Escola de Redes

LIVRO: Nós (Mbl/Mii). Yevgeny Zamyatin (1921)

FILME: Stalin (“Stalin”), de Ivan Passer (1992) [Atenção: ao clicar no link você tem que baixar o filme, não é possível assisti-lo no Dropbox]

ZAMYATIN ANTEVENDO TUDO

Yevgeny Ivanovich Zamyatin (1884-1937) foi um escritor russo famoso pelo seu romance distópico Nós (Мы/Mii), escrito entre 1920 e 1921 e lançado em 1924.

O verbete da Wikipedia conta que "a história narra as impressões de um cientista sobre o mundo em que vive, uma sociedade aparentemente perfeita, mas opressora, ao perceber seus conflitos e imperfeições e ao travar contato com um grupo opositor que luta contra o "Benfeitor", regente supremo da nação. A obra é baseada, pelo menos em parte, nas experiências do autor com as revoluções russas de 1905 e 1917 e no período em que trabalhou supervisionando a construção de navios na Inglaterra (por volta do ano de 1916). Embora escrito no início da década de 1920, Nós só publicado pela primeira vez em 1924, e em inglês e em Nova Iorque, por estar proibido na então União Soviética devido à censura imperante no país. A primeira edição no idioma russo só foi lida em 1927/1928, quando publicada em um jornal de emigrados. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988, com as políticas de abertura do regime soviético... O livro leva a extremos os aspectos mais totalitários e o conformismo da sociedade industrial moderna, descrevendo um Estado que acredita que o livre-arbítrio é a causa da infelicidade e que a vida dos cidadãos deve ser controlada com precisão matemática baseada nos sistemas de precisão industrial criados por Frederick Winslow Taylor".

George Orwell - que foi visivelmente influenciado por Zamyatin - chegou a qualificar Nós como a experiência literária crucial e aventou que o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley (1932) foi parcialmente derivado do livro de Zamyatin. Ele também escreveu uma resenha sobre o livro, publicada em Tribune Magazine em 4 de janeiro de 1946. Disponível neste link.

Ao que tudo indica Zamyatin foi fortemente influenciado, por sua vez, pelo conto A Nova Utopia de Jerome K. Jerome (1891).

Zamyatin anteviu o stalinismo ou viu suas sementes germinando no bolchevismo? Talvez tal pergunta não seja mais tão relevante, pois, de algum modo, ele reconheceu e registrou na sua obra padrões autocráticos que estiveram presentes em tentativas autocráticas de todos os matizes que pretenderam reformar o mundo. Foi uma antevisão, sim, mas de tudo e não apenas das consequências do socialismo real.

No programa de investigação-aprendizagem sobre reconhecimento de padrões autocráticos esse livro de Zamyatin constitui material de pesquisa do segundo módulo. 

STALIN

O segundo filme é Stalin de Ivan Passer (1992).

Stalin é um filme de televisão de 1992, produzido para a HBO, com Robert Duvall interpretando o líder soviético. O filme ganhou três prêmios Globo de Ouro. A filmagem foi feita em Budapeste, na Hungria e em Moscou, na Rússia.

O filme retrata a carreira política e a vida pessoal do ex-líder da União Soviética, Joseph Stalin. A história é narrada pela filha de Stalin, que emigrou para os Estados Unidos em 1967.

O filme narra o terror de Estado na União Soviética. Como se sabe, apenas no período da ditadura stalinista (1921-1953), milhões de pessoas foram destruídas. O escritor Vadim Erlikman fez as seguintes estimativas em 2004: 1,5 milhões de executados (boa parte dos quais stalinistas...), 5 milhões de presos em campos de concentração (Gulags), 7,5 milhões de deportados e 1 milhão de mortos civis em países ocupados pela Rússia. Excluindo-se os mortos pela fome, é possível que 10 milhões de pessoas tenham sucumbido sob Stalin. Mas embora impactantes, esses números não são o material mais importante para o desvendamento dos padrões autocráticos.

Conhecer a ascensão e o apogeu do império stalinista - e a vida cotidiana sob a gravitatem do novo czar - é desvendar a autocracia em estado puro. Como reconheceu Nikita Kruschev, todos os que viveram esse período foram um pouco stalinistas. O ambiente conformado - o Estado totalitário do partido que configurou todos os espaços sociais, privatizando a sociedade - gerava continuamente hierarquia e autocracia e reproduzia stalins em cada funcionário e, no limite, em cada pessoa (aliás, em boa medida, todas as pessoas viraram funcionárias lato sensu). Mas até hoje, quando alguma forma de organização hierárquica invoca uma dinâmica autocrática é o mesmo padrão que está se configurando. A melhor descrição ainda é a de George Orwell (1949) em Nineteen Eighty-Four, 1984 (material de investigação do sexto módulo do programa): o Partido não apenas representa o Estado (ao qual se fundiu), mas estrutura hierarquicamente a própria sociedade.

No programa de investigação-aprendizagem sobre reconhecimento de padrões autocráticos, o filme Stalin de Ivan Passer constitui material de pesquisa do segundo módulo. 


QUESTÕES PARA REFLEXÃO 2

01 - Lendo as alternativas abaixo você diria que o mundo proposto por Zamyatin em Nós é melhor do que aquele em que vivemos hoje? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Parece que sim, pois na sociedade descrita em Nós nenhum indivíduo passa fome ou tem os carecimentos sociais básicos que ainda assolam boa parte da humanidade atual.

b) Sim, porque lá todos têm os mesmos direitos e o Estado fornece tudo que uma pessoa precisa para viver com dignidade.

c) Sim, e a prova disso é que as pessoas, em sua imensa maioria, são muito felizes.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 02

02 - Segundo a concepção vigente no mundo utópico de Zamyatin, de nada vale a liberdade se as pessoas não têm felicidade. Você concorda com tal visão? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Sim, porque de nada adianta a liberdade se as pessoas não podem ser felizes.

b) Sim, porque a liberdade - com cada um podendo fazer o que lhe desse na telha - acabaria atrapalhando o bom funcionamento daquela sociedade extremamente evoluída, onde os problemas básicos foram resolvidos.

c) Sim, porque a liberdade num mundo em que tudo já funciona ordenadamente introduziria conflitos e, consequentemente, a política, levando ao horrível quadro de desordem e de desmandos, corrupção e injustiças, que se observa nos países atuais.

d) Não. A felicidade e a liberdade são valores subjetivos e dependem de cada sociedade. O fundamental é que o Estado garanta as condições básicas de sobrevivência para cada cidadão.

e) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 03

03 - O fato de as pessoas terem um tempo livre - de que podem dispor como bem entenderem - no mundo de Nós, imaginado por Zamyatin, não acaba levando à desorganização? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Sim e é por isso que aparece divisão, oposição, revolta e quase tudo vai por água abaixo.

b) Sim e o próprio Zamyatin reconhece isso no texto (que a sociedade é evoluída, mas pode ser sempre aperfeiçoada).

c) Não. O sistema está tão bem organizado que é capaz de assimilar ou recuperar os desvios eventuais cometidos pelas pessoas, voltando sempre ao seu padrão normal de funcionamento.

e) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 04

04 - Existe propriamente uma sociedade no mundo de Nós de Zamyatin?

a) Claro que sim. A sociedade é o conjunto das pessoas que vivem no Estado Único (ou Unificado).

b) Não. Só existe Estado. Todas as pessoas são células do Estado Único.

c) Sim. O que chamamos de sociedade, ao chegar nesse ponto de avançada evolução, transforma-se naturalmente numa forma de organização superior chamada Estado (e passa a ser chamada de Nós).

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 05

05 - Quais indicadores de democracia podem ser percebidos no mundo utópico de Nós de Zamyatin? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) O fato de ser uma sociedade de plena igualdade, que tem como ideal supremo a felicidade.

b) O fato de o Estado satisfazer plenamente as necessidades de todas as pessoas.

c) O fato de o governante ser reeleito em eleições periódicas frequentes (anuais) por unanimidade ou quase (salvo um ou outro voto desviante, extremamente minoritário) é uma evidência de que a sociedade está contente com o governo que tem (e não pode haver democracia melhor do que isto).

d) Não existe nada que se possa chamar de democracia no mundo de Zamyatin.

e) A democracia não é mais necessária no mundo de Zamyatin porque a sociedade ultrapassou essa fase de seu desenvolvimento quando todos passaram a viver num mundo de abundância e felicidade geral, tendo todos plena consciência de seus deveres e direitos graças à sua formação racional.

f) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 06

06 - Quais indicadores de um modo de regulação autocrático podem ser percebidos no mundo utópico de Nós de Zamyatin? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) A igualdade como ideal supremo (em detrimento da liberdade).

b) A inexistência de sociedade civil (as pessoas foram transformadas em células do Estado).

c) A desobediência encarada como uma doença que precisa ser tratada (do ponto de vista médico: por isso os postos médicos estão tão espalhados, juntamente com os postos da polícia política: os chamados Guardiães ou guardas).

d) Não é uma sociedade que tem um Estado minimamente sob o controle dos cidadãos e sim um Estado unitário, hierarquizado, sob o comando de um chefe (o Benfeitor).

e) A existência de uma polícia política (uma congregação sacerdotal) capilarizada - chamada de Guardiães ou guardas - que vigia todos os cidadãos (inclusive com microfones instalados embaixo das ruas) e está diretamente subordinada a apenas um poder (o do Benfeitor).

f) O Benfeitor é reeleito sempre por unanimidade (não computando-se os eventuais votos contrários - que, de resto, são sempre minoritários mesmo).

g) O mundo de Nós, de Zamyatin, parece mais uma Igreja (ocupando o Benfeitor o lugar semelhante ao de um papa).

h) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 07

07 - As pessoas do mundo utópico de Nós eram portadoras de direitos? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Sim, havia muitos direitos sociais, pois o Estado garantia ótimas condições de vida para todos, em diversas áreas da vida, como educação, saúde, transporte, segurança, etc.

b) Sim, porque as pessoas podiam votar na escolha do Benfeitor, o que indica ao menos um certo grau de direitos políticos.

c) Sim, porque embora o Estado exigisse o cumprimento de tarefas determinadas, os indivíduos gozavam de liberdade de pensamento e de um tempo livre para o seu lazer (onde podiam, inclusive, se relacionar com quem quisessem).

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 08

08 - Qual a mais importante função do Muro (uma abóbada de vidro que isola toda a cidade) para a sociedade de Nós, sendo visto como “a maior de todas as invenções”? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Impedir a entrada de poderosos invasores externos, remanescentes da Guerra dos Duzentos Anos.

b) Proteger a cidade de intempéries naturais que poderiam provocar o caos ou desestabilização.

c) Manter as pessoas longe de qualquer interação com o imprevisível e obrigatoriamente submetidas à ordem social estabelecida pelo Estado Unitário.

d) Nenhuma das anteriores

QUESTÃO 09

09 - O que o livro Nós de Zamyatin tem a ver com o filme Stalin de Passer? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Não tem nada a ver, pois Zamyatin escreveu Nós em 1920-1921, portanto, antes da ascensão do stalinismo.

b) Tem a ver e muito. Zamyatin foi um militante bolchevique e percebeu no bolchevismo (antes e durante os primeiros anos da Revolução de Outubro, comandada por Lenin) os germens do que viria a se desenvolver sob o domínio autocrático de Stalin.

c) O estatismo exacerbado.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 10

10 - A realidade do regime ditatorial (a chamada "ditadura do proletariado") na União Soviética sob o domínio de Stalin não parece ainda mais autocrática do que todas as distopias (as obras de ficção que foram escritas antes, durante e depois do período stalinista)? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Não. Stalin fez o que fez constrangido pelas circunstâncias duríssimas da guerra civil logo após a Revolução de Outubro, da luta interna encarniçada entre os líderes blocheviques que queriam assumir o controle do Estado revolucionário logo após a morte de Lenin, da necessidade imperiosa de industrializar um país (a Rússia) que ainda era basicamente camponês (não tendo um número expressivo de operários) e da Segunda Grande Guerra que afetou inesperadamente a construção do socialismo (com a violação do tratado de não-agressão entre Alemanha e Rússia por parte de Hitler).

b) Não, a União Soviética sob Stalin apenas pagou o preço do isolamento quando foi alvo de ações militares hostis de numerosos países e foi então compelida a construir o socialismo em um só país para salvar a grande revolução social proletária de 1917.

c) Parece que sim, o que é espantoso. Nenhuma das distopias escritas antes, durante e depois do stalinismo conseguiu alcançar tal nível de crueldade, com o assassinato de milhões de pessoas (dentre as quais cerca de 1 milhão de membros do próprio partido).

d) Nenhuma das respostas anteriores.

QUESTÃO 11

11 - Como se sustentava e regulava o regime tirânico (que durou três décadas: de 1923 a 1953) retratado no filme Stalin de Ivan Passer? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) A ditadura stalinista era a mesma ditadura do Partido Comunista e se sustentava numa estrutura completamente hierarquizada que já existia desde 1917, a partir Revolução de Outubro (e até antes, no interior do próprio partido, que depois se tornou único e se fundiu ao Estado).

b) Um regime como a autocracia stalinista só pode se manter por tanto tempo em razão da obediência dos militantes do partido comunista (considerada condição para o triunfo da revolução e, depois, para a sobrevivência do Estado revolucionário).

c) Basicamente, a ditadura do Partido Comunista se manteve pela guerra (quente, fria e pela política praticada como guerra), quer dizer, pela construção continuada de inimigos: externos (a burguesia internacional, os países capitalistas, os socialdemocratas e liberais, os fascistas, os países fascistas do Eixo - Alemanha, Itália e Japão - na Segunda Grande Guerra e, depois, novamente, o capitalismo e o imperialismo) mas, sobretudo, internos (os agentes contrarrevolucionários infiltrados no partido e no Estado - os próprios camaradas bolcheviques que dirigiram a Revolução de Outubro, como Trotsky, Kamenev, Zinoviev, Bukharin, Rykov, Tomsky e, depois, centenas de milhares de outros ao longo do tempo - definidos tais inimigos internos por Stalin como os que se opunham ao seu poder monocrático).

d) O stalinismo se manteve graças à uma estrutura paralela de poder - uma polícia política - infensa ao antigo participacionismo bolchevique - comandada centralizadamente por Stalin: a OGPU (de 1922 a 1934), depois substituída pela (ou rebatizada como) NKVD (de 1934 até praticamente a morte do ditador), que atuavam como uma espécie de burocracia-sacerdotal da morte, extraindo suas energias do sacrifício de milhões de seres humanos e impondo-se pelo reinado do terror.

e) O ambiente conformado pelo bolchevismo e, depois, pelo stalinismo - o Estado totalitário do partido que configurou todos os espaços sociais, privatizando a sociedade - gerava continuamente hierarquia e autocracia e reproduzia “stalins” em cada funcionário estatal (como reconheceu Nikita Kruschev) e, no limite, em cada pessoa.

f) Nenhuma das alternativas anteriores.

 

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