Escola de Redes

Transcrevo aqui um comentário do Pedro Ferrão, e peço ao Pedro e à Thereza que avancem mais na sua reflexão.

"Um texto wiki (colectivo) bem construído pode e deve reflectir a diversidade de pontos de vista que possam existir. Basicamente, prefiro que um wiki comece como uma colecção de tijolos de vários tipos, dos quais vai emergindo aos poucos uma construção (sempre provisória). Se for esse o processo, pode haver tempo para partilhar e socializar diferentes visões sobre a construção.
Penso que o wiki, enquanto ferramenta, não impõe esta abordagem de baixo para cima e do particular para o geral, nem o inverso. Penso que a abordagem adoptada depende mais do 'contrato' social entre os participantes, o qual pode favorecer mais um modelo do que outro. Mas o facto de o wiki permitir essas alternativas "obriga" a uma negociação permanente de sentidos.
Qual a vossa opinião? "

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Respostas a este tópico

Sérgio, a plataforma Ning confere poderes exagerados aos administradores, já vimos isso. Fiz ontem um post sobre o tema, discutindo o comentário do Pietro R. Não depende da vontade "do Augusto". Do jeito que você falou dá a impressão de que centralizo por decisão individual, o que não é verdade. Aliás, o link para o wiki aberto pelo Regis foi para a homepage desde o primeiro momento. Não era (como não foi) necessário fazer “lobby com o Augusto”.

Mas... voltando à sua questão das vantagens do wiki do ponto de vista da distribuição. E se estivéssemos em uma plataforma wiki, o mesmo não ocorreria? Todos teriam login e senha? Todos teriam as mesmas permissões? Ou seja, todos teriam as mesmas liberdades para uso do software? Me mostre um software que você utiliza onde isso é praticado!

Entenda bem: apóio qualquer iniciativa de experimentar diferentes plataformas. Faça isso, Sérgio! Proponha, inaugure. Ainda que eu ache que ambientes desintegrados criarão mais problemas do que soluções. Vamos acabar trocando seis por meia dúzia. E algumas pessoas vão interagir em um ambiente, outras em outros e a gente vai acabar separando clusters. Aí sim vamos introduzir o tal do poder que, do ponto de vista das redes é sempre exclusão de nodos ou obstrução de fluxos ou desatalhamento de clusters. Por isso o nosso grande desafio é o de achar ou construir uma plataforma adequada de netweaving. Ou, se for possível, introduzir modificações neste Ning de sorte que ele possa, por exemplo, aceitar wikis e outros mecanismos de organização do conhecimento mais adequados à dinâmica da interação.

As deficiências e insuficiências do Ning do ponto de vista da articulação e animação de redes não dependem do Augusto. Eu não inventei o Ning. Quando procuramos uma plataforma para a E=R não havia outro software que fosse web, gratuito, tão amigável e interativo. A meu ver, ainda não existe. Por isso me pareceu que este seu comentário não foi muito correto ao ficar passando, de modo oblíquo, a interpretação solerte de que o Augusto centraliza porque só ele pode mandar mensagens a todos os membros, porque só ele pode publicar nas caixas de texto da homepage.

Dada a arquitetura do Ning só não haveria algum tipo de centralização se todos os 4 mil e tantos conectados fossem administradores. Podemos fazer isso, mas... nesse caso, a plataforma poderia ser inviabilizada em poucas horas. Porque qualquer pessoa que entrasse poderia excluir as demais, colocar uma propaganda de pornografia infantil na home e fazer outras coisas piores. Isso acontece porque somos uma rede aberta, que não faz mediação para a adesão de ninguém. Sabemos dos riscos de manter uma plataforma aberta, onde qualquer ser humano possa se conectar. Até agora, pelo menos, a experiência mostrou que vale a pena correr os riscos inerentes a tal abertura. Parece muito melhor do que colocar filtros, pré-selecionar as pessoas e introduzir outros procedimentos e mecanismos centralizadores.

Mas observo que os mais fervorosos adeptos do wiki, em geral, não articulam e animam redes. É, esse é o ponto, Sérgio. Esse pessoal não tem experiência de articulação e animação de redes distribuídas (quer dizer, mais distribuídas do centralizadas). Não concorda? Então me mostre as redes que eles articulam e animam. Heim?

E, reafirmo minha impressão: os wikis não foram pensados numa lógica de rede (distribuída). Toda organização do conhecimento ex ante à interação está imbricada numa seleção de caminhos (quero dizer que, sob a justificativa de organizar o conhecimento para os outros, via de regra vai embutido no pacote um mecanismo que introduz escassez). O desafio para a turma que quer organizar o conhecimento para os outros e quer, simultaneamente, “fazer redes”, é encontrar um modo de fazer isso sem querer organizar demais a auto-organização, hehe.

Você pode organizar o conhecimento para você, Sérgio. Do jeito que você quiser. E pode propor procedimentos e mecanismos para ajudar a resolver os problemas do Ning no que tange a facilitar a indexação ou a busca de conteúdos (uma deficiência da plataforma já amplamente detectada e comentada por nós).

O que não acho correto é usar esse pretexto para discutir a suposta verdade da inevitabilidade das hierarquias e outras crenças análogas. Sim, você pode discutir isso também. Mas então assuma corajosamente que você está discutindo isso.

É a minha opinião, não é uma censura, não é repressão. É apenas uma opinião baseada na observação. Você nem sabia que o Ning possui um motor de busca. Quando não sabia disso, você já reclamava que no Ning não era possível encontrar um conteúdo, para evidenciar que a plataforma não era adequada para organizar o conhecimento do jeito que você concebe que deva ser feita tal organização.

Esta Escola-de-Redes foi pensada como uma escola-não-escola. Isso está nas suas declarações fundantes. Não queremos e não vamos montar uma oligarquia participativa para organizar o conhecimento para os outros. Se quiséssemos fazer isso fundaríamos uma escola. Mas todos são livres para fazer o que bem-entenderem. Por isso escrevi, ainda em 2008, o texto Articule você também uma escola de redes.


Sergio Storch disse:
Vivi, suas considerações sobre os motivos do projeto Anotações não ter pegado são preciosas. Em boa parte, eu concordo, mas não totalmente.
Por que mais não pegou?
Propaganda é a alma do negócio, e é um recurso escasso. Aí não há abundância. Ao contrário, estamos no campo da economia da atenção, e ATENÇÃO É ESCASSA!. O projeto Anotações foi pouco divulgado. Os recursos para chamar a atenção das pessoas são limitados: a home, as mensagens a todos, e estão centralizados na pessoa do Augusto, a quem todos os demais podem ter acesso no que depende do Augusto, mas não no que depende de cada um, pois cada um se comporta de acordo com o histórico da relação que tem com cada um dos demais. Talvez 100 pessoas vencessem essa barreira, talvez 150 (para coincidir com o número de Dunbar, pois tem algo a ver). Os demais 4850 da E=R não venceriam. Na governança da Wikipedia as proporções são bem diferentes, e em parte porque a granularidade da Wikipedia permite distribuir poder de forma mais ampla. Repare que eu usei o termo granularidade, não por acaso. É uma propriedade dos wikis.

Outro motivo: liderança. Temos claramente na E=R, como em qualquer outra organização humana, pessoas que têm maior influência. Claro. Isso está nas teorias mais variadas sobre distribuições assimétricas: Pareto, 90-9-1 etc. Se uma meia dúzia de pessoas tivesse comprado a ideia, acreditado e trocado telefonemas num fim de semana, o projeto talvez tivesse pegado e talvez tivesse envolvido algumas dezenas. Ou seja, wiki não pegou porque não contou com essa massa crítica inicial. O que não significa que não pegarã em outros momentos. Dependendo de meia dúzia, ele pegará ou não.

Mais um motivo, relacionado ao anterior: a topologia de nossa rede de pessoas (talvez esse termo facilite mais do que o termo asséptico "rede social". O Régis, que foi o idealizador e empreendedor do projeto Anotações, não tinha ainda proximidade com o Augusto, que o levasse a fazer lobby para o Augusto colocar em destaque na home page e em outros lugares bem visíveis.

Nossas distâncias sociais são muito variadas, dependendo de como e onde nos conhecemos, sobre o que já conversamos etc. Não somos formigas nem gaivotas. Veja que esse tipo de consciência, e uma visão de nossa rede que uma ARS poderia proporcionar, seriam vitais para empoderamento das pessoas na rede, ou seja, para a rede se tornar mais distribuída do que centralizada.

Aí vem uma outra pergunta, que considero fundamental: COMO EMPODERAR A REDE?

E já me permito um início de resposta, com um conceito que me veio à memória de leituras que fiz há quase 30 anos: a teoria do poder de soma não-zero. O poder de um sistema humano depende dos poderes individuais, o que confronta a noção vulgar de poder de soma zero (noção segundo a qual o seu poder aumenta na medida em que o meu diminui, pois o bolo de poder não aumenta). É uma noção amplamente aceita no imaginário coletivo, e em geral falsa. Lembro do nome de dois dos autores que me fizeram enxergar isso, quando estudei auto-gestão nos kibbutzim israelenses: Tannenbaum e Eric Abrahamsson.

Achei agora: Tannenbaum, A., and R.L. Kahn, “Organizational Control Structure,” Human Relations, 10, 1957, 127-140.

Trata-se, se queremos uma rede social forte, de termos um projeto de criação de poder.

Se essas reflexões estão confusas, é porque são 01:15 e eu estou escrevendo compulsivamente (já vou parar).

Para concluir: de forma análoga, numa empresa em rede como o Google, o "projeto Anotações da CIRS" talvez tivesse poucas chances de atravessar a barreira da mortalidade infantil, se o seu propositor tivesse distância social grande daqueles que decidem a alocação de recursos. E um maravilhoso produto da Google não teria nascido.

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