Escola de Redes

118 - O predador é o ser possuído por mitos e complexos, em especial pelo que chamamos de Complexo Darth Vader. Se fôssemos simbiontes não haveria essa possessão, mesmo porque não existiria qualquer coisa como um "inconsciente coletivo".

119 - O que chamamos de insconsciente coletivo parece ter sido a forma pela qual os seres humanos se tornaram coletivamente inconscientes de algo como uma "alma do mundo", a qual, em virtude disso, tornou-se, ela própria, inconsciente, uma vez que sua consciência eram os seres humanos.

120 - A "alma do mundo" primitiva poderia ser concebida como uma espécie de "mente de Gaia" se entendermos por isso uma expressão das interações sinérgicas que se processavam no interior da totalidade antroposfera-biosfera. Ocorre, entretanto, que essa "alma do mundo" não era completamente humana. Uma vez remetida para os porões da consciência, ela ficou lá tentando se comunicar conosco através de formas simbólicas. Como não podíamos entender tal linguagem, preenchemos essas formas sem conteúdo com o conteúdo fornecido pelos padrões do tipo de civilização que predominou nos últimos milênios. Inculcados pela repetição sacerdotal, milênio após milênio, tais conteúdos criaram o homem civilizado à imagem e semelhança dos deuses necessários ao sistema dominador.

121 - Os arquétipos de que tanto se fala são, na verdade, formas simbólicas preenchidas com o conteúdo dos padrões da sociedade de dominação. O ancião. A grande mãe (matrona, a ânima); o mago (o ânimus); o herói (guerreiro); o poderoso rei; o guia (velho sábio, rei-criança-deus sacrificado, o self); a meretriz (donzela); o trapaceiro (hermafrodita); a sombra, o ego e a persona; e, por último, o corpo exilado do espírito (a jovem mulher coroada) - todos esses (os de sempre, com algumas variações), são os tipos básicos de arquétipos. Mas agrupados numa constelação que foi replicada pela tradição em todos os sistemas de sabedoria, esse conjunto de arquétipos acabou constituindo um esquema. Um esquema de relações organizadoras capaz de conter todas as possibilidades do que foi, é e será na existência, normatizando não apenas o presente e o passado, mas também o futuro. Foi assim que a coisa toda se manteve, automaticamente porque inconscientemente. Essa foi a maneira pela qual a tradicionalidade capturou o mundo, aprisionou-o, suprimindo a histórica como campo aberto à novas possibilidades civilizacionais.

122 - Não é a toa que as vertentes de pensamento ligadas à tradição não se dão muito bem com a história. Elas de fato não gostam muito das transformações que podem acontecer na história, sem que ninguém planeje, sem que exista um plano, uma inteligência superior organizando tudo, quer dizer, fazendo valer a sua ordem.

123 - O próprio Jung reconheceu que a definição e a orientação do inconsciente são funções que só foram adquiridas numa fase relativamente recente da história humana e que, mesmo hoje, estão bastante ausentes nos povos primitivos. (São suas palavras, textualmente). Portanto, a psicologia analítica supõe que existam adaptações que são necessárias à sobrevivência em um mundo civilizado e que só foram adquiridas pela humanidade com sacrifício muito grande. Sem essa adaptação nem a ciência nem a sociedade poderiam existir, pois ambas pressupõem a garantia de continuidade do processo psíquico. A sobrevivência depende da continuação adaptativa, do desdobramento (ou evolução) que ocorre, partindo do inconsciente até chegar ao consciente.

124 - O inconsciente coletivo passou a ter a função psico-social de adequar o ser humano ao tipo de civilização estabelecida pelo protótipo sumeriano. As mensagens simbólicas emitidas por esse inconsciente já continham os elementos de dominação do poder vertical, dando a impressão de que os arquétipos eram constitutivos da própria espécie humana. Até mais do que isso. Por exemplo, o rei com sua coroa e o seu cetro, o mago com seu bastão, o herói guerreiro com sua espada, transformaram-se em modelos da criação, não apenas do homem mas do próprio cosmos.

125 - Jung afirma que os símbolos tradicionais - como a espada, por exemplo - são uma antiga herança humana, mas não revela como esta herança foi adquirida. Não diz que tal símbolo (a espada) pode ter sido "introjetado" a partir de determinado tipo de organização social. Pelo contrário, deixa a questão da origem de símbolos como este e de seus correspondentes arquétipos, imersa nas mesmas brumas de onde, também, teriam brotado os instintos. O problema é que ao imaginar que a evolução humana se dá pelo desdobramento do inconsciente, ao achar que o inconsciente contém todas as combinações que com o tempo e condições favoráveis virão à luz no consciente, Jung formulou, na verdade, uma teoria da adaptação ao tipo de civilização gerada com base na separação entre consciente e inconsciente. Tanto é assim que, para ele, a neurose e a psicose são padrões de inadaptação.

126 - Estamos ainda tão envolvidos por esse modo-de-ver baseado na separação entre consciente e inconsciente (que afinal não é de Jung, nem de outros psicólogos e mitólogos, mas de todos os sistemas de sabedoria da tradicionalidade) que nem desconfiamos que, talvez, não exista um modelo, universal e único, de civilização, ao qual, obrigatoriamente, tenhamos que nos adaptar. E sequer nos lembramos de perguntar se, de fato, precisamos disso para existir como espécie e para realizar a nossa humanidade.

127 - Tão profundo foi o sulco escavado que até hoje, ao final do século 20, mesmo os que anunciam uma "nova era" não conseguem se desvencilhar do esquema ancestral que constela sempre os mesmos arquétipos segundo um padrão determinado. Essas pessoas vivem tecendo múltiplas variações e recombinando indefinidamente os elementos internos desse esquema, mas nunca rompem com ele. Sem conseguir romper com a réplica do mundo criada pelo paradigma da tradicionalidade, os arautos da "nova era" acabam, quase sempre, anunciando "um novo reino dos velhos magos". Podemos constatar isso examinando os milhares de títulos da chamada literatura espiritualista contemporânea.

128 - Se quisermos algum dia ter "a volta do simbionte", o esforço humano deverá concentrar-se em tornar novamente consciente a "alma do mundo", agora para humanizá-la, transformando-a numa "alma humana do mundo" ou na "alma da humanidade". Esta é uma possibilidade, imaginada, de futuro, que, realizada, corresponderia a uma verdadeira mutação civilizacional. Não podemos saber se isso significaria o fim dos mitos, mas talvez significasse o fim do poder do mito sobre os seres humanos e da possessão dos complexos. Sobretudo daquele que chamamos aqui de Complexo Darth Vader - um padrão composto, um mix do sacerdote-militar subordinado ao mago-autocrata.

129 - De uma "alma do mundo humanizada" certamente não poderia brotar tal complexo e, assim, não poderia existir na terra dos homens o poder vertical. O mundo do simbionte eco-social não seria presidido pela separação que transforma diferenças em desigualdades e gera o fenômeno do poder dominador. O fim da separação é o fim da espada e do muro como geratrizes da realidade cindida entre sagrada (nós, os amigos) e o profano (eles, os inimigos).

130 - O fim da espada é o fim da guerra como instituição permanente, que supostamente espelha uma realidade cósmica imutável, simbolizada pelo combate arquetípico entre o herói-guerreiro Luke Skywalker e o vilão-guerreiro Darth Vader e, portanto, tida e mantida por inevitável.

131 - O fim do muro é o fim das cercas fortificadas que estão na origem da cidade-templo-palácio-Estado e que hoje ainda permanecem nas fronteiras entre países. Mas seria também o fim de instituições que tanto prezamos, como a família, a escola e a igreja, como centros reprodutores de costumes, normas de moralidade e crenças cujo objetivo geral é um só: adaptar o ser humano ao tipo de sociedade patriarcal e dominadora, por meio, principalmente, da repressão ao caos no que tange ao livre exercício da sexualidade e da imaginação criadoras.

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