Escola de Redes

81 - Diz-se que os símbolos e os rituais tradicionais correspondem a arquétipos do inconsciente coletivo. Pode ser. Mas se for assim eles "entraram" (ou foram "implantados" a partir de algum momento) nesse inconsciente ou nem sempre tal inconsciente existiu! Com efeito, não temos nenhuma indicação da presença desses símbolos nas sociedades paleolíticas ou neolíticas anteriores ao quinto milênio. Caso venhamos a encontrar tais indicações, teremos que re-datar nossa "noite dos tempos", recuando até o momento em que ocorreu a "implantação". Ou em que surgiu o inconsciente, o que, de certo modo, é a mesma coisa.

82 - Só existe inconsciente porque os seres humanos deixaram de ser conscientes de algumas coisas. Existe um inconsciente coletivo porque os seres humanos deixaram, coletivamente, de ser conscientes das mesmas coisas.

83 - É possível supor, como fez o matemático Ralph Abraham, que os seres humanos tenham deixado de ser conscientes de algumas coisas em virtude de uma regulação sobre o que deveria e o que não deveria ser admitido como válido numa determinada sociedade. Segundo essa hipótese, o inconsciente teria uma função social: abrigar aqueles conteúdos que, algum dia, já foram conscientes, mas que deixaram de ser úteis para a reprodução do tipo de organização societária existente.

84 - Podemos imaginar várias situações em que determinados conteúdos da consciência deixaram de ser úteis ou passaram mesmo a ser indesejáveis. Vamos supor que um grupo epipaleolítico passe a viver em uma horda de conquistadores nômades. Para esse tipo de organização societária já não teria tanta importância a consciência das sinergias entre os elementos minerais, o clima, as estações, as fases da lua, os períodos do dia - enfim, os ritmos da natureza e os seres vivos. Mas, pelo contrário, tudo isso poderia ser vital para uma aldeia agrícola neolítica. Outro exemplo: para uma cidadela de guerreiros patrilineares não seria funcional a consciências das relações entre o papel nutriz das mulheres e a administração do excedente alimentar. Mais um exemplo: a consciência da importância da livre expressão da sexualidade, para evitar desfechos destrutivos dos conflitos sociais, poderia causar sérios problemas a qualquer sistema de dominação baseado na propriedade privada, na família monogâmica e no direito de herança.

85 - A consciência de que a morte não é o fim da vida, mas a sua transformação (e a consequente ausência do medo da morte) seria inaceitável para um poder que se mantém pela ameaça de tirar a vida dos que não se submetem às suas normas. Para esse poder também seria inaceitável a consciência de que fazem parte da mesma totalidade as diferenças entre os seres humanos (de idade, sexo, naturalidade, cultura, aspecto ou condição física e psíquica), bem como os comportamentos desviantes, não sendo necessário separar, enquadrar, hierarquizar, discriminar - ou seja, ordenar o sistema por meio de julgamentos.

86 - A consciência de que não existem bem e mal, ordem e caos, ou melhor, um bem separável do mal e uma ordem separável do caos, impediria a montagem de qualquer sistema de dominação. A ereção de um poder vertical exigiu que toda essa consciência imergisse, virasse inconsciência!

87 - Nos porões da consciência expurgada de determinados conteúdos ocorreram transformações desencadeadas pela tensão entre consciente e inconsciente. Essas transformações modificaram os elementos submersos, desnaturalizando-os, desmaterializando-os, vertendo-os em símbolos polarizadores, sempre em busca de uma unidade perdida. Estabeleceu-se então uma dinâmica psicológica baseada em contraposições. A quebra da unidade psíquica gerou pares de opostos em todos os campos e setores da vida. E o mundo foi "recriado" com base nesses pares de opostos, foi modificado, antropicamente, para se adaptar à nova dinâmica.

88 - Depois que sua unidade psíquica foi quebrada, o ser humano passou a ver oposição e conflito em tudo. Tudo virou uma questão de lado. O lado da ordem (do bem, da vida, do belo, da luz, da sabedoria, do verdadeiro, do justo e do perfeito) e o lado do caos (do mal, da morte, da feiura, das trevas, da ignorância, do falso, do injusto e do imperfeito). O nosso lado (dos homens, dos heterossexuais, dos jovens, dos sãos, dos fortes, dos heróis, dos conterrâneos) e o lado dos outros (das mulheres, dos homossexuais, dos velhos, dos doentes, dos fracos, dos vilões, dos estrangeiros). O nosso lado não pode deixar-se contaminar pelo lado dos outros. Tem que se manter separado, puro. O nosso lado não pode se deixar vencer pelo lado dos outros. Tem que vencê-lo, destruí-lo ou dominá-lo e subordiná-lo, quer dizer, submetê-lo à nossa ordem. As matrizes e os padrões do nosso "modelo" civilizatório foram gerados assim. O bem separado do mal e a ordem separada do caos são pressupostos do protótipo civilizatório surgido na pré-história sumeriana. São consequências - ou fenômenos acompanhantes - de um consciente separado do inconsciente. São características do predador. Todos os nossos esquemas interpretativos e normativos baseiam-se nessas contraposições.

89 - Todos nós somos seres cindidos interiormente. Há uma cisão interior que é necessária aos sistemas de dominação. O predador é o ser humano cindido interiormente. É um produto da quebra da unidade sinérgica do simbionte. Preda porque quer recuperar, devorando, suas contrapartes, num ritual antropofágico em busca da unidade perdida. É por isso que nos apegamos tanto à guerra do bem contra o mal. Mas o problema, como disse Schmookler, é que o recurso da guerra é em si o mal.

90 - Segundo a psicologia analítica a psique cindida precisa de guerras e competições porque possui uma sombra. O problema é como surgiu esse arquétipo da sombra. Ela não nasceu conosco? Por que teria nascido? Precisamos de fato dessa "sombra"? O problema é se alguém precisa dela!

91 - Se a sombra não for uma característica da espécie humana, então ela "entrou" em nós em algum momento. Quer dizer, alguma constelação particular só teria conseguido se reproduzir se nós nos transformássemos em seus agentes reprodutores. Para tanto, fez-se necessário que tal arquétipo fosse "implantado" abaixo do nível da consciência, para que pudesse emergir como uma complexo capaz de possuir indivíduos e sociedades. Agora compreendemos uma coisa: a pulsão básica que leva o ser humano a matar é a mesma que leva à ereção dos sistemas de dominação. Sim. O hierarca Darth Vader é um assassino! Mas o ser humano não é hostil por natureza. O homem hostil é próprio de um determinado tipo de civilização: a civilização dos predadores eco-sociais. Uma sociedade de parceria não necessitaria dessa dinâmica para se reproduzir.

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Respostas a este tópico

Uau! Passou batido esse teu texto, só li agora. Bacana!
Esses textos todos do darth vader precisariam ser melhor debatidos. Vieram vomitados, aos montes e sequencialmente. Que tal fazeres um grupo de estudos, presencial, algo assim?
Sensacional!
Obrigada!
Pois é, creio que quase todos esses textos passaram batido mesmo... Há 12 anos, hehe. Um grupo de estudos seria legal. É isto aqui. Agora, presencial, quem sabe? Abraços.
Augusto, acabo de encontrar agora, este seu texto maravilhoso, num momento em que busco compreender algumas de minhas 'cisões'!! Gracias a você!!! Gracias a la 'rede'!! Gracias a la vida!!! Abraços

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