Escola de Redes

LIVRO: A Nova Utopia. Jerome Klapka Jerome (1891) 

FILME: THX 1138 ("THX 1138") de George Lucas (1971) [Atenção: ao clicar no link você tem que baixar o filme, não é possível assisti-lo no Dropbox]

JEROME K. JEROME NUM MUNDO LIMPO

Jerome K. Jerome (1859-1927) escreveu em 1891 o pequeno conto A Nova Utopia. Jerome era um humorista e escritor inglês que acabou ficando mais famoso pela sua novela cômica Three Men in a Boat (Três homens num barco) publicada em 1889.

A Nova Utopia de Jerome Klapka Jerome (1891) talvez possa ser considerada o berço do gênero que utiliza as distopias como cenário. É provável que o conto tenha sido a inspiração para o livro Nós de Zamyatin (1921), para O Admirável Mundo Novo de Huxley (1932) e para o 1984 de Orwell (1949).

Jerome era amigo de H. G. Wells, Rudyard Kipling e Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes). Seu pequeno conto inspirou Wells para a criação de Little Wars (1913).

José Leonardo Souza Buzelli, da Universidade Estadual de Campinas, traduziu em 2013 A Nova Utopia de Jerome Klapka Jerome para o português e aduziu uma pequena introdução ao texto. Disponível neste link

É uma sátira profética. O mundo totalmente ordenado, geometricamente reto, completamente limpo, sem sociedade civil (sim, só havia Estado) do sonho distópico de Jerome, era um mundo de pessoas sem almas e sem nomes (as pessoas eram designadas por números). Eis um trecho do livro em que Jerome descreve a cidade utópica socialista:

"A cidade era toda limpa e muito quieta. As ruas, que têm números em vez de nomes, saem umas das outras em ângulos retos, e todas tinham exatamente a mesma aparência. Não havia cavalos, nem carruagens em volta; todo o tráfego era feito por carros elétricos. Todas as pessoas encontradas por nós tinham a mesma expressão grave e quieta, e se pareciam tanto umas com as outras que era como se fossem membros da mesma família. Assim como meu guia, todos vestiam calças cinzas e uma túnica cinza abotoada até o pescoço e presa por um cinto. Todos os homens estavam perfeitamente barbeados e tinham cabelos pretos".

Sim, havia um "regulamento capilar" (tal como hoje na Coréia do Norte do ditador Kim Jong-un). Eis o relato:

"O que seria da igualdade se um homem ou uma mulher pudesse se vangloriar por aí de seu cabelo dourado, enquanto um outro parecesse uma cenoura? Os homens não devem ser só iguais nestes dias felizes, eles também devem ter a mesma aparência, tanto quanto possível. Fazendo com que todos os homens estejam bem barbeados, e com que todos os homens e mulheres tenham cabelo preto, e cortado no mesmo comprimento, a gente remedia, até certo ponto, os erros da Natureza".

Para quem quer exercitar o reconhecimento de padrões autocráticos esses dois parágrafos (reproduzidos acima) têm material suficiente para um longa e profunda investigação sobre as tentativas antidemocráticas de consertar o mundo.

No programa de investigação-aprendizagem sobre reconhecimento de padrões autocráticos esse livro de Jerome constitui material de pesquisa do primeiro módulo. 

THX 1138: NUM MUNDO LIMPO

O primeiro filme é THX 1138 de George Lucas (1971).

"Trabalhe duro, aumente a produção, previna acidentes e seja feliz" - eis o lema do mundo distópico de THX 1138. O máximo controle social num mundo subterrâneo limpo, branco, harmônico, previsível, no qual o protagonista (THX - pronunciado como "Tex" por sua amante LUH 3417 e interpretado por Robert Duvall) é mais um cidadão sem nome, careca, vestido de branco, técnico de uma usina nuclear, que vive a rotina normal de todos os habitantes (o que inclui confissões frequentes a uma entidade religiosa cibernética, sancionada pelo Estado, chamada OMM 0910 e o consumo rotineiro de drogas). LUH (sua companheira de quarto) é a Eva primordial da desobediência: ela para de tomar as drogas (do controle pela não-emoção e da "felicidade") e substitui as de THX por placebo (a não-maçã?). Sem as drogas THX começa a transar com LUH e se apaixona. O casal é preso por "crimes sexuais" e "evasão de drogas". Após saber que LUH está morta, THX foge para a superfície

O site O Bacamarte, faz uma resenha razoável:

"Não existem nomes: um indivíduo é identificado por um número e um prefixo de três letras. Logo, também não existem famílias; quem decide onde e com quem moram as pessoas são computadores. Todos se vestem de branco, todas as cabeças são raspadas. Em situações de pressão, não se sente nada além de calma; e também nunca ninguém se apaixona: drogas farmacológicas anulam esse tipo de impulsos humanos.

É, como nas outras distopias, a história dos personagens que conseguem escapar. THX 1138, o protagonista, deixa de tomar seus remédios e se envolve (comete crimes sexuais, na linguagem do filme) demais com a sua companheira de quarto. Aqui, como em dezenas de outras obras, de Adão e Eva a Romeu e Julieta, da Guerra de Tróia à Pequena Sereia, é o amor que causa o desequilíbrio na ordem social. THX acaba preso e depois foge, sempre mantendo o objetivo de encontrar LUH 3417, sua amada. Com ele, vão outros dois. Um deles tentava ser líder dos prisioneiros rumo à liberdade. Outro era um holograma: alguém que só existe para as televisões, representando cenas eróticas (para que se masturbem os telespectadores) ou didáticas, (com policiais punindo um presumível criminoso), entre outras.

Mas há uma diferença crucial neste filme: a segurança é efêmera. Eles são presos, sim, em uma imensidão branca, onde não se vê horizonte, nem entradas nem saídas, mas é paradoxalmente simples escapar dela. Só foi necessário caminhar além do lugar em que estavam todos e atravessar uma porta de metal. Eles são perseguidos na fuga, sim, mas por policias robôs sem nenhuma estratégia de captura bem elaborada, e extremamente fáceis de derrotar. E os administradores se preocupam com as contravenções, mas até o limite de 5% acima da verba destinada ao caso. Se ultrapassada essa quantia, a operação é cancelada e o criminoso é deixado à própria sorte.

Ninguém checa se as pílulas são tomadas nos dormitórios. Ninguém grava o que se fala nos confessionários religiosos espalhados pela cidade. Há um profundo desprezo pela iniciativa humana, uma crença absoluta na ideia de que nenhuma pessoa vai tentar fugir. De que não haverá um só a não cumprir as regras e mesmo que isso aconteça, crê-se que este não é perigoso ou importante para exceder o orçamento. Não haverá abordagens positivas desse mundo em lugar algum na internet, mas, antes de uma parábola obscura sobre o totalitarismo, THX 1138 é uma apologia à rebeldia".

No programa de investigação-aprendizagem sobre reconhecimento de padrões autocráticos o filme THX 1138 constitui material de pesquisa do primeiro módulo. 


QUESTÕES PARA REFLEXÃO 1

QUESTÃO 01

01 - Podemos caracterizar o mundo distópico de A Nova Utopia de Jerome K. Jerome como uma autocracia? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Não, porque lá tudo é decidido por maioria em eleições regulares e frequentes.

b) Não, porque lá todos têm o direito de votar e não há nenhuma diferença entre homens e mulheres.

c) Não, porque lá vigora o regime da maioria (e é a maioria que decide o que é melhor para a sociedade).

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 02

02 - Quais os principais indicadores de autocratização da vida cotidiana no mundo utópico de A Nova Utopia de Jerome K. Jerome? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Não é possível identificar tais indicadores no texto.

b) A limpeza e a pureza (a aversão à sujeira e à contaminação pelo contato com o que é impuro).

c) As formas geométricas retilíneas (as linhas e ângulos retos na arquitetura de interiores e exteriores, urbana e rural (ruas, praças, prédios, plantações etc.)

d) A sociedade totalmente organizada e uniformizada (as pessoas com uniformes ou roupas semelhantes, com cortes padrão de cabelo ou penteados canônicos, os conjuntos habitacionais com construções e aparência iguais etc.)

e) As restrições à livre sexualidade (e a separação física entre os locais de moradia de homens e mulheres).

f) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 03

03 - Quem governa no mundo utópico de A Nova Utopia de Jerome K. Jerome? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) A Sociedade Vigilante Faixa Branca.

b) O texto não diz explicitamente e não fornece elementos para qualquer inferência capaz de permitir uma resposta inequívoca para a questão.

c) A sociedade é regulada por um algoritmo (baseado na prevalência da vontade da maioria aferida por eleições), que dispensa a necessidade de um chefe (de governo ou de Estado).

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 04

04 - Quais indicadores de democracia podem ser percebidos no mundo utópico de A Nova Utopia de Jerome K. Jerome? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) O fato de tudo ser decidido por maioria em eleições regulares e frequentes.

b) O fato de todos terem direito de votar (sem distinções de qualquer natureza: cada pessoa valendo um voto).

c) O fato de ser uma sociedade com plena igualdade.

d) O esforço que o Estado está fazendo para satisfazer plenamente as necessidades de todas as pessoas, indistintamente (como está no texto: "O Estado nos alimenta, veste, abriga, cuida, lava, corta nosso cabelo e... nos enterra").

e) O esforço que o Estado está fazendo para corrigir os erros naturais (que introduzem desigualdades) e endireitar as coisas.

f) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 05

05 - Quais indicadores de um modo de regulação autocrático podem ser percebidos no mundo utópico de A Nova Utopia de Jerome K. Jerome? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) A igualdade como ideal supremo (em detrimento da liberdade).

b) O esforço para consertar a natureza, a sociedade e o ser humano (que teriam vindo com alguma espécie de "defeito de fábrica").

c) A busca e manutenção da estabilidade pela aproximação do estado de equilíbrio (e não feita e refeita no fluxo dos sistemas afastados do estado de equilíbrio).

d) A sociedade como dominium do Estado (no sentido feudal do termo).

e) As pessoas - todas as pessoas - transformadas de cidadãos em súditos do Estado e, mais do que isto, em funcionários (stricto ou latu sensu) do Estado.

f) Os direitos encarados como privilégios.

g) O fato de as minorias não terem direitos (só a maioria).

h) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 06

06 - O que o livro A Nova Utopia de Jerome tem a ver com o filme THX 1138 de Lucas? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Não tem nada a ver.

b) De certo modo, THX 1138 foi inspirado pela corrente de literatura distópica inaugurada no final do século 19 por Jerome K. Jerome (1981) no conto A Nova Utopia e continuada por Nós de Zamyatin (1921), Admirável Mundo Novo (1932), 1984 de George Orwell (1949) e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (1953), entre outros.

c) A designação das pessoas por números já estava presente em A Nova Utopia; a rejeição do amor (e até a criminalização do sexo), idem; a caracterização da inadaptação como um mal-funcionamento do sistema também; - em suma, a inexistência de sociedade civil (tudo é Estado-corporação): existem, portanto, vários elementos comuns ao livro de Jerome e ao filme de Lucas.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 07

07 - Onde está a política no mundo distópico de THX 1138? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Foi abolida.

b) Foi substituída por uma espécie de política de RH (Recursos Humanos) corporativa.

c) Não se pode concluir nada sobre isso porque o filme não oferece informações suficientes.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 08

08 - Como é encarado e regulado o conflito no mundo de THX 1138 (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) O conflito é encarado como uma disfunção (malfunction) da máquina (sistema).

b) O conflito é resolvido pela eliminação ou neutralização do sujeito que provoca o conflito.

c) Não há nenhuma disposição estabelecida sobre o conflito (pois o sistema está projetado para não surgir o conflito).

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 09

09 - O que é o mundo de THX 1138? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Uma grande corporação.

b) Um cluster sem atalhos.

c) Uma prisão sem paredes.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 10

10 - Por que as pessoas não tomam iniciativas no mundo de THX 1138? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Porque não existem pessoas (autônomas) e sim indivíduos (unidades de um rebanho).

b) Porque tomar iniciativa seria desobedecer e as pessoas estão drogadas e disciplinadas para não ter emoções capazes de motivar ações desobedientes.

c) Porque não é necessário: tudo já está determinado por um plano, programa ou rotina e aos indivíduos basta seguir as regras.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 11

11 - Porque o personagem THX 1138 se rebela? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Por que LUH 3417 cumpre o papel da Eva da desobediência primordial: ao trocar sua dose de remédios supressores de emoção por placebo ela lhe tenta com uma não-maçã.

b) Por ressentimento ou vingança: THX 1138 só se rebela depois que fica sabendo da morte de LUH 3417.

c) O filme não fornece informações suficientes para responder esta pergunta.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

QUESTÃO 12

12 - Quem comanda a autocracia do mundo de THX 1138? (Atenção: você pode marcar mais de uma alternativa)

a) Ninguém comanda: há um programa rodando.

b) Os "gerentes de RH" da corporação.

c) Algum chefe oculto.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

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Respostas a este tópico

Vivemos numa sociedade relativamente distópica à medida em são impostas ideias de heróis salvadores, seja através de religiões pagãs e não-pagãs, seja pela indústria de entretenimento ressuscitando velhos heróis americanos ou (re)criando novos, mais "universais" como Luke e sua progênie. Além de heróis, a exploração do medo psicológico nos filmes também é muito poderoso. Hoje o máximo dessa linha de arrebanhamento são os filmes de zumbi. Ao mesmo tempo em que nos sentimos livres, na verdade somos bombardeados a todo instante por psicologias de arrebanhamento. Percebê-las é um primeiro grande passo para a libertação pessoal de ser apenas pessoa. Nem herói, nem zumbi.

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