, sem duvida.

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