Escola de Redes

CIÊNCIA E VIDA COTIDIANA HUMBERTO MATURANA (1990)

"Ciência e Vida Cotidiana; a Ontologia das Explicações Científicas" foi
publicado como "Science and Daily Life: the Ontology of Scientific
Explanations", em 1990, pela Vieweg und Sohn (Braunschweig/Wiesbaden),
na coletânea organizada por Wolfgang Krohn e Gunther Kuppers
Selbstorganisation,- Aspecte einer wissenschaftlicben Revolution, p,107-
138.

A ONTOLOGIA DAS EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS

INTRODUÇÃO

Embora etimológicamente a palavra ciencia signifique o mesmo que a
palavra conhecimento, ela tem sido usada na história do pensamento
ocidental para fazer referência a qualquer conhecimento cuja validade
possa ser defendida em bases metodológicas, independentemente do
domínio fenoménico no qual é proposto. Hoje em dia, entretanto, isto tem
mudado progressivamente, e a palavra ciência é agora mais freqüentemente

usada para fazer referência apenas ao conhecimento validado através de um

método particular, que é o método científico.

Esta ênfase progressiva no método científico surgiu com base em duas
pressuposições gerais implícitas ou explícitas, tanto de cientistas quanto de
filósofos da ciência, a saber: a) que o método científico, seja pela
verificação, pela confirmação, ou pela negação da falseabilidade, revela, ou
pelo menos conota, uma realidade objetiva que existe independentemente
do que os observadores fazem ou desejam, ainda que não possa ser
totalmente conhecida; b) que a validade das explicações e afirmações
científicas se baseia em sua conexão com tal realidade objetiva. É deste
tipo de conhecimento que tratarei neste artigo quando falar de ciência, e
nesse processo, mesmo sem dar uma justificativa filosófica completa,
implícita ou explicitamente discordarei de um ou outro aspecto do que
disseram pensadores clássicos da filosofia da ciência que discutem em
profundidade estas questões.1 E assim farei porque falarei como um
biólogo, não como um filósofo, refletindo sobre a ciência como um domínio

cognitivo gerado como uma atividade biológica humana. Além

disso, farei essas reflexões atentando para o que nós, cientistas naturais
modernos, fazemos na praxis da ciência com vistas a reivindicar a validade
científica de nossas afirmações e explicações, e mostrarei como o que
fazemos enquanto cientistas se relaciona com o que fazemos ao vivermos
nossas vidas cotidianas, revelando o status epistemológico ou ontológico
daquilo que chamamos de ciência.

O OBSERVADOR E O OBSERVAR

Nós, cientistas, fazemos ciência como observadores explicando o que
observamos. Como observadores, somos seres humanos. Nós. seres
humanos, já nos encontramos na situação de observadores observando
quando começamos a observar nosso observar em nossa tentativa de
descrever e explicar o que fazemos. Isto é, nós já nos encontramos na
linguagem, fazendo distinções na linguagem, quando começamos a refletir
na linguagem sobre o que fazemos, e como fazemos o que fazemos ao
operar como animais linguajantes. Em outras palavras, acontece-nos que
nós já somos sistemas vivos lirtguajantes fazendo o que fazemos, inclusive
nosso explicar, quando começamos a explicar o que fazemos, e já estamos
na experiência de observar, quando começamos a observar nosso observar.
Observar é o que nós, observadores, fazemos ao distinguir na linguagem os
diferentes tipos de entidades que trazemos à mão como objetos de nossas
descrições, explicações e reflexões no curso de nossa participação nas
diferentes conversações em que estamos envolvidos no decorrer de nossas
vidas cotidianas, independentemente do domínio operacional em que
acontecem. O observador acontece no observar, e, quando morre o ser
humano que o observador é, o observador e o observar chegam ao fim.
Nestas condições, quando se reflete sobre o que o observador faz, as
habilidades cognitivas do observador devem ou ser tomadas como
propriedades dadas, inexplicáveis, ou ser explicadas mostrando de que
modo elas surgem como resultado da biologia do observador enquanto um
ser humano. Isto eu fiz em artigos diversos, que convido o leitor ou leitora a
ler.2 Agora, entretanto, prosseguirei na suposição de que o leitor ou leitora

aceita que suas propriedades ou habilidades de observador
resultam da sua operação como sistema vivo, ainda que a experiência de
ser um observador aconteça a ele ou ela como algo dado, enquanto ele ou
ela permanece experiencialmente cego para sua origem.


A COGNIÇÃO

Os sistemas vivos são sistemas estruturalmente determinados. Enquanto
tais, não admitem interações instrutivas, e tudo o que acontece neles,
acontece como mudança estrutural determinada em qualquer instante em
sua estrutura, seja no curso de sua própria dinâmica interna, seja deflagrada
— mas não especificada — pelas circunstâncias de suas interações. Em
outras palavras, nada externo a um sistema vivo pode especificar nele ou
nela o que lhe ocorre, e, sendo o observador um sistema vivo, nada externo
ao observador pode especificar nele ou nela o que lhe ocorre. Segue-se,
então, que o observador, por sua constituição enquanto um sistema vivo,
não pode produzir explicações ou afirmações que revelem ou conotem nada
independentemente das operações através das quais ele ou ela gera suas
explicações e afirmações. Portanto, ao usar a palavra cognição na vida
cotidiana em nossas coordenações de ações e relações interpessoais
quando respondemos perguntas no domínio do conhecer, o que nós
observadores conotamos ou referimos com ela deve revelar o que fazemos
ou como operamos nessas coordenações de ações e relações ao gerarmos
nossas afirmações cognitivas. É evidente que na vida cotidiana agimos sob
a compreensão implícita de que a cognição tem a ver com nossas relações
interpessoais e coordenações de ações, pois alegamos cognição em outros
e em nós mesmos apenas quando aceitamos as ações dos outros ou
nossas próprias ações como adequadas, por satisfazerem o critério
particular de aceitabilidade que aceitamos como o que constitui uma ação
adequada no domínio de ações envolvido na questão. Conseqüentemente,
o que nós como observadores conotamos quando Falamos de
conhecimento em qualquer domínio particular é constitutivamente o que
consideramos como ações — distinções, operações, comportamentos,
pensamentos ou reflexões — adequadas naquele domínio, avaliadas de

acordo com nosso próprio critério de aceitabilidade
para o que constitui uma ação adequada nele. Em outras palavras, o
conhecimento é constituído por um observador como uma capacidade
operacional que ele ou ela atribui a um sistema vivo, que pode ser ele ou ela
própria, ao aceitar suas ações como adequadas num domínio cognitivo
especificado nessa atribuição. Por essa razão, há tantos domínios
cognitivos quantos forem os domínios de ações — distinções, operações,
comportamentos, pensamentos ou reflexões — adequadas que os
observadores aceitarem, e cada um deles é operacionalmente constituído e
operacionalmente definido no domínio experiencial do observador pelo
critério que ele ou ela usa para aceitar como ações — distinções,
operações, comportamentos, pensamentos ou reflexões — adequadas as
ações que ele ou ela aceita como próprias deste domínio.3 Chamo o critério
que um observador usa para aceitar certas ações como ações que definem
e constituem um domínio cognitivo de critério de aceitabilidade que define

e constitui esse domínio cognitivo.

A ciência, como um domínio cognitivo, não é exceção a esta forma de
constituição, e eu chamo o critério de aceitabilidade, que define e constitui a
ciência como domínio cognitivo e que simultaneamente constitui como
cientista a pessoa que o aplica, de critério de validação das explicações
científicas. É este critério de aceitabilidade que constitui a ciência como
domínio cognitivo que estarei discutindo adiante quando falar de ciência.


AS AÇÕES

Habitualmente falamos de ações como operações externas de nossos
corpos num meio. Neste artigo, estou falando de ações de uma maneira
mais geral e fundamental, que inclui nossa operação corporal externa como
um caso particular. Estou chamando de ações tudo o que fazemos em
qualquer domínio operacional que geramos em nosso discurso, por mais
abstrato que ele possa parecer. Assim, pensar é agir no domínio do pensar,
andar é agir no domínio do andar, refletir é agir no domínio do refletir, falar

é agir no domínio do falar, bater é agir no domínio do bater, e assim por
diante, e explicar científicamente é agir no domínio do explicar científico.

Todas as ações como operações de um sistema vivo acontecem como parte

de sua dinâmica de estados, tendo ele um sistema nervoso ou não, mas incluem

a dinâmica do sistema nervoso quando ele está presente. Portanto, como

 operações na dinâmica de estados de um sistema vivo, todas as ações

são fenômenos do mesmo tipo, independentemente do domínio no qual um
observador afirma que elas acontecem, quando ele ou ela as leva em
consideração ao ver o sistema vivo em relação com um meio. Além disso,
todas as ações de um sistema vivo, que envolvem a operação de um
sistema nervoso, acontecem nele como configurações dinâmicas de
mudanças de relações de atividades em seu sistema nervoso, como uma
rede fechada de relações variáveis de atividade entre seus componentes
neuronais.4 Desta forma, pensar, andar, falar, ter uma experiência espiritual, 

e assim por diante, são todos fenômenos do mesmo tipo como operações 

da dinâmica interna do organismo (incluindo o sistema nervoso),

mas são todos fenômenos de diferentes tipos no domínio relacional

do organismo no qual surgem pelas distinções do observador.


AS EMOÇÕES

Na vida cotidiana distinguimos diferentes emoções em nós mesmos, em
outros seres humanos e em outros animais, ao observar os diferentes
domínios de ações nos quais nós e eles operamos num instante. Por isso
podemos dizer: "Não fale com fulano agora, porque ele está zangado e não
vai lhe escutar ou fazer o que você pedir." As emoções são disposições
corporais dinâmicas que especificam os domínios de ações nos quais os
animais, em geral, e nós seres humanos, em particular, operamos num
instante. Conseqüentemente, todas as ações animais surgem e são
realizadas em algum domínio emocional, e é a emoção que define o
domínio no qual uma ação (um movimento ou uma postura corporal interna)
acontece, independentemente de se, para um observador que vê o animal
num meio, ela ocorre como uma ação abstrata ou concreta, ou sem
depender do que especifica aquela ação (movimento ou postura corporal
interna) como uma ação de um tipo particular. De fato nós sabemos, pela
nossa vida humana cotidiana, que ao nos movermos de urna emoção

para outra mudamos nosso dominio de ações, e isto vemos como

uma mudança de emoção.

Em outras palavras, é a emoção sob a qual agimos num instante,
num domínio operacional, que define o que fazemos naquele momento
como uma ação de um tipo particular naquele domínio operacional. Por este
motivo, se queremos compreender qualquer atividade humana, devemos
atentar para a emoção que define o domínio de ações no qual aquela
atividade acontece e, no processo, aprender a ver quais ações são
desejadas naquela emoção.


A LINGUAGEM

Se vemos duas pessoas a uma distância tão grande que não podemos
ouvi-las, e queremos, posteriormente, poder afirmar se elas estavam ou não
falando uma com a outra, observamos o curso de suas interações,
procurando coordenações consensuais de coordenações consensuais de
ações sob formas facilmente reconhecíveis como pedidos e promessas,
indicações para ações, resposta a perguntas, ou queixas. Em outras
palavras, quando buscamos determinar se duas ou mais pessoas estão ou
não interagindo na linguagem, não apenas procuramos suas coordenações
consensuais de ações, mas também uma dinâmica de recursão em suas
coordenações consensuais de ações. Isto é, procuramos a ocorrência de
coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações como
operações num domínio aprendido e não instintivo de coordenações de
ações.

Eu afirmo que nossa maneira de saber, na vida cotidiana, se duas ou
mais pessoas estão ou não interagindo na linguagem revela o que fazemos
quando estamos linguajando, qualquer que seja nosso domínio de
operações. Em outras palavras, afirmo que a linguagem acontece quando
duas ou mais pessoas em interações recorrentes operam através de suas
interações numa rede de coordenações cruzadas, recursivas, consensuais
de coordenações consensuais de ações, e que tudo o que nós seres
humanos fazemos, fazemos em nossa operação em tal rede como
diferentes maneiras de nela funcionar. Ou seja, afirmo que nós, seres
humanos, existimos como tais na linguagem, e tudo o que fazemos como
seres humanos fazemos como diferentes maneiras de funcionar na
linguagem. Além disso, afirmo também que a linguagem, como um
fenômeno biológico, em sua origem filogenética e em sua constituição
ontogenética, é uma operação num domínio de coordenações consensuais
de coordenações consensuais de ações que surgiu como um resultado da
coexistência íntima em coordenações de ações na linhagem de primatas
bípedes à qual pertencemos, e que tem que ser estabilizada novamente em
cada criança durante sua co-ontogenia com os adultos com os quais ele ou
ela cresce.5 

Isto é, eu afirmo que:

a) o linguajar não é um sistema de operação com símbolos abstratos na
comunicação;
b) os símbolos não preexistem à linguagem, mas surgem depois dela e
nela como distinções, feitas por um observador, de relações consensuais de
coordenações de ações na linguagem;
c) embora a linguagem aconteça através das interações corporais e das
mudanças corporais envolvidas nas coordenações consensuais de
coordenações consensuais de ações daqueles que estão linguajando, ela
não acontece no corpo dos participantes, porque acontece no fluxo de suas
coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações;
d) embora a linguagem não aconteça nos corpos daqueles que estão na
linguagem, o curso das mudanças corporais daqueles que interagem na
linguagem entrelaça-se com o curso de suas coordenações de ações, e o
curso de suas coordenações de ações entrelaça-se com o curso de suas
mudanças corporais, ao surgirem estas no fluxo de seu linguajar;6 e
e) aquilo que o observador vê como o conteúdo de um processo de
linguajar é uma distinção na linguagem, que um observador faz, das
relações de um processo de linguajar numa rede de linguajar.
O resultado desta condição de constituição da linguagem é que nós,
seres humanos, existimos como observadores na linguagem, e quaisquer
distinções que façamos são operações na linguagem, em conformidade com
circunstâncias que surgiram em nós na linguagem.

AS CONVERSAÇÕES

Como mamíferos, somos animais que aprendemos a coordenar o fluxo
de nossas emoções e comportamentos consensualmente, ao vivermos
juntos. Como animais linguajantes, vivendo juntos também aprendemos a
viver em coordenações consensuais de coordenações consensuais de
ações. Como seres humanos, crescemos e vivemos em coordenações
consensuais de emoções e coordenações consensuais de coordenações
consensuais de ações, que se entrelaçam umas às outras e formam redes
fechadas de coordenações consensuais de emoções e linguagem. Nestas
redes fechadas de coordenações consensuais de emoções e linguagem,
nossas ações e o fluxo de nossas ações na linguagem mudam ao mudarem
nossas emoções, e nossas emoções e o fluxo de nosso emocionar mudam
ao mudarem nossas coordenações de ações na linguagem. Chamo de
conversação nossa operação nesse fluxo entrelaçado de coordenações
consensuais de linguajar e emocionar e chamo de conversações as
diferentes redes de coordenações entrelaçadas e consensuais de linguajar
e emocionar que geramos ao vivermos juntos como seres humanos.7
Como animais linguajantes, existimos na linguagem, mas como seres
humanos existimos (trazemos nós mesmos à mâo em nossas distinções) no
fluir de nossas conversações, e todas as nossas atividades acontecem
como diferentes espécies de conversações. Conseqüentemente, nossos
diferentes domínios de ações (domínios cognitivos) como seres humanos
(culturas, instituições, sociedades, clubes, jogos etc.) são constituídos como
diferentes redes de conversações, cada uma definida por um critério
particular de validação, explícito ou implícito, que define e constitui o que a
ela pertence. A ciência, como um domínio cognitivo, é um domínio de
ações, e como tal é uma rede de conversações que envolve afirmações e
explicações validadas pelo critério de validação das explicações científicas
sob a paixão do explicar.


O CIENTISTA

A ciência é uma atividade humana. Portanto, qualquer ação que nós
cientistas realizamos ao fazer ciência tem validade e
significado, como qualquer outra atividade humana, apenas no contexto de
coexistência humana no qual surge. Todas as atividades humanas são
operações na linguagem, e como tais elas ocorrem como coordenações de
coordenações consensuais de ações que acontecem em domínios de ações
especificados e definidos por uma emoção fundamental.8

A emoção fundamental que especifica o domínio de ações no qual a
ciência acontece como uma atividade humana é a curiosidade, sob a forma
do desejo ou paixão pelo explicar. Além disso, o que constitui a ciência
como um tipo particular de explicação é o critério de validação que nós
cientistas usamos, explícita ou implicitamente, para aceitarmos nossas
explicações como explicações científicas ao praticarmos a ciência sob a
paixão do explicar. Chamo este critério de validação de explicações que nós
cientistas usamos, e que descreverei mais abaixo, de critério de validação
das explicações científicas.

Resulta do que disse que nós, cientistas, nos tornamos cientistas durante
o operar sob a paixão do explicar, quando constituímos a ciência como um
domínio particular de explicações, sendo rigorosos em nosso empenho de
sermos sempre impecáveis na aplicação do critério de validação das
explicações científicas, ao gerarmos explicações que chamamos de
explicações científicas. É esta forma de constituição da ciência e do
cientista que dá ao uso da ciência sua peculiar efetividade operacional nos
mundos em que nós seres humanos modernos vivemos.


AS EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS

Quando, na vida cotidiana comum, respondemos a nós mesmos ou a
alguém uma pergunta que nos exige uma explicação de uma experiência
(situação ou fenômeno) particular, sempre a respondemos propondo uma
reformulação daquela experiência (situação ou fenômeno) em termos de
outras experiências diferentes daquelas usadas na formulação original da
pergunta. Se a reformulação proposta é aceita como tal pela pessoa que fez
a pergunta, ela se torna, ipso fado, uma explicação, e tanto a pergunta
quanto o desejo de formulá-la desaparecem.

Quando isto ocorre, a explicação aceita torna-se uma
experiência que pode ser usada como tal para outras explicações. Em
outras palavras, explicações são proposições apresentadas como
reformulações de uma experiência, aceitas como tais por um ouvinte, em
resposta a uma pergunta que requer uma explicação. Isto é, uma
proposição apresentada como reformulação de uma experiência, que não é
aceita como tal, não é uma explicação. Portanto, há tantos tipos diferentes
de explicação quantos diferentes critérios usamos, explícita ou
implicitamente, para aceitar os diferentes tipos de reformulação de
experiências que aceitamos como explicações, em resposta a nossas
perguntas. Ao mesmo tempo, os diferentes critérios de aceitabilidade, que
usamos em nosso escutar explicações, definem os diferentes domínios
explicativos com que operamos em nossas vidas cotidianas, Uma vez que
os domínios explicativos são constituídos desta maneira, o que define a
ciência como um domínio explicativo particular é o critério de validação de
explicações que os cientistas usam, e o que define o cientista como um tipo
particular de pessoa sob a paixão do explicar é o uso do critério de
validação de explicações que constitui a ciência como um domínio
explicativo. Finalmente, como explicações são experiências do observador,
que surgem quando ele ou ela opera em seu domínio de experiências, todos
os domínios explicativos constituem domínios experienciais expansíveis,
nos quais o observador vive novas experiências, faz novas perguntas, e
inevitavelmente gera explicações de maneira incessante e recursiva, se ele
ou ela tem a paixão do explicar.


O CRITÉRIO DE VALIDAÇÃO DAS EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS

Se prestarmos atenção no que fazemos enquanto cientistas na praxis da
ciência ao propormos uma explicação científica de qualquer fenômeno
(experiência) particular que queremos explicar, podemos perceber que
aceitamos uma dada reformulação do fenômeno a ser explicado como uma
explicação científica apenas se ela for apresentada como uma de quatro
operações inter-relacionadas, que devemos efetuar satisfatoriamente em
nosso domínio de experiências, para validar nossas explicações ao

operarmos como cientistas.

Chamo estas quatro operações, que devem ser satisfeitas conjuntamente

a fim de que uma reformulação particular de experiências incluída entre

elas possa ser aceita como uma explicação científica, de critério de validação das
explicações científicas; e chamo o observador, que as executa e aceita sua
satisfação conjunta como o critério de validação de suas explicações, de
observador-padrão ou cientista.

Estas quatro operações são as seguintes:

i) A apresentação da experiência (o fenômeno) a ser explicada em
termos daquilo que um observador-padrão deve fazer em seu domínio de
experiências (sua praxis de viver) para experienciá-la.
ii) A reformulação da experiência (o fenômeno) a ser explicada sob a
forma de um mecanismo gerativo que, se realizado por um observador-
padrão em seu domínio de experiências, lhe permite, como um resultado ou
conseqüência de sua operação, ter em seu domínio de experiências a
experiência a ser explicada como apresentada no ponto (i).
iii) A dedução, a partir da operação do mecanismo gerativo proposto em
(ii), assim como de todas as coerências operacionais do domínio de
experiências de um observador-padrão a ele vinculado, de outras
experiências que um observador-padrão deveria ter através da aplicação
daquelas coerências operacionais e das operações que ele ou ela deve
realizar em seu domínio de experiências para tê-las.
iv) A experiência, por um observador-padrão, das experiências (dos
fenômenos) deduzidos em (iii) através da realização, em seu domínio de
experiências, das operações também deduzidas em (iii).

É apenas quando estas quatro condições são conjuntamente satisfeitas
na praxis de viver de um observador-padrão, enquanto ele ou ela está no
processo de explicar um aspecto (um fenômeno) particular de seu domínio
de experiências, que: a) um observador-padrão pode afirmar como cientista
que o mecanismo gerativo que ele ou ela propôs em (ii) é uma explicação
científica da experiência que ele ou ela apresentou em (i) como o fenômeno
(a experiência) a ser explicado; b) essa explicação é válida enquanto estas
condições se aplicarem; e c) essa explicação é válida na comunidade de
cientistas enquanto observadores-padrão que aceitam que o critério de

validação das explicações científicas foi satisfeito.

Em outras palavras, não há um único aspecto ou operação do critério de

validação das explicações científicas que seja científico por si mesmo, e,

portanto, não há operações tais como observações, deduções, confirmações

ou predições científicas.

Existem apenas explicações científicas enquanto proposições de mecanismos

gerativos que são aceitas como válidas exclusivamente na medida em que são

parte da satisfação do critério de validação das explicações científicas,

e afirmações científicas enquanto afirmações que são aceitas como válidas

porque surgem direta ou indiretamente como resultado

da aplicação das explicações científicas.

Consideremos agora algumas das conseqüências e implicações de se
compreender como geramos a ciência enquanto domínio cognitivo, através
da aplicação do critério de validação das explicações científicas, para nossa
compreensão do que realizamos quando fazemos ciência.

1. As explicações em geral, como reformulações de experiências aceitas
enquanto tais por um observador, não substituem, e não se espera que
substituam, as experiências que elas explicam; elas apenas apresentam as
condições operacionais do domínio de experiências do observador sob as
quais ele ou ela afirma que surge a experiência explicada. As explicações
científicas não são uma exceção a isto e também não substituem a
experiência que explicam: uma explicação científica somente diz o que
acontece, em uma parte específica do domínio de experiências do
observador, se ela satisfizer as condições operacionais do critério de
validação das explicações científicas.

2. As explicações científicas surgem como ações humanas efetivas no
domínio de experiências de observadores-padrão individuais, e são válidas
enquanto tais em sua comunidade, ainda que cada observador-padrão viva
suas experiências na total solidão de seu determinismo estrutural enquanto
um sistema vivo.9 Esta situação não constitui uma contradição, porque
pertencer a uma comunidade de observadores-padrão não depende da
capacidade individual de fazer referência a uma realidade objetiva
independente — que o observador-padrão como sistema vivo não pode
fazer —, mas da participação consensual no domínio das explicações
científicas.

Conseqüentemente, são cientistas (observadores-padrão) e membros da
comunidade de cientistas apenas os observadores que podem participar,
com outros observadores, e para sua completa satisfação, na realização do
critério de validação das explicações científicas e que, além disso, aceitam-
no como seu único critério de validação para suas explicações. Os
observadores que, por uma razão ou outra, não podem fazer ou não fazem
isto são rejeitados como observadores-padrão ou cientistas pelos membros
da comunidade de cientistas sob a alegação de que são maus
observadores, ou são mesmo desconsiderados.

3. Como mecanismos gerativos constituídos e aceitos no contexto da
satisfação das quatro operações do critério de validação das explicações
científicas, as explicações científicas são constitutivamente mecanicistas, no
sentido de que lidam apenas com sistemas estruturalmente determinados,
e com o determinismo estrutural envolvido no domínio operacional no qual
são propostas. Como tais, as explicações científicas acontecem no domínio
de experiências do observador-padrão, e o domínio de determinismo
estrutural no qual acontecem pertence à área de coerências operacionais
da praxis de viver do observa dor-padrão, na qual ele ou ela as propõe:

uma explicação científica opera apenas na área de determinismo estrutural

na qual é proposta. Contudo, esta situação não é uma limitação

das explicações científicas — pelo contrário, é sua condição de possibilidade.

4. Ao contrário de uma crença comum, implícita ou explícita, as
explicações científicas, enquanto proposições de mecanismos gerativos que
dão origem como uma conseqüência ou resultado de sua operação às
experiências (aos fenômenos) a serem explicadas, constitutivamente não
operam e não podem funcionar como reduções fenoménicas nem
lhes dar origem, Esta relação não reducionista entre o fenômeno a ser
explicado e o mecanismo que o gera é operacionalmente o motivo pelo qual
o resultado efetivo de um processo e as operações no processo que lhe dão
origem em uma relação gerativa intrínsecamente ocorrem em domínios
fenoménicos independentes e não intersectantes.
Esta situação é o oposto do reducionismo: as explicações científicas,
como proposições gerativas, constituem ou produzem uma relação gerativa
entre domínios fenoménicos que de outro modo estariam independentes e

não intersectantes, a qual, portanto, elas validam de fato.

A libertação da crença de que as explicações científicas sejam ou

constituam proposições reducionistas, que a compreensão

do critério de validação das explicações científicas nos traz, 

permite-nos ver, particularmente no domínio da biologia,

que há fenômenos como a linguagem, a mente ou a consciência

que requerem uma interação de corpos como uma estrutura gerativa,

mas que não acontecem em nenhum deles. Nesse sentido, a ciência

e a compreensão da ciência nos conduzem para longe do dualismo transcendental.

5. O fato de que, numa explicação científica, o fenômeno a ser explicado
deva surgir num domínio fenoménico diferente daquele no qual acontece o
mecanismo gerativo que lhe dá origem como um resultado de sua operação
constitui o fenômeno a ser explicado como um fenômeno num domínio
relacional abstrato em relação àquele no qual ocorre seu mecanismo
gerativo. Existem duas conseqüências básicas desta situação: a) não há,
em princípio, nenhuma restrição quanto ao tipo de fenômenos que podem
ser explicados cientifica menee, apesar do quão abstratos eles possam
parecer, porque o fenômeno explicado constitutivamente acontece num
domínio relacional abstrato no que diz respeito ao mecanismo que o gera; e
b) o fato de que as explicações científicas sejam proposições mecanicistas
não restringe a possibilidade de utilizá-las para explicar o que parecem ser
fenômenos não mecanicistas, tais como a autoconsciência ou as
experiências espirituais.

6. Uma vez que o critério de validação das explicações científicas é
definido e constituído apenas em termos das coerências operacionais do
domínio de experiências dos observadores-padrão, ele não envolve
nenhuma suposição sobre uma realidade objetiva independente.
Conseqüentemente, um observador-padrão pode usar explicações
científicas apenas para explicar suas experiências reformulando-as com
outras experiências, na aplicação das coerências operacionais que estas
envolvem na satisfação do critério de validação das explicações científicas,
e não usá-las para revelar ou conotar algo supostamente independente do
que ele ou ela faz. Na verdade acontece exatamente o contrário, porque,
por estas mesmas razões, as explicações científicas entram na
constituição do mundo ou dos mundos que nós observadores-padrão
vivemos através da transformação e expansão do nosso domínio de
experiencias que elas produzem, ao operarmos com suas conseqüências
em nosso domínio experiencia!. Nessas condições, a afirmação que os
cientistas fazem sobre a validade universal das explicações científicas não
se refere a uma pretensa revelação, através delas, de uma realidade
objetiva, independente, e portanto universal, mas a sua validade através da
aplicação das coerências operacionais que elas implicam no mundo ou nos
mundos surgidos através da aplicação do critério de validação que as
constitui.

7. As explicações científicas, como reformulação de experiências com
outras experiências no domínio de experiências do observador-padrão,
pertencem à praxis de viver na vida cotidiana do observador-padrão como
ser humano. Além disso, a maneira pela qual nós seres humanos validamos
de fato nossas ações na vida cotidiana, dentro de qualquer domínio
operacional, envolve as mesmas coerências operacionais que o critério de
validação das explicações científicas.

A diferença entre nossa operação na vida cotidiana como cientistas e
como não-cientistas depende de nossas diferentes emoções, de nossos
diferentes desejos de consistência e impecabilidade em nossas ações e de
nossos diferentes desejos de reflexão sobre o que fazemos. Nós seres
humanos somos seres multidimensionais em nossos desejos, em nossos
interesses e em nossos prazeres e, devido a isto, realizamos em nosso
viver cotidiano muitos tipos diferentes de seres através de diferentes
conversações que se intersectam em nossos corpos, cada uma fundada
numa emoção particular. Por isso, como cientistas, estamos sob a paixão do
explicar, e toda dúvida, toda pergunta é em nós, em princípio, uma ocasião
bem-vinda e desejada para nossa realização enquanto tais. Além disso,
enquanto cientistas somos também, pelo menos em princípio, cuidadosos
para não confundirmos domínios experienciais ou fenoménicos em nossas
proposições explicativas ao validarmo-las com o critério de validação das
explicações científicas.

Finalmente, enquanto cientistas nos comprometemos a usar apenas

o critério de validação das explicações científicas em nosso explicar.
Como não-cientistas, na vida cotidiana, não somos cuidadosos desta
maneira; usamos sucessivamente muitos critérios
diferentes para validarmos nossas explicações e afirmações; mudamos
espontaneamente de domínios fenoménicos em nosso discurso,
freqüentemente sem estarmos conscientes de que o fazemos e não
estamos interessados em aplicar o rigor conceitua! das explicações
científicas. Contudo, como resultado de nosso determinismo estrutural

como sistemas vivos, intrínsecamente operamos na experiência da vida

cotidiana de acordo com as coerências operacionais envolvidas

no critério de validação das explicações científicas. Ou, dito de uma forma mais
fundamental, o critério de validação das explicações científicas é uma
formalização da validação operacional do fluir da praxis de viver dos
sistemas vivos.

8. Einstein disse, e muitos concordaram com ele, que as teorias
científicas são livres criações da mente humana, e admirou-se de poder,
através delas, compreender o universo. O critério de validação das
explicações científicas como operações na praxis de viver do observador,
entretanto, nos permite ver como é que a primeira reflexão de Einstein é
válida e como não há nada de surpreendente nisso. Reflitamos sobre isto.
A afirmação e maravilhamento de Einstein surgiram da suposição
implícita de que há uma realidade independente que o observador encontra
e explica com proposições explicativas, que Einstein vê surgindo
independentemente de qualquer observação direta ou experimentação com
essa realidade objetiva. Se a suposição implícita de Einstein fosse correta,
então seu espanto seria correto também. O critério de validação das
explicações científicas nos diz, entretanto, que na medida em que ele não
requer qualquer suposição sobre uma realidade objetiva e independente,
tudo o que o observador-padrão faz na geração de uma explicação científica

surge nele ou nela como uma expressão de sua dinâmica experiencial,

sem qualquer referência à suposta realidade objetiva independente.

Em decorrência disso, os pontos (i) e (ii) do critério de validação das
explicações científicas pertencem totalmente à arbitrariedade da mente do
observador, no sentido de que surgem, como um todo, na espontaneidade
das reflexões do observador-padrão, ao surgirem no fluir de seu
determinismo estrutural. O observador não encontra um problema ou
fenômeno a ser explicado fora dele ou dela mesma, mas, ao contrário, ele
ou ela constitui um problema ou fenômeno em seu
domínio de experiências ao encontrar-se numa pergunta que deseja
responder, Além disso, o observador produz o mecanismo gerativo que ele
ou ela propõe, na tentativa de explicar o fenômeno que ele ou ela quer
explicar, como uma proposição ad hoc especificamente delineada com
elementos de sua experiência para gerá-lo como um resultado de sua
operação, sem a necessidade de nenhuma outra justificativa além dessa.
Estritamente falando, aqui é onde a poesia do fazer ciência reside. Os
outros dois pontos, (iii) e (iv), do critério de validação das explicações
científicas envolvem operações de um tipo diferente. Eles surgem como
deduções, a partir das coerências operacionais implicadas pelo ponto 00 no
domínio de experiências do observador, de outras experiências que ele ou
ela viveu, vive, ou poderia viver sob a forma de operações efetivas naquele
domínio. Como tais, os pontos (iii) e (iv) são totalmente subordinados, em
sua geração, aos pontos (i) e (ii), que especificam quando e como eles
poderiam acontecer. Finalmente, uma vez que compreender uma dada
experiência é um operar ciente das circunstâncias que a geram, e uma vez
que tudo em uma explicação científica ocorre no domínio de experiências

do observador-padrão como sua operação efetiva nele, as teorias científicas
podem surgir apenas como livres criações de nossa operação enquanto
observadores-padrâo, podendo tomar somente a forma de reformulações

de nossas experiências com elementos de nossas experiências que, de fato,
constituem nossa compreensão de nosso domínio de experiências, quando
o vivemos através de nossas explicações científicas.

9. Sob a suposição implícita ou explícita de que a ciência tem a ver com a
revelação das propriedades de uma realidade objetiva (ontologicamente
independente), acredita-se freqüentemente, até entre os cientistas, que para
qualquer teoria ou explicação ser científica ela deve envolver quantificações
e predições. Por isso, freqüentemente se ouve, pelo menos coloquialmente,
uma distinção um tanto sarcástica entre ciências hard e soft, dependendo
delas envolverem ou não quantificação. Esta distinção leva a supor que as
ciências soft não são realmente ciências, ou que não se pode desenvolver
uma teoria científica em qualquer domínio particular se não se faz ou não se
pode fazer medições para propor predições com uma validade assegurada
por observações quantitativas objetivas.

Estas crenças são enganadoras e inadequadas, porque obscurecem nossa

visão direta das operações pelas quais os observadores-padrão constituem

a ciência como um domínio cognitivo.

O que torna científica uma explicação ou teoria científica não é a
quantificação ou a possibilidade que ela cria, para o observador, de predizer
algumas de suas futuras experiências, mas o fato de ela ser validada
através da aplicação do critério de validação das explicações científicas sem
referência à quantificação ou qualquer restrição de domínio. Um
observador-padrão pode gerar uma explicação ou teoria científica em
qualquer domínio no qual ele ou ela possa aplicar o critério

de validação das explicações científicas.

O que acontece com as quantificações e predições é algo diferente.
Quantificar ou medir é aplicar uma métrica, definida como um sistema de
comparações replicáveis que um observador faz entre duas áreas de seu
domínio de experiências, a uma outra área desse domínio. Como tal, uma
medição ou quantificação não constitui uma validação independente ou
objetiva de qualquer observação que o observador faz, mas, se ela é feita
adequadamente, facilita ou possibilita suas deduções na área de coerências
operacionais de seu domínio de experiências à qual é aplicada. Do mesmo
modo, uma predição, como um cálculo tentativo de uma mudança de estado
em um sistema estruturalmente determinado, não inteiramente descrito,
criado peio observador como uma abstração de suas coerências
operacionais em seu domínio de experiências, é também uma operação
que, se bem sucedida, não pode por ela mesma constituir uma validação
objetiva — uma validação independente do que o observador faz — do
sistema estruturalmente determinado no qual acontece. Quantificações (ou
medições) e predições podem ser usadas na geração de uma explicação
científica, mas não constituem a fonte de sua validade.

10. As noções de falseabilidade,10 verificabilidade ou confirmação aplicar-
se-iam à validação do conhecimento científico apenas se este fosse um
domínio cognitivo que revelasse, direta ou indiretamente, por denotação ou
conotação, uma realidade transcendente independente do que o observador
faz, e se o ponto (ii) do critério de validação das
explicações científicas fosse um modelo dessa realidade transcendente, em
vez de um mecanismo gerativo que faz surgir a experiência a ser explicada
tal como é apresentada no ponto (i). Entretanto, uma vez que, de acordo
com o critério de validação das explicações científicas, as explicações e
afirmações científicas não se referem a uma realidade independente e não o
pretendem fazer, tais noções não se aplicam ao domínio da ciência, ainda
que elas possam ter um uso metafórico. Sem dúvida, os pontos (iii) e (iv) do
critério de validação das explicações científicas oferecem a um observador
a possibilidade operacional de acreditar que ele ou ela realiza a falsificação,
verificação ou confirmação do que é proposto em (ii), se ele ou ela acredita
que, nesta proposição, ele ou ela tem um modelo de como é a realidade
objetiva, que ele ou ela pretende conhecer ao assumir que tal realidade
existe independentemente do que ele ou ela faz.

Contudo, tal crença, como é evidente por tudo o que eu disse até aqui, é
uma fonte de cegueira para nossa compreensão do que fazemos ao
fazermos ciência, levando-nos a não ver que a validade do que fazemos em
ciência sustenta-se exclusivamente na consensualidade operacional em que
surge, como uma forma de coexistência humana em condições sob as quais
as noções de falsificação, verificação ou confirmação não se aplicam nem
se podem aplicar. Já que a crença implícita numa realidade objetiva
independente, como fonte de validade universal de conhecimento, é uma
parte básica de nossa cultura ocidental na qual a ciência surgiu, e nós
acreditamos também que a força da ciência apóia-se nela, deixem-me
repetir novamente alguns dos argumentos que indicam que sua validade e
sua efetividade operacionais não dependem dela.

a) As explicações científicas surgem operacionalmente como
mecanismos gerativos que aceitamos, enquanto cientistas, através de
operações que não envolvem ou implicam qualquer suposição sobre uma
realidade independente; portanto, de fato, não há confrontação com a
mesma, nem é preciso tê-la, ainda que acreditemos que isso ocorra.

b) Se nós escutamos o que foi dito acima nos pontos (iii) e (iv) do critério
de validação das explicações científicas, percebemos que esses pontos não
envolvem qualquer suposição sobre uma realidade independente, e que

se referem apenas às coerências operacionais do domínio de

experiências do observador-padrão, sem depender do que ele ou ela

possa pensar que a realidade é.

c) O observador-padrão, enquanto um sistema vivo, é um sistema
estruturalmente determinado e, enquanto tal, ele ou ela não tem como
operacionalmente fazer uma distinção que se possa, de alguma forma,
afirmar ser a distinção de algo independente do fazer dele ou dela; devido a
isto, ele ou ela não pode ter qualquer concepção operacional de nada que
não pertença ao seu domínio de experiências.11

d) Apesar do que possamos dizer, nós cientistas agimos, em nossas
pesquisas, sob a disposição corporal interna (a emoção) de seguir o
caminho da validação de nossas proposições explicativas, não o de
encontrar as condições de sua falsificação.


A CIÊNCIA COMO UM DOMÍNIO COGNITIVO

O uso do critério de validação das explicações científicas define e
constitui as explicações científicas. O uso de explicações científicas para
validar uma afirmação faz desta uma afirmação científica. O uso de
explicações científicas pelos membros de uma comunidade de
observadores-padrão, para direta ou indiretamente validar todas as suas
afirmações, define e constitui a ciência como um domínio cognitivo que
define como uma comunidade científica a comunidade daqueles
observadores que as usam. Portanto, ontologicamente, nesta forma de
constituição como domínio cognitivo, a ciência não é diferente de outros
domínios cognitivos, porque é definida e constituída como todos os
domínios cognitivos são, isto é, como um domínio de ações definido por um
critério de validação ou aceitabilidade, usado por um observador ou pelos
membros de uma comunidade de observadores para aceitar aquelas ações
como válidas num domínio de ações definido por esse mesmo critério de
aceitabilidade.12


Vejamos agora algumas das implicações desta maneira de constituição
para nossa compreensão e uso da ciência como domínio cognitivo:

1. Freqüentemente se afirma que o conhecimento científico tem que ser
aceito como universalmente válido, porque as explicações e afirmações que
lhe pertencem são validadas através de sua contínua confrontação com
uma realidade objetiva independente. A forma de constituição da ciência
como um domínio cognitivo, entretanto, indica que tal idéia não pode ser
sustentada, e que as explicações e afirmações científicas são válidas
apenas na comunidade dos observadores que aceitam o critério de
validação das explicações científicas como o critério de validação de suas
explicações. Neste aspecto, a ciência não é diferente de nenhum outro
domínio cognitivo, já que todos os domínios cognitivos são, por constituição, 

válidos apenas na comunidade específica dos observadores que aceitam

o critério de validação de ações adequadas que define tal comunidade.

Afirma-se também freqüentemente que é a universalidade e objetividade do
conhecimento científico que dá aos argumentos racionais científicos sua
força coercitiva e às afirmações científicas seu caráter convincente. Neste
aspecto, entretanto, a ciência não é diferente de quaisquer outros domínios
cognitivos, porque todos os argumentos propriamente racionais
(argumentos sem coerências operacionais mal aplicadas) são, por
constituição, válidos apenas no domínio cognitivo ao qual pertencem.
Finalmente, a ciência, como um domínio cognitivo, também não é diferente
de qualquer outro domínio cognitivo que um observador possa afirmar,
porque todos os domínios cognitivos são domínios de ações adequadas de
um observador em seu domínio de experiências.

2. As peculiaridades da ciência como domínio cognitivo surgem de sua
forma de constituição pela aplicação do critério de validação das
explicações científicas. Vejamos algumas delas: a) o critério de validação
das explicações científicas descreve o que nós, cientistas naturais
modernos, explícita ou implicitamente fazemos na praxis da investigação
científica, ou o que presumimos que deveria ter sido feito por alguém que
afirme estar propondo uma explicação científica ou fazendo uma afirmação
científica; b) uma vez que o critério de validação das explicações científicas
consiste, por constituição, na rigorosa aplicação (sem confusão de
domínios), por um observador-padrão, da validação operacional cotidiana
da sua práxis de viver, todas as explicações e afirmações
científicas pertencem à praxis de viver do observador-padrão, e o
observador-padrão não pode gerar, através da ciência, afirmações e
explicações que não sejam de fato constituídas nas coerências operacionais
da sua praxis de viver; c) uma vez que o critério de validação das
explicações científicas permite ao observador-padrão validar relações
gerativas em domínios fenoménicos não intersectantes, a ciência é, por
constituição, um domínio cognitivo multidimensional, e um observador-
padrão pode expandir, pela geração de explicações científicas e afirmações
científicas, todas as dimensões da experiência humana em domínios
fenoménicos não intersectantes. Finalmente, d) uma vez que o critério de
validação das explicações científicas envolve a operacionalidade da
reflexão, a ciência, como um domínio cognitivo, é por constituição um
domínio no qual um observador-padrão pode recursiva-mente tratar
qualquer experiência nesse domínio como um objeto de reflexão nele, sem
sair das coerências operacionais de sua práxis de viver.

3. Nós cientistas afirmamos que nossas emoções não participam na
geração de nossas afirmações e explicações científicas. Afirmamos isto
porque o critério de validação das explicações científicas especifica
inteiramente, de uma forma que é constitutivamente independente do nosso
emocionar, as operações que precisamos efetuar como observadores-
padrão para gerar uma explicação científica. Além disso, ao aprendermos a
ser cientistas, nós aprendemos a ser cuidadosos para não deixarmos
nossas preferências e desejos distorcerem-se e, por isso, invalidarem nossa
aplicação do critério de validação das explicações científicas; também
aprendemos a reconhecer que quando permitimos que isto aconteça
cometemos um erro grave.

Nossas emoções, entretanto, entram legítima e constitutivamente no que
nós cientistas fazemos na fundação das circunstâncias de nosso explicar
científico, porque especificam a todo momento o domínio de ações no qual
operamos ao gerarmos nossas perguntas. Como seres humanos, criamos
com nossas ações em nosso domínio de experiências os mundos que
vivemos, quando os vivenciamos em nosso domínio de experiências
enquanto seres humanos, e nos movemos nos mundos que criamos
mudando nossos interesses e nossas perguntas, no fluir do nosso
emocionar. Em outras palavras,
a poesia da ciencia é baseada em nossos desejos e interesses, e o curso
seguido peta ciência nos mundos que vivemos é guiado por nossas
emoções, não por nossa razão, na medida em que nossos desejos e
emoções constituem as perguntas que fazemos ao fazermos ciência.
São as conversações nas quais estamos imersos ao fazermos ciência
que determinam o curso da ciência. E não pode ser de outro modo, porque
qualquer coisa que nós seres humanos façamos, surge em nossa operação
como tais em nosso domínio de experiências através do contínuo entrelaçar
de nosso linguajar e nosso emocionar, que é tudo o que nós seres humanos
fazemos.13 Portanto, nós não encontramos problemas ou questões a serem
estudados e explicados cientificamente fora de nós mesmos num mundo
independente. Nós constituímos nossos problemas e questões ao fluirmos
na nossa práxis de viver e fazemos as perguntas que nós, em nosso
emocionar, desejamos fazer. Nossas emoções não entram na validação de
nossas explicações científicas, mas o que explicamos surge através do
nosso emocionar como um interesse que não queremos ignorar, explicando
o que queremos explicar, e o explicamos cientificamente, porque gostamos
de explicar dessa maneira. Então, a ciência, como um domínio cognitivo,
existe e se desenvolve como tal sempre expressando os interesses,
desejos, ambições, aspirações e fantasias dos cientistas, apesar de suas
alegações de objetividade e independência emocional.

4. O fato de a ciência, como um domínio cognitivo, ser constituída e
validada nas coerências operacionais da práxis de viver dos observadores-
padrão ao Funcionarem em seus domínios experienciais sem referência a
uma realidade independente não torna as afirmações científicas subjetivas.
A dicotomía objetivo/subjetivo pertence a um domínio cognitivo no qual o
objetivo é uma proposição explicativa que afirma, direta ou indiretamente, a
possibilidade operacional de apontar para uma realidade independente. A
ciência não faz isso, e não pode fazê-lo. O fato de o critério de validação
das explicações científicas constituir a ciência como um domínio explicativo,
que surge na operação recursiva do observador-padrão dentro das
coerências operacionais de seu domínio de experiências, torna
operacionalmente impossível a referência científica a algo concebido como
uma realidade objetiva e independente.

A ciência, como domínio cognitivo, é realizada nas coerências operacionais
do domínio de experiências do observador-padrão na sua praxis de viver
como um ser humano, e como tal o observador a vive como um domínio de
constituição de experiências em seu domínio de existência.14

5. As noções de objetividade e universalidade na ciência podem ser
usadas de maneiras diferentes, e ao mesmo tempo mais relevantes para a
prática da ciência do que aquelas que contestei acima. Assim, podemos
escutar a afirmação de objetividade na prática da ciência como o
comprometimento do observador-padrão em não deixar seus desejos ou
preferências distorcerem ou interferirem em sua aplicação do critério
de validação das explicações científicas. Do mesmo modo, podemos
escutar a alegação de universalidade da ciência alegando que, Já que a
ciência, como domínio cognitivo, acontece na praxis de viver do

observador-padrão como um ser humano, todo ser humano pode,

em princípio, operar como observador-padrão se ele ou ela assim o desejar.

Portanto, as alegações de objetividade e universalidade na ciência são

afirmações morais, e não ontológicas. A legitimidade dessas afirmações

na forma mencionada acima, ainda que usualmente não as entendamos

assim, é uma das condições que possibilitam aos cientistas escaparem

da sempre presente tentação do Fanatismo, e a possibilidade de manter a ciência

como um domínio cognitivo sempre aberto à compreensão e à prática
de todo ser humano.

6. Uma vez que o critério de validação das explicações científicas pode
ser inteiramente explicitado de maneira operacional e não implica qualquer
referência direta ou indireta a uma realidade independente ou mundo
objetivo, ele pode ser aprendido, usado e aplicado com total independência
das crenças do observador-padrão sobre a realidade, sobre os valores, e a
vida espiritual. É este o motivo pelo qual nós cientistas nem sempre somos
sábios.

O caminho da ciência moderna não é o caminho da sabedoria no viver os
mundos que nós seres humanos vivemos, ainda que não necessariamente
o contradiga. O caminho da sabedoria, como o caminho da compreensão,
da prudência e da responsabilidade pelas conseqüências de nossas ações
nos mundos que nós seres humanos criamos e vivemos, precisa
ser especialmente cultivado, se é que desejamos que ele tenha alguma
presença em nossas vidas.

A experiência espiritual é uma experiência de pertencer a uma
comunidade ou a um reino cósmico que nos acontece, seres humanos, de
uma forma ou de outra ao longo dos caminhos de nossas vidas, e tem sido
freqüentemente de significação básica para a harmonia e saúde de nossa
vida social humana. Assim, as experiências espirituais não podem ser
negadas, e a ciência não as nega. Realmente, as experiências não são um
problema no domínio da coexistência humana — é no domínio das
explicações e usos de nossas experiências que nós podemos entrar em
disputas mortais. É o fanatismo que pode surgirem torno da explicação da
experiência, quando alguém alega ter acesso a alguma verdade
transcendente, que constitui uma fonte de disputa e sofrimento na
coexistência humana. Na medida em que a ciência não se apóia em
nenhum sistema de crenças, porque pertence exclusivamente ao domínio
das coerências operacionais da praxis de viver dos observadores-padrão
como seres humanos, a ciência constitui para nós a possibilidade
operacional de sermos responsáveis por nossas ações, por nos dar a
possibilidade de nos tornarmos conscientes de nossas emoções e de,
intencionalmente, agirmos de acordo com nossos desejos.

7. As noções de progresso, de responsabilidade social e ética não se
aplicam à ciência como um domínio cognitivo. Realmente, a ciência, como
qualquer outro domínio cognitivo, é operacional em sua constituição, e
enquanto tal é livre de valores. As noções de progresso, responsabilidade
social e ética aplicam-se às ações humanas e, portanto, ao que nós,
cientistas, artistas, tecnólogos ou qualquer outro tipo de pessoas, podemos
ser, desejar e fazer como seres humanos.

Nós, seres humanos, operamos e existimos como uma interseção de
nossas condições de observadores (em conversações) e seres vivos, e
como tais somos seres multidimensionais, verdadeiros nós de uma rede
cruzada dinâmica de discursos e emoções que continuamente nos movem
de um domínio de ações a outro, num fluxo contínuo de muitas
conversações variáveis. Conseqüentemente, nós, cientistas, praticamos a
ciência como uma maneira de viver sob uma das numerosas emoções que
nos constituem em nosso viver
como seres humanos emocionais normais, isco é, sob a paixão ou desejo
do explicar. Contudo, a área de nosso domínio de experiências que
escolhemos a cada momento para investigar, explicar, ou analisar como
cientistas, ou que usos escolhemos dar aos resultados de nossas atividades
científicas, dependem de outras emoções que aparecem em nós no curso
de nossas vidas. Havendo o conhecimento científico, podemos usá-lo para
qualquer propósito que possamos querer como nossos desejos, paixões,
medos ou intenções, surgidos em nós com o fluir de nosso linguajar e
emocionar. Ao acontecer isto, começamos a agir, digamos, como
tecnólogos, empresários, artistas, trapaceiros, políticos, e assim por diante,
quando aparece algum de nossos outros interesses humanos ao nos
envolvermos com ações técnicas, produtivas, estéticas, pessoalmente
vantajosas, ou sociais.

É neste contexto que as noções de progresso, ética e responsabilidade
social adquirem presença. Assim, a noção de progresso tem a ver com o
que nós consideramos melhor ou desejamos que aconteça na vida humana.
A noção de responsabilidade social tem a ver com nossa consciência de
querermos ou não as conseqüências de nossas ações. E a noção de ética
tem a ver com nosso interesse pelas conseqüências de nossas ações na
vida de outros seres humanos que aceitamos em coexistência conosco.
Além disso, as noções de progresso, ética e responsabilidade não
pertencem à ciência como domínio cognitivo, mas se aplicam a nós,
cientistas, como seres humanos porque tudo o que fazemos nos envolve e
também envolve as comunidades humanas e não humanas de seres vivos a
que pertencemos e que nos sustentam em nossas atividades.
8. Eu não falei de verdade como lei natural, e, de fato, isto não foi
acidental. Habitualmente utilizamos as noções de verdade e natureza para,
explícita ou implicitamente, conotar uma realidade independente do que
fazemos como observadores, seja como uma referência pela qual validamos
nossas afirmações, ou como um argumento que lhes dá universalidade. A
partir de tudo o que eu disse, entretanto, fica evidente que a ciência não tem
nada a ver com a noção de verdade, que é independente do critério de
validação que constitui uma afirmação ou explicação científica como válida
no domínio cognitivo constituído pelo critério de validação
das explicações científicas. Ao mesmo tempo, a noção de verdade relativa
tampouco se aplica ã ciência, porque tal noção é válida apenas em
referência a uma verdade absoluta. Em outras palavras, a dicotomía entre
verdades absolutas e relativas não se aplica à ciência, porque tudo o que se
pode dizer na ciência, quando se alega que uma afirmação é cientificamente
verdadeira, é que ela é uma explicação científica. Algo semelhante acontece
com a noção de natureza. Uma vez que o observador não pode fazer
nenhuma afirmação cognitiva sobre algo independente de sua operação
como sistema vivo, a noção de natureza pode referir-se apenas ao que o
observador faz (na linguagem) como um ser humano explicando suas
experiências como tal, e, por isso, ela não pode se referir a nada
supostamente independente do que o observador faz.15

A natureza é uma proposição explicativa da nossa experiência com
elementos da nossa experiência. Realmente, nós, seres humanos,
constituímos a natureza com nosso explicar, e com o nosso explicar
científico nós constituímos a natureza como o domínio no qual existimos
como seres humanos — como sistemas vivos linguajantes. As explicações e
afirmações científicas não são validadas através de uma referência à
natureza, mas a natureza é operacionalmente constituída (conhecida) e
expandida, quando a constituímos como nosso domínio de experiência
através de nossa explicação científica da nossa experiência com elementos
da nossa experiência. Agir de acordo com nossa consciência de nossa
contínua constituição da natureza através de nossas explicações da nossa
experiência, estando conscientes da natureza constitutiva da natureza, é
nossa maior responsabilidade como seres humanos em geral e cientistas
em particular.

9. A ciência, como domínio cognitivo, muda ao mudarem as perguntas
que o observador-padrão faz e as explicações que ele ou ela aceita, e estas
mudam ao mudar seu domínio de experiências no fluir de sua praxis de
viver. Uma vez que a linguagem acontece no domínio das coordenações
consensuais de coordenações consensuais de ações, e estas acontecem
através dos encontros corporais de seus participantes, a corporalidade
daqueles que estão na linguagem muda de acordo com o fluir de seu
linguajar, e o fluir de seu linguajar muda de modo contingente com as
mudanças de sua corporalidade.

Devido a este entrelaçamento recursivo de mudanças
corporais e coordenações consensuais de ações na linguagem, tudo o que
o observador faz como ser humano acontece no nível de sua realização
operacional em sua corporalidade num único e mesmo domínio, isto é, no
domínio das correlações sensomotoras através das quais fazemos tudo o
que nós seres humanos fazemos. Nestas circunstâncias, atividades
humanas que são totalmente diferentes nos domínios operacionais em que
são distinguidas como atividades humanas, tais como ações teóricas e
práticas, não diferem em sua realização efetiva através da corporalidade
dos seres humanos agentes.16

Em outras palavras, o resultado do entrelaçamento de corporalídade e
coordenações consensuais de ações é que o domínio cognitivo prático e o
teórico surgem como dois aspectos diferentes, mas mutuamente vinculados
das coordenações consensuais de ações dos observadores, e,
constitutivamente, o que surge no domínio teórico dá origem a ações
adequadas no domínio prático a que ele se vincula e vice-versa. Nossa
única dificuldade como observadores com o teórico e o prático é que não
estamos sempre conscientes, em cada caso particular, da área de nossos
domínios de experiência em que os mutuamente vinculados domínios
prático e teórico têm lugar, quando começamos a estudar uma ação prática
ou teórica. Como resultado, enquanto observadores de nossas experiências
em nossas reflexões na linguagem, podemos presumir experiências em
uma área de nosso domínio experiencia! que pertencem a outra.

10. A criatividade é um julgamento feito por um observador que, de
acordo com seu escutar, atribui caráter inovador às atividades, operações
ou distinções de outro observador, que pode também ser ele ou ela própria,
quando essas atividades, distinções ou operações lhe parecem
inesperadas. O mesmo se aplica quando falamos de criatividade ou
inovação em qualquer domínio da ciência. Tudo nos acontece como
experiências que nos acontecem sem esforço e como algo dado, e este é o
motivo pelo qual somos cegos a sua origem e temos que inventar
explicações quando queremos esclarecê-las. Além disso, tudo nos acontece
como distinções que fazemos na linguagem, nas conversações que
vivemos, cegos à dinâmica de estados de nossa corporalidade através da
qual elas surgem. Como resultado, quanto mais complexa e rica for nossa

dinâmica de estados (incluindo a dinâmica de estados de nosso sistema nervoso,

é claro), mais inesperada será nossa participação nas conversações

em que estamos envolvidos e mais criativos seremos aos olhos do surpreso
espectador. E quanto mais complexa e multidimensional for nossa vida,
mais inovadoras, estranhas e inesperadas parecerão nossas ações e
distinções na linguagem, para aqueles com quem vivemos sem compartilhar
todas as nossas conversações.

O mesmo acontece na prática das conversações científicas. Inovações,
mudanças e revoluções conceituais ocorrem na ciência quando um observa
do r-padrão, como resultado de sua operação recursiva em seu domínio de
experiências através de conversações externas ao domínio aceito de
reflexões científicas, e no contexto da contínua mudança estrutural que de
ou ela necessariamente sofre nessas conversações, produz, simplesmente
de maneira espontânea, alguma configuração inesperada de coerências
operacionais aceitável na comunidade científica. Inovações na ciência,
portanto, constituem novas dimensões de coerências operacionais no
domínio de experiências dos observadores-padrão, mas não revelam
nenhuma realidade independente escondida.

11. Devido a sua forma de constituição, a ciência, enquanto domínio
cognitivo, é um domínio no qual o observador traz à mão a existência em
seu domínio de existência, domínio no qual ele ou ela distingue a si própria
como um sistema vivo. Nesse sentido, a ciência é um domínio de
explicações definitivas, não porque as explicações científicas não mudem
ou sejam objetivas ou verdadeiras em um sentido transcendente, mas
porque elas surgem e permanecem em nosso domínio de constituição como
sistemas vivos.


CONCLUSÃO

A ciência é o domínio das explicações e afirmações científicas que nós,
cientistas, geramos através da aplicação do critério de validação das
explicações científicas. Como tal, nós, cientistas, lidamos na ciência com a
explicação e compreensão de nossa experiência humana (a vida humana),
e não com a explicação e compreensão da natureza ou realidade como se
estas fossem domínios objetivos de existência independentemente do que
fazemos.

A experiência humana não tem conteúdo. Em nossa experiência, nós nao
encontramos coisas, objetos ou a natureza como entidades independentes,
como nos parece na simplicidade da vida cotidiana. Nós vivemos na
experiência, na praxis de viver de seres humanos no fluir de sermos
sistemas vivos na linguagem, como algo que acontece em nós e a nós à
medida que linguajamos. Este é o motivo pelo qual, ao explicarmos como
cientistas nossa experiência como seres humanos, reformulando-a com
seus elementos através da aplicação do critério de validação das
explicações científicas, nos encontramos gerando a ciência como um
domínio cognitivo que não nos coloca fora da experiência, e que nos
mantém na linguagem.

Nós, seres humanos, existimos na linguagem, e nossa experiência como
seres humanos acontece na linguagem num fluir de coordenações
consensuais de coordenações consensuais de ações que produzimos na
linguagem. Os objetos, a consciência, a auto-reflexão, o self, a natureza, a
realidade, e assim por diante, tudo o que nós, seres humanos, fazemos e
somos acontece na linguagem como distinções ou como explicações na
linguagem do nosso estar na linguagem. Então, a experiência acontece na
linguagem, a ciência acontece na linguagem ao usarmos a linguagem para
gerá-la, mas não como uma abstração ou como um mero discurso, e sim
como algo tão concreto quanto qualquer operação no fluir das
coordenações consensuais de ações nas quais surgimos e existimos. O fato
de existirmos na linguagem, e de constitutivamente não podermos existir
fora dela porque somos constituídos nela, e de estando na linguagem
apenas gerarmos experiências na linguagem, não é uma limitação em nós,
mas, ao contrário, é a condição que torna possível a ciência como um
domínio explicativo tal que tudo o que nela produzimos torna-se parte do
nosso existir como seres humanos. Na verdade, o fato de que, por existir na
linguagem, nosso domínio experiencial seja um domínio fechado do qual
não saímos e não podemos sair aparece como uma limitação apenas se
pensamos que podemos nos referir a uma realidade independente.

Eu disse acima que um aspecto central do fazer ciência tem a ver com
nossa busca de compreender nossa experiência como seres humanos. E o
sentido que dou a compreender é o da experiência de adotar uma
operacionalidade de reflexão na linguagem, na qual podemos conhecer o
que conhecemos nas circunstâncias de constituição na linguagem, Para
refletir, precisamos liberar o que constituímos em nossas distinções como
um objeto de nossa reflexão para que o possamos contemplar, mas
devemos fazê-lo sem medo de perdermos o que liberamos, para que o
possamos olhar sem obscurece-lo pela nossa fixação. Além disso,
precisamos ter um procedimento que, se aplicado adequadamente, nos
permita funcionar em nossas explicações como se estivéssemos lidando de
fato com algo que existe independentemente do que fazemos, para que
possamos realizar a operação de contemplação.

O critério de validação das explicações científicas nos proporciona este
procedimento de uma forma que nenhuma outra abordagem metodológica
poderia proporcionar, porque ele não requer nenhuma suposição sobre a
origem de nossas habilidades como observadores, de modo que estas
também podem ser objeto de nossas investigações com ele. Em outras
palavras, é o fato de que o critério de validação das explicações científicas
acontece como um sistema de operações do observador-padrão em seu
domínio de experiências que dá origem nele ou nela a mais operações
nesse domínio sem implicar qualquer suposição sobre a origem de suas
habilidades, permitindo ao observador-padrão tratar qualquer aspecto de
seu domínio de experiências, inclusive suas habilidades e capacidades
como observador, como um objeto de sua investigação científica.17
Numa explicação científica, um observador-padrão propõe um
mecanismo ad hoc que faria surgir, como conseqüência de sua operação, a
experiência que ele ou ela quer explicar. Em outras palavras, o mecanismo
gerativo proposto numa explicação científica é arbitrário e pode ser qualquer um,

desde que opere como tal em relação à experiência a ser explicada.

Nessas condições, o que faz as explicações científicas operacionalmente
efetivas em nossa práxis humana de viver é que elas surgem nesta práxis
como operações que dão origem a outras operações nela, e não uma
referência impossível a algo como um domínio objetivo e independente de realidade.

Ao mesmo tempo, é por isso que a ciência é um domínio operacional no qual

o observador-padrão cria recursivamente o conhecimento na sua praxis de viver.

Na verdade, não importa quão estranho ou louco um mecanismo gerativo
proposto como reformulação de nossas experiências possa parecer
inicialmente. Se tal mecanismo é validado através do critério de validação
das explicações científicas, ele se torna validado em nossa operação
recursiva na linguagem com as coerências operacionais de nosso domínio
de experiências, e torna-se assim, para nós, uma fonte de ações adequadas
na nossa praxis de viver na área do nosso domínio de experiências em que
é válido. Nossa criatividade operacional através do uso da ciência não
precisa de nenhuma outra explicação — ela nos acontece em nossas ações
como observadores-padrão. Além disso, que isto seja assim, faz de nós,
cientistas, inteiramente responsáveis pelo que criamos através da prática da
ciência. Ao explicarmos nossa experiência cientificamente, esta se torna,
por isso, o mundo que vivemos. Não podemos mais alegar inocência.
Em nossa cultura ocidental moderna, falamos de ciência
e tecnologia como fontes de bem-estar humano. Entretanto, normalmente
não é o bem-estar humano que nos leva a valorizar a ciência e a tecnologia,
mas são as possibilidades de dominação, de controle sobre a natureza e de
abundância ilimitada que elas parecem oferecer. Lutamos com uma
natureza hostil, alegamos e procuramos pelo conhecimento científico em
busca de um instrumento que nos permita controlá-la e manipulá-la, mais

do que compreendê-la. Também falamos de progresso na ciência e

tecnologia em termos de controle e dominação e não em termos de

compreensão e coexistência responsável. As noções de controle e dominação

implicam na negação do que é controlado e dominado, bem como em

colocá-lo como algo diferente e independente de nós mesmos.

Penso que esta é a atitude básica que limita nossa possibilidade de
assumirmos, sem ansiedade, nossa participação constitutiva no produzir o
mundo que vivemos, através da ciência. Tudo o que distinguimos, nós
distinguimos na linguagem; tudo o que experienciamos, nós experienciamos

 ao distinguirmos na linguagem nossa experiência. Que isto seja assim,

entretanto, não é um problema para nós em nosso viver,
simplesmente acontece em nós e a nós, ao distinguirmos nossas
experiências. A experiência, o acontecimento do viver, não é um problema
para nós — nossos problemas surgem com nossas explicações de nossas
experiências e as exigências que elas nos impõem, e impõem aos outros
seres humanos com quem coexistimos.

Nós seres humanos vivemos um mundo de explicações e descrições, na
linguagem, de nossas experiências ao lhes darmos origem na linguagem, e
até nos matamos uns aos outros defendendo nossas explicações quando
discordamos a respeito delas. Além disso, uma vez que as explicações são
reformulações de experiências com elementos da experiência nas
coerências operacionais de experiências, vivemos diferentes mundos ao
lhes darmos origem na nossa praxis de viver diferentes coerências
operacionais, ao adotarmos diferentes sistemas de explicações em nosso
viver. Esta não é uma afirmação vazia, porque a linguagem é constituída
como um domínio de coordenações consensuais de ações, nos domínios de
coerências operacionais dos observadores, e se dois observadores aceitam
explicações diferentes, eles vivem áreas diferentes de coerências
operacionais em seus domínios de experiências.

A vida nos acontece, a experiência nos acontece, os mundos que
vivemos nos acontecem ao trazê-los à mão em nossas explicações. Além
disso, uma vez que todo sistema ou mecanismo opera apenas se as
coerências operacionais que ele implica forem satisfeitas, vida e experiência
nos acontecem apenas na medida em que as coerências operacionais que
as constituem sejam satisfeitas. Finalmente, como os seres humanos
existimos na linguagem, nossas corporalidades são nós de interseção
operacional de todas as coerências operacionais a que damos origem como
observadores em nossa explicação de nossa operação e as vivemos
delineando-as em nosso discurso como se elas estivessem acontecendo
num único domínio operacional. Enquanto não estivermos conscientes disto,
confundiremos domínios operacionais e presumiremos que um sistema ou
mecanismo particular opera num domínio de operação diferente daquele no
qual acontece. Além disso, se não estamos conscientes desse
delineamento de nosso discurso em nosso discurso, não podemos ver que
o valor da ciência para a vida humana está nas possibilidades que ela abre
para compreendermos esta mesma vida, ao nos permitir entrar em reflexões
recursivas sobre nosso domínio de experiências, através da aplicação do
critério de validação das explicações científicas como parte de nossas
operações cotidianas em nosso domínio de experiências.

Nós, cientistas, freqüentemente reivindicamos um status especial para a
ciência como domínio cognitivo e exigimos uma liberdade e respeito
especiais por nossa atividade de pesquisa científica, alegando que o
conhecimento científico merece respeito especial devido à sua natureza
objetiva e factual, Nós, cientistas, somos interessados em fatos objetivos,
dizemos, e por isso nossas afirmações e explicações são livres de
fanatismos e preconceitos. Como vimos, isto é verdadeiro apenas em parte.
O valor e a efetividade operacional das afirmações e explicações científicas
estão no fato de que estas pertencem às coerências operacionais da nossa
praxis de viver como seres humanos e não é por isso que a ciência merece
um status especial, Ainda, a ciência merece um status especial porque o
critério de validação que a constitui implica a operacionalidade de uma
dinâmica reflexiva que, se adequadamente aprendida e praticada pelo
observador-padrão, lhe permite permanecer como observador de todas as
suas circunstâncias, sem a elas se prender.

O que a ciência e o treinamento para ser um cientista não nos fornecem é
sabedoria. A ciência moderna surgiu em uma cultura que valoriza a
apropriação e a riqueza, que trata o conhecimento como uma fonte de
poder, que aprecia o crescimento e o controle, que respeita hierarquias de
dominação, que valoriza a aparência e o sucesso, que perdeu de vista a
sabedoria e não faz nada para cultivá-la. Nós, cientistas, em nosso
empenho de fazermos o que mais gostamos, isto é, a investigação
científica, freqüentemente somos vítimas de paixões, desejos e intenções
da nossa cultura, e pensamos que a expansão da ciência justifica tudo,
tornando-nos cegos para a sabedoria e para como ela é ensinada.

A sabedoria desenvolve-se no respeito pelos outros, no reconhecimento
de que o poder surge pela submissão e perda de dignidade, no
reconhecimento de que o amor é a emoção que constitui a coexistência
social, a honestidade e a confiança, e no reconhecimento de que o mundo

que vivemos é sempre, e inevitavelmente, um afazer nosso. Mas, se a

ciência e o conhecimento científico não nos dão sabedoria, pelo menos

não a negam, e a consciência disto abre a possibilidade de aprendê-la

vivendo nela, para aqueles que escapam da ambição do sucesso e do

desejo de controle e manipulação.


RESUMO

Ao assumirmos que a ciência, como domínio cognitivo constituído através
da aplicação do critério de validação das explicações científicas, não lida
com a verdade ou a realidade num sentido transcendente, mas apenas com
a explicação da experiência humana no domínio das experiências humanas,
muitas questões desaparecem ou perdem inteiramente seu caráter, e novas
compreensões são possíveis. Vejamos algumas delas.

A verdade deixa de ser um argumento que possa ser usado sem
especificar suas condições de constituição e validação, e o observador tem
a possibilidade de abandonar sua pretensão de ser dono dela.
A natureza deixa de ser um domínio autônomo de entidades
independentes que pode ser usado como referência de comparação para
aceitar ou rejeitar, como uma explicação científica, uma explicação
particular, para tornar-se algo que surge pela operação de um observador
na linguagem em seu domínio de experiências.

Aprender a ser um cientista torna-se, para o observador que deseja fazê-
lo, um processo de aprender como aplicar o critério de validação das
explicações científicas, de expandir uma área particular de seu domínio de
experiências e de chegar a um comprometimento pessoal total de agir com
honestidade e impecabilidade operacional na geração de explicações e
afirmações científicas e, a longo prazo, em sua vida cotidiana.

As emoções tornam-se respeitáveis e evidentes, e isto torna possível ver
que, para um observador, agir responsavelmente é agir com a consciência
de querer ou não as conseqüências de suas ações.

A aplicação do critério de validação das explicações científicas como uma
maneira de viver permite ao observador operar sistematicamente em uma
reflexão recursiva sobre suas circunstâncias e tomar-se responsável em
relação a suas ações, independentemente de chegar ou não a concluí-las
num caso particular.

A compreensão de que o critério de validação das explicações científicas
surge como uma sistematização da forma operacional normal de validação
de nossa operação na vida cotidiana, com o cuidado de não confundirmos
domínios de experiência, permite-nos, cientistas, conscientizarmo-nos de
que a única coisa que temos de especial é nossa paixão pelo explicar
cientificamente.

Considero que o maior perigo espiritual que uma pessoa enfrenta em sua
vida é o de acreditar que ele ou ela é a dona de uma verdade, ou a legítima
defensora de algum princípio, ou a possuidora de algum conhecimento
transcendental, ou a dona, por direito, de alguma entidade, ou a merecedora
de alguma distinção, e assim por diante, porque ele ou ela imediatamente
torna-se cega para a sua condição, e entra no beco sem saída do
fanatismo.

Também considero que o segundo maior perigo espiritual que uma
pessoa enfrenta em sua vida é o de acreditar, de uma forma ou de outra,
que ele ou ela nao é totalmente responsável por seus atos, ou por seu
desejar ou não as suas conseqüências.

Finalmente, considero ainda que a maior dádiva que a ciência nos
oferece é a possibilidade de aprendermos, livres de qualquer fanatismo, e
se nós o quisermos, a aprender como permanecer responsáveis por nossas
ações através de reflexões recursivas sobre nossas circunstâncias.

NOTAS

Agradecimento: Este trabalho foi possível graças ao generoso apoio da
Foundation for the Study of Human Cognition Inc. (Nota do autor),
1 Ver KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo:
Perspectiva, 1975; NAGEL, E. The Structure of science. New York:
Harcourt, Brace & World, Inc., 1961; POPPER, K. R., ECCLES.J, C, O eu e
seu cérebro. Brasília: Ed. UnB, 1991.
2 Ver MATURANA, H. Biology of cognition, BCL Report, n.9-0, Biological
Computer Laboratory, Department of Eîearicai Engineering, University of
Illinois, 1970. 93p., reimpresso em MATURANA, H., VARELA, F.
Autopoiesis and cognition. Dordrecht: Reidel, 1980; MATURANA, H.
(1978a). Biologia da linguagem: a epistemología da realidade. In:
MATURANA, H. A ontologia da realidade. Inclui texto com Jorge Mpodozis.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997. p.123-166. (Organizado por Cristina
Magro, Miriam Graciano e Nelson Vaz). MATURANA, H. (1988). Realidade-,
a busca da objetividade ou a procura de um argumento coercitivo. In:
MATURANA, 1997. p.243-32ó.
3 MATURANA, 1970. nota 2; MATURANA, H, Cognition. In: HEJL, P. M.,
KOCH, W. K., ROTH, G. (Ed.). Webmebmung and Kommunication.
Frankfurt/New York: Peter Lang, 1978b. p.29-49; MATURANA, op. cit. 1988,
nota 2.
4 MATURANA, H. (1983). O que é ver. In: MATURANA, 1997. p.77-105-
5 MATURANA, 1970. nota 2; MATURANA, 1978a, nota 2; MATURANA,
1988.
nota 2.
6 Ver MATURANA, 1988, nota 2.
7 Idem.
8 Idem.
9 Ver MATURANA, 1970. nota 2; MATURANA, 1988. nota 2.
1O Ver POPPER, K. R. A lógica da investigação cientifica. São Paulo: Abril
Cultural, 1980.
[202]
11 Ver MATURANA, 1988. nota 2.
12 Ver MATURANA, 1978b. nota 2; MATURANA, 1988. nota 2.
13 Ver MATURANA, 1988. nota 2.
14 Idem.
15 Idem.
16 Idem.
17 Ver MATURANA, 1970. nota 2; MATURANA, 1978a. nota 2; MATURANA,
1978b. nota 3; MATURANA, 1988. nota 2.

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