Escola de Redes

INTRODUÇÃO À OPENSCIENCE

Draft terminado às 12h00 de 03/01/2014 by Augusto de Franco

 

POR QUE AS CIÊNCIAS DO SEGUNDO MILÊNIO NÃO FORAM OPEN SCIENCES

 

 

1 - O que foi chamado de ciência ao longo do segundo milênio, não foi sempre a mesma coisa: temos as ciências medievais dos séculos 13 e 14 (Adelard de Bath, Robert Grosseteste, Alberto Magno, Tomás de Aquino, Roger Bacon, Duns Scotus, Guilherme de Ockam, Jean Buridan, Nicolas de Oresme); temos as ciências renascentistas dos séculos 15 e 16 (Regiomontanus, Giovanni Pico della Mirandola, Marsilio Ficino, Leonardo da Vinci, Agrippa von Nettesheim, Paracelso, Nicolau Copérnico, Nicolau Tartaglia, Girolamo Cardano, Giordano Bruno, Tycho Brahe, John Dee, Giovanni Battista della Porta); e temos a ciência moderna dos séculos 17 e 18 (William Gilbert, Simon Stevin, Francis Bacon, Johannes Kepler, Galileu Galilei, Evangelista Torricelli, René Descartes, William Harvey, Blaise Pascal, Robert Boyle, Christiaan Huygens, Robert Hooke, Isaac Newton) - que está no singular (ciência em vez de ciências) porque passou a ser considerada a única ciência possível na passagem do século 19 para o século 20 (1).

2 - Existiram, portanto, no segundo milênio, várias ciências ou vários esforços intelectuais que foram (ou poderiam ser) chamados de ciência (seja no sentido mais geral de conhecimento sobre o mundo, incluídos a natureza, o ser humano e a sociedade, seja no sentido de resultados da aplicação de métodos específicos de observação, investigação e explicação do mundo) e não apenas uma ciência, que só passou a haver por obra de "engenharia epistemológica" (quer dizer, de ideologia) quando entraram em cena os filósofos racionalistas da ciência.

3 - O que foi chamado de ciência nos últimos dois séculos do segundo milênio foi, na verdade, uma maneira particular de ver (e investigar e explicar) o mundo chamada de mecanicismo. Estabeleceu-se então a hegemonia de uma ideologia científica que identificou, sem o declarar (e às vezes até declarando o oposto), que a ciência moderna era a única ciência correta ou a única ciência capaz de descobrir a verdade. Como se não tivesse havido ciência nos séculos anteriores ao século 17 (incluindo os milênios anteriores ao primeiro milênio da Era Comum). Como se não poderá haver ciência (diferente do que foi chamado de ciência nos séculos 19-20) nos séculos e milênios que virão.

4 - O aristotelismo de Aristóteles (tal como "traduzido" e adaptado inicialmente por Alberto Magno) e o aristotelismo de Avicena juntamente com o platonismo de Santo Agostinho (tal como combinados em uma fórmula original por Robert Grosseteste) forneceram as bases - nos séculos 13 e 14 - para o que no segundo milênio apareceu como primeira ciência escolástica, da qual se diz que era uma corrente vitalista. Diz-se também que o hermetismo, o neoplatonismo e o gnosticismo (que começaram a chegar à Europa como vertentes subterrâneas no século 12, mas que refloresceram com a crise da escolástica) forneceram as bases - nos séculos 14 e 15 - para uma corrente mágica (no sentido da magia naturalis renascentista). E finalmente diz-se que houve uma fusão entre a nova matemática, renascida nos séculos 15 e 16 (por esforços como os de Regiomontanus, Targaglia e Cardano), com o experimentalismo pós-copernicano e o observacionismo (o método da observação sistemática; e. g. o de Tycho Brahe) e com as codificações tardias de Francis Bacon e que isso teria dado origem à grande revolução epistemológica do século 17 que pariu a ciência moderna (a ciência de Galileu, Kepler e Descartes), a qual seria uma corrente mecanicista. A essa corrente mecanicista o século 20 chamou de ciência. Mas as ciências não-mecanicistas - vitalistas - da Idade Média também eram ciência. As ciências não-mecanicistas - mágicas - do Renascimento também eram ciência. As novas ciências não-mecanicistas que estão florescendo - sob o chamado paradigma da complexidade, ou do pensamento sistêmico ou ecológico - também são (ou serão) ciência. E velhas ciências não-mecanicistas que estão reflorescendo ou que de algum modo conseguiram remanescer (das quais são exemplos a acupuntura e a homeopatia) também são ciência.

5 - Embora as diferentes correntes mencionadas acima tenham, em alguns casos, interagido fortemente entre si, não se pode dizer que uma levou à outra ou foi precursora de outra. O experimentalismo de Roger Bacon não foi o precursor do experimentalismo de Robert Boyle (para o primeiro a ciência da experiência era um fim enquanto que para o segundo o método experimental era um meio). A matematização de Robert Grosseteste não foi precursora da matematização de Isaac Newton (o De Lineis, Angulis et Figuris do primeiro não tem muita coisa a ver com o Principia Mathematica do segundo). Não há evolução aqui. Cada uma delas é um mundo autônomo, com interfaces. São mundos diferentes (em termos sociais) e não apenas visões diferentes de (um) mundo (único). São culturas diferentes, quer dizer, redes diferentes de conversações (com circularidades inerentes próprias que se conservam): como escreveu Humberto Maturana (1990), "são as conversações nas quais estamos imersos ao fazermos ciência que determinam o curso da ciência" (2).

Alguns padrões de observação, investigação e explicação vigentes em um mundo podem todavia se replicar em outras regiões do tempo e do espaço (entrando em outros mundos). Assim, Alberto Magno e seu discípulo Tomas de Aquino foram alquimistas (pelo menos escreveram tratados alquímicos); Roger Bacon, seguidor de Robert Grosseteste (mas também, ao que parece, discípulo do alquimista Pedro de Maricourt) foi alquimista; e, muito tempo depois, essa influência continuou viva até a primeira metade do século 18: Francis Bacon e Isaac Newton foram alquimistas (e talvez Newton tenha dedicado tanto ou mais tempo ou empenho à alquimia do que ao que foi reconhecido como ciência válida pelos seus contemporâneos e pósteros) (3).

Os filósofos racionalistas da ciência do século 20 tendem a chamar de filosofia mística ou espiritualista, religião, crendice, ignorância, ou até mesmo de charlatanismo, tudo que não é ciência mecanicista. Os casos de Newton e, antes, de Kepler (que estava realmente interessado nas implicações astrológicas de sua ciência e na descoberta da harmonia do universo - ou a música das esferas - ao investigar as leis do movimento celeste) constituem sérias dificuldades para os esquemas interpretativos dos filósofos racionalistas da ciência. Para não chamarem Newton de charlatão, por exemplo, resolvem ignorar tal passagem da sua vida (a despeito da evidência de que seus extensos manuscritos sobre a alquimia foram conservados e continuam disponíveis para consulta); ou, no máximo, tentam adivinhar que sua intenção ao se dedicar à investigação alquímica era radicalmente diferente daquelas de Roger Bacon e dos alquimistas, já que ele queria realmente descobrir as causas dos fenômenos ligados à transmutação da matéria enquanto que os primeiros queriam sobretudo vivenciar uma experiência transformadora em seus próprios corpos e mentes (4). De qualquer modo não explicam como um gênio como ele pôde, apesar de seus intensos esforços, ter sido tão mal sucedido nessa empreitada heterodoxa...

6 - Toda ciência tem um código. Diferentes ciências têm códigos diferentes. O código é o conjunto de termos - palavras ou símbolos - e modos de ordenação válidos que podem ser escritos em uma ou várias linguagens de sorte a emitir instruções para a observação, a investigação e a explicação de eventos (realidades ou classes de fenômenos) de um mundo (conjunto de eventos). Mas um mundo é culturalmente construído, constituído pelas redes de conversações que dão sentido aos seus eventos e assim, em termos culturais, se confunde com a visão de mundo da rede social que o conformou em uma determinada época e lugar.

O código programa o que pode ser feito e reconhecido como ciência válida para aquele mundo. Isso significa que ele determina quais são as operações válidas que podem ser feitas, compreendendo também o conjunto das características operacionais nas quais se baseiam os processos de observação, investigação e explicação daquela ciência.

Na ciência mágica renascentista, por exemplo, eram consideradas operações válidas aquelas baseadas na analogia, já que a visão de mundo (quer dizer, o mundo culturalmente construído) era a de que havia uma correspondência universal entre as partes (que eram sempre partes de um mesmo todo) cujas formas ou dinâmicas de funcionamento fossem semelhantes e quase que um espelhamento entre o macro e microcosmo, posto que "o que está em cima" e "o que está em baixo" faziam parte dessa mesma totalidade, cuja harmonia podia ser captada através da observação de regularidades e homomorfismos e revelada por símbolos de unidade e de totalidade.

Para a ciência mecanicista dos modernos tal operação (analógica) não era válida para descobrir o funcionamento do mundo porquanto o mundo que foi culturalmente construído por suas conversações recorrentes não era um universo com sentido, não possuía uma imanência nem a predisposição para se revelar por meio de símbolos de unidade na totalidade. O mundo era uma máquina e para descobrir as leis de seu funcionamento haver-se-ia que partir da observação sistemática do funcionamento de suas partes e de experimentos particulares e, por meio de operações indutivas e de descobertas de regularidades específicas à cada classe de fenômenos, formular hipóteses explicativas consistentes, logicamente coerentes entre si e das quais se poderiam inferir consequências não observáveis (e muitas vezes não reveláveis por experimentos) por meio de operações lógico-matemáticas dedutivas corretas.

7 - Em geral os códigos das ciências que surgiram no segundo milênio foram fechados. Assim foram os códigos das ciências vitalistas medievais, bem como os códigos das ciências mágicas renascentistas e, inclusive, o da ciência mecanicista que surgiu a partir do século 17. Os que se dedicaram a operar essas ciências - inicialmente os filósofos, os filósofos da natureza e depois os que foram chamados e chamaram a si mesmos de cientistas - não fizeram qualquer esforço significativo para abrir esses códigos (em alguns casos, pelo contrário, se empenharam em fechá-los e ocultá-los). Essa é uma das razões pela qual se diz que o que o segundo milênio fez em ciência foi closed science, não open science. Humberto Maturana (1978), excepcionalmente, abriu o código da ciência mecanicista ao descrever suas características operacionais (5). Abrir os demais códigos é uma tarefa típica de openscience, assim como contribuir para abrir (e manter aberto) o código da nova ciência da complexidade que está emergindo.

8 - A primeira ciência escolástica medieval foi fechada, como só podia ser mesmo a escolástica, que talvez tenha começado quando Alberto Magno (entre outros, inclusive seu discípulo Tomás de Aquino) tornou palatável a leitura de Aristóteles e Platão na nascente corporação medieval meritocrática chamada de universidade (gerada dentro ou a partir das escolas monacais e das que floresceram à sombra das catedrais). A despeito de que se diga que foi a introdução de Aristóteles que forneceu, em grande parte, os elementos para a fundação da escolástica, o platonismo foi na verdade o fator decisivo para o que se chamou de ciência no início do segundo milênio como uma espécie de propriedade da escola (σχολαστικός e scholasticus). A universidade era uma escola, era uma versão da academia (platônica: sim, toda academia é platônica) porquanto baseada na mesma separação entre sábios e ignorantes definida pelo acesso diferencial à espisteme (o conhecimento filosófico ao qual não poderia ter acesso o vulgo) e ciência passou a ser então o que se fazia nessa escola e que a ela pertencia.

9 - O fato é que o primeiro código do que se chamou de ciência no segundo milênio foi escrito nos séculos 13 e 14, entre outros, por gente como Magno, Grosseteste, Bacon e Ockham. Escolásticos e alquimistas programaram esse código como código fechado num duplo sentido: era fechado porque propriedade da escola (o sistema fechado da escolástica) e era fechado porque inacessível ao vulgo, ao homem comum, por uma exigência de manter um segredo (o código fechado stricto sensu em sua escritura, de sorte a não ser entendido por qualquer um). Bacon chega a afirmar que a necessidade do sigilo tem uma razão transcendente, já que "Deus sempre oculta das multidões os máximos achados da ciência", além de uma razão prática: "nas mãos do vulgo, obras digníssimas são pervertidas, uma vez que o objetivo real só pode ser atingido pelos sapientíssimos e instruidíssimos". Com efeito, na sua Epistola de secretis operebus artis et naturae (escrita entre 1268 e 1292), Bacon nos dirá que "homens sábios e conhecedores tinham propositalmente obscurecido seus escritos - algumas vezes usando palavras enigmáticas e figurativas, em outras misturando diferentes tipos de letras, omitindo vogais ou ainda utilizando figuras geométricas ao invés de letras - escondendo assim seus segredos do vulgo, pois este faria pouco caso da ciência e não saberia como se servir das coisas divinas" (6).

10 - O segundo código, da ciência renascentista, também foi fechado. Hermetistas e neoplatônicos, alquimistas e espagiristas (como os paracelsistas) e outros investigadores dedicados à magia naturalis, construíram um código ainda mais fechado do que os dos antigos escolásticos. Só para dar um exemplo, quatro séculos depois das advertências de Roger Bacon sobre a necessidade de ocultar o conhecimento, um texto do The Hermetic Museum (1678) ainda ecoava essa tradição revelando mais nua e cruamente seu propósito:

"Porque este Magistério deve manter-se sempre como uma ciência secreta, sendo evidente a razão que nos impele a ser precavidos. Se algum infame aprendesse a praticar esta Arte, haveria grande perigo para a Cristandade. Pois esse homem ultrapassaria todos os limites da moderação e removeria de seus tronos hereditários os legítimos príncipes que regem os povos cristãos" (7).

Tanto na Idade Média quanto no Renascimento, os códigos da ciência foram escritos para o poder (eclesiástico ou temporal, oficial ou oculto, tanto faz aqui: a questão é a hierarquia e a autocracia), foram ex parte principis e não ex parte populis (open source). Foram escritos para servir ao poder e para que o poder dela se servisse. Pode-se argumentar que na Idade Média só poderia ter sido assim (já que a democracia dos modernos não havia sido reinventada e, quando o foi, quatro séculos mais tarde, restringiu-se à uma forma de administração política do nascente Estado-nação europeu), mas na verdade foi assim porque era funcional que assim fosse para manter o modo autocrático de regulação (da política realmente existente dos Estados principescos de então e da Igreja, que eram quase a mesma coisa).

O fundamental aqui é perceber que a meritocracia corporativa dos sábios é mantida pela obstrução - deliberada ou não - do acesso ao conhecimento. O segredo - um conhecimento trancado por guardiães (via de regra e não por acaso, professores que fundam a universidade como corpo docente) e que não deveria ser revelado aos que não tinham valor (virtude) - estava relacionado com a manutenção dessa ordem hierárquica (religiosa ou secular dinástica, hereditária). Há aqui uma associação tão explícita entre virtude e poder como a que depois, no capitalismo, passou a ser feita entre virtude e sucesso. Quanto a isso, pouca coisa mudou com o Renascimento.

11 - Por qualquer razão que se queira aventar, os primeiros códigos das ciências do segundo milênio foram os de uma ciência conforme ao poder (quando não ao poder temporal profano ou eclesiástico oficial, a um verdadeiro poder sagrado e oculto que - eis o ponto! - organizava-se da mesma forma hierárquica e era regulado por uma dinâmica igualmente autocrática, senão mais). Este ponto é importante porquanto os sábios medievais e renascentistas - os programadores, por assim dizer - que escreveram os códigos das suas respectivas ciências, foram vítimas - com grande frequência - do poder temporal e eclesiástico. Aliás, bem pior do que isso: quase todos esses sábios tiveram dificuldades com os hierarcas religiosos oficiais ou com os poderosos temporais, fossem os superiores de suas ordens religiosas ou os bispos de suas dioceses ou o próprio papa ou outros seculares "legítimos príncipes que regem os povos cristãos". Foram censurados, presos, banidos, renegados - dando a impressão de que eram espíritos livres tentando acender uma luz nas trevas da opressão eclesiástica ou temporal quando, na verdade, cumpriam objetivamente o papel de agentes do sistema de aprisionamento do conhecimento, não importando para nada a consciência individual que tivessem ou não desse papel e nem o nome do poder ao qual serviam (e sim à estrutura e a dinâmica desse poder, sempre hierárquico e autocrático).

É possível que eles - ou alguns deles - almejassem mesmo a liberdade de pensamento e estivessem sinceramente imbuídos de um propósito revolucionário à sua maneira, mas as configurações das redes a que estavam conectados os levaram a cavar sulcos cada vez mais profundos que condicionaram as trajetórias dos que viriam. A principal instituição que gerou essas armadilhas de fluxos foi, sem qualquer dúvida, a universidade. Quase todas essas pessoas, das quais se diz que tiveram alguma importância ou influência significativa nas ciências medievais e renascentistas, foram professores, membros do corpo docente de uma corporação de sábios (constituída com base na separação de corpos entre sábios e ignorantes). Foram eles os reinventores da academia e daquilo que viria a se tornar a ciência... da academia!

12 - O código que começou a ser escrito a partir do século 17 trilhou, nesse aspecto, caminho semelhante (talvez porque tal caminho já estivesse aberto, como um trilha sulcada por séculos de repetição). O mundo era outro, a ciência era outra, mas os ambientes onde a ciência era feita se configuraram de modo semelhante. Permaneceu a universidade como corporação meritocrática. Permaneceram as estruturas hierárquicas e os modos de regulação autocráticos e isso - atenção! - mesmo após a reinvenção da democracia pelos modernos. Em certo sentido a escolástica permaneceu: a ciência (e os cientistas) como propriedades da escola. A escola fechada, murada, sede do tribunal espistemológico capaz de invalidar qualquer conhecimento que não fosse construído segundo sua ortodoxia (conquanto esta ortodoxia mudasse, o que indica que não era o conteúdo o fundamental), remanesceu e atravessou impávida os séculos 17, 18, 19 e 20, o que - convenha-se - é espantoso!

13 - A partir dos séculos 19 e 20 forjou-se uma ideologia sobre a ciência que tenta transformá-la numa espécie de pansofia. A ciência passa a cumprir o papel social de novo oráculo. Passa a ser interpretada como a luz que espanca a escuridão de um mundo supostamente assombrado pelos demônios, como escreveu Carl Sagan (1997) (8). Passa a ser o repositório das provas da inexistência de Deus, como escreveu Richard Dawkins (2006) em Deus, um delírio (9). Mas mesmo a ideologia que tenta fazer isso - e que se confunde, eis o ponto!, com a própria ciência - continua sendo, de algum modo, uma escolástica. Um detalhe importante: sempre houve ciências (no plural) até surgir o mecanicismo, quando então passou a haver uma ciência (no singular): a única ciência, a verdadeira ciência (não passando todo o resto de pseudo-ciências, pré-ciências, crendices, religiões, ideologias etc.). Curioso porque é assim que se comportam as grandes ideologias (como as religiões): são totalizantes e asseveram que todas as outras são falsas. Isso faz lembrar a frase de Paul Feyerabend (1975): "a declaração mais provocante que pode ser feita sobre a relação entre ciência e religião é que a ciência é uma religião" (10).

É claro que os cientistas - os que fazem realmente ciência - não estão, em sua maioria, preocupados se existe apenas uma ciência ou várias ou se as boas ideias que podem gerar teorias capazes de explicar os fenômenos que investigam estão de acordo com tal ou qual método correto: a orto-doxa virada orto-methodo (como se sabe a palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, por meio, e de hodos: via, caminho. Servir-se de um método é, antes de tudo, tentar ordenar o trajeto através do qual se possa alcançar os objetivos projetados). Mas quem se preocupa com isso são os que querem legislar sobre o método (como os filósofos racionalistas da ciência), discursar sobre - e predeterminar como - qual deveria ser o caminho correto para se chegar a um fim almejado. A tal ponto que Albert Einstein (1951), já no fim da vida, reclamou que "as condições externas que são colocadas [para o cientista] pelos fatos da experiência não lhe permitem deixar-se restringir em demasia, na construção de seu mundo conceitual, pelo apego a um sistema epistemológico. Portanto, ele deve afigurar-se ao epistemólogo sistemático como um tipo de oportunista inescrupuloso..." (11).

De qualquer modo, conformou-se institucionalmente uma cultura (como é óbvio, própria de comunidades de pessoas que se identificavam com ela e a replicavam) segundo a qual os investigadores do mundo eram uma espécie de doutores sobre o mundo, não importando qual fosse o mundo. Essa cultura atravessou os mundos que se sucederam desde o início do segundo milênio: ela foi corporativa, foi uma cultura gerada na universidade e foi a cultura que definiu a universidade.

14 - O que o segundo milênio (tanto no seu início, quanto no seu meio e no seu fim) chamou de ciência (e por inércia também o terceiro que, neste particular aspecto, ainda não começou) foi escola, metabolismo da escola, muitas vezes catabolismo e transudação da escola. Alguém que possui um saber vai acender a vela para que os que não possuem possam se orientar no escuro. Para adquirir tal saber ou autorização para acender a vela um indivíduo tem que ser um escolástico (no sentido de ser propriedade da escola).

Ora, a escola é separada do mundo por fronteiras de identidade: a identidade dos que foram pacientes do processo de ensino (vítimas da transmissão de ensinamento) e que receberam o reconhecimento (na forma de um atestado ou título) de que são capazes de reproduzir a ordem do conhecimento-ensinado para, só então, obterem a autorização para produzir conhecimento (ou fazer ciência, quer dizer, aquele tipo de ciência avalizada pelos que ministraram o ensino e concederam os atestados, os títulos e as autorizações). Se isso não configura um sistema fechado, então as palavras sistema e fechado não fazem mais qualquer sentido.

15 - Pode-se afirmar, portanto, que tudo o que o segundo milênio chamou de ciência foi closed science, não open science.

 

NOTAS E REFERÊNCIAS

(1) Uma lista de alguns dos principais investigadores (e professores) que se dedicaram às diferentes ciências do segundo milênio do século 13 ao século 18: 

 

SÉCULOS 13-14

Adelard de Bath (1080-1152)

Robert Grosseteste (1175-1253)

Tomás de Aquino (1225-1274)

Alberto Magno (1193-1280)

Roger Bacon (1214-1294)

Duns Scotus (1265-1308)

Guilherme de Ockham (1288-1347)

Jean Buridan (1295-1358)

Nicolas de Oresme (1320-1382)

 

SÉCULOS 15-16

Johannes Müller von Königsberg ou Regiomontanus (1432-1476)

Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494)

Marsilio Ficino (1433-1499)

Leonardo da Vinci (1452-1519)

Agrippa von Nettesheim (1486-1535)

Paracelso (1493-1541)

Nicolau Copérnico (1473-1543)

Niccolò Tartaglia (1499-1557)

Girolamo Cardano (1501-1576)

Giordano Bruno (1548-1600)

Tycho Brahe (1546-1601)

John Dee (1527-1609)

Giovanni Battista della Porta (1535-1615)

 

SÉCULOS 17-18

William Gilbert (1544-1603)

Simon Stevin (1548-1620)

Francis Bacon (1561-1626)

Johannes Kepler (1571-1630)

Galileu Galilei (1564-1642)

Evangelista Torricelli (1608-1647)

René Descartes (1596-1650)

William Harvey (1578-1657)

Blaise Pascal (1632-1662)

Robert Boyle (1627-1691)

Christiaan Huygens (1629-1695)

Robert Hooke (1635-1703)

Isaac Newton (1643-1727)

(2) MATURANA, Humberto (1990). "Ciência e Vida Cotidiana; a Ontologia das Explicações Científicas" foi publicado como "Science and Daily Life: the Ontology of Scientific Explanations", em 1990, pela Vieweg und Sohn (Braunschweig/Wiesbaden), na coletânea organizada por Wolfgang Krohn e Gunther Kuppers Selbstorganisation,- Aspecte einer wissenschaftlicben Revolution, p,107-138. Publicado em português na coletânea MATURANA, Humberto (2000). Cognição, ciência e vida cotidiana. Organização e tradução de Cristina Magro e Victor Paredes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

(3) Cf. ZANON, Irene (2013). The Alchemical Apocalypse of Isaac Newton. Tesi di Dottorato di Zanon Irene. Venezia: Università Ca'Foscari.

(4) Cf. DOBBS, B. J. (1975). The Foundations of Newton's Alchemy or "The Hunting of the Greene Lyon". Cambridge / London / New York: Cambridge University Press, 1975

(5) MATURANA, Humberto (1978). Biology of language: espistemology of reality. In MILLER, G. A., LENNEGERG, R. (Ed.) Psychology and biology of language and thought. New York: Academic Press; pp. 27-64. Tradução de Cristina Magro in MATURANA, Humberto & MAGRO, Cristina, GRACIANO, Miriam, VAZ, Nelson (orgs.) (1997). A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997.

(6) CF. BREWER, J. S. ed. Fr. Rogeri Bacon, Opera quaedam hactenus inedita com trechos da Opus tertium e da Opus Minus e da Epistola de secretis operabus artis et naturae et de nulitate magiae. London: G. Bell & Sons, 1859. Cf. tb. GOLDFARB, Ana Maria Alfonso (1987). Da alquimia à química. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo e Nova Stella Editorial, 1987.

(7) Infelizmente a citação, recolhida pelo junguiano Edward Edinger (1985) em Anatomia da Psique (São Paulo: Cultrix, 1990), tem uma referência indireta: a famosa coletânea The Hermetic Museum (1678) traduzida por Arthur Edmund Waite (1893) na qual, porém, não consegui achar a passagem. É claro que Edinger dá uma explicação psicológica individual e estraga tudo (como diria, suponho, James Hillman), mas isso não vem ao caso.

(8) SAGAN, Carl (1995). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

(9) DAWKINS, Richard (2006). Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

(10) FEYERABEND, Paul (1975). Como defender a sociedade diante da ciência.

(11) Citado por Paul Feyerabend (1975) em Contra o Método. São Paulo: Unesp, 2011.

 

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Comentário de Augusto de Franco em 4 janeiro 2014 às 9:45

Comentário de Augusto de Franco em 4 janeiro 2014 às 7:27

DISCURSO SOBRE O MÉTODO

É incrível. Os cientistas - os que fazem realmente ciência - não estão preocupados se existe apenas uma ciência ou várias ou se as boas ideias que podem gerar teorias capazes de explicar os fenômenos que investigam estão de acordo com tal ou qual método correto: a orto-doxa virada orto-methodo (como se sabe a palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, por meio, e de hodos: via, caminho. Servir-se de um método é, antes de tudo, tentar ordenar o trajeto através do qual se possa alcançar os objetivos projetados). Mas quem se preocupa com isso são os que querem legislar sobre o método (como os filósofos racionalistas da ciência), discursar sobre - e predeterminar como - deveria ser o caminho correto para se chegar a um fim almejado. Tudo isso lembra um pouco os especialistas em inovação. Ora, já se sabe que inovador é quem inova e não quem fala sobre inovação, sobre como a inovação deve ser e querem aplicar metodologias (conjunto de passos arbitrariamente encadeados) por meio das quais pretendem levar as pessoas a chegar a resultados (inovadores) esperados - o que é uma contradição, pois inovações são sempre resultados inesperados...

Comentário de Augusto de Franco em 4 janeiro 2014 às 6:41

Adendo ao texto:

Um detalhe importante: sempre houve ciências (no plural) até o advento do mecanicismo, quando então passou a haver uma ciência (no singular), a única ciência, a verdadeira ciência (não passando todo o resto de pseudo-ciências, pré-ciências, crendices, religiões, ideologias etc.). Curioso porque é assim que se comportam as ideologias (como as religiões): são totalizantes e asseveram que todas as outras são falsas. Isso faz lembrar a frase de Paul Feyerabend (1975): "a declaração mais provocante que pode ser feita sobre a relação entre ciência e religião é que a ciência é uma religião".

Comentário de Marcelo Maceo em 3 janeiro 2014 às 19:44

Entendi! Entendi! Na verdade, me parece que eu mesmo tenho certa radicalidade que me faz, ao ler seus textos, usar uma lente que tende desvalidar as conquistas da ciência como chegou até hoje (ou to cheirado, kkk). Seu último comentário deixou muito claro pra mim os efeitos desta abertura entre ciências, mas sem dar uma de idiota, rs.

Comentário de Augusto de Franco em 3 janeiro 2014 às 19:02

Eu não digo que todas as ciências valem apenas para um mundo particular. Digo que elas foram feitas para (e por) esse mundo particular. Mas, como disse o Capra, "na medida em que percebemos a realidade como uma rede de relações, nossas descrições formam, igualmente, uma rede interconexa representando os fenômenos observados". Podemos ter conexões entre explicações de diferentes mundos e aplicações válidos da ciência nestes mundos (tanto é assim que continuamos fazendo acupuntura e tomando remédios homeopáticos a despeito da ciência do nosso mundo não poder validar os processos pelos quais outras ciências deram base para tais tratamentos). Não acho que outros mundos sejam necessariamente mais subjetivos do que o nosso: acho que elas levam em conta, para fechar suas cosmovisões, outros elementos que não podem ser mensurados, medidos e pesados (assim como a dinamização de soluções homeopáticas pode chegar a tal potência que não se encontre mais nem uma molécula - calculando pelo Número de Avogadro - da substância prescrita que, neste caso, não estará presente em termos químicos, mas de alguma forma estará influindo). O resultado, porém, não é mais subjetivo do que o alcançado com a ingestão do AAS. Também não acho que nosso mundo seja mais universal e os outros mundos pré-mecanicista sejam mais particulares. Em alguns casos sim, em outros não. Uma ciência holística seria ainda mais universal do que a nossa (ou multiversal) em alguns casos, em outros não. Depende de quê? Do que você quer explicar e das categoriais operacionais da sua explicação.

Comentário de Marcelo Maceo em 3 janeiro 2014 às 18:39

Concordo contigo Augusto. E eu li o artigo sim, adorei. Mas, quando vc diz que todas as ciências valem para um mundo particular, me pergunto onde se encaixa a particularidade de um mundo onde qualquer ser humano dotado de visão normal pudesse observar Netuno no exemplo que sei. Este não é um mundo "geral" e não particular, uma vez que pode ser percebido por qualquer pessoa sem nenhum condicionalidade própria de um mundo específico? E mesmo quando falamos de, por exemplo, ciência da complexidade, ela não encontra seu lugar neste mesmo mundo geral, tal como a gravidade de newton encontro na de einstein?

As pessoas não são idiotas, seja qual for o mundo delas, mas elas podem viver mundos que não são compartilhados por todos (pessoas que não são idiotas acreditam que o mundo foi feito em 7 dias ou que saíram do barro). O entendimento crescente sobre as leis naturais dão suporte a tudo que temos hoje, e as ciências que existiam antes da mecanicista vivem em outros mundos, um tanto quanto subjetivos (talvez de tão particulares que sejam). 

Não sei se estou confundindo as bolas, mas realmente neste tema entram diversos assuntos. De qualquer maneira, penso que esta questão poderia ser melhor esclarecida em algum momento desta investigação.

Comentário de Augusto de Franco em 3 janeiro 2014 às 18:35

Agora me lembrei aqui de um texto meio esquemático do Fritjof Capra (1991) em Pertencendo ao Universo (um livro escrito com David Steindl-Rast e Thomas Matus). A tradução brasileira é São Paulo: Cultrix. Segue a apresentação (abaixo):

Comentário de Augusto de Franco em 3 janeiro 2014 às 18:35

Fritjof Capra (1990) em Pertencendo ao Universo:

Visão prévia

Pensamento do Novo Paradigma na Ciência por Fritjof Capra

O velho paradigma científico pode ser chamado de cartesiano, de newtoniano ou de baconiano, uma vez que suas principais características foram formuladas por Descartes, Newton e Bacon.

O novo paradigma pode ser chamado de holístico, de ecológico ou de sistêmico, mas nenhum destes adjetivos o caracteriza completamente.

O pensamento do novo paradigma na ciência inclui os seguintes cinco critérios - os dois primeiros referem-se à nossa visão da natureza, os outros três à nossa epistemologia.

1. Mudança da parte para o todo

No velho paradigma, acreditava-se que em qualquer sistema complexo a dinâmica do todo poderia ser compreendida a partir das propriedades das partes.

No novo paradigma, a relação entre as partes e o todo é invertida. As propriedades das partes só podem ser entendidas a partir da dinâmica do todo. Em última análise, não há partes, em absoluto. Aquilo que chamamos de parte é meramente um padrão numa teia inseparável de relações.

2. Mudança de estrutura para processo

No velho paradigma, pensava-se que havia estruturas fundamentais, e também que havia forças, e mecanismos por cujo intermédio estas interagiam, dando, dessa forma, nascimento ao processo.

No novo paradigma, cada estrutura é vista como a manifestação de um processo subjacente. Toda a teia de relações é intrinsecamente dinâmica.

3. Mudança de ciência objetiva para "ciência epistêmica"

No velho paradigma científico, acreditava-se que as descrições eram objetivas, isto é, independentes do observador humano e do processo de conhecimento.

No novo paradigma, acredita-se que a epistemologia - a compreensão do processo de conhecimento - deve ser incluída explicitamente na descrição dos fenômenos naturais.

A esta altura, não há consenso a respeito do que seria uma epistemologia adequada, mas há um consenso emergente de que a epistemologia terá de ser parte integrante de cada teoria científica.

4. Mudança de construção para rede como metáfora do conhecimento

A metáfora do conhecimento como construção - leis fundamentais, princípios fundamentais, blocos de construção fundamentais, etc. - tem sido usada na ciência e na filosofia ocidentais por milênios.

Durante as mudanças de paradigma, sentiu-se que os alicerces do conhecimento estavam se desagregando.

No novo paradigma, essa metáfora está sendo substituída pela metáfora da rede. Na medida em que percebemos a realidade como uma rede de relações, nossas descrições formam, igualmente, uma rede interconexa representando os fenômenos observados.

Nessa rede, não haverá hierarquias nem alicerces.

A mudança de construção para rede também implica o abandono da ideia de que a física é o ideal por cujo intermédio todas as outras ciências são modeladas e julgadas, e a principal fonte de metáforas para descrições científicas.

5. Mudança de descrições verdadeiras para descrições aproximadas

O paradigma cartesiano baseou-se na crença de que o conhecimento científico poderia alcançar a certeza absoluta e final.

No novo paradigma, se reconhece que todos os conceitos, todas as teorias e todas as descobertas são limitadas e aproximadas.

A ciência nunca poderá fornecer uma compreensão completa e definitiva da realidade.

Os cientistas não lidam com a verdade (no sentido de correspondência exata entre a descrição e os fenômenos descritos); eles lidam com descrições limitadas e aproximadas da realidade.

Comentário de Augusto de Franco em 3 janeiro 2014 às 17:50

Eu acho que a ciência não trata com verdades e sim com descrições aproximadas dos fenômenos. Isso vale em especial para a ciência mecanicista. Na verdade ela não trata nem dos por quês e sim do como. A ciência fornece explicações e todas as explicações que fornece são temporárias, provisórias. Mas veja, Copernico trabalhou com um modelo heliocêntrico que já havia sido proposto por Aristarco de Samos. E, como lembrou o Feyerabend (em artigo que acho que você leu) "quando Copérnico introduziu uma nova visão do universo, ele não consultou antecessores científicos, ele consultou um louco pitagórico, Filolau. Adotou suas idéias e ele manteve-as frente a todas as regras do método científico". Se você não leu o artigo que acho que você leu, ele está aqui http://escoladeredes.net/group/openscience/page/como-defender-a-soc...

Todas as ciências valem para um mundo particular, isso é o que eu sustento. Mas as pessoas, em qualquer mundo, não são idiotas. A imensa frota ateniense não afundava por erros dos construtores, por ignorância de alguma ciência. É claro que eles não podiam fazer submarinos atômicos, mas por que precisariam disso? Não era do seu mundo.

Comentário de Marcelo Maceo em 3 janeiro 2014 às 16:42

"Mas um mundo é culturalmente construído, constituído pelas redes de conversações que dão sentido aos seus eventos e assim, em termos culturais, se confunde com a visão de mundo da rede social que o conformou em uma determinada época e lugar."

Augusto, me pergunto o quanto a citação acima vale para, além das ciências sociais, para as ciências naturais. Esbarramos aqui numa questão complexa, que é o que é verdade. Eu não conheço nada de história da ciência, me considero totalmente leigo no assunto, mas gostaria de compartilhar um pensamento que me veio, ainda que eu "acredite" num visão diferente, que vai muito mais de encontro com o restante do seu texto.

Me pergunto porque o método científico adotado hoje, e a ciência adotada hoje, é tida como a que melhor descreve a realidade, ou a verdade. Primeiro, apesar de sua estrutura contribuir para o contrário, em teoria, ela é auto-reconhecida como falha e em permanente processo de construção. Ou seja, uma verdade evidenciada é o melhor que se tem hoje para entender determinado fato, porém, não quer dizer que este entendimento seja absoluto. Não sei se cabe, mas o entendimento da gravidade de Newton foi superada pela do Einstein, porém, não foi refutada, uma vez que em casos particulares (em velocidades menores que a da luz etc), ela continua válida. Ou seja, é como se a gravidade de Newton fosse uma parte da gravidade de Einstein.

A questão é que a ciência e seu método atual, diferente de outras ciências e métodos do passado, tenha sua validade talvez pela razão de que com ela é possível PREVER acontecimentos sem o conhecimento empírico. Como exemplo, cito a descoberta de Netuno, que ocorreu por previsão matemática, com as variações (de ordem gravitacional, por dedução) na órbita de Urano.

Eu pergunto se, no que diz respeito às ciências naturais, se a alquimia, a analogia, magia, cabala ou qualquer outra ciência, poderia, a sua maneira, chegar à mesma conclusão do exemplo (com um erro de apenas um grau da posição prevista de Netuno, rsrs).

Ou seja, estas outras ciências são válidas, mas como vc diz no texto, o são apenas para o seu mundo particular (mágico, simbólico ou o que for), mas querer prever fatos naturais (tido como mundo real, ou seja, compartilhado e vivenciado por todos, sem distinção das ervas que se ingira, rs) através de outras ciências, acho que percebeu-se com o tempo que não cabia.

Não acho que deveriam desmerecê-las, ou ainda replicar o código fechado de todas elas nesta outra ciência que então surgia, mas talvez fazer as pessoas perceberem que era (em muitos casos) mais seguro seguir aquela ciência mecanicista para construirr seu barco (para não afundar), do que a hora e o dia certo para cotar a madeira cujo elemental o protegeria, poderia incorrer em desmoralizar ou atacar o que era a crença geral de então.

O que vc acha?

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