Escola de Redes

CÓDIGO E PARADIGMA

CÓDIGO: UMA IDEIA EM CONSTRUÇÃO

Resolvi usar a noção de código em vez do conceito de paradigma construído por Thomas Kuhn (1962). Claro que não é um conceito substituto, não está definido com o mesmo rigor analítico, mas em compensação é uma noção mais ampla, por um lado (já que, em certo sentido, tudo é código, tudo é programa e tudo é programável - o que inclui, no limite, até o conceito de método) e também mais precisa, por outro (o que é programável num código de ciência? Ora, basicamente, os modos de observação, investigação e explicação).

Na Introdução do Roteiro para uma investigação aberta sobre OpenScience escrevi o seguinte:

Toda ciência tem um código. Diferentes ciências têm códigos diferentes. O código é o conjunto de termos - palavras ou símbolos - e modos de ordenação válidos que podem ser escritos em uma ou várias linguagens de sorte a emitir instruções para a observação, a investigação e a explicação de eventos (realidades ou classes de fenômenos) de um mundo (conjunto de eventos). Mas um mundo é culturalmente construído, constituído pelas redes de conversações que dão sentido aos seus eventos e assim, em termos culturais, se confunde com a visão de mundo da rede social que o conformou em uma determinada época e lugar.

O código programa o que pode ser feito e reconhecido como ciência válida para aquele mundo. Isso significa que ele determina quais são as operações válidas que podem ser feitas, compreendendo também o conjunto das características operacionais nas quais se baseiam os processos de observação, investigação e explicação daquela ciência.

Na ciência mágica renascentista, por exemplo, eram consideradas operações válidas aquelas baseadas na analogia, já que a visão de mundo (quer dizer, o mundo culturalmente construído) era a de que havia uma correspondência universal entre as partes (que eram sempre partes de um mesmo todo) cujas formas ou dinâmicas de funcionamento fossem semelhantes e quase que um espelhamento entre o macro e microcosmo, posto que "o que está em cima" e "o que está em baixo" faziam parte dessa mesma totalidade, cuja harmonia podia ser captada através da observação de regularidades e homomorfismos e revelada por símbolos de unidade e de totalidade.

Para a ciência mecanicista dos modernos tal operação (analógica) não era válida para descobrir o funcionamento do mundo porquanto o mundo que foi culturalmente construído por suas conversações recorrentes não era um universo com sentido, não possuía uma imanência nem a predisposição para se revelar por meio de símbolos de unidade na totalidade. O mundo era uma máquina e para descobrir as leis de seu funcionamento haver-se-ia que partir da observação sistemática do funcionamento de suas partes e de experimentos particulares e, por meio de operações indutivas e de descobertas de regularidades específicas à cada classe de fenômenos, formular hipóteses explicativas consistentes, logicamente coerentes entre si e das quais se poderiam inferir consequências não observáveis (e muitas vezes não reveláveis por experimentos) por meio de operações lógico-matemáticas dedutivas corretas.

No entanto, tais explicações ainda são insatisfatórias. Em geral o conceito de paradigma é tomado como padrão. Mas num sentido ampliado paradigma é mais fluxo do que padrão. Para os gregos o conceito designava a fluência (fluxo) de um pensamento. Para a (história e a filosofia da) ciência pode ser a mesma coisa. É uma determinada corrente de explicações do mesmo tipo (ou seja, com as mesmas características operacionais). É como se fosse um fluxo mesmo, uma linha particular de interpretações que constitui uma espécie de história "fenotípica" própria e identificável (ou seja, as explicações de uma determinada linha histórica ou trajetória são identificadas como pertencentes a ela porquanto reúnem as mesmas características). Parece mais uma cultura, no sentido maturaniano do termo.

Por outro lado, parece que não existe uma mesma ciência (que vai trocando de paradigma). O que chamamos (atualmente) de ciência foi uma invenção do século 17, quando tomamos alguns ramos das bifurcações que apareceram nas trajetórias investigativas e não outros. Por exemplo, as formulações em prol do experimentalismo (tomadas da alquimia por Bacon no século 13) não desembocaram, naquilo que ele talvez pretendesse: a ciência experimental como um fim e não como um meio de fazer a natureza revelar seus segredos (Galileu). Se o que se chamou de ciência tomasse o caminho da bifurcação por ele pretendido (como supomos) teríamos outro tipo de (código da) ciência, mais acorde ao código alquímico original, na qual o sujeito e o objeto da investigação se fundem e se transformam (cabendo à teoria um papel ou um sentido, talvez, mais órfico, de contemplação e comunhão com o cosmos e não predominantemente especulativo e explicativo); não se sabe.

Vale a pena conhecer o tratamento dado ao tema - há 20 anos - por Fritjof Capra, para depois continuar.

SOBRE O CONCEITO AMPLIADO DE PARADIGMA DE CAPRA

Um trecho da conversação entre Fritjof Capra, David Steindl-Rast e Thomas Matus (1990) publicada no livro Pertencendo ao Universo (São Paulo: Cultrix).

FRITJOF: Eu gostaria de introduzir uma perspectiva histórica e falar sobre a maneira como as teorias científicas se desenvolvem e como o conhecimento é acumulado na ciência. Como sabem, até recentemente a crença era a de que há um acúmulo constante de conhecimento; o de que as teorias tornam-se, gradualmente, cada vez mais abrangentes e mais precisas. Thomas Kuhn introduziu a idéia de paradigmas e de mudanças de paradigmas, que afirma a existência desses períodos de acumulação constante, que ele chama de ciência normal, mas a seguir há períodos de revoluções científicas, quando muda o paradigma. Um paradigma científico, de acordo com Kuhn, é uma constelação de realizações - entendendo por esse nome conceitos, valores, técnicas, e assim por diante - partilhados por uma comunidade científica e usados por essa comunidade para definir problemas e soluções legítimos. Isso significa, portanto, que por trás de uma teoria científica há um certo arcabouço em cujo âmbito a ciência se desenvolve. E é importante notar que esse arcabouço não inclui apenas conceitos mas também valores e técnicas. Portanto, a atividade de fazer ciência é parte do paradigma. A atitude de dominação e de controle, por exemplo, é parte de um paradigma científico.


DAVID: Você diria que é parte do paradigma? Ou que é uma força que condiciona o paradigma?


FRITJOF: É parte do paradigma, pois é parte dos valores subjacentes às teorias científicas. Os valores são parte do paradigma. Desse modo, um paradigma, para Kuhn e para mim, é mais que uma visão de mundo, mais que um arcabouço conceitual, porque inclui valores e atividades. Para tornar isso mais claro, deixe-me mostrar a vocês como ampliei essa idéia seguindo Marilyn Férguson e Willis Harman, bem como outras pessoas que, com freqüência, têm usado o vocábulo "paradigma" num sentido mais amplo. Tomando a definição kuhniana, ampliei-a até torná-la um paradigma social. Para mim, um paradigma social é uma constelação de conceitos, de valores, de percepções e de práticas compartilhadas numa comunidade, formando uma visão particular da realidade que constitui a base da maneira segundo a qual a comunidade organiza a si mesma. É necessário que um paradigma seja compartilhado por uma comunidade. Uma pessoa isolada pode ter uma vida de negócios, mas o paradigma é compartilhado por uma comunidade.


DAVID: E por que você fala apenas sobre a organização comunal e não sobre toda a vida da comunidade? Por que você trata apenas da organização? Por que não os valores?


FRITJOF: Não explorei a diferença entre paradigma e cultura. Você poderia dizer que a base de toda a vida é a cultura. Os dois estão intimamente relacionados, mas não me aprofundei nisso. Ora, Kuhn naturalmente usa o termo num sentido mais restrito e, no âmbito da ciência, fala a respeito de diferentes paradigmas. Eu o utilizo num sentido muito amplo, um tipo de paradigma de grande envergadura subjacente à organização de uma certa sociedade ou à organização da ciência numa certa comunidade científica.


DAVID: Perguntei a respeito de valores porque pensei que você ainda estava falando sobre uma mudança de paradigma dentro de uma determinada ciência. Nela, os valores seriam, naturalmente, implícitos. Não seriam explícitos, em absoluto.


FRITJOF: A noção inteira do paradigma está implícita nos períodos de ciência normal, e é muito difícil delinear o paradigma e mostrar onde estão suas limitações, onde estão suas fronteiras. Somente nas épocas em que o paradigma muda é que você vê suas limitações, e, na verdade, ele muda devido a essas limitações. Kuhn escreveu extensamente a esse respeito. Quando há problemas, que ele chama de anomalias, que não podem mais ser resolvidos no âmbito do paradigma dominante, essas mudanças ocorrem. E, naturalmente, leva um certo tempo até que esses problemas forcem efetivamente as pessoas a mudar. Na física, por exemplo, a mais recente mudança de paradigma começou na década de 20, quando vários problemas ligados à estrutura atômica não puderam ser resolvidos em termos da ciência newtoniana. E o que afirmo no meu livro The Turning Point [O Ponto de Mutação] é que estamos hoje, na sociedade, numa situação em que o paradigma social atingiu suas limitações. Essas limitações são a ameaça da guerra nuclear, a devastação do nosso meio ambiente natural e a persistência da pobreza em todo o mundo - todos eles problemas muito graves, que não podem mais ser resolvidos segundo o velho paradigma. Kuhn, a propósito, fala de um período pré-paradigmático, no qual há concepções competindo. Uma delas tornar-se-á o paradigma dominante, compartilhado pela comunidade científica. Na sociedade, ou, digamos, na família humana, isso é diferente, pois temos diferentes paradigmas sociais coexistindo. O paradigma social islâmico é diferente do japonês ou do norte-americano. Assim, o mesmo grupo de fenômenos - como, por exemplo, a economia, a política e a vida social – serão compreendidos em termos de diferentes paradigmas coexistentes.


DAVID: Você pode explicar por que paradigmas diferentes podem coexistir num contexto social e não na ciência?


FRITJOF: Poderia haver diferentes paradigmas coexistindo também na ciência, e isso de fato aconteceu no passado, mas deixou de ocorrer desde a época da ascensão da ciência européia no século XVII. Onde quer que as pessoas façam ciência atualmente, no sentido moderno do termo, elas o fazem de acordo com o paradigma europeu, estejam elas no Japão, na China ou na África. Muitos cientistas dizem que passaram por uma lavagem cerebral para chegar a isso. Eles poderiam fazer ciência dentro de um outro paradigma, mas não o fazem. Há uma certa colonização de cientistas pela ciência européia e norte-americana. Agora é a América do Norte, mas as raízes, naturalmente, estão na ciência européia, enquanto que em assuntos sociais não é tão grande a predominância de um único paradigma. Diferentes culturas coexistem. Na ciência, não encontramos culturas diferentes coexistindo; há, basicamente, uma única cultura científica. 

DAVID: O que você acaba de dizer é de fato muito importante, e no entanto passa freqüentemente despercebido o fato de que até mesmo na ciência seria possível haver paradigmas diferentes próximos uns dos outros. É quase acidental que haja um único paradigma científico, devido ao colonialismo da ciência ocidental. Não é necessário que seja assim. Você disse que os cientistas poderiam fazer ciência no âmbito de um paradigma diferente. Isso é importante. No entanto, as pessoas dizem freqüentemente: "Bem, isso é apenas a força da ciência, a sua força unificadora. Na ciência não pode haver contradições. A ciência é a base inabalável para toda a verdade", e assim por diante.

FRITJOF: Mas, veja você, a ciência é desenvolvida dentro do paradigma maior. Assim, por exemplo, se dois grupos científicos trabalhassem no projeto SDI (Strategic Defense Iniciative) [Iniciativa de Defesa Estratégica], obteriam resultados muito semelhantes. Construiriam feixes de laser para uso no espaço exterior, estações espaciais, satélites assassinos, e assim por diante. Embora os resultados pudessem diferir um pouco, como acontece na ciência quando é feita em países diferentes, mais ou menos as mesmas conclusões seriam alcançadas. Mas você poderia facilmente imaginar uma determinada cultura para a qual estaria absolutamente fora de questão até mesmo trabalhar nesse projeto, porque os valores seriam diferentes.


DAVID: É isso o que eu quero enfatizar; a ligação entre o paradigma social e o científico: que o tipo de sociedade em que vivemos determina o tipo de ciência que teremos.


FRITJOF: Sim, o paradigma científico está encaixado no paradigma social.


DAVID: Muito mais do que as pessoas imaginam. Agora, deixe-me perguntar-lhe algo mais. Estou, desde há muito tempo, fascinado pelo conceito de éter. O éter desempenhou um papel muito importante na história da ciência, pelo menos até o final do século XX. Hoje, desapareceu por completo. O que aconteceu? Por que ele era necessário então e por que agora não se precisa mais dele? Talvez possamos encontrar aqui um paralelismo com certos conceitos teológicos que também pareciam urgentemente necessários em certa época e agora deixaram de sê-lo. Parece que isso é um fenômeno típico em épocas de mudança de paradigma.


FRITJOF: Realmente é. Esse fenômeno de conceitos que são necessários durante certa época e depois deixam de ser necessários acontece repetidas vezes na ciência. Construímos modelos e depois os descartamos, porque passamos a ter modelos melhores. Então, finalmente, temos uma teoria completa que não é descartada. Ela será superada por teorias melhores, mas ainda permanecerá válida dentro de sua faixa de aplicabilidade. Entre os conceitos científicos que foram descartados quando se adotou um novo modelo, o éter é talvez o mais famoso, e com justiça, pois a mudança de percepções que nos permitia descartar o conceito de um éter marca o início da física do século XX. Este é um assunto fascinante. Começa com a questão da natureza da luz, e é um exemplo muito significativo do fato de que uma experiência tão cotidiana como a da luz do Sol alcançando a Terra é algo que ultrapassa os poderes da nossa imaginação. Não temos meios de imaginar como a luz do Sol alcança a Terra. Embora as pessoas estejam normalmente inconscientes disso, foi esta questão que encaminhou os cientistas para a física moderna. No século XIX, Michael Faraday e Cleik Maxwell desenvolveram uma teoria abrangente do eletromagnetismo, que culminou na descoberta de que a luz consiste em campos elétricos e magnéticos que se alternam rapidamente e viajam através do espaço sob a forma de ondas. Esses campos são entidades não-mecânicas, e as equações de Maxwell, que descrevem seu comportamento exato, constituíram a primeira teoria que ultrapassou a mecânica newtoniana. Foi esse o grande triunfo da física do século XIX. No entanto, quando Maxwell fez a sua descoberta, foi imediatamente obrigado a se defrontar com um problema. Se a luz consiste em ondas eletromagnéticas, como podem essas ondas viajar através do espaço vazio? Sabemos, graças à nossa experiência e à teoria do movimento ondulatório, que cada onda necessita de um meio para se propagar. Uma onda na água necessita dessa água, que é perturbada e a seguir se move para cima e para baixo, à medida que a onda passa através dela. Uma onda sonora necessita de partículas de ar, que vibram à medida que a onda passa por elas. Sem o ar ou sem alguma outra substância material, não há som. Mas as ondas luminosas viajam através do espaço vazio, onde não há nenhum meio para transmitir as vibrações. Então, o que é que está vibrando numa onda de luz? Foi isso que levou os cientistas a inventar o conceito de éter. Eles diziam: "Não existe ar, mas existe um meio invisível, chamado éter, no qual as ondas de luz viajam." Esse éter precisava ter propriedades extravagantes. Por exemplo, tinha de ser uma substância sem peso e perfeitamente elástica. Veja: quando as ondas se propagam na água, elas acabam desaparecendo devido ao atrito, mas as ondas de luz não. Portanto, o éter tinha de ser perfeitamente elástico, sem nenhum atrito. No início do século XX, os cientistas não podiam persuadir a si próprios a abandonar a noção de um éter, a despeito de suas estranhas propriedades, pois essa imagem mecanicista de uma onda que precisa de um meio para se propagar estava firmemente arraigada em suas mentes. Foi necessário um Einstein para afirmar que não havia éter algum, que a luz é um fenômeno físico por sua própria conta, que não precisa de um meio para se propagar. Não precisa de um meio, dizia Einstein, porque ela se manifesta, não apenas sob a forma de ondas, mas também sob a forma de partículas, que podem viajar através do espaço vazio. Ele chamou essas partículas de quanta de luz, que deu nome à teoria quântica, a teoria dos fenômenos atômicos. A luta que se travou com a questão: ''Em que sentido, exatamente, um quantum de luz é uma partícula e em que sentido é uma onda?'' é a história da teoria quântica, que se estendeu ao longo das três primeiras décadas do século. No fim desse instigante período, os físicos compreenderam que as ondas de luz são, na verdade, "ondas de probabilidade'' - isto é, padrões matemáticos abstratos que dão a você a probabilidade de encontrar uma partícula de luz (que hoje chamamos de fóton) num determinado lugar quando você procura por ela. Esses padrões de probabilidade são padrões ondulatórios que viajam através do espaço vazio. Portanto, sem entrar em maiores detalhes, o final da história é que a luz é constituída tanto de partículas como de ondas, e que o éter tornou-se desnecessário.

CONVERSANDO SOBRE O CONCEITO DE PARADIGMA

Do longo trecho transcrito acima da conversa de Capra com David e Thomas, destaco uma resposta do primeiro:

DAVID: Você pode explicar por que paradigmas diferentes podem coexistir num contexto social e não na ciência?

FRITJOF: Poderia haver diferentes paradigmas coexistindo também na ciência, e isso de fato aconteceu no passado, mas deixou de ocorrer desde a época da ascensão da ciência européia no século XVII. Onde quer que as pessoas façam ciência atualmente, no sentido moderno do termo, elas o fazem de acordo com o paradigma europeu, estejam elas no Japão, na China ou na África. Muitos cientistas dizem que passaram por uma lavagem cerebral para chegar a isso. Eles poderiam fazer ciência dentro de um outro paradigma, mas não o fazem. Há uma certa colonização de cientistas pela ciência européia e norte-americana. Agora é a América do Norte, mas as raízes, naturalmente, estão na ciência européia, enquanto que em assuntos sociais não é tão grande a predominância de um único paradigma. Diferentes culturas coexistem. Na ciência, não encontramos culturas diferentes coexistindo; há, basicamente, uma única cultura científica. 

Como já expus na Introdução ao Roteiro para uma investigação aberta sobre OpenScience, a ciência moderna, quando surgiu no século 17, virou a (única) ciência. Todas as outras ciências foram invalidadas.

A questão é: os códigos da ciência não são científicos. Os critérios epistemológicos adotados para validar a ciência não são científicos. A filosofia da ciência não pode ser validada pela ciência. Tá ligado?

Continua...

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