Escola de Redes

ITINERÁRIOS DE LEITURAS FUNDAMENTAIS (6): FRANCO (2006-2009)

Augusto de Franco (2007)

No velho site inicial da escola - hoje aposentado, por vários motivos, sendo que o principal foi a falta de interatividade - demos o pontapé inicial, postando dois itinetários: o que havia preparado David de Ugarte (em meados de 2008) e aquele que eu já havia feito (de abril de 2006 a março de 2007).

Meu itinerário intitulava-se INDICAÇÕES DE LEITURAS SOBRE DESENVOLVIMENTO. Agora, em janeiro de 2009, estou tentando refazê-lo, para explicitar melhor a relação com as redes sociais.

Vou recomendar as leituras que, a meu ver – ou seja, do ponto de vista que esposei no meu livro “Capital Social” (2001) –, são úteis para uma compreensão básica da nova concepção de desenvolvimento, compreendendo backgrounds (no sentido em que a moderna análise de fundamentos de teorias físicas emprega o termo), pressupostos e teorias, destacando sempre dois níveis: leituras fundamentais e leituras de aprofundamento.

INTRODUÇÃO

Durante muito tempo adiei a tarefa de escrever um texto com indicações de leituras sobre a nova concepção sistêmica de desenvolvimento e seus conceitos correlatos, como capital social ou rede social. Em primeiro lugar porque dá muito trabalho fazer isso se se trata não apenas de listar formalmente uma bibliografia e sim de orientar a leitura dos interessados no tema a partir de uma classificação que tenha sentido pedagógico ou científico, no quadro da literatura de divulgação e da bibliografia teórica fundamental. Indicações de leitura envolvem juízos sobre o que é mais importante. E o que é importante segundo uma visão pode não ser tão importante assim segundo outra.

Alexis de Tocqueville

Jane Jacobs



Por exemplo, para mim o livro mais importante sobre capital social – do ponto de vista, vamos dizer, da pré-história do conceito e dos seus elementos fundantes – é o clássico “A Democracia na América” (1835-1840) de Alexis de Tocqueville. Seguido por outro clássico, “Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas” (1961) de Jane Jacobs. Avalio que estudar esses dois textos é muito mais relevante do que ir “procurar pêlo em ovo” em Lyda Hanifan (1916; tida e havida, não sei bem por que, como importante pelo fato de ter sido, segundo dizem, a primeira pessoa a usar o termo ‘capital social’), em Ivan Light (1972) ou em Glenn Loury (1977; 1987). Mas é claro que há uma visão por trás dessa escolha. Penso que, dessas todas, a única pessoa – antes do final da década de 1980 – que empregou a expressão ‘capital social’, com o sentido que hoje atribuímos ao conceito, foi Jane Jacobs. Também não dou muito destaque a Pierre Bordieu (1980; 1985), considerado, com alguma razão, um dos pioneiros da idéia ou a James Coleman (1988; 1990), conquanto reconheça neste último o mérito de ter introduzido o debate nos círculo dos teóricos (em geral dos sociólogos que queriam ser levados a sério pelos economistas) do desenvolvimento.



O segundo motivo pelo qual vinha adiando a tarefa é a falta de tempo para ler tudo o que é produzido, aliada à falta de coragem para recomendar muita coisa que não tenha sequer folheado. Assim, é difícil fazer indicações atualizadas em assunto tão novo sem manter uma defasagem de, pelo menos, quatro ou cinco anos. Aqui é bom lembrar que não se trata de recomendar a leitura de trabalhos que abordam diretamente a questão da nova concepção de desenvolvimento (o que, mesmo assim, seria difícil), mas de apontar leituras básicas que também tenham a ver com os pressupostos e com as conseqüências dessa concepção, o que envolve necessariamente temas correlatos, que vão desde as teorias sobre a cooperação (envolvendo considerações sobre a ‘natureza humana’, seja lá o que isso for), passando pela teoria dos jogos, pela teoria dos sistemas dinâmicos complexos e muitos outros temas, até chegar às teorias mais recentes sobre redes sociais e sobre a democratização da democracia. Ou seja, o mundo todo e mais alguma coisa.

Resolvi, entretanto, enfrentar essas duas dificuldades por meio da seguinte simplificação. Vou recomendar as leituras que, a meu ver – ou seja, do ponto de vista que esposei no meu livro “Capital Social” (2001; aliás o primeiro livro sobre o assunto publicado no Brasil; hoje, quase cinco anos depois, temos apenas mais um, que mencionarei adiante) –, são úteis para uma compreensão básica da nova concepção de desenvolvimento, compreendendo backgrounds (no sentido em que a moderna análise de fundamentos de teorias físicas emprega o termo), pressupostos e teorias, destacando sempre dois níveis: leituras fundamentais e leituras de aprofundamento. Em alguns temas, como capital social, vou fazer indicações de leituras recentes (com uma defasagem de alguns anos, pelo motivo que já expus acima).

Nas leituras fundamentais – para cada uma das categorias consideradas (ou seja, A -Backgrounds, B – Pressupostos, C – Teorias) – vou restringir arbitrariamente o elenco a algo que seja factível e, portanto, útil ao leitor não-especialista e que não pode dedicar todo o seu tempo de vida ao assunto, como se estivesse respondendo a pergunta: se o leitor vivesse em um reino (um reino mesmo, para ficar mais prosaico e porque, obviamente, deveria ser uma autocracia) onde houvesse uma regra segundo a qual uma pessoa só pudesse ler dez textos sobre um mesmo assunto, quais os textos que você recomendaria?


PARA QUEM NÃO TEM MUITO TEMPO

Antes de começar propriamente as indicações de leituras segundo o esquema apresentado acima, aduzo, nesta segunda edição do presente artigo, uma listinha para quem não tem muito tempo. É uma lista selecionadíssima (e básica) para quem só tem tempo de ler uma dúzia de obras (não muito complexas), já colocada em ordem, vamos dizer, pedagógica:

1 | Offe, Claus (1999). “A atual transição da história e algumas opções básicas para as instituições da sociedade”, in Bresser Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. “Sociedade e Estado em transformação”. Brasília: ENAP, 1999.

2 | Castells, Manuel (1996). “A Era da Informação: economia, sociedade e cultura”, em três volumes: “A sociedade em rede”, “O poder da identidade” e “Fim de milênio”. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

3 | Fukuyama, Francis (1999). “A grande ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social”. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

4 | Franco, Augusto (2001). “Uma teoria da cooperação baseada em Maturana” in “Aminoácidos 4”. Brasília: AED, 2002.

5 | Tocqueville, Alexis (1835-1840). “A democracia na América”. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

6 | Jacobs, Jane (1961). “Morte e vida das grandes cidades”. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

7 | Putnam, Robert (1993). “Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna”. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.

8 | Ormerod, Paul (1994). “A morte da economia”. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

9 | Capra, Fritjof (1996). “A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos”. São Paulo: Cultrix, 1997.

10 | Margulis, Lynn (1998). “O Planeta Simbiótico: uma nova perspectiva da evolução”. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

11 | Johnson, Steven (2001). “Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

12 | Ugarte, David (2007). "O Poder das Redes". Porto Alegre: CMDC/EdiPUCRS, 2008.

13 | Franco, Augusto (2007). "Alfabetização Democrática". Curitiba: FIEP/Rede de Participação Política do Empresariado, 2007.

Em um ano de leituras não seria difícil cumprir tal programa introdutório. Recomendaria como guia o meu artigo “Capital social e desenvolvimento local” (in Vergara, Patrício (org.). “Desenvolvimento endógeno: um novo paradigma para a gestão local e regional”. Fortaleza: IADH, 2004).

ABRINDO A CABEÇA

O que é necessário para compreender a nova concepção de desenvolvimento? Em primeiro lugar, abrir a cabeça. Uma nova concepção sistêmica tem a ver com a compreensão dos sistemas, das redes, da simbiose, da emergência e da inteligência coletiva. Como leituras fundamentais, recomendaria inicialmente as seguintes obras de divulgação (mantendo o limite de dez indicações, classificadas abaixo em ordem temporal):

A1) Backgrounds (leituras fundamentais)

Humberto Maturana

1 | Maturana, Humberto e Varella, Francisco (1973). De máquinas e seres vivos – autopoiesis: a organização do vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

William Irwin Thompson

2 | Thompson, William Irwin (org.) (1987). “Gaia: uma teoria do conhecimento”. São Paulo: Gaia-Global, 1990.

3 | Gleick, James (1987). “Caos: a criação de uma nova ciência”. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

4 | Maturana, Humberto & Verden-Zöller, Gerda (1993). “Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia”. Santiago de Chile: Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.



5 | Capra, Fritjof (1996). “A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos”. São Paulo: Cultrix, 1997.

6 | Levy, Pierre (1994). “A inteligência coletiva. Por uma antropologia do ciberespaço”. São Paulo: Loyola, 1998.

Lynn Margulis

7 | Margulis, Lynn (1998). “O Planeta Simbiótico: uma nova perspectiva da evolução”. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

8 | Lewontin, Richard (1998). A tripla hélice. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

9 | Gladwell, Malcolm (2000). “O ponto de desequilíbrio: como pequenas coisas podem fazer uma grande diferença”. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

10 | Johnson, Steven (2001). “Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

Como se pode ver, não há seqüência compreensível na lista acima. Os assuntos estão misturados. São textos de divulgação (talvez com exceção do primeiro e do sexto), para fazer pensar. Uma indicação de ordem de leitura inicial poderia ser: 1º) Gleick (3) –> 2º) Capra (5) –> 3º) Gladwell (9) –> 4º) Johnson (10). Depois o leitor estabeleceria, para os seis restantes, a ordem que lhe parecesse mais instigante. O único livro difícil é o de Maturana (1).

Para quem está muito fixado nos temas econômicos recomendaria trocar Levy (6) ou Maturana (4) por Ormerod, Paul (1994). “A morte da economia”. São Paulo: Companhia das Letras, 1996 (um livro que, de qualquer modo, não deveria ser ignorado). Não tem nada a ver uma coisa com a outra, eu sei. O objetivo desta primeira investida de leituras e desarrumar a cabeça que foi mal-arrumada pela escola e pela universidade.

CAPTANDO O “DNA” DO TEMA

Pedro Doria, no caderno Link do jornal O Estado de São Paulo (22/05/06), transcreve “o tamanho do conhecimento humano, segundo os cálculos de engenheiros entrevistados pelo repórter Kevin Keller para a revista dominical do New York Times”.

É claro que esse tipo de conta só poderia mesmo ser coisa de engenheiro. Mas segundo a matéria, “os números são os seguintes: 32 milhões de livros, 750 milhões de artigos, 25 milhões de músicas, 500 milhões de imagens, 500 mil filmes, 3 milhões de vídeos e 100 bilhões de paginas da web”. O texto de Pedro Doria é sobre “A digitalização dos livros”, título do artigo. Ele argumenta que “a biblioteca com todo o conhecimento não é mais tão impossível, evidentemente”. Poderíamos acrescentar: todo o conhecimento armazenado em mídias não-vivas, pois, como diz um provérbio africano, ”quando um homem morre é como se uma biblioteca inteira se incendiasse”. Ou poderíamos discutir que o conhecimento não é exatamente o que foi armazenado, mas alguma coisa – necessariamente uma mensagem, considerando que, como nos ensinou Norbert Wienner, um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal – que, uma vez acessada, é recriada pelo sujeito que interage com o registro, de modo adaptativo.

Doria escreve que “todo o conhecimento humano cabe em 50 petabytes. Um prédio de dois andares armazena esses discos todos”, atualizando o sonho de uma nova biblioteca de Alexandria. Por outro lado, “quando tudo estiver digitalizado e pessoas começarem a fazer buscas cruzadas e a enlaçar links, o conhecimento fatalmente se expandirá”. É possível. Contudo, às vezes penso que alguns textos podem resumir milhões de outros; ou melhor, que um determinado padrão de conhecimento (ou ‘modo-de-conhecer’) está presente em toda a literatura de um determinado tipo de civilização. Os livros e artigos de que fala Doria são os que foram escritos a partir do início da escrita na Suméria. Talvez contenham o mesmo “DNA”. Coisa diferente seria ter acesso, por exemplo, à cultura Vinca, que floresceu nos Balcãs, há 7 mil anos e que possuía uma forma de “escrita” simbólica, não alfabética, que não se registrava segundo os padrões originários da escrita pictográfica. Ou, para citar outro exemplo, a cultura das aldeias agrícolas neolíticas, desenvolvida durante os 4 milênios imediatamente anteriores do surgimento das cidades (na verdade, do Estado) e do que é considerado como “civilização”, na antiga Mesopotâmia, da qual desconhecemos as formas de registro ou, pelo menos, não sabemos “lê-las” adequadamente nos achados arqueológicos (utensílios e ferramentas, pinturas e esculturas, monumentos e outras construções).

Esse mesmo fenômeno deve se reproduzir no tocante a um determinado assunto. Uma vez apreendido o modo de abordagem e os modelos mentais subjacentes aplicados a um tema, o estudioso se apropria do tema (ou do “DNA” do estudo do tema), sem necessidade de ler tudo o que se escreveu sobre o assunto. Do contrário não seria possível construir conhecimento novo sobre um tema, pois que é praticamente impossível – em boa parte dos casos, na contemporaneidade – ler tudo o que já se escreveu sobre um assunto quando, a rigor, seria necessário, paradoxalmente, conhecer tudo, ou quase.

Mas, a rigor, também não é possível saber o quanto uma pessoa deve ler e o quê ela deve ler para se qualificar como contribuinte de conhecimento novo sobre um assunto, a não ser seguindo o julgamento de outras pessoas que já dominam o tema. E essas pessoas, em geral, têm recomendações distintas, porquanto baseadas nas suas próprias experiências, quer dizer, no caminho particular de leituras que fizeram.

Num universo de 32 milhões de livros e 750 milhões de artigos, fico refletindo sobre a minha dificuldade de selecionar não mais do que 80 textos sobre um assunto específico: a nova concepção sistêmica de desenvolvimento. Toda dificuldade se resume em saber o que será necessário ler para captar o “DNA” do tema (ou, melhor, do estudo do tema).

A2) Backgrounds (leituras de aprofundamento)

1 | Axelrod, Robert. “The evolution of cooperation”. New York: Basic Books, 1984.

2 | Thompson, William Irwin (ed.). “Gaia 2 – Emergence: the new science of becoming”. New York: Lindisfarne Press, 1991.

3 | Gell-Mann, Murray (1994). “O quark e o jaguar: aventuras no simples e no complexo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

4 | Cowan, George, Pines, David & Meltzer, David (eds.). “Complexity: metaphors, models and reality”. Cambridge, MA: Perseus Books, 1994.

Stuart Kauffman

5 | Kauffman, Stuart. “At home in the universe: the search for laws of self-organization and complexity”. New York: Oxford University Press, 1995.

6 | Holland, John. “Hidden order: how adaptation builds complexity”. Cambridge, MA: Helix Books, 1995.

7 | Axelrod, Robert. “The complexity of cooperation: agent-based models of competition and collaboration”. New Jersey: Princeton University Press, 1997.

8 | Holland, John. “Emergence: from chaos to order”. Reading, MA: Perseus Books, 1998.

9 | Axelrod, Robert & Cohen, Michael. “Harnessing complexity: organizational implications of a scientific frontier”. New York: Basic Books, 2000.

10 | Thompson, William Irwin. “Self and society: studies in the evolution of consciousness”. Charlottesville, VA: Imprint Academic, 2004.

11 [Opcional] | Kauffman, Stuart. “The origins of order: self-organization and selection in evolution”. New York: Oxford University Press, 1993.

A indicação de número 11 (que transborda da lista dos dez prometidos), assim como a indicação 4, se referem a textos bem mais difíceis, que foram recomendados aqui por se tratarem já de clássicos do assunto, se é que se pode falar assim de estudos ainda tão na fronteira do conhecimento sobre complexidade e auto-organização.

Estou assumindo, como parece óbvio, que o background científico stricto sensu de uma nova concepção sistêmica de desenvolvimento é constituído, basicamente, pelos conhecimentos sobre complexidade e auto-organização ou emergência. Com isso estou deixando fora dessa categoria os conhecimentos sobre sistemas anteriores à descoberta da complexidade – tal como passou a ser tratada pelo Santa Fe Institute –, não porque esteja partindo da hipótese de que tais conhecimentos não são mais relevantes e sim porque penso que o núcleo fundamental da nova maneira de olhar os sistemas dinâmicos pode ser deduzido, latu sensu, das teorias mais recentes (sobretudo dos anos 90 para cá). É evidente que algumas obras sobre teoria dos sistemas e dinâmicas complexas mereceriam menção, quando menos pelo seu papel pioneiro. Vêm-me à cabeça agora três clássicos importantes, que cumpriram importante papel na minha própria formação:

Norbert Wiener

Wienner, Norbert. “Cybernetics”. New York: Wiley, 1948.

Ludwig von Bertalanffy

Bertalanffy, Ludwig Von (1968). “Teoria geral dos sistemas”. Petrópolis: Vozes, 1975.

Ross Ashby

Ashby, Ross. “Uma introdução à cibernética”. São Paulo: Perspectiva, 1970.

Deixei de fora, ademais, uma extensa literatura que surgiu no século 20, que faz parte da ascensão do pensamento sistêmico e que o leitor pode recuperar, sem dificuldade, nos capítulos 2, 3 e 4 do livro de Fritjof Capra indicado na primeira lista (A1: 5): a “Tectologia” de Alexander Bogdanov (1912-1917); a “Teoria Geral dos Sistemas” de Bertalanfyy (já lembrada acima), a “Cibernética” (Wienner, também já lembrado, além de Von Neummann, Shannon e McCulloch) e, depois, os trabalhos correlatos (ou correlacionáveis) de von Foerster, Prigogine, Haken, Eigen, Lovelock, Margulis, Maturana e Varela – alguns dos quais (os mais óbvios) já indicados por mim. Para quem nutre algum interesse histórico pela matéria ou avalia que revisitar os clássicos pode despertar um inusitado potencial heurístico (eu, por exemplo, acredito firmemente nisso), o melhor é pegar o excelente “The web of life” de Capra (1996) e repetir, passo-a-passo, o seu caminho de leituras. Talvez Capra devesse refazer agora – dez anos depois – o mesmo trabalho. Talvez, se fizesse isso, incluiria boa parte da segunda lista (A2).

A maioria dos livros acima não está traduzida para o português. Talvez haja alguma coisa em espanhol (mas não tive tempo de verificar). Infelizmente não é possível ter uma boa idéia do assunto lendo apenas as duas traduções indicadas acima.

Volto a afirmar que as leituras indicadas na primeira lista (A1) se referem, em sua maioria, a obras de divulgação. Seu papel, como disse acima, é o de desarrumar a cabeça que foi mal-arrumada pela escola e pela universidade. (Aliás, nessa categoria de “desarrumar a cabeça” teria ainda outras indicações importantes: leia tudo o que puder de William Irwin Thompson: “At the edge of history” (1971), “Passages about Earth” (1973) e sobretudo “Transforming history” (2001); pelo menos dois livros de Howard Bloom: “The Lucifer Principle” (1995) e “Global Brain” (2000); a formidável obra de Kevin Keller: “Out of control” (1994); e até o já velho livro de Starhawk: “Dreaming the dark” (1982) – depois disso, garanto, você não terá mais tanta certeza sobre a utilidade do que lhe ensinaram nas escolas, em especial se conseguir ler o último livro de Thompson indicado acima, do qual traduzi e publiquei o segundo capítulo, “Cultural history and complex dynamical systems”, na ‘Carta Capital Social 97’).

Para começar a entrar no nosso assunto para valer, entretanto, é necessário – por mais árduo que seja – ler as obras indicadas na segunda lista (A2), pelo menos as de número: (5), (6), (8) e (9). Avalio quem levar a sério o estudo dessas obras terá boas chances de captar o que chamei de “DNA” do estudo do tema.

Nesta segunda lista (A2), os livros aparecem em ordem cronológica e não em ordem de complexidade crescente, como deveria constar numa recomendação com pretensões pedagógicas. Uma ordem possível, nesse sentido, seria: (10) => (3) => (2) => (5) => (6) => (8) => (1) => (7) => (9) => (4) [=> (11)].

Para finalizar, relembro que adotei uma classificação simplificada, que inclui apenas três categorias: A) backgrounds (no sentido em que a moderna análise de fundamentos de teorias físicas emprega o termo), B) pressupostos e C) teorias (destacando sempre dois níveis: leituras fundamentais e leituras de aprofundamento). Sobre cada um dos temas acima, estou fazendo apenas 10 indicações [e mais uma ou duas opcionais, fora da conta], o que resultará numa lista bibliográfica básica de 80 textos.

VENDO O QUE ESTÁ POR BAIXO

Antes de qualquer coisa quero dizer que tomo como pressupostos de uma concepção sistêmica de desenvolvimento, as diferentes hipóteses sobre alguma coisa que se possa chamar de “natureza humana” (e não resisto à tentação de acrescentar o batido chiste: seja lá o que isso for). Sobre a natureza da ‘natureza humana’ – uma discussão infindável, na qual não vou entrar – retenho apenas o que as teorias da cooperação (e, por reflexo, as da competição) diretamente relacionadas com as teorias da evolução, em termos biológicos mesmo, têm a dizer sobre o assunto. Temos visões biológicas competitivas e visões biológicas cooperativas (e temos também as visões supostamente equilibradas, que na verdade não resolvem o problema – porque não entram no problema – segundo as quais o ser humano não seria nem inerentemente competitivo, nem cooperativo). Uma boa leitura para colocar o problema é a que faz o zoólogo Matt Ridley (um dos indicados por mim na lista abaixo) em “As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade” (1996).

Ridley mostra, em uma passagem que já citei uma dezena de vezes, que “Thomas Hobbes foi o antepassado intelectual de Charles Darwin em linha direta”. Essa observação tem grande importância para o nosso propósito. Continua Ridley: “Hobbes (1651) gerou David Hume (1739), que gerou Adam Smith (1776), que gerou Thomas Robert Malthus (1798), que gerou Charles Darwin (1859). Foi depois de ler Malthus que Darwin deixou de pensar sobre competição entre grupos e passou a pensar sobre competição entre indivíduos, mudança que Smith fizera um século antes. O diagnóstico hobbesiano – embora não a receita – ainda está no centro tanto da economia quando da biologia evolutiva moderna (Smith gerou Friedman; Darwin gerou Dawkins). Na raiz das duas disciplinas está a noção de que, se o equilíbrio da natureza não foi projetado de cima mas surgiu de baixo, não há motivo para pensar que se trata de um todo harmonioso. Mais tarde, John Maynard Keynes diria que “A origem das espécies” é “simples economia ricardiana expressa em linguagem científica”. E Stephen Jay Gould disse que a seleção natural “era essencialmente a economia de Adam Smith vista na natureza”. Karl Marx fez mais ou menos a mesma observação: “É notável”, escreveu ele a Friedrich Engels, em junho de 1862, “como Darwin reconhece, entre os animais e as plantas, a própria sociedade inglesa à qual pertence, com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, ‘invenções’ e a luta malthusiana pela existência. É a bellum omnium contra omnes de Hobbes”.”

Como, em geral, o tema do desenvolvimento é tratado pela economia, precisamos revolver o que está por baixo – ou seja, exatamente os pressupostos e os fundamentos – do pensamento econômico, se quisermos construir uma nova concepção de desenvolvimento. A ideologia econômica (a rigor o que em língua inglesa se chama economics é uma ideologia, pelo menos no que tange às suas presunções sobre a natureza competitiva do ser humano) está assentada numa visão biológica. Ou será, mais provavelmente, o inverso, como sugere Matt Ridley. Mas dá no mesmo. Se eu imagino que posso explicar o comportamento das coletividades a partir do comportamento dos indivíduos e se eu tomo como premissa que os indivíduos se movem a partir de escolhas racionais para maximizar a obtenção dos seus interesses e, ainda, que, ao fim e ao cabo, tais interesses são materiais e fundamentalmente egotistas, então estou no campo do discurso que projeta um padrão de ordem social sobre a natureza para naturalizar as relações sociais com o objetivo de pegar o rebote (ou seja, para legitimar padrões de ordem social a partir de um suposto comportamento natural). E isso, está claro, não pode ser nada além de pura ideologia.

Como os neodarwinistas desceram até ao nível do gene, numa construção – como faz Dawkins – para mostrar que os próprios genes seriam egoístas, então, para entrar no assunto, será necessário ler também alguma coisa sobre isso. Mas não apenas as escrituras neodarwinistas que se tornaram sagradas nas academias que demonizaram as velhas escrituras antidarwinistas (como as criacionistas, por exemplo) e sim também o seu contraponto moderno, poder-se-ia dizer, pós-darwinista.

O velho debate sobre a evolução darwinista versus as visões lamarkianas ou àquelas que sacavam alegações religiosas (de certo modo, todas essas também, de algum modo, criacionistas) para contradizer as descobertas de Darwin ou a sua interpretação, não está mais na pauta, porquanto não leva em conta que o modelo variacional de desenvolvimento não pode ser superado por qualquer modelo transformacional (nem pelo criacional) e sim por um modelo regulacional – o único compatível, a meu ver, com uma concepção sistêmica de desenvolvimento e, a rigor, o único compatível com a vida como teia de relações, como rede capaz de conservar a adaptação, mudando de acordo com a mudança das circunstâncias (o que vale tanto para organismos e partes de organismos, quanto para ecossistemas).

Tudo isso é para dizer que os fundamentos foram buscados tão fundo pelos ideólogos da economia (e, por conseqüência, do desenvolvimento), que não nos resta alternativa senão mergulhar, para começar, na velha pergunta do físico Erwin Schrödinger – ‘o que é a vida?’ – feita ainda em 1943 e que abriu o futuro da biologia. Foi o que fez Humberto Maturana, que ensaiou, a partir daí, uma teoria da cooperação compatível com a noção de capital social. Foi o que fez, também, Lynn Margulis (que, aliás, publicou, com Dorian Sagan, um livro com o mesmo nome daquele do célebre trabalho do famoso Prêmio Nobel de Física, quarenta e três anos depois). A autopoiese de Maturana e a simbiogênese (e a simbiose) de Margulis constituem, de fato, construções alternativas (regulacionais) à seleção (variacional) de Darwin, sem se renderem ao transformacionismo. Maturana, Margulis (e talvez se possa incluir aqui Lovelock), devem constituir “o nosso novo Darwin” – o repositório de idéias biológicas ancoradoras, vamos dizer assim – dos que querem trabalhar com uma concepção sistêmica de desenvolvimento, ou seja, dos que querem avançar de uma economia do desenvolvimento para uma ecologia do desenvolvimento (pois uma concepção sistêmica de desenvolvimento é, necessariamente, uma ecologia do desenvolvimento).

Além disso, quer dizer, além das teorias da cooperação lastreadas em visões da evolução biológica, os pressupostos de uma concepção sistêmica de desenvolvimento devem consultar também o estudo das redes. Como disse Margulis em 1998 (em “Microcosmos”), “a vida não se apossa do globo pelo combate e sim pela formação de redes”. Só redes podem conservar a adaptação como função de integração: em outras palavras, só redes podem ser sustentáveis. Sistemas complexos dinâmicos capazes de sustentabilidade têm a morfologia e a dinâmica de rede. Dessarte, dentre os pressupostos de uma nova concepção sistêmica de desenvolvimento deveria constar o que já se conhece sobre o assunto.

No entanto, infelizmente, não cabe, nas vinte indicações de pressupostos, a bibliografia básica sobre redes. Ou abrimos uma nova categoria (como, por exemplo, a de fundamentos) ou incorporamos o estudo das redes na categoria de teorias do desenvolvimento. Vou optar pela segunda alternativa.

Então vamos às nossas listinhas de pressupostos:

B1) Pressupostos (leituras fundamentais)

Erwin Schrödinger

1 | Schrödinger, Erwin. “What is life?”. Cambridge: Cambridge University Press, 1944.



2 | Lovelock, James. “Gaia: a new look at life on Earth”. Oxford: Oxford University Press, 1979.

James Lovelock

3 | Lovelock, James (1988). “As eras de Gaia”. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

4 | Murphy, Michael & O’Neill, Luke (orgs.) (1995). “’O que é a vida?’ 50 anos depois: especulações sobre o futuro da biologia”. São Paulo: Unesp/Cambridge, 1997.

5 | Margulis, Lynn & Sagan, Dorion (1998). “O que é a vida?”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

6 | Keller, Evelyn Fox (2000). “O século do gene”. Belo Horizonte: Crisálida, 2002.

7 | Ridley, Matt (1996). “As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade”. Rio de Janeiro: Record, 2000.

8 | Wright, Robert (1994). “O animal moral. Por que somos como somos: a nova ciência da psicologia evolucionista”. Rio de Janeiro: Campus, 1996.

9 | Wright, Robert (2000). “Não-Zero: a lógica do destino humano”. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

10 | Franco, Augusto (2001). “Uma teoria da cooperação baseada em Maturana” in “Aminoácidos 4”. Brasília: AED, 2002.

A ordem da lista acima é meramente cronológica e não deve ser seguida. O ideal seria ler os livros indicados na seguinte seqüência: (1) => (4) => (5) => (2) => (3) => (6) => (7) => (8) => (9) => (10).

B2) Pressupostos (leituras de aprofundamento)

Para aprofundar, um bom exercício seria ler o fundamental de Richard Dawkins e, depois, logo em seguida, ler os questionamentos de Mae-Wan Ho e Richard Strohman, para então voltar à Humberto Maturana (com duas obras já indicadas na lista A1), Lynn Margulis (com uma obra indicada na lista A1) e James Lovelock (as duas obras indicadas na lista B1). Assim nasceu a seguinte lista B2:

Richard Dawkins

1 | Dawkins, Richard (1976). “O gene egoísta”. Belo Horizonte: Itatiaia, 2001.

2 | Ho, Mae-Wan & Saunders, P. T. (orgs.). “Beyond Darwinism: introduction to the new evolutionary paradigm”. London: Academic Press, 1984.

3 | Dawkins, Richard (1986). “O relojoeiro cego”. Lisboa: Edições 70, 1988.

4 | Ho, Mae-Wan & Fox, S. W. (orgs.). “Evolutionary processes and metaphors”. London: Wiley, 1988.

5 | Dawkins, Richard (1995). “O rio que saia do Éden: uma visão darwiniana da vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

6 | Dawkins, Richard (1996). “A escalada do monte improvável”. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

7 | Strohman, Richard. “The coming kuhnian revolution in biology”. Nature Biotechnology, vol. 15, mar., 1997.

8 | Ho, Mae-Wan. “Genetic engineering: dream or nightmare?”. Bath: Gateway Books, 1998.

9 | Dawkins, Richard (1998). “Desvendando o Arco-Íris”. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

10 | Dawkins, Richard (1999) “The extended phenotype”. New York: Oxford University Press, 1999.

11 e 12 [Opcionais] | Maturana e Margulis (Opera omnia).

A ordem de leitura, obviamente, deveria ser aquela já indicada: (1) => (3) => (5) => (6) => (9) => (10) => (2) => (4) => (7) => (8) => [(11) => (12)].

Maturana é um capítulo à parte. Indiquei na lista B1 o meu resumo republicado em 2002 (pois na verdade ele apareceu inicialmente em um capítulo do livro “Capital Social”, que saiu em 2001), apenas porque não conheço outro tão abrangente e tão focado no assunto. Mas, na verdade, seria bom ler tudo de Maturana (cerca de 14 textos) que ali se indica. O mesmo vale para Lynn Margulis (com 8 textos). Toda essa bibliografia está no final do citado artigo (10º da lista B1) e não vou reproduzi-la aqui, como dizia Isaac Newton, por amor a brevidade.

Os que querem investigar o assunto, trabalhando na fronteira para produzir conhecimento novo com o fito de construir pressupostos alternativos de uma concepção sistêmica de desenvolvimento, deveriam, a meu ver, estudar também a chamada memética. Sou dos que acreditam que se deve levar muito a sério a “nova ciência dos memes”. Os memes seriam unidades auto-replicadoras, análogas aos genes, que poderiam ser encaradas como idéias complexas, como escreveu Daniel Dennett (1998, ver abaixo): “unidades memoráveis distintas… unidades culturais mais ou menos identificáveis… [e essas unidades de transmissão cultural ou unidades de imitação] são os menores elementos que se replicam com confiabilidade e fecundidade”.

Cabe ressaltar que a memética é uma teoria neodarwinista porque apareceu assim, em virtude de um insight genial de Dawkins em 1976. Mas isso não significa que deva permanecer assim. Talvez seja possível reconstruir uma teoria dos memes a partir da visão regulacional – conforme a perspectiva sistêmica – se colocarmos o papel da rede social na gestação de padrões (mensagens) que se replicam. Ando trabalhando nisso (na verdade, mais pensando sobre – ou sob – o assunto) há uns quatro anos, embora não tenha feito ainda qualquer progresso significativo.

Fora da lista principal, segue aqui – para quem está realmente interessado no assunto – mais uma listinha, a minha listinha memética como uma variante da lista B2, que vou chamar de Lista B2’:

1’ | O livro de Dawkins (1976), já mencionado acima.

2’ | Lynch, Aaron. “Thought contagion: how belief spreads through society”. New York: Basic Books, 1996.

3’ | Brodie, Richard. “Vírus of the mind: the new science of the meme”. Seattle: Integral Press, 1996.

4’ | Balkin, J. M. “Cultural software: a theory of ideology”. New Haven: Yale University Press, 1998.

5’ | Dennett, Daniel (1995). “A perigosa idéia de Darwin: a evolução e os significados da vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

6’ | Blackmore, Susan. “The meme machine”. New York: Oxford University Press, 1999.

7’ | Aunger, Robert (ed.). “Darwinizing culture: the status of memetics as a science”. New York: Oxford University Press, 2000.

8’ | Godin, Seth. “Unleashing the ideavirus”. New York: Hyperion, 2001.

9’ | Aunger, Robert. “The eletric meme: a new theory of how we think”. New York: The Free Press, 2002.

10’ | Dennett, Daniel. “Freedom evolves”. New York: Viking, 2003.

SOBRE REDES

Vimos acima que além das teorias da cooperação lastreadas em visões da evolução biológica, os pressupostos de uma concepção sistêmica de desenvolvimento devem consultar também o estudo das redes. Como disse Margulis em 1998 (em “Microcosmos”), “a vida não se apossa do globo pelo combate e sim pela formação de redes”. Só redes podem conservar a adaptação como função de integração: em outras palavras, só redes podem ser sustentáveis. Sistemas complexos dinâmicos capazes de sustentabilidade têm a morfologia e a dinâmica de rede. Dessarte, dentre os pressupostos de uma nova concepção sistêmica de desenvolvimento deveria constar o que já se conhece sobre o assunto.

Duas confusões são muito comuns na literatura sobre redes. As pessoas chamam de rede tanto a uma forma ou um tipo de organização voluntariamente construída para cumprir uma finalidade, em geral de natureza social e, ao mesmo tempo, a rede social que existe como fenômeno objetivo, independentemente dos esforços feitos por algum sujeito para tecê-la ou articulá-la.

Por variadas e complexas razões de ordem social e tecnológica, a sociedade humana está se conformando, cada vez mais, como uma rede (o que Castells chamou de sociedade-rede). Entretanto, a rigor, a rede social existe desde sempre, ou seja, desde que existem seres humanos se constituindo como tais na relação com outros seres humanos.

Ou seja, a rede social é o que propriamente chamamos de ‘social’. Não é agora que a sociedade está se constituindo como uma sociedade-rede. Toda vez que sociedades humanas não são invadidas por padrões de organização hierárquicos ou piramidais e por modos de regulação autocráticos, elas se estruturam como redes. O que ocorre na época atual é que a convergência de fatores tecnológicos (como a fibra ótica, o laser, a telefonia digital, a microeletrônica e os satélites de órbita estacionária), políticos, econômicos e sociais, está possibilitando a conexão em tempo real (quer dizer, sem distância) entre o local e o global e, assim, está tornando mais visível a rede social e os fenômenos a ela associados, ao mesmo tempo em que está acelerando e potencializando os seus efeitos, o que não é pouca coisa.

Isso não significa que as formas organizativas que queremos ensaiar em uma sociedade não possam também adotar voluntariamente o padrão de rede. Mas são duas coisas diferentes. Uma organização territorial, setorial ou temática voluntariamente construída recebe o nome de rede quando seus integrantes (pessoas, grupos e outras organizações) estão conectados entre si horizontalmente (ao contrário de como se organizam nas organizações hierárquicas ou em uma holding, por exemplo). Mas a denominação de rede não se aplica adequadamente a muitos esforços voluntários de construir redes, que em geral apenas disfarçam uma organização centralizada ou com um número insuficiente de caminhos, onde não podem se manifestar plenamente os fenômenos próprios da conexão em rede.

A rigor estamos caracterizando aqui como rede apenas as chamadas redes distribuídas (ao contrário das redes centralizadas e das redes descentralizadas) cuja topologia é P2P, ou seja, na qual os nodos estão ligados ponto a ponto e não a partir de um único centro (rede centralizada) ou de vários pólos (rede descentralizada). A novidade das redes se refere às redes distribuídas.

A outra confusão muito comum se refere à rede social. Nem toda rede é uma rede social. Existem muitos tipos de redes, dentre os quais os mais conhecidos e citados são as redes biológicas (a rede neural por exemplo, que conecta os neurônios no cérebro dos animais, ou a teia da vida que assegura a sustentabilidade dos ecossistemas, conectando micro-organismos, plantas e animais e outros elementos naturais) e a rede social (embora existem também redes de máquinas - como a rede mundial de computadores que chamamos de Internet - que são redes sociais na medida em que conectam pessoas). Há uma homologia entre esses diversos padrões organizativos, de sorte que, estudando-os, pode-se iluminar a compreensão do universo das conexões ocultas que produzem o que chamamos de social. Mas isso não significa que sejam a mesma coisa.

Estou incorporando esse campo dos pressupostos (sobre o estudo das redes sociais) na categoria de teorias.

C1) Teorias (Lista Geral)

1 | MATURANA, Humberto (1985). Desde la Biología a la Psicología. 3. ed. Santiago de Chile: Editorial Universitária, 1996.

2 | LIPNACK, Jessica & STAMPS, Jeffrey (1982/1986). Networks: redes de conexões. Aquariana: São Paulo, 1992.

3 | GUÉHENNO, Jean-Marie (1993). O fim da democracia. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

Pierre Levy

4 | LEVY, Pierre (1994). A inteligência coletiva. Por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998.

5 | CAPRA, Fritjof (1996). “A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos”. São Paulo: Cultrix, 1997.

6 | TAPSCOTT, Don (1996) The Digital Economy: Promise and Peril in the Age of Networked Intelligence. New York: McGraw-Hill, 1996.



7 | CASTELLS, Manuel (1996). A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

8 | STANDAGE, Tom (1998). The Victorian Internet. New York: Berkeley Books, 1998.

Manuel Castells

9 | CASTELLS, Manuel (1999). “Para o Estado-rede: globalização econômica e instituições políticas na era da informação” in Bresser Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. Sociedade e Estado em transformação. Brasília: ENAP, 1999.

Duncan Watts

10 | WATTS, Duncan (1999). Small worlds: the dynamics of networks between order and randomness. New Jersey: Princeton University Press, 1999.

11 | JACOBS, Jane (2000). A natureza das economias. São Paulo: Beca, 2001.

12 | ARQUILLA, John e RONSFELD, David (2000). Swarming and the Future of Conflict. USA: Rand Corporation, Office of the Secretary of Defense, 2000.

13 | ORAM, Andy (org.) (2001). Peer-to-peer: o poder transformador das redes ponto a ponto. São Paulo: Berkeley, 2001 (em especial o artigo de HONG, Theodore (2001). “Desempenho”).

14 | CASTELLS, Manuel (2001). A galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

15 | HIMANEN, Pekka (2001). The hacker ethic and the spirit of the information age. New York: Random House, 2001.

16 | LEVY, Steven (2001). Crypto: how the code rebels beat the government, saving privacy in the digital age. New York: Penguin Books, 2001.

17 | RAYMOND, Eric S. (2001). The Cathedral & the Bazaar: Musings on Linux and Open Source by an Accidental Revolutionary. New York: O’Reilly, 2001.

18 | CAPRA, Fritjof (2002). As conexões ocultas. São Paulo: Cultrix/Amana-Key, 2002.

19 | BARABÁSI, Albert-László (2002). Linked: how everything is connected to everything else and what it means. New York: Basic Books, 2002.

20 | WATTS, Duncan, DODDS, Peter & MUHAMAD, Roby (2002). “Um Estudo Experimental de Busca em Redes Sociais Globais”. Science (2 December 2002; accepted 23 May 2003 |10.1126/science.1081058): ver a edição de Franco, Augusto (2003), disponível – excertos – in ‘Carta Capital Social 107’.

21 | RHEINGOLD, Howard (2002). Smart mobs: the next social revolution. New York: Basic Books, 2002. (Existe edição em espanhol: Multitudes inteligentes. Madrid: Gedisa, 2004).

22 | BUCHANAN, Mark (2002). Nexus: Small Worlds and groundbreaking science of networks. New York: WWNorton, 2002.

23 | BARD, Alexander e SÖDERQVIST, Jan (2002). La netocracia: el Nuevo poder en la Red y la vida después del capitalismo. Espanha: Pearson Educación, 2005.

24 | WATTS, Duncan (2003). Six degrees: the science of a connected age. New York: W. W. Norton & Company, 2003.

25 | STROGATZ, Steven (2003). Sync: the emerging science of spontaneous order. New York: Hyperion, 2003.

26 | MARTINHO, Cássio (2003). Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF-Brasil, 2003.

27 | CROSS, Rob & PARKER, Andrew (2004). The hidden power of social networks: understanding how work really gets done in organizations. Boston: Harvard Business School Press, 2004.

28 | GARDNER, Susannah (2005). Buzz Marketting with blogs for dummies. New York: John Wiley, 2005.

29 | TAPSCOTT, Don e WILLIAMS, Anthony (2006). Wikinomics: como a colaboração em massa pode mudar o seu negócio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

30 | NEWMAN, Mark, BARABÁSI, Albert-László & WATTS, Duncan (eds.) (2006). The structure and dynamics of networks. New Jersey: Princeton University Press, 2006.

31 | UGARTE, David (2007). El poder de las redes: manual ilustrado para personas, colectivos y empresas abocados al ciberactivismo. Já existe tradução brasileira (editada como livro, em papel, com apresentação de Augusto de Franco): O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

32 | UGARTE, David, QUINTANA, Pere, GÓMEZ, Enrique y FUENTES, Arnau (2008). De las naciones a las redes, disponível (copión de trabajo) em: http://www.deugarte.com

33 | DUARTE, Fábio, QUANDT, Carlos e SOUZA, Queila (orgs.) (2008). O tempo das redes. São Paulo: Perspectiva, 2008.

34 | FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

35 | FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Tudo que é sustentável tem o padrão de rede - Sustentabilidade empresarial e responsabilidade corporativa no século 21. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008
.

C2) Teorias (leituras de aprofundamento sobre redes)

As leituras de aprofundamento Já estão na lista acima: Watts, Duncan (1999), Barabási, Albert-László (2002), Watts, Duncan, Dodds, Peter & Muhamad, Roby (2002), Rheingold, Howard (2002), Buchanan, Mark (2002), Watts, Duncan (2003), Strogatz, Steven (2003), Cross, Rob & Parker, Andrew (2004) e Newman, Mark, Barabási, Albert-László & Watts, Duncan (eds.) (2006).

Quem quiser ficar a par da discussão contemporânea sobre o assunto simplesmente não pode deixar de ler os textos indicados de Duncan Watts, Barabási, Mark Buchanan e Steven Strogatz. Quem quiser ajudar a difusão desses conhecimentos no Brasil poderia ajudar promovendo a tradução e a edição dos sete primeiros textos da lista C2 (acima).

Devo dizer que faltou aqui o extenso campo do conhecimento chamado Social Network Analysis, que já conta com algumas centenas de publicações importantes (quem quiser mais informações sobre o assunto deve consultar o site da INSNA – International Network for Social Network Analysis: www.insna.org – ou ler os livros de Stanley Wasserman, da Universidade de Illinois. Tenho dois muito bons: Wasserman, Stanley & Faust, Katherine (1994). “Social Network Analysis: methods and applications”. Cambridge: Cambridge University Press, 1999 e Wasserman, Stanley & Galaskiewicz (orgs.) (1994). “Advances in Social Network Analysis: research in the social and behavioral sciences”. Thousand Oaks: Sage Publications, 1994.

REDES E MODELOS DE DESENVOLVIMENTO

Parti do princípio de que uma nova concepção sistêmica de desenvolvimento é aquela que se baseia no investimento em um recurso sistêmico: a variável chamada ‘capital social’. Ora, capital social é rede social. Por isso se faz necessário, para começar a tratar do assunto no nível teórico, estudar as redes sociais.

O grande estadista grego Péricles (495-429 a. C.) – considerado um dos pais da democracia – usava a palavra “idiotes” para designar os atenienses que, alegando ter de cuidar de seus próprios assuntos, não participavam das reuniões para tratar de questões de interesse coletivo.

É incrível como, dois mil e quinhentos anos depois, continuamos cultuando uma cultura econômica que produz idiotas (no sentido grego – e original – do termo).

Tal é a cultura, ainda predominante, do desenvolvimento. Imaginamos que desenvolvimento é o resultado de crescimento econômico que se atinge em virtude de um dinamismo que se instala na sociedade quando cada indivíduo se lança na busca desenfreada pela satisfação de seus interesses materiais egoístas.

Modernamente justificamos essa crença lançando mão de uma teoria (darwiniana) da evolução, baseada em um modelo variacional da mudança. Na minha opinião, trata-se de uma perspectiva mercadocêntrica, quer dizer, centrada no mercado e que imagina que a “lógica” e a racionalidade do mercado dão conta de explicar o funcionamento das outras esferas da realidade social (ou dos outros tipos de agenciamento), como o Estado e a sociedade civil. Vamos ver melhor o que é isso.

O modelo variacional, segundo Lewontin (1998) – na obra que consta da nossa lista A1, com o número 8 –, se opõe ao modelo transformacional da mudança. Richard Lewontin, aborda tal diferença da seguinte maneira: “O termo desenvolvimento é uma metáfora que traz consigo um compromisso anterior quanto à natureza do processo. Desenvolvimento (development em inglês; Entwicklung em alemão; desarrollo em espanhol e sviluppo em italiano) é, literalmente, o desdobrar ou o desenrolar de algo que já está presente e em certo sentido pré-formado. Essa mesma palavra é utilizada em inglês para nomear o processo de revelar uma imagem fotográfica. A imagem já está imanente no filme, no interior da câmera, e o processo de revelação – development, em inglês – simplesmente torna visível a imagem latente. É exatamente essa a visão da biologia do desenvolvimento a respeito do desenvolvimento de um organismo. A moderna biologia do desenvolvimento é totalmente concebida em termos de genes e organelas celulares, cabendo ao ambiente apenas fazer as vezes de cenário. Considera-se que os genes no ovo fertilizado determinam o estado final do organismo, enquanto o ambiente em que o desenvolvimento ocorre é tão-somente um conjunto de condições propícias a que os genes se expressem, assim como o filme fotográfico, ao ser exposto, produzirá a imagem que nele já está imanente, quando colocado nos líquidos apropriados e na temperatura adequada”.

Lewontin prossegue afirmando que “o emprego do conceito de desenvolvimento para designar as mudanças pelas quais um organismo passa durante a sua vida não é simplesmente um caso em que a linguagem disponível influencia o conteúdo das idéias. Quando se decidiu transformar uma língua antiga, o hebreu, em língua moderna, dotada de vocabulário técnico, a palavra escolhida para designar o desenvolvimento de um organismo – Lehitpateach – foi a mesma que se escolheu para nomear o processo de revelação de um filme, mas na forma reflexiva, de modo que um organismo literalmente “desenvolve a si próprio”. Além disso, a palavra evolução tem o mesmo significado original de desdobramento, e por essa razão Darwin não a empregou na primeira edição da “Origem das Espécies”. Antes de Darwin, toda a história da vida na Terra era vista como uma progressão ordenada de estágios imanentes. Ainda que Darwin tenha libertado a teoria desse elemento de predeterminação, sua história intelectual deixou a sua marca na palavra.

O uso desses termos reflete um comprometimento profundo com a idéia de que os organismos, tanto em suas histórias individuais de vida como em sua história evolutiva coletiva, são determinados por forças internas, por um programa interno, do qual os seres vivos reais são apenas manifestações exteriores. Esse comprometimento é uma herança da visão tipológica da natureza, de origem platônica, segundo a qual eventos materiais reais, que podem diferir uns dos outros em graus variados, são realizações imperfeitas e acidentais de tipos idealizados. O real é o ideal visto “através de um espelho, indistintamente”. Essa foi a visão das espécies que predominou até o século XX. Cada espécie era representada por uma descrição de “tipo” e um espécime real era depositado em alguma coleção como representativo desse tipo, enquanto todos os outros indivíduos da espécie, variando com relação ao “tipo”, eram vistos como realizações imperfeitas do ideal subjacente. O problema da biologia consistia, então, em dar uma descrição anatômica e funcionalmente correta dos “tipos” e explicar as suas origens. A biologia evolutiva moderna rejeita esses ideais platônicos e sustenta que a variação efetiva entre os organismos é a realidade que precisa ser explicada. Essa mudança de orientação é conseqüência da ascensão da visão darwiniana de que a variação efetiva entre os organismos é a base material de que depende a mudança evolutiva.

O contraste entre a teoria platônica moderna do desenvolvimento e a teoria evolutiva darwiniana reflete o contraste entre duas maneiras de explicar as modificações dos sistemas através do tempo. O desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança. Nas teorias transformacionais todo o conjunto dos objetos modifica-se porque cada objeto individual sofre durante o seu tempo de vida os efeitos de uma mesma história geral. O cosmos evolui porque todas as estrelas que têm a mesma massa inicial passam pela mesma série de modificações termonucleares e gravitacionais em um caminho que as leva a uma posição previsível na seqüência principal. Como grupo, as pessoas de setenta anos são mais grisalhas e mais esquecidas do que o conjunto das que têm 37 anos, porque a mente e o corpo de todos os indivíduos envelheceram. Por outro lado, a teoria darwiniana da evolução orgânica baseia-se em um modelo variacional da mudança. O conjunto dos indivíduos modifica-se não porque cada indivíduo passe por desenvolvimentos paralelos durante a vida, e sim porque existe variação entre os indivíduos e algumas variantes produzem mais descendentes do que outras. Assim, o conjunto como um todo se modifica por causa de uma alteração na representação proporcional das diferentes variantes, cujas propriedades específicas permanecem inalteradas. Se os insetos estão se tornando mais resistentes aos inseticidas não é porque cada indivíduo adquire níveis cada vez mais altos de resistência durante a sua vida, mas sim porque as variantes resistentes sobrevivem e se reproduzem, enquanto os organismos suscetíveis morrem”.

Lewontin, portanto, defende a idéia de que “o organismo não é determinado nem pelos seus genes, nem pelo seu ambiente, nem mesmo pela interação entre eles, mas carrega uma marca significativa de processos aleatórios”.

Mas o fato de que ele possa ter razão no que tange a evolução de organismos, não significa que teorias transformacionais da mudança não se apliquem às sociedades humanas. Pode significar, simplesmente, que sociedades humanas não são como organismos que evoluem segundo um modelo variacional. E que sociedades humanas passam por processos transformacionais de mudança. Ora, como ele mesmo ressalta, “o desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança”. E, ou admitimos que o desenvolvimento se aplica a sociedades humanas ou, então, é melhor abandonar o conceito de desenvolvimento.

Afirmei que o modelo variacional, quando aplicado a sociedades humanas, corresponde a uma perspectiva mercadocêntrica, porque é possível que modelos variacionais se apliquem, dentro de certos limites, a algumas realidades sociais, como mercados. É mesmo possível, ademais, que Darwin tenha se aproximado de uma hipótese variacional a partir da observação do que ocorria em sociedades humanas sob forte influxo da dinâmica mercantil, como a sociedade inglesa da sua época. E que, então, sua compreensão da evolução biológica tenha sido, em alguma medida, decalcada dessa observação, como sugere a idéia de luta pela vida com toda aquela visão competitiva embutida.

Por outro lado, outras visões biológicas (como, por exemplo, as de Humberto Maturana, Lynn Margulis, Richard Strohman e Mae-Wan Ho – todas indicadas na lista B2 e nas anteriores) indicam que para explicar a mudança evolutiva não se pode olhar somente para o organismo ou para o gene e sim para as redes que regulam tal mudança. Tais redes celulares são sistemas complexos, com múltiplos laços de realimentação que fazem com que os padrões de atividade genética mudem continuamente com a mudança das circunstâncias, para manter o tempo todo uma congruência dinâmica com o meio, sem o que não poderia haver o que chamamos de vida.

Assim, é possível que mesmo a teoria variacional não explique totalmente o que acontece na evolução biológica e tenhamos que lançar mão do modelo das redes reguladoras. E que tal modelo possa também se aplicar a redes sociais para explicar o fenômeno chamado de desenvolvimento. Neste caso, o desenvolvimento social seria um fenômeno próprio das redes sociais: sistemas complexos que apresentam características formalmente semelhantes às redes celulares. Segundo essa perspectiva, os padrões de comportamento surgiriam e se modificariam na interação com o meio, sem o que não poderia haver isso que chamamos de cultura. Ou seja, a forma e o comportamento culturais manifestar-se-iam como propriedades que emergem da dinâmica complexa das redes sociais.

Portanto, pode existir um outro modelo para a mudança, além do modelo variacional e do modelo transformacional: o modelo sistêmico regulacional, que não exclui, no caso dos organismos biológicos, nem os genes, nem o ambiente, nem a interação entre eles, nem os processos aleatórios. Mas que acrescenta um outro elemento: as redes compostas por genes, proteínas, hormônios, enzimas e complexos moleculares. A diferença é que o “programa” não estaria arquivado no genoma e sim nessa rede. No caso das sociedades humanas, haveria também essa rede, composta, é claro, por outros nodos; e. g., pessoas e organizações.

A rede não predetermina o que vai acontecer mas combina e recombina, continuamente, eventos e relações já existentes com novos eventos e novas relações introduzidas pelas mudanças endógenas e exógenas. E não importa se tais alterações são ou não casuais. O programa regulador – que “roda” na rede e não nos organismos, nas partes de organismos ou em outros nodos que a compõem – tende a assimilar as alterações casuais de tal sorte a torná-las adequadas à conservação da adaptação do organismo ao meio. Esse programa é autopoiético e também vai se modificando para dar conta de exercer o seu papel regulador em circunstâncias que vão se modificando. Ou seja, a rede aprende.

A rede aprendendo é o sujeito e não o organismo evoluindo. Se adotarmos esse ponto de vista, deixamos para trás a questão de se deve ou não deve haver um paralelo entre o desenvolvimento (social) e a evolução (biológica) e se tal paralelo seria ou não seria legítimo. Sociedades humanas nada têm a ver com organismos, partes de organismos ou ecossistemas a não ser enquanto são, igualmente, reguladas por redes – sistemas complexos que apresentam, como tais, características e propriedades análogas.

Desenvolvimento – um conceito aplicado a sociedades humanas – seria, então, um processo de mudança, regulado pelas redes sociais, que depende de estímulos internos e externos, múltiplas interações entre alterações internas e externas, aleatórias ou não, cujo “propósito” é assegurar a conservação dinâmica dessas próprias redes e, nessa medida, dos elementos que a compõem.

CAPITAL SOCIAL: UM RECURSO SISTÊMICO

Seguem agora algumas indicações de leituras fundamentais e de aprofundamento sobre o conceito de capital social propriamente dito:

C3) Teorias (leituras fundamentais sobre capital social)

1 | Tocqueville, Alexis (1835-1840). “A democracia na América”. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

2 | Jacobs, Jane (1961). “Morte e vida das grandes cidades”. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

3 | Coleman, James (1988). “Social Capital in the creation of Human Capital”, American Journal of Sociology, Supplement 94 (s95-s120), 1998.

Robert Putnam

4 | Putnam, Robert (1993). “Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna”. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.

5 | Fukuyama, Francis (1999). “A grande ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social”. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

6 | Offe, Claus (1999). “A atual transição da história e algumas opções básicas para as instituições da sociedade”, in Bresser Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. “Sociedade e Estado em transformação”. Brasília: ENAP, 1999.

7 | Franco, Augusto (2001). “Capital Social: leituras de Tocqueville, Jacobs, Putnam, Fukuyama, Maturana, Castells e Levy”. Brasília: Instituto de Política, 2001.

8 | Franco, Augusto (2003). “A revolução do local: globalização, glocalização, localização”. São Paulo: Cultura, 2003.

9 | Franco, Augusto (2004). “Capital social e desenvolvimento local” in Vergara, Patrício (org.). “Desenvolvimento endógeno: um novo paradigma para a gestão local e regional”. Fortaleza: IADH, 2004).

10 | Higgins, Silvio Salej (2005). “Fundamentos teóricos do capital social”. Chapecó: Argos Editora Universitária, 2005.

Os livros 7 e 10 constam da lista C3 (acima) sobretudo porquanto, até o momento, são os únicos dois livros teóricos publicados no Brasil sobre o tema. Como é sempre um pouco constrangedor ficar indicando os próprios livros, explico que incluí o livro de número 8 e o artigo de número 9 como uma espécie de índice do presente trabalho (ou seja, em conjunto eles explicitam a linha de encadeamentos teóricos que me levaram a fazer estas – e não outras – indicações de leitura sobre uma concepção sistêmica de desenvolvimento).

C4) Teorias (leituras de aprofundamento sobre capital social)

1 | Coleman, James (1990). “Foundations of Social Theory”. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1990.

2 | van Deth, Jan W. et al. (eds.) (1999). “Social Capital and European democracy”. London/NY: Routledge/ECPR Studies in European Political Science, 1999 (em especial dois textos: o de Newton, Kenneth. “Social Capital and democracy in modern Europe” e o de Whiteley, Paul F. “The origins of social capital”).

3 | Leenders, Roger and Gabbay, Shaul (1999). “Corporate social capital and liability”. Boston: Kluwer Academic Publishers, 1999 (em especial o texto de Knoke, David. “Organizational networks and corporate social capital”).

4 | Baron, Stephen et al. (eds.) (2000). “Social Capital: critical perspectives”, New York: Oxford University Press, 2000 (em especial os textos de Schuller, Tom; Baron, Stephen & Field, John. “Social Capital: a Review and Critique” e de Maskell, Peter. “Social Capital, Innovation and competitiveness”).

5 | Lesser, Eric (ed.) (2000). “Knowledge and Social Capital: foundations and applications”. Boston: Butterworth-Heinemann, 2000 (sobretudo os quatro textos seguintes: Nahapiet, Janine & Ghoshal, Sumantra. “Social Capital, Intellectual Capital and the organizational advantage”; Portes, Alejandro. “Social Capital: Its Origins and Applications in Modern Sociology; Snadefur, Rebecca & Laumann, Edward. “A Paradigm for Social Capital”; e Adler, Paul & Kwon, Seok-Woo. “Social Capital: The Good, the Bad and the Ugly”).

6 | Dasgupta, Partha & Serageldin, Ismail (eds.) (2000). “Social Capital. A Multifaceted Perspective”. Washington: The World Bank, 2000 (sobretudo os três textos seguintes: Grootaert, Christiaan & Serageldin, Ismail. “Defining social capital: an integrating view”; Ostrom, Elinor. “Social capital: a fad or a fundamental concept”; Dasgupta, Partha. “Economic Progress and the idea of social capital”).

7 | Edwards, Bob et al. (eds.) (2001). “Beyond Tocqueville: civil society and the social capital debate in comparative perspective”. Hanover: Tufts University, 2001 (em especial os textos de Newton, Keneth. “Social Capital and Democracy” e de Foley, Michael, Edwards, Bob & Diani, Mario. “Social Capital Reconsidered”).

8 | Dekker, Paul & Uslaner, Eric (eds.) (2001). “Social Capital and participation in everyday life”. London/NY: Routledge/ECPR Studies in European Political Science, 2001 (em especial o texto de Grootaert, Christiaan. “Social Capital: the missing link?”).

9 | Lin, Nan et al. (eds.) (2001). “Social Capital: theory and research”. New York: Aldine de Gruyter, 2001 (em especial o texto de Lin, Nan. “Building a network theory of social capital”).

10 | Stolle, Dietlind & Hooghe, Marc (2003). “Generating social capital: civil society and institutions in comparative perspective”. New York: Palgrave MacMillan, 2003.

Na primeira edição deste artigo (2006) havia uma grande falha nessas listas. Faltavam aqui as indicações de leitura sobre as relações entre rede, desenvolvimento e democracia. Indiquei na primeira edição, por fora da lista, para começar, o capítulo 5 do livro de Rosnay, Joël (1995). O homem simbiótico. Petrópolis: Vozes, 1997 – sobretudo a seção “Democracia participativa e retroação societal” –; os livros de Pierre Levy (em particular “A inteligência coletiva” de 1994, já indicado na lista A1) e a literatura mais recente sobre ciberpolítica e democracia digital. Por exemplo, “Cyberdemocracy: technology, cities and civic networks” editado por Rosa Tsagarousianou et al. (London: Routledge, 1998); “Cyberpolitics: citizen activism in the age of the Internet” de Kevin Hill & John Hughes (Maryland: Rowman & Littlefield, 1998); “Digital democracy: discourse and decision making in the information age” editado por Barry Hague & Brian Loader (London: Routledge, 1999); e “Democracy in the digital age: chalenges to political life in cyberespace” de Anthony Wilhelm (New York: Routledge, 2000), entre outros. Um excelente exercício seria “reescrever” o ensaio póstumo de Hannah Arendt sobre o que é a política (Arendt, Hannah (c. 1950). “O que é política?”, frags. das “Obras Póstumas” (1992), compilados por Ursula Ludz). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998) reinterpretando o que ela corretamente chama de polis (não a cidade, mas a koinomia – i. e., a comunidade – política) como uma rede de conversações capaz de gerar um pacto de convivência que inaugura o espaço público, como propõe Humberto Maturana no discurso “A democracia é uma obra de arte”.

Mais adiante vou indicar algumas dessas obras e outros textos políticos (inclusive sobre os pressupostos geralmente ocultos da política) que julgo importantes para construir uma nova compreensão das relações entre desenvolvimento, redes sociais e democracia.

POR QUE INDICAÇÕES DE TEXTOS POLÍTICOS NUMA LISTA BIBLIOGRÁFICA SOBRE DESENVOLVIMENTO?

É simples. Porque em comunidades de projeto – articuladas em rede, sobretudo em redes comunitárias de desenvolvimento – estão ocorrendo as mais notáveis inovações políticas democratizantes da atualidade.

Michael H. Shuman, ex-diretor do Institute for Policy Studies e atual diretor da Village Foundation’s Institute for Economics and Entrepreneurship, lembra que “o falecido Tip O’Neill costumava dizer que toda política é local. Talvez seja mais apropriado dizer que toda política significativa é local. A comunidade é o instrumento mais acessível para a expressão política coletiva, uma vez que é onde o cidadão tem maiores possibilidades de derrotar as forças da corrupção, do dinheiro e da apatia, e engajar-se em um processo democrático. É também onde os indivíduos exercem maior influência sobre suas relações econômicas e políticas – onde mesmo pequenos gestos podem melhorar a qualidade da vida cotidiana. E, o mais importante, é onde a formulação de políticas adquire uma face humana”.

Estamos voltando agora àquela concepção radical de democracia cooperativa que pode ser derivada dos escritos de John Dewey (1859-1952), o chamado “filósofo da América”: para Dewey (1927), “a [idéia de] democracia… é a própria idéia de vida comunitária”.

A formação democrática da vontade política não pode se dar apenas por meio da afirmação da liberdade do indivíduo perante o Estado, mas envolve um processo social. A atividade política dos cidadãos não pode se restringir ao controle regular sobre o aparato estatal (com o fito de assegurar que o Estado garanta as liberdades individuais).

A liberdade do indivíduo depende de relações comunicativas (cada cidadão só pode atingir autonomia pessoal em associação com outros), mas o indivíduo só atinge liberdade quando atua comunitariamente para resolver um problema coletivo, o que exige – necessariamente – cooperação voluntária. Há, portanto, uma conexão interna entre liberdade, democracia e cooperação. Isso evoca um outro conceito de esfera pública, como instância onde a sociedade tenta, experimentalmente, explorar, processar e resolver seus problemas de coordenação de ação social. Assim, é somente a experiência de participar voluntária e cooperativamente em grupos para resolver problemas e aproveitar oportunidades que pode colocar para o indivíduo a necessidade de um espaço público democrático. O indivíduo como participante ativo de empreendimentos comunitários – tendo consciência da responsabilidade compartilhada e da cooperação – é o agente político democrático.

A idéia deweyana de que a esfera pública democrática constitui o meio pelo qual a sociedade tenta processar e resolver seus problemas permite a descoberta de uma nova conexão intrínseca entre democracia e desenvolvimento, apenas sugerida implicitamente por Dewey e seus comentadores quando perceberam a existência de um nexo conotativo entre democracia e cooperação.

Dewey elabora uma idéia normativa de democracia como um ideal social. Se quisermos tirar conseqüências dessa concepção, devemos explorar a conexão entre esse seu conceito de democrático-social e o papel regulador da rede social no estabelecimento do que hoje se chama, segundo uma visão sistêmica, de sustentabilidade (ou desenvolvimento).

Esse trabalho de articulação entre democracia e sustentabilidade (ou desenvolvimento) vem sendo feito por alguns teóricos do capital social (ou das redes sociais). Capital social, como vimos, é um recurso para o desenvolvimento aventado recentemente para explicar por que certos conjuntos humanos conseguem criar ambientes favoráveis à boa governança, à prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de melhorar as suas condições de convivência social. Como tais ambientes são ambientes sociais cooperativos, capital social é, fundamentalmente, cooperação ampliada socialmente. Rede social (distribuída) é um meio pelo qual (ou no qual) a cooperação pode se ampliar socialmente (inclusive, em certas circunstâncias especiais, convertendo “automaticamente” competição em cooperação). A democracia que casa com a idéia de capital social é a democracia cooperativa ou comunitária. Logo, a democracia pode então ser vista como um “metabolismo” próprio de redes sociais (e será uma democracia democratizada na razão direta do grau de distribuição dessas redes).

AS RELAÇÕES ENTRE DEMOCRACIA, REDES SOCIAIS E DESENVOLVIMENTO LOCAL

Do ponto de vista do que poderíamos chamar de desenvolvimento humano e social sustentável, as evidências disponíveis apontam para a existência de uma equivalência prática entre três tipos de iniciativas ou tarefas: induzir o desenvolvimento local <=> animar redes sociais distribuídas (P2P) <=> democratizar a política (na base da sociedade e no cotidiano do cidadão).

Em outras palavras, estamos induzindo o desenvolvimento local ‘a não ser enquanto’, estamos animando redes sociais P2P e estamos democratizando a política.

Em outras palavras, ainda: se estamos tratando do desenvolvimento humano e social sustentável – ou sustentabilidade – (mudança qualitativa) e não apenas do crescimento econômico (ou expansão, mudança quantitativa), então a indução do desenvolvimento implica netweaving (quando esse termo se refere à construção e animação de redes sociais cada vez mais distribuídas) e articulação política (se for uma política democrática) e vice-versa.

O agente de desenvolvimento é, assim, necessariamente, um articulador político e um animador de redes.

Bom, caberia agora investigar: a) por que a indução do desenvolvimento (humano e social sustentável), a animação de redes sociais (P2P, distribuídas) e a articulação política (democrática) figuram na mesma “fórmula”; e, b) o que é induzir o desenvolvimento local, democratizar a política (no local) e tecer e animar redes sociais (P2P, distribuídas) e como fazer isso.

O agente de uma nova política é também um agente de desenvolvimento (ou de sustentabilidade como talvez devêssemos chamá-los, a esses atores – empreendedores – que se dedicam a desamarrar as forças criativas que estão aprisionadas, em geral pelo velho sistema político e por padrões de organização piramidais, ensejando a formação de comunidades de projeto que passam a ter condições de exercer o seu protagonismo, o que equivale a formar democraticamente a sua vontade política).

Quando o tema é sustentabilidade (e esse é, precisamente, o tema aqui), o assunto é um pouco mais complexo do que “pegar as pessoas pelo bolso”, reformar o marco legal e desburocratizar procedimentos, ofertar linhas de crédito adequadas, prover infra-estrutura pública, facilitar mecanismos de comercialização e disponibilizar assistência técnica (como imaginam os que não se libertaram do ‘mito da determinação econômica’). Não haverá desenvolvimento (sustentável) diante de graus insuficientes de distribuição das redes sociais e de democratização da sociedade. Entender as razões dessa afirmação, saber justificá-la do ponto de vista teórico e saber tirar as conseqüências práticas de tal constatação constitui, hoje, o core dos processos de formação de novos atores políticos que estejam dispostos a ensaiar inovações democráticas no seu âmbito de atuação.

A grande pergunta é o que você pode fazer, a partir de agora, para reinventar a política a partir da emergência das novas formas de participação dos cidadãos? Temos uma resposta: além de defender a democracia que temos, democratizar a política e experimentar e disseminar inovações políticas democratizantes para atingir a democracia que queremos. No que tange a essa experimentação inovadora, o terreno propício – garantido minimamente o ambiente democrático mais geral do país – é o local. Pactos pela democracia local (não importa o nome que tenham), capazes de viger em redes comunitárias e setoriais de desenvolvimento, constituem hoje a principal esperança de mudança do velho sistema político.

Leituras fundamentais sobre política

John Dewey

1 | Dewey, John (1927). “The Public and its Problems”. Chicago: Gataway Books, 1946 (existe edição em espanhol: “La opinión pública y sus problemas”. Madrid: Morata, 2004).

2 | Dewey, John (1937). “Democracy is Radical” in . “The Essential Dewey: Vol. 1 – Pragmatism, Education, Democracy”. Indianapolis: Indiana University Press, 1998. (Existe edição em espanhol: in “Liberalismo y Acción Social y otros ensayos”. Valência: Alfons El Magnànim, 1996).

3 | Dewey, John (1939). “Creative Democracy: the task before us”. Idem (Confira a edição em espanhol citada acima).

4 | Arendt, Hannah (c. 1950). “O que é política?”, frags. das “Obras Póstumas” (1992), compilados por Ursula Ludz). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

Hannah Arendt

5 | Arendt, Hannah (1954). “Que é Liberdade” in Entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.

6 | Heller, Agnes & Fehér, Ferenc (1987). A condição política pós-moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

7 | Maturana, Humberto & Verden-Zöller, Gerda (1993). Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia. Santiago: Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.

8 | Maturana, Humberto (s./d.). A democracia é uma obra de arte (alocução em uma mesa redonda organizada pelo Instituto para o Desenvolvimento da Democracia Luis Carlos Galan, Colômbia). Bogotá: sem data.

9 | Ugarte, David (2006). 11M. Redes para ganar una guerra. Barcelona: Icaria, 2006.

10 | Franco, Augusto (2007). Política, Redes Sociais e Democracia: um manual teórico e prático para empreendedores políticos (Versão experimental em reprografia). Curitiba: FIEP, 2007.

Leituras de aprofundamento sobre política

1 | Althusius, Johannes (1603). Política. Liberty Fund (2003). Rio de Janeiro: Topbooks, s./d.

2 | Dewey, John (1929). “Individualism, Old and New” in Hickman, Larry e Alexander, Thomas (eds.) (1998). “The Essential Dewey: Vol. 1 – Pragmatism, Education, Democracy”. Indianapolis: Indiana University Press, 1998.

3 | Dewey, John (1935). “Liberalism and Social Action”. Idem.

4 | Burnheim, John (1985). Is Democracy Possible? The alternative to electoral politics. Berkeley: University of California Press, 1989.

5 | Maturana, Humberto (1988c). “Una mirada a la educacion actual desde la perspectiva de la biologia del conocimiento” in Maturana, Humberto. Emociones y Lenguaje en Educacion y Politica. Santiago: Dolmen Ediciones, 1997.

6 | Maturana, Humberto (1988d). “Lenguaje, emociones y etica en el quehacer politico” in Maturana, Humberto. Emociones y Lenguaje en Educacion y Politica. Santiago: Dolmen Ediciones, 1997.

7 | Keane, John (1988). Democracia y sociedad civil. Madrid: Alianza, 1992.

8 | Rockefeller, Steven (1991). John Dewey, Religious, Faith and Democratic Humanism. New York: Columbia University Press, 1991.

9 | Westbrook, Robert (1991). John Dewey and American Democracy. Ithaca: Cornell University Press, 1991.

10 | Habermas, Jürgen (1992). Facticidad y validez: sobre el derecho y el Estado democrático de derecho en términos de teoria del discurso. Madrid: Trotta, 1998.

11 | Mouffe, Chantal. The return of the Political. London: Verso, 1993.

12 | Ralwls, John (1993). “O Liberalismo Político”. Columbia: Columbia University Press, 1993.

13 | Arato, Andrew & Cohen, Jean (1994). Civil Society and Political Theory. Cambridge: The MIT Press, 1994.

14 | Habermas, Jürgen (1996). Between Facts and Norms: Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy. Cambridge: The MIT Press, 1996.

15 | Held, David. (1996). Models of Democracy. 2nd. edn. Cambridge: Polity, 1996.

16 | Cohen, Joshua (1997). “Procedure and Substance in Deliberative Democracy” in Christiano, Thomas (ed.) (2003). Philosophy and Democracy: an anthology. Oxford University. Press, 2003.

17 | Honneth, Axel (1998).“Democracia como cooperação reflexiva. John Dewey e a teoria democrática hoje”, (publicado originalmente em “Political Theory”, v. 26, dezembro 1998) traduzido na coletânea: Souza, Jessé (org.) (2001). Democracia hoje: novos desafios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

18 | Elster, Jon (1998). “Deliberative democracy”. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

19 | Mouffe Chantal. The Democratic Paradox. London: Verso, 2000.

20 | Dryzek, Johns (2000). “Deliberative democracy and beyond: liberal critics, contestations”. Oxford: Oxford University Press, 2000.

Continua no texto EDUCAÇÃO PARA A DEMOCRACIA.

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