Escola de Redes

72 - No filme "Guerra nas Estrelas" o mago-imperador e Darth Vader contra Ben Kenobi e seu discípulo Luke Skywalker constituem os lados em confronto: o mal e o bem, o "lado negro da Força" e o seu lado "branco". Há milênios esse padrão mítico de confronto vem sendo inculcado. Tal como o mago-imperador, Ben Kenobi também é um mago. Usa poderes sobrenaturais para alterar uma situação dada segundo sua vontade. Assim como Vader, Skywalker também é um guerreiro. Porta a espada que é, afinal, uma arma, que destrói, mutila e tira a vida. Quando os dois pólos se confrontam, ambos servem, igualmente, a poderes hierárquicos e autocráticos. Ou seja, ambos são expressões do mesmo poder vertical.

73 - Ben Kenobi e Luke Skywalker não querem alterar a estrutura do poder vertical. Não são como Amós ou Miquéias, profetas de Israel. São guerreiros da luz contra guerreiros das trevas. A diferença, diz-se, é que são heróis do bem, "combatem o bom combate". Mas é aí que está o problema! Porque nesse modelo do "hierarca-do-bem x hierarca-do-mal", o hierarca bom legitima a atitude hierárquica diante do poder. O justo monarca legitima as autocracias. O "guerreiro da luz" legitima a existência da guerra e, consequentemente, o emprego e a fabricação da arma.

74 - O padrão de contraposição "bem x mal" está tão entranhado no inconsciente da humanidade, ou naquilo que foi chamado de "alma do mundo", que imaginamos que a dinâmica da psique funciona assim porque espelha uma ordem cósmica mais geral, na qual todas as coisas - minerais, vegetais, animais, homens, anjos e deuses - estão inseridas sistemicamente. De sorte que sequer desconfiamos que isso possa ser uma característica antrópica, introduzida por aquele que vê o mundo e, ao vê-lo, (re)cria a realidade a partir do modo-de-ver ou do modo-de-interagir. E sequer suspeitamos que este modo-de-interagir possa ter sido introduzido em algum momento da história, sendo próprio não do cosmos nem da espécie humana e sim do tipo de civilização.

75 - No filme "Guerra nas Estrelas", a espada-laser azul de Luke Skywalker é diferente da espada, de facho vermelho, de Darth Vader. A primeira é como uma Excalibur, é sagrada, é para o bem, para fazer justiça. Mas é aí que está o problema. O poder vertical se justifica precisamente porque diz-se que, antes de se corromper, é bom, é justo, é "branco", é "da luz".

76 - A moralidade da nossa civilização tem suas raízes nas separações entre bem e mal: justo e injusto, puro e impuro, luz e trevas, sagrado e profano, divino e humano, ordem e caos. A ordem justa, pura e luminosa, sagrada e boa porque desejada por deus, pode ser autocrático-hierárquica. Isso não se questiona. Mas o caos, a (des)ordem que atenta contra essa ordem, representa a impureza que deve ser purificada, as trevas que devem ser iluminadas, a profanação do sagrado - um atentado à vontade de deus. Este mal que deve ser combatido pelo "bom combate" é uma disfunção, um desarranjo funcional no interior do sistema. Ou do esquema. Esse esquema mítico continua informando nosso sentido de moralidade em plena época moderna. Pelo menos a metade dos desenhos animados que nossas crianças assistem diariamente na TV, o replicam diretamente. Isso para não falar na maior parte dos filmes de ficção científica, que projetam modelos semelhantes no futuro. Não importa se estamos no século 25 ou quinto milênio adiante: lá encontraremos quase sempre imperadores ou barões envolvidos em confrontos de casas e dinastias, heróis "brancos" em guerra contra vilões "negros". É o futuro mais longínquo replicando a tradicionalidade.

77 - Existe de fato uma mesma tradição por trás das manifestações culturais da nossa civilização. Por meio dessa tradição, os códigos replicativos ou as mensagens-padrões que encontramos na antiga Suméria foram transmitidos para outras regiões do tempo, chegando inclusive aos nossos dias. Essa tradição se faz presente não apenas nos filmes infantis e nas obras de ficção científica, mas também nos monumentos arquitetônicos, no desenho industrial de armas e veículos, no funcionamento das escolas, no tipo de família, nos rituais das igrejas. Sobretudo, porém, tal tradição se faz presente nas ordens e sociedades esotéricas.

78 - Existe realmente uma sabedoria nas vertentes de pensamento e ação conduzidas pela tradição. E também uma rigorosa moralidade baseada em códigos de justiça. Porém a sabedoria conduzida pela tradição é uma função do tipo de civilização que originou essa tradição. Como se fosse um reflexo do mundo recriado por esta civilização. Da mesma forma, os códigos de pureza e justiça contidos na tradição são adequados à reprodução deste modelo civilizatório: o modelo sumeriano, o protótipo sumeriano.

79 - Para além das doutrinas da tradição, o paradigma da tradicionalidade verticalizou o mundo "povoando" todo o universo simbólico - ou aquilo que foi chamado de "mundo da psique" - com formas que não concorrem para o estabelecimento de um cosmos social que mantenha as mesmas propriedades em todas as direções mas, pelo contrário, que privilegiam a direção vertical. Não é por outro motivo que achamos que Deus está em cima e que o céu está em cima; o caminho evolutivo é sempre pensado como uma subida e o regressivo como uma descida. São camadas e camadas de interpretações simbólicas, depositadas uma sobre a outra, milênio após milênio.

80 - Basta entrar num templo de qualquer ordem espiritual tradicional para se perceber com que profundidade o universo simbólico está marcado pela direção vertical. Nessas construções - sobretudo da tradição ocidental, herdeira do simbolismo templário babilônico, i. e., sumério - o caminho que nos conduz para deus, representado em geral por um triângulo, passa entre as duas colunas que se elevam do piso plano. E então encontramos o triângulo com o vértice para cima, sobre o quadrado, o pentagrama verticalmente orientado e muitas outras "orientações" que "norteiam" o desenvolvimento dos rituais e das práticas mágicas. O conteúdo ideológico que esses símbolos encarnam está inegavelmente associado à idéia de um poder vertical, do qual a pirâmide é o mais expressivo exemplo. E há ainda as escadas, muitas escadas, introduzidas por primeiro pelos templos sumérios - os zigurates: pirâmides feitas de escadas, com degraus representando graus de subida; ou de descida.

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Respostas a este tópico

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Augusto,

Eu nunca vi uma discussão tão taoista, tão sobre simbolização/conceituaçao e tão sobre hierarquias como esta... ainda mais usando  "Guerra nas Estrelas" !!!!

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Você começou a falar sobre as sociedades esotéricas. Tenho curiosidade para saber o que pensa sobre elas, já que convivo com pessoas queridas que se mobilizam em função de algumas delas, mas que não conseguem me desfazer de um ceticismo que, acho, tem a ver com o que disse. No fundo, parece uma troca de hierarcas.

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