Escola de Redes

Algumas notas sobre o difícil aprendizado das redes sociais nas organizações hierárquicas


“Cada um no seu quadrado, cada um no seu quadrado (4x)
Eu disse:
Ado a-ado cada um no seu quadrado
Ado a-ado cada um no seu quadrado”.


Refrão da “Dança do Quadrado”, música de origem desconhecida utilizada por Sharon Aciole com o objetivo de animar o pessoal nas praias de Porto Seguro no verão de 2007 e que acabou virando um hit no Brasil em 2008.

Ouça aqui antes de ler:

sharon - Cada um no seu Quadrado


Legal esse papo de rede! Aqui na minha organização, acho que é cedo. Ainda estamos aprendendo. Gostaria de ver como funciona na prática. Você tem algum exemplo concreto?

Compreender e aceitar a possibilidade da organização em rede distribuída é um processo de aprendizagem mais árduo do que pensam aqueles que agora estão aderindo à moda meio ligeiramente.

É um processo que exige uma varrição no subsolo onde estão fundeados os nossos pré-conceitos. Quero dizer com isso que as principais resistências às redes não estão propriamente no terreno das idéias que comparecem nos debates, senão naquelas que em geral não se explicitam e a partir das quais formamos nossas concepções. A resistência está nos pressupostos não-declarados.

Os pressupostos não-declarados

Em qualquer lista tentativa desses pressupostos, comparecerão, pelo menos os quatro seguintes:

 O ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo.

 As pessoas sempre fazem escolhas tentando maximizar a satisfação de seus próprios interesses materiais (egotistas).

 Nada pode funcionar sem um mínimo de hierarquia.

 Sem líderes destacados não é possível mobilizar e organizar a ação coletiva.

Tenho afirmado que nossa “wikipedia memética” está lotada de significadores-replicadores como esses, que privilegiam e propagam determinadas interpretações baseadas na inevitabilidade da centralização. E o problema é que essa “wikipedia” não está arquivada somente nos nossos cérebros e sim na rede social que foi vítima de seguidas centralizações, em razão, justamente, da replicação de memes verticalizadores.

O resultado prático dessa impregnação ideológica é que desconfiamos da colaboração. Intoxicados por esses pressupostos antropológicos – falsamente legitimados como científicos – até conseguimos aceitar a colaboração, mas em função da competição com quem está em outro quadrado. Ou – pelo inverso e de maneira aparentemente paradoxal – aceitamos a cooperação com alguns outros quadrados dentro de um campo (não raro para competir com quadrados que estão em outro campo), mas não nos organizamos de forma cooperativa dentro do nosso próprio quadrado.

A contradição é apenas aparente: tudo, no fundo, é a mesma coisa. A observação cuidadosa revela que quando não aceitamos a cooperação com os “de fora”, também não conseguimos nos organizar de uma forma que facilite a cooperação entre os “de dentro”. E vice-versa.

Nossa capacidade de aceitar o padrão de rede é função da forma como nos organizamos

Um ambiente organizacional favorável à cooperação é aquele cuja topologia é mais distribuída do que centralizada. Quanto mais distribuída for uma rede social, mais fácil é ensejar o fenômeno da cooperação. Ou, dizendo de maneira inversa, quanto mais centralizada for uma estrutura organizacional, mais ela gerará e emulará a competição e seus bad feelings acompanhantes, como a desconfiança.

Ao contrário do que sugere o senso comum, a cooperação não é uma característica intrínseca do indivíduo, inata ou adquirida pela sua formação. Não decorre de nenhum gene nem da sua boa índole ou da sua alma generosa. Tal fenômeno se manifesta em função dos graus de distribuição e de conectividade da rede social em que esse indivíduo está inserido.

Quanto mais distribuídas e densas forem as redes sociais, mais elas terão capacidade de converter competição em cooperação, como resultado de sua dinâmica. Elas não convertem indivíduos competitivos, beligerantes e possuidores de forte ânimo adversarial em indivíduos cooperativos, pacíficos e amigáveis. Ao favorecer a interação e permitir a polinização mútua de muitos padrões de comportamento, o resultado do “funcionamento” de uma rede social (distribuída) é produzir mais cooperação, como já descobriram (ou estão descobrindo) os que trabalham com o conceito de capital social. As pessoas podem continuar querendo competir umas com as outras, porém, quando conectadas em uma rede (distribuída), esse esforço não prevalece como resultado geral visto que, na rede, elas não podem impedir que outras pessoas façam o que desejam fazer, nem podem obrigá-las a fazer o que não querem. Sim, essa é a essência dos processos de comando-e-controle: mandar nos outros.

Essa constatação pode até parecer meio óbvia, mas está longe disso. A prova é a nossa imensa dificuldade de aceitar o padrão de rede dentro de nossas próprias organizações.

Nossa dificuldade de aceitar o padrão de rede é função da forma como nos organizamos e não da nossa falta de capacidade de entendimento do assunto.

Hoje, como o tema virou moda, as pessoas gostam de falar em redes, no mínimo para não parecerem ultrapassadas. Mas quando falam em redes, em geral, elas falam da conexão em rede de estruturas centralizadas. Os nodos não são redes. No seu próprio nodo não querem saber dessa conversa. E, para falar a verdade, nem se importam muito com a maneira como os outros nodos se organizam internamente, desde que...fique lá cada um no seu quadrado. É isso então: “Ado, a-ado, cada um no seu quadrado”.

Meu “quadrado” é o meu bunkerzinho. É dali que eu enfrento o mundo em vez de me relacionar com ele com abertura.

Pode-se argumentar que essa visão é característica do mercado (que tem uma dinâmica competitiva), mas o fato é que ela também comparece em outras formas de agenciamento, como a sociedade civil (cuja racionalidade é cooperativa). Nas empresas e em outras organizações de mercado, entretanto, é mais do que uma visão: é uma disposição emocional. Para além de uma racionalidade, é uma emocionalidade que induz a replicação de comportamentos. Por isso é tão difícil para a cultura empresarial aceitar de fato as redes sociais.

A cultura empresarial foi contaminada por uma ideologia construída sobre o mercado

É claro que, mesmo do ponto de vista puramente racional, há um problema com a visão que foi construída sobre o mercado, quer dizer, com a visão que parte dos pressupostos assumidos pelos que propagam o liberalismo de mercado. É uma visão que valoriza e emula o chamado “instinto animal” do empreendedor, imaginando que o resultado variacional da confluência das ações de miríades de agentes animados desse espírito belicoso do conquistador, será, ao fim e ao cabo, o do incremento produto. Essa visão, por sua vez, é legitimada pela crença de que o ser humano é por natureza assim mesmo e que cada indivíduo gera suas preferências a partir de uma perspectiva egocêntrica. A interação desses múltiplos inputs seria então capaz de estabelecer uma autoregulação no plano em que se estabelece (quer dizer, no do próprio mercado). Mas como tal esquema não garante coesão social, é preciso escorá-lo com uma concepção política segundo a qual caberia a uma estrutura de poder supostamente acima das partes, resolver os dilemas da ação coletiva estabelecendo top down a regulação, emitindo normas a partir do Estado ou de uma outra instância centralizada capaz de cumprir esse papel.

Nesse esquema, como se pode ver, não há lugar para a autoregulação societária. E é por isso que, para o liberalismo econômico e sua ‘ciência do crescimento’ – a chamada Economics – a sociedade civil não é uma forma de agenciamento capaz de subsistir por si mesma. Sim, aqui ainda estamos em Hobbes.

Padrão variacional de mudança no mercado combinado com lógica normativa do Estado e... nada mais (como provocava Margaret Thatcher no final dos anos 80: “And, you know, there is no such thing as society”) (1). Eis a concepção de mundo que foi produzida. No limite, o mercadocentrismo (não o mercado, mas a ideologia que foi construída sobre o mercado), como qualquer ideologia de raiz hobbesiana, é sempre hierarquizante e autocratizante e, assim, está longe de ser um liberalismo em termos sócio-políticos.

Tudo isso contaminou a cultura empresarial, sobretudo das grandes empresas (invariavelmente mancomunadas com o Estado para gerar isso que chamamos de capitalismo), na medida em que essa ideologia foi disseminada pelos novos sacerdotes da modernidade – os economistas – que, ademais, adquiriram status científico e trabalham sempre no complexo Estado-Empresa, legitimados pela Universidade. Das grandes empresas, essas crenças extravasaram para as médias e pequenas, cujo sonho não é serem-bem o que são, mas se tornarem grandes. De sorte que uma cultura mais cooperativa só consegue penetrar em certas brechas abertas pela assimetria da competição mercantil: por exemplo, pequenas empresas de um setor aceitam estabelecer laços cooperativos entre si – formando sistemas sócio-produtivos (como os APL) – não para compartilhar e inovar a partir da polinização mútua ou da fertilização cruzada de diferentes visões de gestão, processo e produto, mas para concorrer com as grandes e médias empresas ou com outros clusters de pequenas empresas. A cooperação é então compreendida, aceita e justificada pela necessidade de adquirir condições mais competitivas.

"-Agora prestem atenção
O quadrado do lado
É o quadrado do inimigo!
Atenção, atenção!"
Zidane no inimigo! (4x)
Empurra o inimigo! (4x)"


Não se pode aprender muito sobre redes em organizações hierárquicas

Só muito recentemente, algumas empresas começaram a se dar conta de que um padrão de organização mais favorável à cooperação – tanto internamente, quanto no âmbito dos seus stakeholders – pode ter alguma coisa a ver com sua capacidade de se adaptar tempestivamente às mudanças do meio em que estão inseridas. Colocou-se então, para além da questão da competitividade (e da qualidade e da produtividade como atributos conexos), a questão da sustentabilidade.

Mas tal não foi suficiente para alterar os drives dos agentes empresariais. Mesmo os mais avançados, que já foram capazes de perceber que tudo que é sustentável tem o padrão de rede e, assim, conseguiram entender a necessidade da transição de sua forma de organização hierárquico-vertical ou centralizada para formas mais horizontais ou distribuídas, mesmo estes, não conseguem mudar seu “código-fonte”. E não conseguem fazê-lo simplesmente porque continuam se organizando de forma hierárquica. Eis o ponto!

Até as empresas de consultoria estratégica que atuam na perspectiva dessa transição (e mesmo as que declaram trabalhar com redes sociais) permanecem se organizando de forma mais centralizada do que distribuída. E as teorias e metodologias que aplicam em seus clientes empresariais continuam reforçando visões e práticas hierarquizantes. Um bom exemplo disso são as crenças liderancistas que proliferaram nas últimas décadas, segundo as quais haveria pessoas, por alguma razão, predestinadas a captar pioneiramente as mudanças, que deveriam se destacar das demais, caminhando à sua frente a fim de conduzi-las para o futuro que anteviram.

A ideologia do liderancismo como exemplo da dificuldade de entender as redes sociais

Mas quando falam em líderes os adeptos do liderancismo empresarial estão, na verdade, falando de monoliderança. Não querem muitos líderes e sim apenas alguns (aqueles que se destacam): se muitos puderem liderar, desconstitui-se o papel do líder, pelo menos dentro de cada fortaleza organizativa. Ou melhor, eles até querem líderes, no plural, sim, mas... cada um no seu quadrado. Mais uma vez é isso: “Ado, a-ado, cada um no seu quadrado”.

Ora, as redes (distribuídas) constituem ambientes favoráveis à emersão da multiliderança. Mas a observação acrítica de que sempre tem alguém que lidera, que puxa, do contrário a coisa não anda, reforça as tão ingênuas quanto interesseiras crenças liderancistas.

"Vai paquito, vai paquito!
É, ele mostrou como é que é!"


Bastaria experimentar uma organização em rede distribuída para ver surgir o “misterioso” fenômeno (o da multiliderança). Ah! Mas esse passo eles não querem dar, porque têm medo de... perder a liderança! Trata-se aqui, como parece óbvio, do monopólio da liderança, que, na sua raiz, está inegavelmente associado não propriamente à propriedade, mas ao uso que dela se possa fazer (diretamente, no caso dos donos; ou por delegação, no caso dos CEOs ou altos dirigentes) para ocupar uma posição de comando-e-controle; quer dizer: para mandar nos outros.


A interpretação do líder que se destaca e que seria capaz de ver o que os outros não são capazes e que seria, portanto, capaz de comandar e controlar seus “colaboradores” em prol do bem-comum, agrada a todos, vendedores e compradores. Os dirigentes hierárquicos têm seu ego fortalecido e obtêm mais um argumento de peso para justificar seus processos discricionários de tomada de decisões. E ficam motivados para comprar serviços e metodologias baseados nessa metafísica. Mas caminha em direção contrária aos ventos da mudança da sociedade hierárquica para a sociedade em rede. E constitui um obstáculo à necessária transição do padrão de organização das empresas e de outras instituições.

É claro – e ninguém pode negar – que existem pessoas visionárias, mais antenadas para captar as tendências e capazes de ver à frente dos seus contemporâneos. O problema é que não se pode atribuir essa “capacidade” a uma condição intrínseca do sujeito, independentemente das funções exercidas por ele nas redes sociais em que está inserido. E, fundamentalmente, não se pode associar essa capacidade às posições ocupadas por ele em organizações hierárquicas, fazendo um raciocínio primário do tipo: se o cara está ali naquela posição é porque demonstrou que é um líder destacado, logo... ele tem (ou tem mais chances de ter) as condições (genéticas ou culturais) de captar as mudanças e tem também não apenas o dever mas o direito de conduzir as outras pessoas.

Mas posições em estruturas verticais de comando-e-controle são diferentes de funções exercidas em estruturas horizontais de relacionamento. O que confere capacidades extraordinárias a alguns indivíduos, além, é claro, do seu esforço, são as funções assumidas por eles na dinâmica coletiva das fluições que os atravessam e não as posições ocupadas nos degraus da escadinha do poder de mandar nas outras pessoas. Em outras palavras, líderes são expressões do capital social (são produzidos, por assim dizer, em grande parte, pela fenomenologia da rede) e não o resultado de uma competição entre diferentes unidades de capital humano para ver quem chega primeiro. O recente estudo de Malcolm Gladwell (2008) – Outliers – é bastante ilustrativo a esse respeito (2).

Tudo é aceitável, menos mexer no meu quadrado, diz o reizinho

O problema com as organizações hierárquicas é que elas são capazes de aceitar qualquer nova moda, qualquer linguagem vanguardista e qualquer metodologia revolucionária justificada pela metafísica mais influente da hora, suposta ou realmente sintonizada com o Zeitgeist, mas – dos pontos de vista dos padrões de organização e dos modos de regulação – querem continuar sendo como são! Ou como acham que são. Ou como querem ser (3).

Isso é mais freqüente nas empresas. Dirigentes empresariais mostram-se predispostos a comprar qualquer coisa inusitada, mesmo aquelas que vêm justificadas por esquemas míticos de interpretação do mundo, da natureza e do ser humano (basta ver o incalculável número de consultorias que proliferou na esteira da New Age) ou aderem, pressurosos, às novas “religiões laicas” que surgem (sobretudo após a falência das grandes narrativas ideológicas utópicas do século 20, como as que hoje pretendem “salvar o planeta” do aquecimento global) desde que: a) não questionem e propriedade (e até aqui, vá lá); e b) não questionem as formas de organização baseadas no acesso diferencial à propriedade para estabelecer mecanismos de comando-e-controle (mas aqui está o problema).

Tudo é aceitável, menos mexer no meu quadrado, que delimita o perímetro do meu reino. Sim, pode-se dizer o que se quiser, mas não se pode, honestamente, deixar de encarar o fato de que as empresas – assim como a maior parte das organizações – ainda são monárquicas em um mundo que, pelo menos no que tange às sociedades consideradas mais desenvolvidas, já superou as monarquias (absolutistas) há bem mais de um século.

O reizinho não se preocupava muito com a maneira como os outros povos (estrangeiros) se organizavam. Mas lá no seu reino, êpa! Aqui mando eu. Era isso: “Ado, a-ado, cada um no seu quadrado”.

"-Valeu galera!
Não pisa na linha hein!
Fuuui!"



Notas e referências

(1) "I think we've been through a period where too many people have been given to understand that if they have a problem, it's the government's job to cope with it. 'I have a problem, I'll get a grant.' 'I'm homeless, the government must house me.' They're casting their problem on society. And, you know, there is no such thing as society. There are individual men and women, and there are families. And no government can do anything except through people, and people must look to themselves first. It's our duty to look after ourselves and then, also to look after our neighbour. People have got the entitlements too much in mind, without the obligations. There's no such thing as entitlement, unless someone has first met an obligation." Prime minister Margaret Thatcher, talking to Women's Own magazine, October 31 1987

(2) Cf. Gladwell, Malcolm (2008). Outliers. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

(3) Como disse certa vez um mestre sufi da Turquia a um grupo de visitantes (citado recentemente por uma pesquisadora conectada à Escola-de-Redes), “as pessoas no ocidente são engraçadas; elas dizem: ‘eu sinto muito, mas eu sou assim’, quando, na verdade, elas nem sentem muito e nem são assim”. Cf. Bia Machado aqui em http://escoladeredes.ning.com/

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Comentário de EmersonMathias em 16 julho 2009 às 15:19
Achei genial o post e só li hoje, 16 de julho. Trabalho numa grande empresa e concordo em 100% com o conteudo do argumento. Quanto mais tornarmos explicitos esses pressupostos que regem a vida nas empresas, melhor para todos os que - cedo ou tarde - terão que encarar esse tipo de vida em regime monarquico, com agravantes num país como o Brasil, de viés autoritario e clientelista, onde o republicanismo ainda não amadureceu, com traços mestiços de coronelismo e pirataria típica da era mercantil.

Abraços
Comentário de Claudio Estevam Próspero em 15 fevereiro 2009 às 23:08
Segue mais uma tentativa de ligar redes ("sinapses virtuais"). Desta vez com o Mercado Ético.

Da Matrix ao Self: o desafio evolucionário da mídia e das organizações
Rosa Alegria

"Queremos ver exclusivamente o mundo que está desmoronando ou colocar nossas luzes no novo mundo que está nascendo? Este é o poder da mídia, que pode colocar os refletores no que lhe interessa"
Judy Rodgers, fundadora do movimento Imagens e Vozes de Esperança


Submersos pelos naufrágios noticiados da crise, estamos vivendo a dialética de uma era extraordinária, com potencial para a evolução da consciência e abrir as portas para novos estilos de vida. Mas ao mesmo tempo, a nossa capacidade de imaginar um futuro desejado tem sido cada vez mais precária. Nesse momento de incertezas e descrença, é fundamental que a mídia mude os filtros com que normalmente se propõe a traduzir a realidade, dramaticamente revelada de forma distorcida e negativa. Esse artigo se propõe, através de uma pequena coleção de pensamentos, a despertar as organizações em seu potencial criativo para o seu papel transformador como pólos de uma nova consciência que conduza a coletividade ao desenvolvimento sustentável. Do universo das realidades distorcidas e do faz-de-conta que aqui denomino de Matrix a convocação é ingressar na travessia transformadora que leve ao paraíso reunificador do Self, a referência original da nossa essência criativa e regeneradora.
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A crise da confiança
A economia atual está na berlinda, e em seu colo, estão as organizações. Depois dos grandes escândalos corporativos como os da Enron, WorldCom e Parmalat, as empresas têm se esforçado para incorporar a ética e a transparência em seu dia-a-dia. No entanto existe uma grande crise de confiança. O público confia cada vez menos nas organizações. Os clientes têm menos confiança e até mesmo os funcionários não confiam na empresa em que trabalham. Recente pesquisa realizada pela consultoria inglesa Edelmann (Barômetro da Confiança) realizadaem 2006 em 11 países indica que a comunicação de igual para igual - com alguém no mesmo nivel hierarquico ou companheiro de trabalho tem muito mais credibilidade do que a que vem oficialmente da empresa. De 22% em 2003 a 68% em 2006 a proporção daqueles que dizem que acreditam muito mais no seu colega do que na comunicação que vem da empresa. Será o mundo real aquele que os murais de avisos e publicações institucionais estão querendo mostrar? Sair da Matrix dos números manipulados, das notícias maquiadas, das pilulas douradas pode representar uma ação corretiva imediata para o resgate da reputação institucional. Entrar no Self da consciência ambiental, da responsabilidade social, da valorização da vida, é o chamado para as organizações que se propõem a ser sustentáveis e a trabalhar para a sustentabilidade do Planeta.
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"A cobertura das notícias é também distorcida. Uma pesquisa realizada em 1998 pelo ILANUD, órgão da ONU que estuda a prevenção dos delitos e o tratamento da delinquência, intitulada "Crime e TV", acompanhou durante uma semana a programação de 27 telejornais exibidos pelas emissoras de canal aberto existentes no país. "Percebeu-se uma distorção gritante entre a ocorrência na realidade e a freqüência na divulgação pela mídia", afirmou Karyna Sposato, responsável na época, pela organização no Brasil. Por exemplo, enquanto os crimes de homicídio ocuparam 59% das notícias veiculadas, sua real incidência no mesmo período foi de 1,7%. Podemos constatar que esta distorção tem sido o padrão da mídia brasileira"
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O filme Matrix em sua trilogia premiada, propõe que o mundo em que vivemos e que chamamos de realidade é na verdade um pesadelo coletivo, um mundo ilusório criado e mantido por computadores. E assim estamos: sendo tragados pela Matrix da mídia e vivendo um pesadelo coletivo, desprovidos de sonhos, utopias, sem a imaginação, essa que se perdeu. Para reencantar nossas realidades e restaurar o mundo em que vivemos, é urgente que enriqueçamos nossa linguagem deficitária[5], que se produzam conteúdos construtivos e que se oxigenem o imaginário coletivo para que a sociedade desembace o seu espelho, caminhe na direção da luz e floresça.[6]

A escolha de optar pelas luzes, pelas soluções e pelas possibilidades futuras poderá transformar a mídia em seu propósito de criar uma nova civilização e despertar cada ser humano para o sentido maior de sua existência: entrar em contato com a própria vida.

O que se vê e se lê na mídia não é o que dá vida. Uma vez que a vida se reinstale nos meios de comunicação em seu poder de criar e regenerar nossa fé e capacidade de sonhar, as sociedades passarão a idealizar um futuro melhor e serão capazes de projetar o amanhã para superar crises (que são muitas e sempre existirão), guerras, epidemias e revoluções. A mídia poderá adotar um olhar prospectivo em vez de retrospectivo. Poderá acender o farol de milha, com cenários alternativos, caminhos múltiplos, tendências e projeções que alertam e mobilizam, em vez de só olhar pelo retrovisor, com perspectivas informativas que se restringem ao cristalizado fato, a tudo o que já foi e não pode mais mudar o rumo da história.

Podemos aprender com a biologia, que revela pela ciência o comportamento das culturas. Diz o princípio heliotrópico que as plantas crescem em direção da luz do sol. Assim como as culturas florescem na direção da esperança. É urgente que a sociedade entre em contato com as possibilidades e veja refletidas no espelho imagens vívidas de seu próprio potencial criativo.

Texto completo:
http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/da-matrix-ao-self-o-desafio-evolucionario-da-midia-e-das-organizacoes/


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Atenciosamente.
Claudio Estevam Próspero

http://pt.wikipedia.org/wiki/Usuário:ProsperoClaudio (Apresentação pessoal)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aliança_para_uma_Nova_Humanidade
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecocidade
http://www.criefuturos.com.br/criefuturos.html
http://www.nef.org.br (Núcleo de Estudos do Futuro)
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/
http://www.portalsbgc.org.br/sbgc/portal/ (Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento)

Antes de imprimir, pense em sua responsabilidade e compromisso com o MEIO AMBIENTE.
Nosso Planeta Agradece!
Comentário de Christiane Sampaio em 15 fevereiro 2009 às 12:47
obrigado Augusto, pelos esclarecimentos!
não sei se o livro está disponível na internet. tive acesso a ele na biblioteca pública aqui em BH.
vamos trocando! um abraço
Comentário de Augusto de Franco em 14 fevereiro 2009 às 16:08
Como sempre, para você, assim é se você acha que é Christiane. Gostei muito do texto da viagem prá dentro de Maria. Vou procurá-lo (será que está disponível na Internet?). Mas a varrição no subsolo onde estão fundeados nossos preconceitos não pode ser individual, pois não se trata de um modelo mental senão social! A wikipedia memética não está arquivada em nosso cérebro, mas na rede a que estamos conectados. Forte abraço.
Comentário de Christiane Sampaio em 14 fevereiro 2009 às 14:58
Olás! gostaria de compartilhar uma leitura! eu trabalho no campo dos direitos da infância. além da escola-de-redes integro também uma rede no yahoo a rede cultura pela infância. estou me preparando para um bate-papo com uma meninada de 10 a 17 anos sobre o Dia Internacional da Mulher em conexão com a edição 2009 do programa que coordeno no Brasil, o Prêmio das Crianças do Mundo pelos Direitos da Criança. Isso tudo é só para contextualizar, porque eu acabo de ler o livro publicado em 1979 pela Lygia Bojunga Nunes, "Na Corda Bamba"; a história da menina Maria, filha de equilibristas, e ela mesmo artista de circo que faz uma viagem para dentro de si mesmo. Maria nos aponta um caminho - nessa reflexão que vc Augusto propôs logo no início deste seu post. !! é mágico e profundo a forma como Maria reconstroe sua história de vida e a transforma! quero compartilhar alguns trechos com vcs:

"Deu um vento tão forte que empurrou Maria pra dentro.
A porta bateu. Veio um cheiro de mar.

O vento deu uma soprada (uma só) e - tlá! a vela mudou de lado e tapou Márcia e Marcelo.
A alegria de Maria foi crescendo, foi crescendo. Uma alegria que ela nunca pensava que dava para sentir. (...) Maria foi escorregando no chão; tanta alegria assim deixava ela até confusa. (...) Maria espichou o pescoço, louca para ver. Louca pra se ver. Quis gritar: "Nasci! O bebê no barco sou eu!"

(...) O vento começou de novo (...) Devagarinho um medo foi chegando: eles estavam indo embora, a vida agora era dela; mas quanta coisa numa vida! um presente assim tão grande, será que? será que ela ia saber carregar? "

(....)o medo de abrir porta foi embora; até mesmo a porta cinzenta, até a porta vermelha!

Escancarava elas todas, olhava cada canto, olhava tudo que tinha pra ver. (...)

(...) Maria começou a passar muito tempo no quarto novo. E cada vez que entrava lá, botava mais uma coisa. Botou correio, botou pulgueiro, aumentou a horta, e quando foi aumentar o mar, não deu lugar. Então, no dia seguinte, ela viu outra porta nova no corredor. Não se espantou nem um pouco: sabia que, abrindo a porta, ia ver outro quarto vazio (...)

A história de Maria me lembrou das reflexões que vc Augusto tem postado aqui e sobre a primeira questão que vc coloca acima: "Tenho afirmado que nossa “wikipedia memética” está lotada de significadores-replicadores como esses, que privilegiam e propagam determinadas interpretações baseadas na inevitabilidade da centralização."

fiquei pensando sobre fazer uma faxina nos quartos...a proposta da escola-de-redes, as janelas/portas que se abrem e que podem ser abertas neste espaço....o desconhecido e também esta ausência de um objetivo claro - porque isso vai sendo costurado/construido aos poucos no processo.

"como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer"

a proposta da rede distribuída exige esta auto-crítica, esta busca pelo conhecimento de si mesmo.
exige uma postura diante da vida, transformar a si e, ao mesmo tempo possibilitar que essa mudança reverbere nas suas relações com o mundo do trabalho, a vida em família, etc...

será que é por aí!?!?...
Comentário de Maria de Lourdes Karlinski em 5 fevereiro 2009 às 16:11
Esses dias postei um texto meu no Brasil Ponto a Ponto, O que fazemos para o Brasil Melhorar, onde teci algumas reflexões a despeito, do que é preciso para o Brasil Melhorar, do ponto de vista social das intererações, e de responsabilidades sociais, passando do indívidual para o coletivo.
Primeiro ponto penso que do ponto de vista democrático, evoluímos, mas é preciso um comprometimento, maior do cidadão, no que diz respeito, a esse quadrado, a sua parte de responsabilidade, em contrubuir de alguma forma para o desenvolvimento, aos governos é claro cabe, a sua cota de responsabildades no que tange as politicas públicas, mas se faz necessário por parte dos cidadãos de um comprometimento maior nessa pactuação de presidentes Lula e Obama.
Não podemos esperar que apenas eles façam o milagre dos pães, cada um de nós individualmente, em rede, devemos empenhar-mos para modificar esse quadro de crise, que está posto.
Caro Augusto,
Adorei o texto, do quadrado, ele nos remete a cada um a sua parcela de responsabilidade e comprometimento nessa pactuação de auteridade.
Grande Abraço.
Comentário de Cynthia Fior em 5 fevereiro 2009 às 15:51
Augusto, seu texto me fez sentir em uma rede composta de quadrados interligados, na qual vivemos nos nossos quadrados e de vez em quando vamos até o seu canto nos conectar com a rede.
Duas coisa me chamaram a atenção:
Primeiro que na rede da internet que sou moderadora, constantemente sou confundida com a líder ou dona. Quando alguém começa a colocar opiniões que alguns consideram incovenientes, pedem para que eu intervenha e peça para que ele pare. Ou ainda me perguntam, "quando voce vai convocar uma reunião?" e não entendem quando digo que qualquer um pode dar e constestar opinião ou convidar os demais para se reunirem. Sinto que somos mesmo o "gado" do Zé Ramalho;
Segundo ponto, e que você demonstrou ser ainda muito nebuloso, é como vamos introduzir as redes dentro de um jogo de poder tão violento como o que acontece hoje nas organizações quer sejam públicas, privadas e sociais. Tenho falado sobre isso nas empresas que presto consultoria e o tema é bem-vindo e causa interesse, mas dentro de uma ingenuidade de quem nem desconfia que estou falando de distribuição de poder.
Por fim, fiquei pensando em nós, que estudamos e defendemos a aplicação das redes. Como bem disse o Cezar Busatto acima, temos que fazer auto-avaliação constante e tentarmos viver mais em forma de rede (inclusive em nossa família), se quisermos ser agentes de transformação para essa nova realidade.
Abs
Comentário de Cezar Busatto em 4 fevereiro 2009 às 20:41
Augusto, excelente, também gostei muito do texto. Ele nos faz pensar e questionar se nós vivemos coerentemente com os conceitos que defendemos. Se realmente estamos trabalhando para horizontralizar as estruturas geralmente hierárquicas onde estamos inseridos, se estamos inseridos em redes distribuídas onde aprendemos efetivamente a ser cooperativos, ou de esses são conceitos que não encontram eco em nosso cotidiano. Estou fazendo minha auto-avaliação nesse momento, porque parece claro que sem dar o exemplo não seremos convincentes e não seremos efetivos agentes de mudança social.
Comentário de Catherine Henry em 4 fevereiro 2009 às 13:54
O texto abaixo recebido por email diretamente da equipe de Obama fala um pouco sobre isso de estarmos na lógica do quadrado usando a estutura de rede.

President Obama discussed why we need an immediate effort to create millions of jobs while investing in long-term challenges like energy and health care.

He called for swift investment in job creation while continuing to assist those who are out of work, without health insurance, or in danger of losing their homes.

The Economic Recovery plan passed the House of Representatives, and the Senate is preparing to vote on it very soon. The final version can and will be improved. But the President's core plan will positively affect families and communities all across the country.

You can help make sure the American people have all the facts so they can support this crucial effort to boost our struggling economy.

The President is leading. Help is on the way.

Lend your voice by sharing this video with everyone you know. Then sign up to join thousands of people across the country who are organizing Economic Recovery House Meetings this weekend:

http://my.barackobama.com/recoveryplan

Thank you for staying involved,
David Plouffe
Campaign Manager
Obama for America
Comentário de Clara Pelaez Alvarez em 4 fevereiro 2009 às 12:47
Augusto, bravo!

Isso me faz pensar em uma outra nuance: a rede é um estudo multi-disciplinar e sempre sistêmico...
Não dá para estudar estruturas e processos separadamente. Penso que estudar redes requer também uma compreensão dos processos cognitivos e de construção de realidade. Qual é a lógica que todos usam para processar informações? Acho que esse pode ser um ponto fundamental na questão da transformação.
A "lógica do quadrado" é tão antiga quanto a tecnologia do fogo. A "lógica das redes" está entrando em terreno dominado pelos memes da "lógica do quadrado" há milhões de anos.... Creio que nem nós mesmos que temos estudado este assunto conseguimos ser, de fato, totalmente coerentes com as idéias que pregamos. Estamos todos em processo adaptativo.´

Abraços,

Clara

PS. Grande idéia associar essa (stressante) música.

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