Escola de Redes

Faço agora (07h35 21/04/10) uma introdução ao draft abaixo:

Em geral as plataformas interativas pensadas para serem "redes sociais" não são boas ferramentas de netweaving.

Em primeiro lugar porque seus desenvolvedores confundem midias sociais com redes sociais, tomam a ferramenta (digital) pela rede (social), quando redes sociais são pessoas (conectadas, interagindo), não ferramentas!

Em segundo lugar porque, sob o influxo da chamada Web 2.0, as plataformas disponíveis são baseadas na participação (participation-based = p-based) e não na interação (interaction-based = i-based). Assim, não se regem pela lógica das redes mais distribuídas do que centralizadas, quer dizer, pela lógica da abundância, mas sim pelo regime da escassez (e ao aceitarem tal condicionamento, de ter que funcionar em condições de escassez, reproduzem desnecessariamente escassez, rendendo-se a um tipo de "economia política" onde a política é um modo de regulação não-pluriárquico). Não é outro o motivo pelo qual ativam mecanismos de contagem de cliques, instituem votações e atribuições de preferências baseadas na soma aritmética, que significam regulações majoritárias da inimizade política. Ora, isso enseja a formação de oligarquias participativas que tentam organizar a auto-organização (como ocorre, por exemplo, na Wikipedia).

Em terceiro lugar - e como conseqüência do seu fundamento p-based - as plataformas de articulação e animação de redes sociais (que já se encaram como se fossem as próprias redes sociais), ainda estão voltadas para organizar conteúdos (encarando, inevitavelmente, o conhecimento como um objeto e não como uma relação social). Esse é um problema porquanto a gestão do conteúdo, do conhecimento-objeto, ao tentar traçar um caminho para os outros acessarem tal conteúdo, cava sulcos para fazer escorrer por eles as coisas que ainda virão (na interação), com isso repetindo passado e trancando o futuro (como faz qualquer burocracia sacerdotal do conhecimento, mais conhecida pelo nome de escola e não é por acaso que boa parte dessas plataformas foi pensada por professores ou construída para atender a objetivos educacionais, entendidos como objetivos de ensinagem). Mas para uma plataforma i-based - adequada ao propósito de servir de ferramenta para o netweaving - não se trataria de pavimentar uma estrada para os outros percorrerem e sim de possibilitar que cada um pudesse abrir seu próprio caminho (redes são múltiplos caminhos).

Ademais, ao contrário do que acreditam os supostos especialistas em redes sociais na Internet, não é o conteúdo do que flui a variável fundamental para explicar a fenomenologia de uma rede e sim o modo-de-interagir e suas características, como a freqüencia, as reverberações, os loopings, as configurações de fluxos que se constelam a cada instante, os espalhamentos e aglomeramentos (clustering), os enxameamentos (swarming) que ocorrem, as curvas de distribuição das variações aleatórias introduzidas pela imitação (cloning) que produzem ordem emergente (a partir da interação), as contrações na extensão característica de caminho (crunch) dentro de cada cluster etc.

CARACTERÍSTICAS DESEJÁVEIS DE UMA PLATAFORMA INTERATIVA DE NETWEAVING

Um primeiro draft:

1 - Deve ser baseada na interação e não na participação (o que significa, entre outras coisas, não conter mecanismos que produzam artificialmente escassez, como votações e permissões diferenciadas que ensejem a formação de oligarquias participativas - como na Wikipedia, por exemplo).

2 - Deve ser amigável (como o Ning ou ainda mais).

3 - Deve ter funcionalidades que permitam a indexação de conteúdos (além de refinado e amigável motor de busca interna).

4 - Deve ensejar gestão de conteúdo a partir da interação (e não a partir de um schema classificatório estabelecido ex ante à interação).

5 - Não pode apostar na correção do tagueamento equívoco pelo grande número de interagentes (ou seja, deve poder servir a grupos de menos de 150 pessoas).

6 - Deve ter código aberto (e estimular à programação distribuída).

7 - Deve ser web.

8 - Deve permitir back up de todo conteúdo a qualquer momento (sem procedimentos de requisição burocrática aos administradores).

9 - Deve ter um indicador embutido de interatividade (e não apenas de acesso, número de eventos ou intervenções, contagem de cliques etc.)

10 - Pode ser paga (desde que tenha assistência online eficaz e no idioma do usuário).

11 - Não pode ter funcionalidades irremovíveis e sem sentido (tipo os presentes caça-cliques do Ning).

12 - Deve aceitar a incorporação de mecanismos ágeis e interativos de micro mensagens (tipo Twitter, porém dentro da plataforma).

13 - Deve poder ser customizada para servir como instrumento de crowdsourcing e peer-production (mais, muito mais, do que para organização coletiva de projetos proprietários e gestão de organizações proprietárias).

14 - Deve poder ser customizada para servir como ferramenta para vários propósitos, em especial: como ferramenta de gestão da transição de organizações hierárquicas (mais centralizadas do que distribuídas) para organizações em rede (mais distribuídas do que centralizadas); como ferramenta de gestão de aprendizagem (e não de ensino) em diversas formas de communityschooling.

15 - Last but not least, deve tentar captar o fluxo (FLUZZ, hehe) das interações (inclusive das conversações) ao invés de apenas registrar o passado em caixinhas. Esta seria a principal característica de uma boa plataforma de articulação e animação de redes sociais: uma interface gráfica e dinâmica na homepage, com um grafo móvel e links ativados (onde a um simples olhar seja possível captar o que está se constelando no momento mesmo do olhar e também acessar as regiões ativadas).

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Respostas a este tópico

Que tal um sugar para adultos?

http://www.sugarlabs.org/
wrote:
> Walter, it's folly to imagine that you can launch a platform for
> netweaving for adults from sugar? this discussion begin today here because
> of the announcement that ning will begin charging for the use of the
> platformt. What you think about?

It would require some thought about the server side of things and, in
the short term, Sugar is only useful from a GNU/Linux platform, except
in a virtual machine from Windows or the Mac or a phone. But this
could change... there is work along a number of fronts that could lead
to a break through in terms of access.

Maybe something a team in Brasil might want to work on?

regards.
Não consegui entender ainda como o Sugar funciona. Mas tô tentando. Abs.
Augusto, em alguma das discussões você comentava que o Ning dá muitos privilégios e poderes ao adminsitrador. Quais por exemplo? Todas que seriam resolvidas dentro dessas 15 propostas? Abs,
Isso mesmo, Jaqueline. Bem lembrado. Só que não sei como resolver o problema. Por exemplo, o Ning confere ao administrador o poder de banir (era a horrível palavra original, agora trocaram por suspender) um membro. Por outro lado, se alguém não tiver tal papel, como excluir os programas maliciosos que atacam constantemente a plataforma passando-se por pessoas? Outra atribuição exagerada: quem fundou a plataforma ("criou a rede", na linguagem do Ning) também tem o poder de deletá-la.

Todavia, como comentei em outro lugar, numa conversa com o Pedro Ferrão, as alternativas são muito problemáticas. Se esses poderes forem compartilhados, com quem o seriam (sem formar uma oligarquia participativa, como na Wikipedia)? Se fosse aberto a todos - em uma rede aberta - como evitar que um administrador voltado para a luta interna desfizesse sistematicamente (ou sabotasse de outra forma) o que outro administrador fizesse? E - tomando o nosso caso como exemplo - como evitar que uma pessoa recém chegada à E=R, sem ter tido tempo de se familiarizar com a cultura que aqui foi construída ao longo do tempo (ou mesmo por má-intenção), resolvesse, por exemplo, deletar a Biblioteca (que exigiu quase dois anos de trabalho árduo para ser reunida) ou excluir algum grupo? E como evitar a competição tipicamente mercantil (com poder de administração um empresário poderia inviabilizar quase tudo o que fizesse seu concorrente)?

Enfim... tal como esta plataforma está desenhada, teríamos que ter imensa criatividade para uma coisa assim dar certo. Dada a arquitetura do Ning (que não foi desenhado para tal compartilhamento quando a rede é aberta a qualquer um), somente a confiança construída seria uma garantia aceitável. Mas como aferir isso, de modo objetivo, em uma rede com milhares de membros?

Não acho, porém, que este seja o maior problema da plataforma Ning e de outros plataformas similares. No limite, a lógica da abundância sempre vale aqui. Se um administrador avança o sinal, usando essas permissões exageradas atribuídas pela plataforma de modo incompatível com o escopo e os princípios de uma rede, os seus membros podem sempre abrir outra plataforma. Qualquer outro modo de regulação (mesmo pretensamente democrático) que gere escassez verticalizaria a rede (aumentando seus graus de centralização).

Jaqueline de Camargo disse:
Augusto, em alguma das discussões você comentava que o Ning dá muitos privilégios e poderes ao adminsitrador. Quais por exemplo? Todas que seriam resolvidas dentro dessas 15 propostas? Abs,
Augusto,

Talvez fique mais claro vendo os filmes nos links abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=DwzCsOFxT-U
http://www.youtube.com/watch?v=zfcAD-aZsts&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=qyjzpUmVEV0&feature=related

A busca por "sugar olpc" no youtube traz um monte de informações.
Augusto, é uma lista de requisitos que me parece muito completa.
Mas eu gostaria de colocar alguns pontos em que acho que podemos melhorar:



1- especificamente "não conter mecanismos que produzam artificialmente escassez, como votações". Tenho convicção de que votações são um instrumento valioso para a deliberação coletiva. Não é nesta discussão que devemos aprofundar isso, mas na escolha de uma ferramenta acho que não ter votaçõs é um critério inadequado.

3 - Deve ter funcionalidades que permitam a indexação de conteúdos (além de refinado e amigável motor de busca interna).
Acho que além da indexação de conteúdo, deve permitir a organização hipertextual (inclusive hierárquica) de conteúdo. É uma velha discussão entre navegação e busca. Acho que devemos ter ambas

4 - Deve ensejar gestão de conteúdo a partir da interação (e não a partir de um schema classificatório estabelecido ex ante à interação).
Sim, mas pode haver um schema classificatório após a interação, por que não? E por que não também ex ante, se for corrigível e flexível?

5 - Não pode apostar na correção do tagueamento equívoco pelo grande número de interagentes
Para isso, os CMSs permitem criar campos com tagueamento livre, e também campos com tagueamento controlado feito por profissionais. O livre é para qualquer um taguear, o controlado é para profissionais enquadrarem os novos tags na sua taxonomia, através de relações consagradas pela ciência da informação. O membro tem liberdade de pesquisar por um ou por outro. Mais poder para o membro da comunidade. Organização liberta, não aprisiona.

Como agora lembrei os CMSs, eu incluiria na sua lista de opções o Drupal, que é muito forte nesses aspectos.
É uma longa (e ao que parece infindável posto que recorrente) discussão, Sérgio.

1 - Coloquei algumas características de uma plataforma de netweaving de redes sociais distribuídas (mais distribuídas do que centralizadas). Neste caso, não tem mesmo que haver deliberação coletiva (por que deveria haver?). Sua convicção de que votação é instrumento valioso, vale para plataformas participativas, mas não para coletivos geridos pela lógica da abundância.

3 - Organização hipertextual, sim, mas as classificações em árvore não significam necessariamente hierarquia (a não ser em um sentido deslizado desse conceito). Pensava cá com meus botões em sintonias entre conteúdos que podem se constelar em meio à navegação (não apenas identificadas pela busca). Ou melhor, pensava em busca semântica mesmo. Mas o que acho que não deve ter é estações pré-determinadas (por quem?) para guiar o navegante, induzindo-a a passar pelos caminhos que queremos (quem quer?) que eles passem (isso é mais ou menos a mesma coisa que currículos escolares, não?). A não ser - entenda bem - que existam múltiplos caminhos (como fizemos nos itinerários). Rede = múltiplos caminhos!

4 - Pode haver sistemas classificatórios depois da interação (e sempre haverá isso, do contrário não se consegue sistematizar ou teorizar stricto sensu nada). Mas antes é que é problema. Ser corrigível não refresca nada, pois quem corrige? Se for a multidão, vá lá (teremos curvas de correção que corresponderão à distribuição imprevisível dos imputs). Mas a plataforma que queremos deve servir também para grupos menores (e aí o problema não é resolvido a não ser com a formação de um corpo docente = e isso é a instituição escola, está percebendo?). Se uma rede for uma escola tem que ser uma escola-não-escola (pois escolas são burocracias sacerdotais do conhecimento, são aparatos hierárquicos de seleção de fluxos: tribunais epistemológicos, alfândegas ideológicas etc.).

5 - A correção do tagueamento equívoco - que incide como problema em grupos pequenos - é a mesma questão comentada no tópico acima. Que história é essa de "tagueamento controlado feito por profissionais", Sérgio? Essas formulações: "Mais poder para o membro da comunidade" e "Organização liberta, não aprisiona" são, a meu ver, definidoras de um pensamento acostumado à escassez |(quer dizer, de um pensamento gerador de escassez). Mas isso podemos debater em outro lugar.

Sergio Storch disse:
Augusto, é uma lista de requisitos que me parece muito completa.
Mas eu gostaria de colocar alguns pontos em que acho que podemos melhorar:



1- especificamente "não conter mecanismos que produzam artificialmente escassez, como votações". Tenho convicção de que votações são um instrumento valioso para a deliberação coletiva. Não é nesta discussão que devemos aprofundar isso, mas na escolha de uma ferramenta acho que não ter votaçõs é um critério inadequado.

3 - Deve ter funcionalidades que permitam a indexação de conteúdos (além de refinado e amigável motor de busca interna).
Acho que além da indexação de conteúdo, deve permitir a organização hipertextual (inclusive hierárquica) de conteúdo. É uma velha discussão entre navegação e busca. Acho que devemos ter ambas

4 - Deve ensejar gestão de conteúdo a partir da interação (e não a partir de um schema classificatório estabelecido ex ante à interação).
Sim, mas pode haver um schema classificatório após a interação, por que não? E por que não também ex ante, se for corrigível e flexível?

5 - Não pode apostar na correção do tagueamento equívoco pelo grande número de interagentes
Para isso, os CMSs permitem criar campos com tagueamento livre, e também campos com tagueamento controlado feito por profissionais. O livre é para qualquer um taguear, o controlado é para profissionais enquadrarem os novos tags na sua taxonomia, através de relações consagradas pela ciência da informação. O membro tem liberdade de pesquisar por um ou por outro. Mais poder para o membro da comunidade. Organização liberta, não aprisiona.

Como agora lembrei os CMSs, eu incluiria na sua lista de opções o Drupal, que é muito forte nesses aspectos.
Augusto, ao ler seu excelente post (sempre grato pelo prazer do embate intelectual), me ocorreram duas funcionalidades importantes, ambas na categoria Personalização:

- poder marcar como favoritos (tenho essa funcionalidade no Atlassian Confluence) e poder acrescentar notas e tags (como no delicious, ou mesmo diretamente no delicious através de plugins) Por exemplo, esta sua resposta é um favorito para mim, e eu perderei o seu rastro).

- poder integrar os tags com outros lugares onde usamos os mesmos tags (ex.: delicious), ou fazer o tagueamento ser replicado automaticamente no delicious. Sei que é querer muito, mas temos tempo para abrir mão do que for menos vital.

Um abraço
Augusto,

Acho q um sistema de versionamento em que não se apaga os arquivos, apenas os esconde, me parece melhor do que ter moderadores. Embora sempre posso existir briga de edição interna, ainda acho melhor do que ter moderador.

sobre robos spammers, um solução q talvez possa ser viavel é uma verificação de ligação, so poderia ser banido se o usuario q nao tenha ligação nenhuma com ninguem do grupo, e talvez seria necessario mais de uma pessoa marcar como robo aquele usuario...

Talvez uma solução q nao seja via navegador, como o Sneer da Computação Soberana, seja mais facil de lidar com robos spammers.

A Computação Soberana tambem é uma solução para o problema de não ser dono do seus proprios dados, como o problema do ning apagar as comunidades.

Um sistema operacional com uma visão em redes P2P, seria um bom caminho para midias socias.
A idéia do P2P me parece muito boa também, Eric. Poderíamos ter um troço assim como eMule embarcado em um ambiente ou se é possível fazer buscas e baixar arquivos?

Quanto aos programas maliciosos (os robos spammers que vêm atacando o Ning sistematicamente) eles são velhos conhecidos do Ning Team. Não se pode dar um minuto de trégua a eles, pois eles vão enviando mensagens para os membros e entrando em tudo quanto é lugar. Além disso, eles se reproduzem e fazem novo login com o mesmo nome e novo e-mail, de sorte que em poucos minutos você tem dezenas de usuários falsos.

Abs


Eric Vieira disse:
Augusto,

Acho q um sistema de versionamento em que não se apaga os arquivos, apenas os esconde, me parece melhor do que ter moderadores. Embora sempre posso existir briga de edição interna, ainda acho melhor do que ter moderador.

sobre robos spammers, um solução q talvez possa ser viavel é uma verificação de ligação, so poderia ser banido se o usuario q nao tenha ligação nenhuma com ninguem do grupo, e talvez seria necessario mais de uma pessoa marcar como robo aquele usuario...

Talvez uma solução q nao seja via navegador, como o Sneer da Computação Soberana, seja mais facil de lidar com robos spammers.

A Computação Soberana tambem é uma solução para o problema de não ser dono do seus proprios dados, como o problema do ning apagar as comunidades.

Um sistema operacional com uma visão em redes P2P, seria um bom caminho para midias socias.
O Klaus q teve essa ideia da Computação Soberana montou um grupo e está desenvolvendo esse sistema de P2P.

Tem dois grupos de discussão:
http://groups.google.com/group/computacaosoberana
http://groups.google.com/group/sovereigncomputing (para desenvolvedores)

Aqui tem uma versão do sistema:
http://sovereigncomputing.net

Faz um tempo q eu testei, não tinha muita coisa, mas acho q é bem promissor o sistema.

Augusto de Franco disse:
A idéia do P2P me parece muito boa também, Eric. Poderíamos ter um troço assim como eMule embarcado em um ambiente ou se é possível fazer buscas e baixar arquivos?

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