Escola de Redes

ITINERÁRIOS DE LEITURAS FUNDAMENTAIS (5): ESTRAVIZ (2009)

Tinha esses livros no meio do caminho. No meio do caminho tinha esses livros.

Pra falar sobre textos e livros que me “afetaram” quanto ao tema redes eu farei 4 grandes cortes em minha vida, pra facilitar a leitura e o entendimento.

... de vovô viu a uva direto pra futuros assustadores...

O primeiro corte se dá quando eu tinha 15 ou 16 anos. Calhou de eu ler, em menos de 1 mês, e por interesse meu (não da escola), 3 livros que mudaram minha concepção da idéia de futuro: Admirável Mundo Novo, o Farenheit 451 (não confundir com o documentário do Moore) e 1984. Não lembro a ordem que os li, mas pouco importa. Cada distopia me assustou e fascinou ao mesmo tempo. Eu acho que foi isso, ou o que me levou a isso, que me fez estar sempre envolvido com coisas que fossem relacionadas ao futuro ou no limite mais posterior ao nosso presente. Eu quis e quero sempre estar um ou mais passos a frente, não pra levar vantagem, como o Gerson, mas porque na realidade o presente, depois de consolidado, me entedia. Até hoje ainda vejo algo novo e o encaixo em um dos 3 futuros previstos nos 3 livros. Big Brother? Farenheit. Drogas sintéticas? Admirável Mundo Novo. Guantánamo? 1984. E por aí vai. Fico aqui pensando que eu gostava de entender o futuro porque achava que no passado tinha havido algum erro de percurso... Eu gostava dos índios, mas sabia que eu não queria viver como eles.Tinha algo de moderno, urbano, futurista, que me fascinava mais como distração do que como solução. O passado me parecia mais assustador. O futuro, apesar de sombrio, poderia ter a chave para uma solução. E eu, pretencioso que só, achava que a encontraria... Nem tinha lido “o poder do mito” ainda, e nem tinha começado a fazer terapia... risos...

... das distopias para os nirvanas...

Corte abrupto, máquina do tempo, viagem curta, vamos pros meus 18 anos, quando fui morar em Barcelona. Ainda me envergonho um pouco em dizer, mas um livro que mexeu muito comigo foi o Alquimista do Paulo Coelho... ganhei-o na festa de despedida que fizeram pra mim, li-o no avião, cheguei em Madrid exercendo plenamente minha lenda pessoal! Essa época em Barcelona é cheia de leituras mezzo esotéricas mezzo mitológicas... Li muito Herman Hesse. Li muito Richard Bach. Passeava por Rubem Fonseca, Fernando Pessoa e muitas biografias. Por ter sido squatt, comecei a ler os anarquistas e as primeiras cartas do subcomandante Marcos. Mas os livros que mexeram comigo foram definitivamente O Alquimista e o Sidarta. Sim, é cafona, mas fazer o que? É a realidade...:) Associo esse período a uma busca por integração, plenitude, simplicidade... Os livros geraram o fortalecimento da minha crença de que "estamos todos conectados".

... do cybermonge para a linkania...

Novo corte, viagem longa, desta vez damos um enorme pulo até os meus 30 anos. Recém separado, com tempo de sobra pra leituras e cheio de energia por novidades. Foi um período de muita produção de textos. Meu artigo Linkania só saiu porque eu estava rodeado de gente que discutia junto comigo temas como software livre, anarquia, ativismo, hackerismo, TAZ (zonas autônomas temporárias). O Manifesto Cluetrain foi o primeiro divisor de águas pra mim. O que li depois, em geral, era recomendado por alguém, que já digeria algo antes. Tinha toda a coleção Baderna da editora Conrad (onde provos foi o que mais gostei). Outro livro fantástico, da mesma Conrad chama-se FIM, outra distopia que me fez lembrar daqueles 3 livros da minha adolescência, com a diferença do que era um futuro próximo, contendo muitos dos momentos desta pósmodernidade. Tinha também o Castells e sua trilogia onde li só o terceiro (talvez a primeira vez que de fato vi o termo rede sendo estudado), Mafesoli e o conceito do nomadismo... Enfim, foi um período de muita leitura, ou sinopses (e sinapses) e debates. O registro que ficou foi mais a de uma grande chocadeira colaborativa de muito intercâmbio de informações.

... da metáfora para o gorila...

Mais um corte, viagem curta, para os meus 36 anos: Ismael. Esse livro é para mim a mudança de paradigma. Foi o que fez “tóin”. Ele me explicou definitivamente o passado e gerou luzes para o que me faz sentido fazer para um futuro interessante. Completou o ciclo que começou com aqueles primeiros livros da minha adolescência. Facilitou minha vida, pois posso viver conforme umas crenças que sempre tive, e agora com convicção. A natureza explica tudo. E o homem, com o advento da civilização, fez várias (desculpe o termo) cagadas. Mas não se trata de voltar a ser índios. Trata-se apenas de desistir daquilo que não faz sentido porque não é natural: Hierarquia? Desisto dela. Rigidez? Prefiro flexibilidade. Guerra? Propriedade? Desisto e não sou cúmplice.

... dos largadores para a escola de redes...

Último corte. Última parada. Apesar de leituras em períodos diferentes, posso considerar Augusto e David como dentro do mesmo corte. Um me fazendo ler o outro. Experiência riquíssima. Do Augusto eu selecionaria o livrinho (que eu chamo de seisho-no-iê, porque minha mãe tinha uma bíblia pequena e plastificada assim). E do David eu seleciono o Poder das Redes, mas principalmente o capítulo da épica e da lírica. Algo genial sacarmos que devemos desistir também dos heróis que nos ensinaram a gostar. O grupo Los Hermanos tem uma música que também fala disso. (Aliás, bem que podíamos fazer uma trajetória musical também aqui na escola hein?). Deste último corte posso garantir que mais do que os textos e livros que li do Augusto e do David, o que valeu mesmo foi o convívio em diversas oportunidades. Esse privilégio foi a verdadeira riqueza.

No orkut perguntam quais seus livros preferidos. Eu respondo: Os que ainda não li. Por isso meu atual livro preferido é o do Tocqueville, que não li e está agora na estante me esperando.

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