Escola de Redes


Ando contando aqui muitas histórias misteriosas. Em artigo anterior falei do “Mistério de Roseto” (comentando a introdução do Outliers de Malcolm Gladwell). Agora vou contar a história do misterioso 1%. Desconfio que o mistério é o mesmo: o capital social ou as redes sociais. Mas vamos lá.

Estou lendo o Microtrends de Mark Penn com Kinney Zalesne (2007), publicado no Brasil pela Best Seller (Rio de Janeiro: 2008) com tradução literal do título: “Microtendências: as pequenas forças por trás das grandes mudanças de amanhã” (2007).

Trata-se, na verdade, de um livro sanduíche: uma introdução e uma conclusão recheadas com a descrição de 75 microtendências. Não há muito critério para a escolha, a não ser a "antena" de Penn. Poderiam ser 150 microtendências e aí o livro, que já tem 582 páginas em Garamond corpo 12, teria, quem sabe, bem mais de mil.

Mas o texto não deixa de ser interessante, sobretudo porque escrito por alguém tão ligado à pesquisa de opinião política (e, me parece, ao marketing político: inevitavelmente, he he). O homem – nada posso dizer sobre a Zaslene, uma advogada que figura de modo meio subordinado como co-autora – tem verdadeira paixão por estatísticas. E as estatísticas, como se sabe, revelam o que se quer ver – desde que torturemos os dados adequadamente (a boutade é velha, mas não resisto).

Mas ele (ou ele e ela) defende uma tese inteligente. As estatísticas revelam uma coisa e o seu oposto. Por exemplo: “embora as pessoas estejam ingerindo mais alimentos saudáveis do que nunca, as vendas do Big Mac nunca foram tão altas. Enquanto a Fox News é a primeira em audiência nos Estados Unidos, o movimento antiguerra domina os principais noticiários norte-americanos. Embora a população norte-americana esteja envelhecendo, boa parte da publicidade e do entretenimento foi desenvolvida para jovens. Embora o número de namoros seja o mais alto de todos os tempos, as pessoas nunca estiveram tão interessadas em manter relacionamentos mais duradouros e profundos...” E por aí vai.

“Para cada tendência, há uma contratendência. Para cada passo em direção à modernidade, há um impulso de permanecer atrelado aos valores do passado. Para cada acesso à Internet, temos pessoas buscando atividades manuais e sossego. Para cada ímpeto pelo acesso rápido à informação, existem pessoas que querem mais tempo, mais detalhe e mais atenção. Para cada aumento no número de lares sem filhos, há um aumento no número de casas com animais de estimação”. Pois é.

Penn supõe então que “a própria idéia de que existem algumas grandes tendências que determinam como os Estados Unidos e o mundo funcionam está indo por água abaixo. Não existe mais um punhado de megaforças varrendo nossos destinos. Em vez disso, os Estados Unidos e o mundo estão sendo separados por um intricado labirinto de opções que se acumulam em “microtendências” – pequenas forças imperceptíveis... que estão moldando nossa sociedade de forma irreversível”. Essa é a tese.

Coloquei em itálico a expressão “os Estados Unidos e o mundo” porque é uma espécie de bordão, repetido ad nauseam no alentado volume. Dá a impressão de que, para Penn, são entidades de natureza (ou status) diferente, ligadas por razões contingentes.

“Este livro trata da transformação dos Estados Unidos em nichos. Fala de como não existe mais um único país, ou três ou oito. Na verdade, existem centenas de pequenos Estados Unidos, centenas de novos nichos, formados por pessoas que se unem por interesses em comum. Os nichos não se limitam apenas aos Estados Unidos...” OK! Captamos a mensagem, caro mestre: os Estados Unidos primeiro.

Mas vamos deixar de lado, por ora, o americocentrismo (ou eucentrismo – ‘eu’, aqui, de Estados Unidos – com ou sem trocadilho) desse cara para ver exatamente o que ele diz de interessante.

Penn tem uma hipótese (fraca) para explicar o fenômeno. Segundo ele “a maior liberdade de escolha representou um crescimento da individualidade. Com o aumento da individualidade, veio o aumento do poder de escolha. Quanto mais escolhas, mais as pessoas se dividem em nichos cada vez menores na sociedade”. São as tais microtendências. “Uma microtendência é um grupo de identidade intenso, que está crescendo, que tem desejos e anseios não-atendidos pelas atuais empresas, ou profissionais de marketing, ou legisladores e outros que influenciam o comportamento da sociedade”.

Exemplos? Ele os dá aos montes. Estudantes que aprendem em casa (homeschooling). Estudantes que largaram a faculdade (como Bill Gates, Ellen DeGeneres, Karl Rove, Yoko Ono ou Edgar Allan Poe). Mari Poppins modernas (babás com diploma universitário). Geeks sociais. Novos "ludistas". Abtêmios franceses. Picassos chineses. A lista não termina.

Penn assinala que “algumas tendências são grandiosas e óbvias – e afetam a maioria das pessoas. No entanto, cada vez mais o que está moldando o mundo é uma série de anseios e forças ocultas e poderosas que estão em ação logo abaixo da superfície. Nessas forças, estão as sementes das mudanças inesperadas”.

Mas há uma quantidade mínima para que uma microtendência se conforme como tal e acarrete essas mudanças. “Os movimentos começam com pequenos grupos de pessoas dedicadas, intensamente interessadas. É por isso que o modelo de organização da al-Qaeda e o foco no número de convertidos para os movimentos terroristas tornam-se críticos. Os movimentos vitoriosos não são necessariamente os da maioria, mas eles têm força e intensidade próprias. Dez pessoas com bazucas podem vencer mil com cartazes em um piquete, mas não vencem 10 mil pessoas em um piquete. Esta é a mágica do limiar de 1% e o potencial de as microtendências serem o centro desse movimento para mudar o mundo”.

O 1% de Mark Penn

Penn “descobriu” – ele não explica como – o 1%. Existem, portanto, “pequenas forças imperceptíveis [imperceptíveis, mas não tanto, aduzo agora, já que ele colecionou 75 exemplos] que podem envolver até 1% da população e que estão moldando nossa sociedade de forma irreversível”.

De onde saiu o número mágico? Penn não diz, mas reafirma que “quando determinada tendência atinge 1%, ela está pronta para criar um filme de sucesso, um best seller ou um novo movimento político. O poder da escolha individual está influenciando cada vez mais a política, a religião, o entretenimento e até mesmo a guerra. Nas atuais sociedades de massa, basta que apenas 1% dos indivíduos façam uma escolha – contrária à da maioria – para criar um movimento que pode mudar o mundo”.

Bacana. Mas o pressuposto parece estar errado. É exatamente o contrário. O tal 1% só tem esse poder todo porquanto não-estamos em uma sociedade de massa (onde o que conta é a quantidade) e sim em uma sociedade em rede (onde o que conta é capacidade de amplificação de pequenos estímulos por meio de complexos processos de disseminação e amplificação baseados em reverberação, looping, laços de retroalimentação de reforço, clustering, swarming e crunching ou small world efect). Mark Penn não consegue explicar o seu achado precisamente por isso: porque, a despeito de ter percebido várias microtendências, tantas como para encher um livro de quase 600 páginas, nada percebeu da nova morfologia e da nova dinâmica da sociedade emergente. Meio típico de gente que trabalha com pesquisa de opinião e marketing.

Contudo, ele tem razão no que afirma. Seu insight está basicamente correto, a meu ver. E não posso reprová-lo, pois já havia feito algo parecido (há 8 anos) a partir da evidência de que a refiação em uma rede P2P é 1%. E, como Mark Penn, também não sei ainda justificar adequadamente tal “descoberta”. Mas posso pelo menos explicar de onde saiu o (meu) número mágico (1%).

O meu 1%

Foi por acaso. Lendo em 2001 um artigo de Theodore Hong (2001), intitulado “Desempenho”, publicado na coletânea organizada por Andy Oram, Peer-to-Peer (da O’Reilly & Associates). Hong, à época um estudante esperto, desenvolvedor da Freenet, escreveu que “mesmo que grupos locais sejam altamente agrupados, desde que uma pequena fração (1 por cento ou menos) dos indivíduos tenham conexões de longo alcance fora do grupo, as extensões de caminho serão baixas”. Parece que essa hipótese não conseguiu ser verificada pelo experimento que Duncan Watts et allia (2002) fizeram em seguida sobre as Small World Networks (vejam excertos da minha tradução do trabalho publicado na Science 23/05/03: "Um estudo experimental de busca em redes sociais globais").

De qualquer modo, me pareceu verossímil (não vou explicar aqui por que: tomaria muito tempo e exigiria um comentário mais extenso do artigo de Hong, em particular uma análise um pouco abstrusa do seu gráfico de evolução de extensão de caminho e agrupamento sob refiação relativa aos valores iniciais). E também porque Hong não tem culpa pelo que inferi. Ele não disse nada do que vou dizer em seguida, que nasceu de uma co-incidência. Explico.

Ocorre que eu estava terminando, naquele ano (2001), o meu livro “Capital Social: leituras de Tocqueville, Jacobs, Putnam, Fukuyama, Maturana, Castells e Levy”, no qual dedico uma seção (do terceiro capítulo) à “dinâmica sociológica de Jacobs” – na verdade uma leitura do seu clássico “Morte e vida das cidades americanas”, onde ela investiga a formação do “ser social” (que chama de “Entidade real”, com ‘E’ maiúsculo mesmo).

Como alguns sabem, sustento que Jane Jacobs “descobriu” o capital social no sentido de que foi a primeira pessoa que empregou a expressão com o sentido que hoje atribuímos ao conceito. Ela escreveu que “para a autogestão de um lugar funcionar, acima de qualquer flutuação da população deve haver a permanência das pessoas que forjaram a rede de relações do bairro. Essas redes são o capital social urbano insubstituível”. Tal “capital” seria o fator responsável por tornar “viva” uma localidade (constituindo-a como uma “Entidade real”).

No mesmo texto, Jacobs afirmou que “é necessário um número surpreendentemente baixo de pessoas que estabeleçam ligações, em comparação com a população total, para consolidar o distrito como uma Entidade real. Bastam cerca de cem pessoas numa população mil vezes maior”. Ou seja, 0,1%.

Estabeleci uma relação entre o chute de Jane Jacobs (1961) – que passou tão perto da trave (a meu juízo, ela errou por um zero, mas isso era pouco na época, considerando-se o instrumental de que não-dispunha) quanto o asteróide 2009 DD45 (que errou a terra por 72 mil km, o que também é pouco em termos de distâncias astronômicas) - e o chamado fenômeno Small World.

Em 2003 – no livro “A revolução do local” – criei uma paráfrase do conhecido “Small is Beautiful” de Schumacher (1973): “Small is Powerfull”. Só mais tarde (em 2007) forjei o termo ‘crunch’ para descrever essa fenomenologia das redes distribuídas altamente conectadas. O “amassamento” do mundo – com a drástica redução da extensão característica de caminho (ou diminuição dos graus de separação) – é função do grau de distribuição e da conectividade (ou densidade) da rede. Mas ele pode ser provocado (imaginei) se 1% da população alcançasse tecer uma rede com grau máximo de distribuição e conectividade (todos-ligados-com-todos). Ou seja, um cluster com tais características poderia reduzir os graus de separação da “região” da rede em que está inserido tornando aquele “ecossistema” menor (em termos sociais, é claro, não geográfico-populacionais) e mais poderoso. Esse seria o poder do 1% – um poder social, não político: um poder de constelar um campo de empowerment – e por isso uma rede com tais características de mundo pequeno seria poderosa. Em suma é a mesma hipótese de Jacobs multiplicada por 10.

Claro que isso tudo soa muiiito especulativo. E não está propriamente apoiado em pesquisas científicas. Mas... existem fortes argumentos baseados em algumas evidências empíricas que corroboram a hipótese. Evidências de que, dentro de certos limites (para localidades com menos de 50 mil habitantes) e sob determinadas condições (dadas pela presença de hubs, inovadores e netweavers), 1% das pessoas conectadas em uma rede P2P reduzem drasticamente a extensão característica de caminho da sociedade local (ou seja, diminuem os graus de separação da rede social, ensejando que um nodo da rede possa chegar a outro nodo qualquer com apenas um grau de intermediação; em outras palavras, dentro dos limites considerados, 1% das pessoas de uma localidade, conectadas em rede, têm acesso praticamente imediato aos restantes 99%). Assim, por exemplo, 200 pessoas em uma localidade de 20 mil habitantes, conhecem, com até 1 grau de separação, as outras 19.800 pessoas. Apenas 20 pessoas (para aplicar os 0,1% da nossa saudosa Jane Jacobs) não seriam suficientes.

Tais evidências, como parece óbvio, não são suficientes para assegurar que o fenômeno cogitado venha necessariamente a acontecer. Mas achei válido incorporar a “descoberta” nas metodologias de desenvolvimento local (como o DLIS) que estava desenvolvendo. No mínimo tratava-se de uma recomendação válida para evitar o conhecido isolamento das coordenações de projeto do restante da população, fenômeno muito comum nos processos de indução do desenvolvimento local. E contribuía também para eleger a rede de desenvolvimento comunitário como o sujeito do processo de desenvolvimento ao invés de atribuir esse papel a uma instituição ou a uma frente de instituições hierárquicas.

Tive oportunidade de testar essa orientação em muitas experiências que realizei nos anos seguintes. De sorte que, de apenas vagamente verossimilhante, a hipótese passou a ser cada vez mais corroborada por outras evidências. Essa foi a origem da minha crença no 1%.

Posso dizer que, a despeito de Mark Penn não cogitar nada disso, seu recente insight veio reforçar minhas convicções. Aliás o chute de Penn salvou o seu livro (ao contrário do que ele, talvez, pense, não é o conteúdo – o tipo de microtendência – que determina a capacidade de mudança e sim a fenomenologia associada a um tipo de topologia). E estou mais assombrado do que nunca com o poder do misterioso 1%. Por certo não deve haver um número mágico, exatamente 1%. Por que não 1,2% ou 2,3%?. Porque tudo isso, no fundo, é uma maneira de falar do poder do pequeno em termos sociais, do poder do capital social ou do poder das redes distribuídas e altamente conectadas.

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Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 10 março 2009 às 14:25
Augusto e Boyle,

Faz muito sentido essa idéia de que um pequeno número (percentual) de pessoas com grau máximo de distribuição e conectividade possam provocar um "crunch". Por outro lado, concordo com o Boyle, estamos falando de um processo.

Essa idéia é a dos "pequenos estímulos podem (ou não) provocar grandes mudanças". Minha dúvida é se esses (pequenos) estímulos devem ser "aplicados" a um pequeno grupo (1%) ou se devem englobar a totalidade do grupo em questão. No primeiro caso, cria-se um centro atrator e espera-se que ele cresça o suficiente para provocar um novo esquema de processamento de informações (ou de conectividade). No segundo caso espera-se a emergência espontânea de conectividade distribuída em alguns grupos da rede (emergência do 1%?).

Acho que a imprevisibilidade em ambos os casos é muito alta. Imagino que não se pode deixar de levar em consideração o contexto, as características do grupo e outras variáveis. A ocorrência aleatória de pequeníssimos (aparentemente insignificantes) eventos pode mudar todo o rumo da história de um grupo. Napoleão na batalha de Waterloo, parece que estava sofrendo de um forte ataque de hemorróidas que o impedia de montar. Além disso, quando a batalha estourou ele estava dopado com láudano já há 2 dias. Logo ele não tinha a visão do campo de batalha e tomou suas decisões (desastrosas) baseando-se no relato dos seus comandantes. As hemorróidas do imperador provocaram a queda do império (he he he só pra relaxar).
Comentário de Carlos Boyle em 10 março 2009 às 8:53
Dos cosas, la ingeniería inversa del 1% que Ud. propone sería una muestra estadística, para medir una población es suficiente una muestra de solo un 1%, eso si tomada aleatoriamente y con determinadas características, debe ser verdaderamente representativa de la población total, homogéneamente distribuida, aleatoriamente escogida, etc. Pero funciona.
Lo segundo que quiero decir es la parte política que tratas. El liberalismo sostiene que a medida que los seres humanos se "hacen mas libres", tienen mas independencia de elección, ergo se masifican menos. Pensando esto ad infinitum, la socidad "totalmente liberalizada" será una sociedad necesariamente individualista.
Yo creo en esta hipótesis, peeeeero.... Con la salvedad de que esto no se cumple para "toda la población". Yo tembién tengo mis guarimos porcentuales empíricos y ese valor ronda, en la Argentina 2007, alrededor del 60%. La sociedad contractual no llega a superar ese guarismo, a partir del 70% indefectiblemente acutuamos como las langostas de su video, en masa.
Es más Watts en su Six degrees habla de una curva con forma sigmoidea en donde la evolución de una innovación arranca en una pocos casos, evoluciona así por un tiempo y de repente estalla abarcando casi toda la población.
Por eso para que la innovación se propague desde ese 1% es necesario una etapa comunicativa racionalista, donde el grupo propositor disemina el mensaje, luego un tipping point que es un efecto de masa, luego una nueva etapa de deliberación hasta tocar la totalidad de la población.
Comentário de Augusto de Franco em 10 março 2009 às 8:21
Não sei, Clara. Como tentei explicar acima, acumulei evidências de que o 1% vale para redes sociais de até 50 mil habitantes (e essa é apenas uma estimativa, válida, ainda sim, para redes socio-territoriais, ou seja, formadas por proximidade geográfica e a partir de uma história de interações recorrentes - vizinhanças com "alta temperatura", ou seja, choques causados por grande amplitude da, vamos dizer assim, "vibração de suas moléculas"; em outras palavras, espancando esse excesso de metáforas físicas, não vale para um assentamento recente ou um bairro novo planejado ou um conjunto habitacional). Ademais, parece ser necessário que, dentro desses limites, estejam no 1% altamente conectado, os hubs, os inovadores e os netweavers daquilo que chamei de "rede-mãe". Jane Jacobs tinha um ponto de vista semelhante quando falava de "lideranças", embora estimasse essa "rede crítica" em 0,1%.
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 10 março 2009 às 8:04
Augusto, você acha que o 1% pode ser uma regra fundamental? É aplicável a qualquer rede social de qualquer tamanho e em qualquer contexto?

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