Escola de Redes

Isto aqui, pessoal, é apenas um exercício de provocação.

Muita gente anda construindo indicadores para o Twitter. Todos são muito ruins, tentam, via de regra, captar o que chamam de 'influência' a partir de dados como: número de seguidores, número de tweets, número de menções, número de RTs etc. Nenhum deles, que eu saiba, conseguiu avaliar a interatividade.

Tive algumas idéias para avaliar a interatividade de uma pessoa no Twitter.

Quais seriam os indicadores a ser observados num dado intervalo de tempo - que não pode ser muito curto (senão alguns dados não poderão ser colhidos), nem muito longo (senão dilui demais a percepção dos fenômenos próprios da interação, sobretudo se a timeline do sujeito monitorado for muito caudalosa) - por exemplo, mensalmente?

 

A razão Seguidores/Amigos (S/A)

O primeiro indicador seria a razão entre o número de seguidores (S) e o número de seguidores seguidos (A). 'A' é o que alguns chamam de "amigos" (no Twitter). S/A = 1 significa que uma pessoa segue todos os que lhe seguem (ainda que possa seguir outras pessoas que não lhe seguem) e por isso a razão entre o número de seguidores e o número de seguidos não é relevante para o presente propósito (de medir a interatividade).

Quanto maior a razão S/A menor a reciprocidade, que, se não é a mesma coisa que a interatividade, por certo é uma variável que deve comparecer na equação que define esta última. É claro que isso pode ser falsificado, obviamente, pelos fakes (que não merecem ser seguidos) e pelas não-pessoas (perfis de marcas e de outras entidades abstratas) que, a meu ver, também não deveriam ser seguidas se usamos o Twitter como ferramenta de rede (quer dizer, de interação entre pessoas).

Quanto mais próxima de 1 é a razão S/A, maior a reciprocidade. Mas isso depende do número de seguidores. Uma pessoa que é seguida por centenas de pessoas, não tem qualquer dificuldade de segui-las de volta. Uma pessoa que é seguida por milhares de pessoas terá mais dificuldade de seguir a todas que lhe seguem, mas isso é ainda possível. Uma pessoa que é seguida por dezenas de milhares, mais dificuldades terá. Uma pessoa seguida por centenas de milhares, praticamente não conseguirá seguir a todas que lhe seguem. E as pessoas que são seguidas por mais de 1 milhão de pessoas já não podem ser monitoradas seguindo os critérios aqui propostos.

Na verdade, ninguém consegue acumular um número muito grande de seguidores em virtude de interação ou, pelo menos, de disseminação P2P. Mas quando o número de seguidores chega às centenas de milhares é sinal de que se trata de alguém que é seguido em virtude da sua fama (uma perversão fabricada pelo broadcasting). É irônico que o Twitter tenha sido pensado originalmente como isso mesmo: uma plataforma para espiar as pessoas conhecidas em virtude de critérios exteriores à interação: as VIPs, as chamadas celebridades, as pessoas ricas, bonitas, poderosas, desde que... famosas (e aqui também entram as pessoas reconhecidas por seu talento, de desportistas, passando por artistas, top models e best-sellers, a cientistas, mas que, além de reconhecidas, são amplamente conhecidas em virtude de terem aparecido com alta frequência em meios de comunicação um-para-muitos, quer dizer, por obra de broadcast). Na concepção original a pessoa comum estava destinada a ser seguidora enquanto que aos famosos se apontava a possibilidade ou a condição de serem seguidos por grandes rebanhos ou torcidas de fãs. Não deixa de ser interessante examinar a etimologia desta última palavra. Segundo a Wikipedia, "Fã (do inglês: fan [fæn], de fanatic) é uma pessoa dedicada a expressar sua admiração por uma pessoa famosa" et coetera.

 

A razão Tweets/Tréplica (N/T)

O segundo indicador seria a razão entre o número (N) de tweets (emitidos no intervalo de tempo considerado) e as tréplicas (T) no mesmo período: ou seja, alguém menciona seu tweet, você replica (responde mencionado o tweet que lhe mencionou), a outra pessoa responde à sua réplica mencionando-a e, então, você treplica.

Quando há tréplica, como definido no parágrafo anterior, é porque há conversação (os interagentes estão dando voltas juntos). Apenas a réplica não configura um ciclo completo, nuclear, de conversação: considera-se que um ciclo completo não se caracteriza pelo número total de emissões concernidas a um mesmo tweet original e sim pelo número de emissões de uma mesma pessoa a partir do momento em que ela está em interação com outra (e esse número não pode ser inferior a 2, do contrário não é conversa). Assim, numa interação entre A e B, sem contar o tweet original emitido por A, o ciclo é: MB1 (menção de B ao tweet original de A) => RA (réplica de A à MB1) => MB2 (menção de B à RA) => TA (tréplica = menção de A à MB2).

É claro que as interações não precisam ser apenas entre duas pessoas e isso cria dificuldades para calcular esse segundo indicador. Várias pessoas podem interagir (inclusive simultaneamente) numa conversação iniciada a partir do tweet de uma pessoa.

De qualquer modo, deixando de lado, por ora, tal dificuldade, vale afirmar que quanto maior a razão N/T menor a interatividade.

 

RT cruzado?

Um terceiro indicador, embora eu não esteja muito certo disso, poderia ser calculado a partir do que vou chamar de RT cruzado: uma pessoa menciona o seu tweet, você dá RT no tweet que lhe mencionou, a pessoa que lhe mencionou dá RT no seu RT. Ou, uma pessoa dá RT no seu tweet, você da RT no RT dela (no caso, manual, pois a funcionalidade de RT do Twitter não permite). São coisas diferentes, é claro, mas ambas são fracas. Captam uma intenção de interação, porém não inequívoca. Você pode retuitar quem lhe retuitou ou mencionou apenas porque quer difundir mais o seu nome para a legião de seus fãs e o mesmo pode acontecer com quem lhe mencionou. É claro que, nas duas situações, é melhor do que pairar olimpicamente sobre a massa ignara de seguidores, como faz a maioria das celebridades.

 

E o índice?

É preciso ver como os indicadores propostos (pelo menos os dois primeiros) se relacionam para compor um índice de interatividade. Mas desconfio de que seja qual for a combinação, os resultados da aplicação de um índice como esse (considerando indicadores como estes que aventei aqui) serão decepcionantes, revelando que as pessoas, com raríssimas exceções, não utilizam o Twitter para interagir, talvez porque o Twitter não seja mesmo uma ferramenta i-based (baseada em interação). Como venho dizendo há mais de dois anos, o Twitter é uma plataforma na transição entre os velhos sites de relacionamento - p-baseds, proprietários e egonetizados - para alguma coisa... que "ele mesmo" não sabe o que é (seus criadores e desenvolvedores não fazem a menor idéia do que seja, a despeito da timeline ter sido uma grande inovação, aliás, copiada por outros plataformas, como o Facebook e, até, o Ning).

Este post pode ser continuado a qualquer momento (com a ajuda de vocês, interessados). Podemos fazer exercícios com equações indutivo-especulativas. É claro que qualquer índice será arbitrário ou terá alta dose de discricionaridade. 

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Respostas a este tópico

Opa Augusto, gostei da sua luz sobre o assunto, principalmente porque descarta o interesse em medir influência (palavrinha que vem sido distorcida e mesclada com a "nefasta" popularidade para fins de marketing e egolatrias) 
Goataria de sugerir um outro provável indicador, também difícil de se medir: A quantidade de nós que o usuário cria, ao estimular conversações entre dois @usuários diferentes. Como se pudessemos medir os novos links criados entre usuários quando são usados recursos como #ff e conversações cruzadas - por exemplo, quando determinada pessoa sabe de um assunto, cria uma mensagem envolvendo duas outras pessoas e a partir daí uma conexão mútua é criada. Pode parecer uma interação utilitária, focada em uma busca de informação, mas muitas vezes se cria um link bem autêntico. 

um salve!  

Salve. Gostei Daniel. Vamos refinando.

rEscolados,

 

Acho que isso pode ser interessante:

 

The Million Follower Fallacy

http://aaai.org/ocs/index.php/ICWSM/ICWSM10/paper/view/1538/1826

 

Mais uma, né?

[]s

 

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