AS REDES E A OAP
AS REDES E A OAP
Wilame Jansen (*)
Há pouca literatura no Brasil sobre redes. As opiniões e argumentos colocados nesta resenha sobre o assunto são quase todos baseados em dezenas de artigos e livros do cientista político Augusto de Franco. Conheci Augusto na década de 90, fomos parceiro num negócio pioneiro que ele inventou chamado DLIS - Desenvolvimento Local Integrado e Sustentado, hoje metodologia consagrada para tratar do Local (territórios, municípios ou comunidades). De lá pra cá, acompanho tudo que ele escreve. Outras fontes são externas, citadas no livro Na curva do rio.
As redes de pessoas amigas, de interesses comuns, em localidades, existem há bastante tempo. Sua descoberta, entretanto, é recente - coisa de 3 décadas - e surpreendeu o mundo intelectual. A eleição de Zapatero, na Espanha chamou atenção de como ações simples podem desencadear outras ações, em pouco tempo, de forma exponencial, através de mecanismos próprios das redes.
Hierarquia e funções.
O que é uma Rede? A cultura generalizada no mundo ocidental ensina que para se organizar qualquer atividade, nas Redes inclusive, são necessárias coordenação, hierarquia e funções definidas. É verdade que haja divisão de funções, mas não é verdade que para haver divisão de funções seja necessário haver hierarquia. Tampouco que essas funções sejam definitivas. Nos processos de auto-organização cada elemento do sistema pode assumir várias funções, porém se elas se cristalizarem serão capazes de obstruir, filtrar ou impedir fluxos.
Num sistema padrão de rede distribuída, as lideranças emergem espontaneamente na forma de multilideranças. Mas se for imposta uma monoliderança, será necessária uma estrutura hierárquica. A hierarquia nunca emerge de um processo natural. Ela é sempre introduzida para impor caminhos únicos (pra falar com o Diretor, tem de passar pelo gerente).
Também não é verdadeiro que a liderança única é um processo natural. A abelha rainha sempre citada não é uma líder, mas um elemento com uma função dentro da organização da colméia. Transcrevo um trecho interessante sobre o assunto.
“Em 1987 um especialista em computação gráfica chamado Craig Reynolds produziu um modelo (chamado "Boids") que simulava perfeitamente o comportamento de um bando de pássaros. No seu programa cada boid é representado por um par de asas que obedece a três regras muito simples:
a)voe na direção dos outros boids;
b) tente adaptar sua velocidade à dos outros boids perto de você;
c) desvie-se de obstáculos que surjam no seu caminho.
Quando a simulação começa, os boids estão espalhados ao acaso, mas logo formam um bando (flock) que gira, muda de direção, inverte o sentido do movimento e reage realisticamente a obstáculos à sua frente…
A mudança de direção do grupo de boids não é programada: ela surge espontaneamente quando eles interagem uns com os outros e com os obstáculos do ambiente.
Observando um bando de boids voando na tela do computador, desviando-se, mergulhando sincronizadamente, rodopiando… sempre em conjunto, você jura que alguém programou o comportamento desse organismo coletivo, mas não.
Cada boid é totalmente estúpido e apenas segue cegamente suas três regras de comportamento.
Complexidade – conclui Clemente – é uma propriedade que faz com que sistemas tipo economias, galáxias, cérebros, civilizações, colméias de abelhas e outros agregados de "coisas" individuais estúpidas se comportem como se fossem um todo”.
(Clemente Nóbrega, 1999, citado por Augusto de Franco)
Em todo processo de auto-organização a diretiva é: aprenda com os outros. Não fomos educados para entender dessa forma. Ao chegar em qualquer organização a gente procura logo saber quem é o chefe. Há outro exemplo natural de Michel Crichton (2002) que é a organização dos cupins. Transcrevo abaixo.
“Os cupins africanos são um exemplo clássico. Esses insetos constroem montículos de terra semelhantes a um castelo com trinta metros de diâmetro e espirais que se projetam seis metros no ar. Para apreciar sua realização é preciso imaginar que, se os cupins tivessem o tamanho de pessoas, esses montes de terra seriam arranha-céus com um quilômetro e meio de altura e oito quilômetros de diâmetro. Assim como um arranha-céu, o cupinzeiro possuía uma intricada arquitetura interna para proporcionar ar fresco, remover o excesso de calor e CO2, e assim por diante. Dentro da estrutura, há local apropriado para o cultivo de alimentos, aposentos para a realeza e espaço para até dois milhões de cupins. Não há dois cupinzeiros exatamente iguais; cada qual é construído individualmente para se adequar às exigências e vantagens de um determinado local. Tudo isso é conseguido sem nenhum arquiteto, nenhum mestre-de-obras, nenhuma autoridade central. Não há nem mesmo uma planta de construção codificada nos genes do cupim. Em vez disso, essas enormes criações são o resultado de regras relativamente simples que cada cupim segue em relação uns aos outros. (Regras como: ‘Se sentir o cheiro de que outro cupim esteve aqui, coloque um grão de areia neste lugar’). No entanto, o resultado poderia ser considerado mais complexo do que qualquer criação humana.” (Cf. CRICHTON, Michael (2002). Presa. Rio de Janeiro: Rocco, 2003).
Outra cristalização da nossa cultura nos ensina que a capacidade de liderar é ditada pelo grau educacional, ou seja, pelo nível de escolaridade. É evidente que há necessidade de uma base educacional para que a pessoa possa fazer uma interação na rede. Mas não se pode escolher um líder por concurso de títulos universitários. Também não se pode estabelecer uma relação direta entre nível de escolaridade com maior facilidade para estabelecer processos interativos, cooperativos em rede.
Outra coisa é a constatação de que a hierarquia, ou a autocracia, precisam de burocracias. E a prática tem demonstrado que quanto mais hierarquizada e burocratizada for um projeto, mais difícil é a sua implantação.
Fica claro que se o projeto for de disputa, de combate, de guerra, hierarquia e burocracia são indispensável. Se se trata de apropriar-se de alguma coisa, então precisamos cercá-la, murá-la, protegê-la contra os outros, aí sim sem hierarquia e sem burocracia a tarefa é impossível.
A seguir, transcrevendo na integra 2 parágrafos de Gustavo Franco, colocados em nossa rede, que não há como resumi-los. Sobre redes:
“Trata-se de um projeto que se desenvolve (e não apenas cresce); se trata de um projeto que se multiplica por contágio molecular, que agrega outras pessoas e grupos por afinidade e que se realiza por meio da cooperação; se trata de um projeto que não quer comandar nem controlar os outros e sim convencê-los a partir do diálogo e da conversação, então, para isso, a hierarquia e a burocracia serão não somente dispensáveis, mas contraproducentes”.
”A maioria dos nossos projetos de desenvolvimento social na AED não está baseada em controle porque, por incrível que pareça, nossos projetos, em geral, não objetivam obstruir, separar e excluir. Assim, os projetos nessa área podem ser organizados segundo um padrão de rede distribuída (a rigor, com graus de distribuição maiores do que de centralização). Se nós não percebemos isso, se nós não acreditamos nisso, não é por falta de cultura e sim por excesso de cultura hierárquico-autocrática.”
Vejam como os nossos partidos políticos estão longe disso. Mas é preciso haver um começo, e é exatamente o que estamos fazendo.
Texto escrito para a Oficina de Atualização política – OAP
WJ, em 03.12.08
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Se te interessar, criei um grupo - Nodo Recife/PE, dentro da E=R para mobilizar as pessoas de Recife sobre o tema, pensando inclusive nos eventos que o Augusto de Franco propôs para este ano e o próximo, a partir de maio.
Lí seu texto e francamente, gostei do que lí.
Moro em Recife há pouco tempo e observei que somos poucos por aqui. Gostaria de fazer contato para discutirmos sobre este assunto e outros que obviamente devamos ter em comum. Quando puder, faça contato.
Forte abraço,
Nilton.
Grande abraço Jansen extensivo a turma da OAP
Com Augusto de Franco e Raulino Oliveira fico seguro de estar em excelentes companhias. Conheço Augusto há 10 anos. Patricipei de várias iniciativas dele: trabalho pioneiro com DLIS, Seminários, Conferências, Cursos - sempre em boas causas e idéias novas. Palavras chaves que me fazem lembrar do intelectual Augusto de Franco: democracia, liberdade, consenso, redes, poder local, minorias, por aí.
Raulino é companheiro de sempre no PPS, mas somente há pouco tempo estreitamos o convívio, a partir de uma identificação pelo interesse por redes. Aprendi muito de lá para cá.
Espero trocar idéias com os amigos através dessa Escola de Redes.
Obrigado pelo convite. Wilame Jansen