Escola de Redes

SOBRE A EXPLICAÇÃO MECANICISTA

Humberto Maturana (1978)

Trecho do artigo de MATURANA, Humberto (1978). Biology of language: espistemology of reality. In MILLER, G. A., LENNEGERG, R. (Ed.) Psychology and biology of language and thought. New York: Academic Press; pp. 27-64. Tradução de Cristina Magro.

 

CIÊNCIA

Enquanto cientistas nós fazemos afirmações científicas. Essas afirmações são validadas pelo procedimento que usamos para gerá-las: o método científico. Esse método pode ser descrito como envolvendo as seguintes operações:

a) a observação de um fenômeno que, daí em diante, é tomado como o problema a ser explicado;

b) a proposição de uma hipótese explicativa sob a forma de um sistema determinístico que pode gerar um fenômeno isomórfico àquele observado;

c) a proposição de um estado ou processo computado no sistema, especificado pela hipótese como um fenômeno predito a ser observado; e

d) a observação do fenômeno predito.

Na primeira operação, o observador especifica um procedimento de observação que, por sua vez, especifica o fenômeno que tentará explicar. Na segunda, o observador propõe um sistema conceitual ou concreto como um modelo do sistema que ele ou ela assume que irá gerar o fenômeno observado. Na terceira, o observador usa o modelo proposto para computar um estado ou um processo que propõe como um fenômeno predito a ser observado no sistema modelado. Finalmente, na quarta operação, tenta observar o fenômeno predito como um caso do sistema modelado. Se o observador for bem sucedido na segunda observação, então afirma que o modelo foi validado e que o sistema em estudo é, naquele aspecto, isomórfico a ele e opera da mesma forma. Garantir todas as restrições necessária para a especificação do modelo, e todas as experiências necessária para se negar as segundas observações como controle é tudo o que o método científico nos permite.

Isso, todos sabemos. Ainda assim, raramente estamos atentos para o fato de que uma observação é a realização de uma série de operações que envolvem um observador como um sistema, com as propriedades que permitem a ele ou a ela executar essas operações e, portanto, que as propriedades do observador, especificando as operações que ele ou ela pode desempenhar, determinam o domínio de suas possíveis observações. Nem estamos normalmente alertas para o fato de que, uma vez que apenas as afirmações que geramos como observadores através do uso do método científico são afirmações científicas, a ciência é necessariamente um domínio de afirmações operacionais socialmente aceitas, validadas por um procedimento que especifica o observador que as gera como observador padrão, que pode executar as operações requeridas para sua geração.

Em outras palavras, não estamos habitualmente atentos para o fato de que a ciência é um domínio cognitivo fechado, no qual todas as afirmações são, necessariamente, dependentes do sujeito, válidas somente no domínio de interações no qual o observador padrão existe o opera. Como observadores, geralmente tomamos o observador como dado e, aceitando sua universalidade por inferência, atribuímos muitas características invariantes de nossas descrições, que dependem do observador padrão, a uma realidade ontologicamente objetiva e independente de nós.

Apesar disso, o poder da ciência repousa exatamente em sua natureza dependente do sujeito, que nos permite lidar com um domínio operacional no qual ele existe. Somente quando queremos considerar o observador como objeto de nossa investigação científica, e queremos compreender o que ele ou ela faz quanto faz afirmações científicas, bem como a maneira pela qual essas afirmações são operacionalmente efetivas, é que enfrentamos um problema se não reconhecemos que a natureza da ciência é dependente do sujeito. Portanto, uma vez que pretendo dar uma descrição científica do observador como um sistema capaz de fazer descrições (linguagem), preciso assumir como meu ponto de partida que a natureza da ciência é dependente do sujeito.

 

EXPLICAÇÃO

Como cientistas, queremos fornecer explicações para os fenômenos que observamos. Ou seja, queremos propor sistemas conceituais ou concretos que possam ser considerados como intencionalmente isomórficos a (modelos de) sistemas que geram o fenômeno observado. De fato, uma explicação é sempre uma reprodução ou reformulação intencional de um sistema ou fenômeno, dirigida por um observador a outro que deve aceitá-la ou rejeitá-la, admitindo ou negando que ela constitui um modelo do sistema ou do fenômeno a ser explicado. Da mesma forma, dizemos que um sistema ou um fenômeno foi cientificamente explicado se um observador padrão aceitar que as relações ou os processos que o definem como um sistema ou fenômeno de uma classe particular foi intencionalmente reproduzido, conceitual ou concretamente.

Duas operações básicas devem ser executadas por um observador em qualquer explicação:

a) a especificação (e a distinção) do sistema (unidade composta) ou fenômeno a ser explicado; e

b) a identificação e a distinção dos componentes e relações entre componentes, que permitem a reprodução conceitual ou concreta do sistema ou fenômeno a ser explicado.

Dado que essas duas operações não são independentes, quando o observador especifica um sistema ou fenômeno a ser explicado também define o domínio no qual o sistema ou fenômeno existe, e determina ainda o domínio de seus componentes possíveis e de suas relações. Por outro lado, quando o observador especifica os componentes e relações efetivos que pretende usar na explicação ele determina também o domínio no qual a explicação será dada e no qual o sistema reproduzido existirá. Apesar disso, o tipo de explicação que um observador aceita depende de seu critério apriorístico de validação de suas afirmações. [...]

Numa explicação mecanicista o observador, explícita ou implicitamente, aceita que as propriedades do sistema a ser explicado são geradas pelas relações entre os componentes do sistema, e não devem ser encontradas entre as propriedades desses componentes. O mesmo se aplica à explicação mecanicista de um fenômeno no qual o observador, explícita ou implicitamente, aceita que as características do fenômeno a ser explicado resultam das relações de seus processos constitutivos, e não devem ser encontrados entre as características desses processos. [...]

Numa explicação mecanicista o observador, explícita ou implicitamente, distingue entre um sistema e seus componentes, tratando-os como tipos de unidades operacionalmente diferentes, que pertencem a conjuntos discretos que geram domínios fenomênicos que não se intersectam. A relação de correspondência entre o domínio fenomênico gerado por um sistema e o domínio fenomênico gerado por seus componentes, assegurada por um observador após haver enunciado uma explicação mecanicista é, portanto, estabelecida pelo observador através de suas interações independentes com o sistema e com seus componentes, e não indica uma redução fenomênica de um domínio a outro. Se parece que houve uma redução fenomênica é porque, numa descrição, todos os fenômenos são representados no mesmo domínio, e a relação estabelecida através do observador é perdida, a menos que se tome o cuidado de preservá-la. A realidade descrita através de explicações mecanicistas, então, implica a possibilidade de uma geração infindável de domínios fenomênicos que não se intersectam, como resultado da constituição recursiva (organização) de novas classes de unidades através de novas combinações recursivas de unidades já definidas. Por razões epistemológicas, então, as explicações mecanicistas são intrinsecamente não-reducionistas.

 

CARACTERÍSTICAS OPERACIONAIS DE UMA EXPLICAÇÃO MECANICISTA

 

O OBSERVADOR

Um observador é um ser humano, uma pessoa, um sistema vivo que pode fazer distinções e especificar aquilo que ele ou ela distingue como uma unidade, como uma entidade diferente de si mesmo ou de si mesma, e que pode ser usada para manipulações ou descrições em interações com outros observadores. Um observador pode fazer distinções em ações e pensamentos, recursivamente, e é capaz de operar como se ele ou ela fosse externo (distinto de) às circunstâncias nas quais se encontro. Tudo o que é dito é dito por um observador, que pode ser ele ou ela mesma.

 

A UNIDADE

Uma unidade é uma entidade, concreta ou conceitual, dinâmica ou estática, especificada por operações de distinção que a delimitam num background, e caracterizada pelas propriedades que as operações de distinção lhe atribuem. Uma unidade pode ser definida por um observador como simples ou composta. Se definida como sendo uma unidade simples, supõem-se que as propriedades que lhe foram atribuídas pelas operações de distinção que a especificam sejam constitutivas, e nenhuma pergunta sobre sua origem é feita. Se a unidade é definida como composta, assume-se que ela tem componentes que podem ser especificados através de operações de distinção adicionais, e que ela se realiza como uma unidade por uma organização que determina suas propriedades através da determinação das relações entre seus componentes que especificam o domínio no qual ela pode ser tratada como uma unidade simples.

 

ORGANIZAÇÃO

Essa palavra vem do termo grego organon, que significa "instrumento"; fazendo referência à participação instrumental dos componentes na constituição de uma unidade composta, ela se refere às relações entre os componentes que definem e especificam um sistema como uma unidade composta de uma classe particular, e determinam suas propriedades enquanto tal unidade. Portanto, a organização de uma unidade composta especifica a classe de entidades à qual ela pertence. Segue-se que o conceito ou nome genérico que usamos para nos referirmos a uma classe de entidades aponta para a organização de unidades compostas que são membros da classe. Do ponto de vista cognitivo, então, segue-se também que, para se definir ou identificar um sistema como uma unidade composta de uma classe particular, é necessário e suficiente estabelecer (ou apontar para) sua organização. Uma explicação mecanicista é uma afirmação explícita ou implicitamente dependente do sujeito que implica, ou descreve, a organização de um sistema.

 

ESTRUTURA

Essa palavra vem do verbo latino struere, que significa "construir". Fazendo referência aos processos de construção, bem como aos componentes de uma unidade composta, ela se refere aos componentes efetivos e às relações efetivas que os componentes precisam satisfazer ao participarem da constituição uma unidade composta dada. Um observador pode reconhecer um sistema conhecido identificando alguns de seus componentes, mas não pode definir ou caracterizar um sistema desconhecido meramente apontando para sua estrutura - o observador precisa especificar sua organização

Organização e estrutura, portanto, não são sinônimos. A organização de um sistema o define como uma unidade composta e determina suas propriedades enquanto tal especificando um domínio no qual ela pode interagir (e, portanto, ser observada) como um todo não-analisável, dotado de propriedades constitutivas. As propriedades de uma unidade composta como um todo não-analisável estabelecem um espaço no qual ela opera como uma unidade simples. Por outro lado, a estrutura de um sistema determina o espaço no qual ele existe como uma unidade composta, e que pode ser perturbado através de interações de seus componentes, mas a estrutura não determina suas propriedades enquanto uma unidade. Uma unidade não-analisável pode ser designada por um nome e identificada por um conceito que se refere à constelação de propriedades que a definem, mas ela não tem organização nem estrutura. Uma unidade simples tem somente uma constelação de propriedades; é uma entidade fundamental que existe no espaço que essas propriedades estabelecem. Segue-se que unidades compostas espacialmente separadas (sistemas) podem ter a mesma organização mas estruturas diferentes, e que uma unidade composta permanecerá a mesma somente na medida em que sua organização permanecer invariante. Sempre que a estrutura de uma entidade muda, de forma a que sua organização como uma unidade composta também seja alterada, a identidade da entidade muda, e ela se torna uma unidade composta diferente - uma unidade de uma outra classe, à qual damos um nome diferente. Sempre que a estrutura de uma unidade composta muda e sua organização permanece invariante, a identidade da entidade permanece a mesma e a unidade permanece imutável como um membro de sua classe original. Não mudamos seu nome. Segue-se que sempre que se quer explicar um sistema é necessário e suficiente reproduzir. Apesar disso, quando se quer reproduzir um sistema particular, tanto sua organização quanto sua estrutura devem ser reproduzidas.

 

PROPRIEDADE

Uma propriedade é uma característica de uma unidade específica e definida por uma operação de distinção. Apontar uma propriedade, portanto, sempre envolve o observador.

 

ESPAÇO

O espaço é o domínio de todas as interações possíveis de uma coleção de unidades (simples, ou comportas que interagem como unidades) estabelecido pelas propriedades dessas unidades ao especificar suas dimensões. Por um lado, pode-se dizer de uma unidade composta que ela existe no espaço que seus componentes especificam como unidades, porque ela interage através das propriedades de seus componentes e, por outro lado, pode-se dizer que é realizada como uma unidade no espaço especificado por suas propriedades enquanto uma unidade simples. Definida uma unidade, um espaço é também especificado.

 

INTERAÇÃO

Sempre que duas ou mais unidades, através da atuação recíproca de suas propriedades, modificam sua posição relativa no espaço que elas especificam, há uma interação. Sempre que duas ou mais unidades compostas são tratadas como simples, elas são vistas como sendo realizadas e interagindo no espaço que elas especificam como unidades simples. No entanto, se tratadas como unidades compostas, elas então são vistas como interagindo através das propriedades de seus componentes e existindo no espaço que esses componentes especificam.

SISTEMAS DETERMINADOS ESTRUTURALMENTE

State-determined systems (sistemas determinados por estados)

Estes sistemas somente podem passar por mudanças determinadas por sua organização e estrutura, que podem ser ou mudanças de estado (definidas como mudanças de estrutura sem perda de identidade) ou desintegração (definida como mudanças de estrutura com perda de identidade). Para esses sistemas, ocorre necessariamente que:

a) eles podem somente passar por interações que ou os perturbam desencadeando neles mudanças estruturais que levam a mudanças de estado, ou os desintegram desencadeando neles mudanças estruturais que levam à sua perda de identidade;

b) as mudanças de estado que eles podem sofrer como um resultado de interações perturbatórias não são especificadas pelas propriedades de entidades perturbadoras, que apenas as desencadeiam;

c) as mudanças estruturais que eles sofrem como uma resultado de interações desintegradoras não são especificadas pelas propriedades da entidade desintegrante, que apenas as desencadeia; e,

d) sua estrutura, ao especificar que relações devem surgir entre seus componentes como resultado de suas interações, com vistas a iniciar as mudanças de estado desencadeadas, especifica a configuração das propriedades que uma entidade deve ter para interagir com eles e operar, seja como um agente perturbador, seja como um agente desintegrador.

A organização e a estrutura de um sistema determinado em sua estrutura, portanto, continuamente determinam:

a) o domínio de estados do sistema, especificando os estados que ele pode adotar no curso de sua dinâmica interna ou como um resultado de suas interações;

b) seu domínio de perturbações, especificando as configurações de propriedades semelhantes do meio que podem perturbá-lo; e,

c) seu domínio de desintegração, especificando todas as configurações de propriedades do meio que podem desencadear sua desintegração.

Se o estado que um sistema adotar como resultado de uma interação for especificado pelas propriedades da entidade com a qual ele interage, então a interação terá sido uma interação instrutiva. Os sistemas que aceitam interações instrutivas não podem ser analisados por um procedimento científico. De fato, todos os sistemas passíveis de instrução não poderiam adotar o mesmo estado sob as mesmas perturbações e seriam necessariamente indistinguíveis para um observador padrão. Se dois sistemas podem ser distinguidos por um observador padrão é porque eles adotam diferentes estados sob os quais ele ou ela poderia, de outra forma, considerar perturbações idênticas, e não são sistemas passíveis de instrução. O método científico nos permite lidar somente com sistemas cujas mudanças estruturais podem ser descritas como determinadas pelas relações e interações de seus componentes e que, portanto, operam como sistemas determinados estruturalmente. Sistemas determinados estruturalmente não passam por interações instrutivas. Nessas circunstâncias, qualquer descrição de uma interação em termos de instrução (ou transferência de informação) é, na melhor das hipóteses, metafórica; ela não reflete a operação efetiva dos sistemas envolvidos como objetos de descrição e estudo científico. Consequentemente, cada afirmação científica é uma afirmação que necessariamente implica um sistema determinado estruturalmente proposto pelo observador padrão como um modelo do sistema determinado estruturalmente que ele ou ela assume como sendo responsável por suas observações. Por razões epistemológicas, então, predições científicas são computações de trajetórias de estado de sistemas determinados estruturalmente. Acaso ou indeterminação entram em afirmações científicas somente como artifícios computacionais, usados em modelos que assumem como objeto sistemas que não podem ser observados detalhadamente, e não como reflexo de uma necessidade ontológica.

 

ACOPLAMENTO ESTRUTURAL

Para um observador, a organização e a estrutura de um sistema determinado estruturalmente determinam tanto seu domínio de estados quanto seu domínio de perturbações enquanto coleções de possibilidades realizáveis. Isto é assim porque um observador pode imaginar, para qualquer sistema determinado estruturalmente, que ele ou ela concebe ou descreve, diferentes trajetórias de estado surgindo de sequências correspondentemente diferentes de perturbações, ao imaginar o sistema sob diferentes circunstâncias de interações. Apesar disso, o que de fato ocorre durante a ontogenia (a história individual) de qualquer sistema determinado estruturalmente particular é que a estrutura do meio do meio no qual ele interage e, portanto, existe, e que, sob esse aspecto, opera como um sistema dinâmico independente mesmo quando mudando em decorrência das interações, estipula a sequência histórica efetiva de perturbações que, de fato, seleciona qual das imagináveis trajetórias de estado possíveis do sistema de fato ocorre. Se a estrutura do meio, equivalente ao domínio de perturbações do sistema determinado estruturalmente, for redundante ou recorrente, então o sistema determinado estruturalmente passa por perturbações recorrentes; se a estrutura do meio estiver em contínua mudança, então o sistema determinado estruturalmente passa por perturbações continuamente cambiantes; finalmente, se a estrutura do meio equivalente muda em decorrência da operação do sistema determinado estruturalmente, então esse sistema passa por perturbações cambiantes que são acopladas à sua própria trajetória de estados. Agora, se o sistema determinado estruturalmente, em decorrência de suas interações, passa por mudanças de estado que envolvem mudanças estruturais em seus componentes (e não somente em suas relações), então digo que o sistema tem uma estrutura plástica de segunda ordem, e que ele passa por interações plásticas. Quando esse é o caso, as interações plásticas pelas quais tal sistema passa selecionam nele trajetórias de mudanças estruturais de segunda ordem, que resultam na transformação tanto de seu domínio de estados quanto de seu domínio de perturbações. O produto das interações continuadas de um sistema estruturalmente plástico num meio com estrutura redundante ou recorrente, portanto, pode ser a seleção contínua no sistema de uma estrutura que determina nele um domínio de estados e um domínio de perturbações que lhe permite operar recorrentemente em seu meio, sem desintegração. Eu chamo esse processo de acoplamento estrutural. Se o meio é também um sistema estruturalmente plástico, então os dois sistemas plásticos podem se tornar reciprocamente acoplados estruturalmente através de sua seleção recíproca de mudanças estruturais plásticas durante sua história de interações. Nesse caso, as mudanças estruturalmente plásticas de estado de um sistema se tornam perturbações para o outro, e vice-versa, de uma forma tal que se estabelece um domínio de trajetórias de estado entrelaçado, mutuamente seletivo e mutuamente desencadeador.

AS EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS

Humberto Maturana (1988)

Trecho do artigo Lenguaje, emociones y etica en el quehacer politico in MATURANA, Humberto (1988). Emociones y lenguaje en educacion y politica. Santiago: Dolmen Ediciones, 1990.

Quero dizer duas coisas sobre a ciência e a tecnologia, e quero fazê-lo porque vivemos uma cultura que valoriza a ciência e a tecnologia. Sou cientista e valorizo a ciência, mas quero dizer algo sobre a ciência para compreendermos o que valorizamos, e para que sejamos responsáveis aceitando ou não essa valoração.

Comumente falamos de ciência e tecnologia como de domínios de explicações e ações que fazem referência a uma realidade útil, permitindo predizer e controlar a natureza.

Nos anos de 1987 e 1988, quando tivemos enchentes em Santiago, escutava o Ministro de Obras Públicas dizer que tudo estava sob controle, ainda que o Rio Mapocho continuasse transbordando. Por que não dizia, simplesmente, “Estamos atuando em todos os pontos onde podemos atuar?” Falamos de controle enquanto a vida cotidiana nos mostra que não controlamos nada. Guiados pela ideia de controle somos cegos à nossa circunstância, porque nela buscamos a dominação que exclui o outro e o nega. Além disso, em nossa cultura ocidental, estamos imersos na ideia de que temos que controlar a natureza, porque cremos que o conhecimento permite o controle. Mas isto, de fato, não ocorre: o conhecimento não leva ao controle. Se o conhecimento leva a alguma parte, é ao entendimento, à compreensão, e isto leva a uma ação harmônica e ajustada com os outros e o meio.

O que faz a ciência, então, se de fato não nos permite o controle? A ciência — e a validade das explicações científicas — não se constitui nem se funda na referência a uma realidade independente que se possa controlar, mas na construção de um mundo de ações comensurável com nosso viver.

As explicações científicas têm validade porque têm a ver com as coerências operacionais da experiência no suceder do viver do observador, e é por isso que a ciência tem poder. As explicações científicas são proposições gerativas apresentadas no contexto da satisfação do critério de validação das explicações científicas. O critério de validação das explicações científicas faz referência exclusivamente às coerências operacionais do observador na configuração de uma espaço de ações no qual certas operações do observador no âmbito experiencial devem ser satisfeitas. Vejamos como exemplo o famoso experimento de Benjamim Franklin com a pipa. Franklin queria explicar o raio, e se lhe tivéssemos perguntado o que queria explicar, ele teria dito: quero explicar essa luz que se vê nos dias de tempestade, quando se está olhando o céu ou o horizonte, e se vê clarões de luz e, às vezes, umas raias luminosas que unem as nuvens à terra.

O que explicamos é sempre uma experiência. Por isso, quem descreve o que vai explicar, descreve o que se tem de fazer para ter a experiência que se quer explicar. Se digo que quero explicar o raio que se produz num dia de tempestade, o que quero explicar é minha experiência de ver um raio em dia de tempestade. Ao propor sua explicação, Franklin diz: “— Acredito que o que ocorre é que as nuvens se carregam eletrostaticamente com o atrito do ar ao serem arrastadas pelo vento, que, ao se produzir por indução uma diferença de potencial suficientemente grande entre as nuvens e a terra, uma faísca se desprende delas.” Que elementos Franklin usa para fazer tal proposição? Ele usa elementos de sua experiência.

Franklin estava em sua casa brincando com maquininhas eletrostáticas, com condensadores e descargas elétricas, e usou essa experiência para a sua proposição. Se eu insistisse em pedir-lhe mais explicações, ele me levaria à sua casa e me mostraria o que faz ali: “— Vê? — ele me diria — se você fricciona duas substâncias de naturezas diferentes, uma se carrega eletricamente em relação à outra, e isto se pode ver com um instrumento no qual existem duas lâminas de ouro que se separam quando as duas estão carregadas eletrostaticamente com a mesma carga. Em resumo, toda a minha explicação se baseia em observações (práticas experienciais) que eu fiz no meu laboratório ou na minha casa.”

Depois de descrever o que queria explicar, Franklin diria: “— Se o mecanismo gerativo que proponho está correto, eu deveria poder carregar um condensador ao colocar um condutor unindo as nuvens e um de seus pólos. Posso dizer isso porque sei que cada vez que tenho um corpo carregado eletricamente, e ponho um condutor entre este e um dos pólos de um condensador enquanto o outro pólo está conectado à terra, o condensador se carrega.” Assim, Franklin fez outra experiência (ou experimento). Onde? No espaço de suas experiências.

Não importa que Franklin não possa distinguir entre ilusão e percepção, porque o que faz só tem relação com o que acontece com ele. Assim, então, Franklin empinou uma pipa com um condutor conectado a um condensador, e ao ver que este se carregou disse: “— Aí está a explicação científica do raio: as nuvens se carregam eletrostaticamente com o atrito; isto produz uma diferença de potencial que faz uma faísca saltar entre elas e a terra.”

Nesta série de operações em seu âmbito experiencial, Franklin satisfez as quatro condições no espaço de experiências do observador que constituem o critério de validação das explicações científicas, e que serão válidas para todos aqueles que possam realizá-la. Além do mais, isto ocorreu sem que Franklin precisasse fazer qualquer referência a uma realidade independente dele, ainda que em sua época ele o tenha feito.

O que aconteceu? Ao considerar os experimentos de Franklin, vemos que tudo ocorre no campo das coerências operacionais do observador. Ao mesmo tempo, vemos que o problema de explicar um fenômeno ou experiência nunca está na experiência, porque esta se vive no fazer, no momento em que se distingue o fazer que a constitui. O que se faz, simplesmente acontece. Nossas divergências, nossas discussões, uma vez distinguida a experiência que desejamos explicar, se referem às explicações: “— Observem, existem crianças que morrem de fome! — Ah! Que horror!, Isto se explica porque...”, e o que fala apresenta uma proposição explicativa econômica. O outro diz: “— Não, o que ocorre é que...”, e propõe uma explicação sociológica.

Temos duas proposições explicativas diferentes e brigamos. Onde? Por quê? Brigamos por causa da experiência de sabermos de crianças que morrem de fome? Não! A menos que juntemos o fenômeno que desejamos explicar com a explicação que propomos, como quando dizemos “Observem, existem crianças que morrem de fome porque o governo não oferece possibilidades de trabalho”. Mas se não fazemos esta fusão e aceitamos explicar como “as crianças morrem de fome”, começamos a discutir a explicação, e se não concordamos, brigamos por causa dela e nos esquecemos das crianças. Percebem? O problema está na explicação. Por isso é importante saber em que consistem as explicações.

As explicações científicas não fazem referência a realidades independentes do observador. De fato, as explicações científicas não discriminam entre os dois caminhos explicativos indicados na Figura 2, como os caminhos da objetividade-sem-parênteses e da objetividade-entre-parênteses. Isto acontece porque a diferença entre esses dois caminhos explicativos pertence ao âmbito do “dar-se conta”, quando refletimos sobre o que este diagrama mostra. Percebo que cada vez que pretendo ter acesso a uma realidade independente faço uma afirmação cognitiva no caminho explicativo da objetividade-sem-parênteses, e ao fazer isto, faço uma petição de obediência.



Notem que, no caminho explicativo da objetividade-sem-parênteses, quando digo “Isto é assim”, o que estou fazendo é dizer ao outro que se ele não está de acordo comigo está errado, e que deve fazer o que eu digo para estar certo, e que, se não o fizer, não me resta outro recurso senão exigir-lhe obediência ou rechaçá-lo, mais cedo ou mais tarde, de uma vez por todas. Ao refletir sobre este diagrama, também me dou conta de que no caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses existem muitos domínios de realidades diferentes mas igualmente legítimos, ainda que não igualmente desejáveis, cada um constituído como um domínio de coerências operacionais na experiência do observador. E também me dou conta de que no caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses uma afirmação cognitiva é um convite feito ao outro para entrar num certo domínio de coerências operacionais, e de que aquele que a faz sabe que existem outras afirmações cognitivas igualmente legítimas, em outros domínios de realidade, que o outro pode preferir.

Neste caminho explicativo, as divergências revelam que aqueles que discordam estão em diferentes domínios da realidade, e que podem juntar-se ou separar-se como resultado de sua divergência, dependendo de quererem ou não permanecer juntos. Se não querem estar juntos, a divergência resulta em sua separação responsável, e se querem estar juntos, a divergência se converte numa oportunidade para a criação de um novo domínio de realidade, também de maneira responsável.

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Pendurei um texto de Humberto Maturana (1990) em uma página específica deste grupo: Ciência e Vida Cotidiana: a ontologia das explicações científicas.

"Ciência e Vida Cotidiana; a Ontologia das Explicações Científicas" foi
publicado como "Science and Daily Life: the Ontology of Scientific
Explanations", em 1990, pela Vieweg und Sohn (Braunschweig/Wiesbaden),
na coletânea organizada por Wolfgang Krohn e Gunther Kuppers
Selbstorganisation,- Aspecte einer wissenschaftlicben Revolution, p,107-
138.

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