Escola de Redes

92 - Criamos a civilização dos predadores eco-sociais tendo atitudes sacerdotais e hierárquicas diante do saber e do poder. E tendo atitudes autocráticas diante da política. Se essas atitudes não se desenvolvessem não existiria o homem hostil. Mas é necessário descobrir o quê, precisamente, nessas atitudes, modificou o mundo do simbionte enquanto outra possibilidade civilizacional.

93 - Na nossa civilização substituímos a natureza pela tecnologia e a vida pelo conhecimento da vida. Essa foi uma típica operação mágico-sacerdotal. Por outro lado, desenvolvemos aquela característica hierárquico-autocrática de trocar a relação sinérgica com as coisas, os seres e as pessoas, pelo domínio sobre elas. Ao constituir um paradigma de tradicionalidade introduzimos um padrão de ordem separada do caos. Essa ordem era, em certo sentido, alienígena, porque foi introduzida em dissonância com aquilo que poderíamos chamar de "ritmos de Gaia". Quer dizer, era uma ordem estranha à ecologia planetária. Era uma ordem baseada em tecnologia. Não é a toa que os deuses sumérios são tecnólogos!

94 - Pode-se argumentar que foram as inovações técnicas que possibilitaram o progresso humano, pelo menos em termos materiais. Como seria o mundo sem a roda, por exemplo? Porém antes seria bom refletir um pouco sobre o que significa progresso humano. Vamos pegar esse exemplo (da roda). Hoje já temos evidências de que a roda, não por acaso, foi utilizada pela primeira vez em larga escala na Suméria, como meio de transporte pelo território. Mas quase ninguém percebe que a introdução da roda - principalmente da roda feita com aros, logo usada, também não por acaso, nos carros de guerra - foi a materialização de um modelo de ordem, circular, eterna, para perenizar o mundo construído pela tecnologia, congelando os fluxos transformadores do mundo natural.

95 - A introdução da tecnologia alterou a dinâmica do simbionte. A tecnologia introduzida pelo atual modelo civilizatório não era neutra. Não existe essa coisa de tecnologia neutra, da qual se possa fazer uso para o bem ou para o mal. O uso da coisa está ligado à coisa, quer dizer, ao modo como ela foi feita, ao por quê ela foi feita e às alterações que isso acarreta no mundo. A partir da Suméria se estabeleceu uma tecnoarquia, ou seja, uma ordem técnica que condensava um modo-de-interagir com o mundo.

96 - Por meio da tecnologia o mundo foi criado como que pela segunda vez, estabelecendo-se novas dinâmicas interativas entre seus elementos, sobretudo novas relações entre abundância e escassez. A escassez passou a ser administrada pela economia política do poder totalitário, passou a ser a fonte mesma desse poder. Isso aconteceu na Suméria, mas também no Egito faraônico, na China antiga e no Perú incaico em vários outros lugares.

97 - Uma coisa é dizer que os impérios não teriam podido se manter sem o controle dos insumos básicos: a terra, a água, os alimentos e as fontes de energia. Porém outra coisa é dizer que a escassez foi introduzida também pela tecnologia urbana, hidráulica e agrícola e que sem essa escassez (programada, em certa medida) de recursos sobrevivenciais, os sistemas de dominação não teriam podido se reproduzir.

98 - A introdução da tecnologia acarretou uma desestabilização vital nas sociedades. E isso era justificado, em termos míticos, pelo sacerdote. O sacerdote prescrevia os procedimentos mágicos para aplacar as forças misteriosas que, se não fossem satisfeitas, poderiam trazer a fome, a doença, a catástrofe, a morte. A precária ordem, imposta, do mundo construído, exigia grandes sacrifícios para se manter.

99 - O mago-sacerdote egípcio conhecia os ciclos das enchentes do Nilo mas ocultava esse conhecimento do povo ignorante, quer dizer, do povo que ele mesmo mantinha ignorante ao ocultar esse e outros conhecimentos. Então o mago-sacerdote egípcio exigia conformidade à ordem para que uma inundação não destruísse as plantações dos camponeses. Mas nada disso era natural ou necessário. O modelo hidráulico redistribuidor de água em canais de irrigação, construídos e controlados pela tecnologia faraônica, criava o perigo ao adensar povoamentos em locais de risco, numa proporção que ia muito além daquela exercida pela natural atração das terras mais férteis. No entanto, se o povo não vivesse sob a ameaça (do perigo), como poderia ser recompensado pela sua aquiescência, sendo salvo do perigo? E como poderia ser castigado por sua desobediência à ordem, sendo abandonado ao perigo?

100 - O conhecimento tecnológico ocultado pelos sacerdotes nas primitivas sociedades de dominação era mágico porque, de fato, tecnologia é magia no sentido mais profundo do conceito. Ou seja, tentativa instrumental de ajuste da estrutura e da dinâmica do mundo a fim de influenciar a configuração de causas que produzirão mudanças de fluxos, segundo procedimentos anti-ecológicos lato sensu, ou não holísticos. A magia-tecnologia constituiu um modo pelo qual a ordem invasiva do poder vertical foi penetrando no caos da vida e pelo qual a consciência de Gaia do simbionte foi fragmentada e esses fragmentos foram reprimidos e alocados num inconsciente. O eco-logos, a consciência da inserção numa mesma totalidade com o meio ambiente, foi substituído pelo saber (que é uma falsa-consciência) mágico-tecnológica, do eco-nomos. Ou seja, pelo conhecimento da própria ordem imposta à natureza face à escassez e geradora de escassez para o presente e para as gerações futuras.

101 - Seis mil anos depois da introdução da ordem tecnológica, os resultados desse modo-de-interagir com o mundo não se apresentam muito animadores. O saber do eco-nomos não nos livrou da fome, das doenças, das catástrofes ou da morte. Devastamos grande parte de nossos recursos, desequilibramos os ritmos de Gaia e estamos, realmente, ameaçados de extinção como espécie.

102 - Enquanto estiver em vigência o paradigma da tradicionalidade, enquanto permanecermos possuídos pelo Complexo Darth Vader, prosseguiremos avançando como predadores, imaginando ainda (sob o influxo de um imaginário mítico) que todos os nossos carecimentos serão providos pelo desenvolvimento tecnológico. E acreditando que esse desenvolvimento poderá, magicamente, fornecer os meios para o crescimento ilimitado num mundo finito.

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