Escola de Redes

55 - Na mitologia sumeriana o homem foi criado pelos senhores - os Dingir - para suportar o jugo, sofrer a fadiga. Já foi criado como trabalhador, escravo dos deuses. E foi a escravidão do homem que propiciou a liberdade dos deuses. Num antigo texto - chamado "A Epopéia da Criação" - Marduk (um Dingir sumério) fala mais ou menos assim: "Eu produzirei um primitivo inferior. 'Homem' será seu nome. Eu criarei um trabalhador primitivo. Ele será encarregado do serviço dos deuses, para que estes possam ter seu descanso". A "lógica" da coisa é muito clara. O homem é um ser inferior, servo dos deuses que são seres superiores. Logo, o homem também deve ser servo daqueles que foram instituídos na terra como representantes ou intermediários dos deuses: os sacerdotes-reis. E assim como os seres humanos, nas primeiras civilizações, não adoravam propriamente a seus deuses, antes os temiam e trabalhavam para eles (o termo bíblico avod, traduzido por "adoração", também significa "trabalho"), assim deveriam trabalhar para seus superiores humanos que representavam os superiores divinos (sobrehumanos). Sem dúvida, uma mitologia muito conveniente para os poderosos.

56 - Na antiga Suméria os superiores humanos tinham a missão de ensinar aos inferiores humanos o "caminho certo", os "costumes certos" e a "adoração adequada", por meio de um sistema imposto de regras práticas de comportamento e normas de moralidade. Mas a moralidade humana, que regulava a vida dos inferiores, não era a mesma moralidade dos superiores. A ortodoxia moral que valia para os homens não valia para os deuses. Para constatar isso basta ler o relato sobre mentiras, tramas, traições, incestos, estupros, manipulações e outras violações e abusos que compõem as crônicas das cortes divinas.

57 - A moralidade introduzida na cidade sumeriana era, na verdade (com perdão do trocadilho) uma "muralidade". Existiam muros, muitos muros, separando tudo, para manter a pureza dos lugares que não deveriam ser profanados. o recinto sagrado era, inicialmente (como revela a etimologia da palavra 'sagrado' em língua suméria), o espaço separado, cujo acesso era permitido apenas aos superiores ou àqueles a quem estes designavam. O "código de pureza" aqui inaugurado vai se perpetuar no tempo. Um bom exemplo dessa tradição é o livro bíblico chamado Levítico, escrito mais ou menos três milênios depois do surgimento das primeiras cidades-Templo sumérias, contendo proibições e mais proibições para estabelecer o que se pode e o que não se pode fazer, introduzindo "muros" em todos os aspectos e detalhes da vida.

58 - Se existiu mesmo essa "noite dos tempos" em que o poder vertical foi fundado na terra, ela deve ter ocorrido entre o quinto e o terceiro milênios. O período mais provável é o quarto milênio, em que, aliás, já se tem notícia de um sistema de dominação organizado na planície de Gorgan, no nordeste do Irã. Porém antes disso um protótipo do que chamamos de civilização havia sido ensaiado em Kish e em outras teocracias rigidamente centralizadas da antiga Suméria.

59 - Começando pelas cidades-Templos sumerianas, a expansão desse tipo de sistema de dominação se deu no terceiro e no segundo milênios, com os impérios egípcio, sobretudo na chamada "era das pirâmides" (entre 2.700 e 2.200) e babilônico, por volta de 2.000 (a. E. C.). Temos também o império hitita na Anatólia (entre 1.600 e 1.200), o Estado Assírio (por volta de 1.800) e, bem antes, o de Sargão (entre 2.400 e 2.220 aproximadamente). Todos eles fazem parte desse tempo inaugural de guerras, dessa chamada "idade dos heróis" que Jacques Dupuis disse, com razão, que nada mais era do que uma idade de predadores e de senhores.

60 - Em meados do segundo milênio a dominação já estava consolidada, com a destruição da civilização do Vale do Indo, por volta de 1.550 e o fim de Creta um século depois. A Suméria, o Egito e a Babilônia podem ser tomados como momentos simbólicos referenciais dessa formidável transformação que introduziu o poder vertical na vida espiritual e social daquelas sociedades.

61 - Pode-se dizer que o guerreiro ("proto-indo-europeu") com sua arma sagrada - instrumentos de um poder que mutila e destrói para impor uma ordem alienígena aos povos vencidos - constituem um antecedente do poder vertical na 'terra dos homens'. Mas foi na Suméria que ocorreu o precedente: a cidade como conjunto Templo-Palácio, cercada, murada e fortificada, servido de modelo para o que depois veio a se chamar de civilização. No Egito das pirâmides (que no fundo são túmulos de poderosos, diga-se o que se quiser dizer) e na Babilônia de Marduk (aquele deus da ordem e do controle), o poder vertical começou a ser replicado para outras regiões (do espaço e do tempo).

62 - Especula-se que os indo-europeus foram já o primeiro resultado do processo civilizatório imposto pelos sumérios a primitivas tribos de caçadores e pastores que viviam provavelmente às margens do Mar Cáspio. Essas tribos teriam sido militarizadas pelos hierarcas sumérios. Transformadas em conquistadores, essas hordas orientais treinadas pelos hierarcas sumérios constituíram os principais agentes "civilizadores" do mundo neolítico remanescente, destruindo a possibilidade de desenvolvimento de um outro tipo de civilização naquela parte do globo.

63 - Antigos registros descobertos pelos escavadores relatam que havia na Suméria um ser, diferente dos seres humanos, um Dingir chamado Ninurta (nome que talvez signifique "senhor que completa a fundação"). Ninurta era um guerreiro, um hierarca, aclamado pelos textos mais antigos que possuímos como um poderoso caçador, um lutador, conhecido por suas notáveis capacidades marciais. Ele era o principal filho de Enlil - "o senhor do comando" - que teria chegado na antiga Suméria há muito tempo, vindo de algum lugar desconhecido. Entre os domínios concedidos à Ninurta, os mais atrasados ficavam à leste das cidades sumérias. Os países que vieram a ser conhecidos como Elam, Pérsia e Assíria, pertenciam a esse "principal guerreiro" chamado Ninurta.

Ninurta


64 - Contam os relatos que Ninurta visitava sempre seus domínios mais atrasados. Aperfeiçoando as primeiros tribos de caçadores ou pastores nas artes marciais, ele introduziu a cavalaria e organizou forças militares com pode de ataque irresistível para a época. Teria sido Ninurta o introdutor, naquelas paragens, do carro de combate e de outros equipamentos e técnicas de cavalaria e infantaria. Em Lagash, uma antiga cidade suméria que estava inicialmente sob seu poder, algumas estelas descobertas pelos arqueólogos mostram infantarias de lanceiros, com tropas usando capacetes, em formação cerrada, protegidas por homens carregando escudos. A julgar pelos relatos, tem-se a impressão de que as tribos mais orientais de caçadores ou de pastores que foram "civilizadas" (militarizadas) por Ninurta acabaram se transformando (após tal "iniciação militar") em hordas de predadores sociais.

65 - O relevante aqui é que um grupo de hierarcas sumérios fez todas essas coisas em nome de Ninurta. Uma espécie de colonização, levada a efeito em seu nome (a julgar pelos relatos), transformou primitivos caçadores e criadores de animais em invasores "profissionais" que desenvolveram uma ideologia sacerdotal-militar.

66 - A hipótese mais óbvia é que os hierarcas-guerreiros precisavam de um patrono, alguém que avalizasse suas ações predadoras de mutilar, matar e dominar seres humanos. Nada melhor do que divulgar a existência de um ser super-humano, todo-poderoso, inatingível, imortal ou quase, ordenando suas ações. Entretanto, de onde teriam surgido esses hierarcas-guerreiros e outros "colonizadores" que fundaram a civilização sumeriana?

67 - Diz-se que foi por volta de 3.760 que a monarquia humana "apareceu" pela primeira vez naquela região. Ela teria "aparecido" numa cidade da Suméria chamada Kish, que era controlada, justamente, por Ninurta. São os textos sumérios que dizem: "Quando a realeza desceu, a realeza estava em Kish". De Kish a realeza se transferiu sucessivamente para Uruk, Ur, Awan, Hamazi, Aksak, Acádia, Ashmur, Babilônia e outras cidades. Em Kish, An e Enlil construíram um "pavilhão do céu", implantando em seu solo de fundação um artefato chamado Shuhadaku ("suprema arma forte e brilhante") que depois passou a ser transportado para outras cidades, na medida em que a sede da monarquia mudava de lugar.

68 - Os relatos sumérios contam que, inicialmente, as cidades foram governadas pelos próprios "deuses". Com o tempo, esses soberanos "divinos" teriam instituído intermediários entre eles e o povo. Tais intermediários deveriam ser "como deuses". A realeza foi assim introduzida como uma ponte entre os senhores e a humanidade. A monarquia, desde que surgiu, já era sacerdotal. Não é a toa que o primeiro tipo de cidade-Estado que apareceu foi justamente a cidade-Templo sumeriana. O objetivo dos governadores humanos era assegurar o serviço humano aos "deuses" e transmitir os ensinamentos e as leis desses mesmos "deuses" ao povo em geral.

69 - Os mais antigos registros sobre o assunto, encontrados na Suméria, dizem que os primeiros reis humanos foram reis-sacerdotes, que reuniam o poder material (ou temporal) e o poder espiritual, simbolizados pela coroa (ou tiara), pelo cetro e pelo bastão (ou cajado) - símbolos que, significativamente, permanecem até hoje!

70 - Os primeiros reis humanos da Suméria foram chamados de Lugal, que significa homem poderoso, potentado, hierarca - o que lhes conferia igualmente um status de chefe militar. Segundo os relatos Ninurta escolhia para governar Lagash - outra importante cidade suméria sob seu controle - homens (jamais mulheres) versados nas artes marciais, como Eanatum. Esse Eanatum era um mestre em táticas militares, um general vitorioso. Dizem os relatos que ele mantinha as rédeas do poder com um firme punho militar. Mas ele só se transforma em Lugal da Suméria depois que recebe "a sabedoria sobre Kish", quer dizer, depois que consegue, em termos espirituais, fazer prevalecer a lei e a ordem provenientes de Ninurta.

71 - Ao que tudo indica Ninurta (seja o que for) está mais envolvido do que se pensa na construção deste tipo de civilização que prevalece até hoje. Alguém com esse perfil talvez não seja uma pessoa, nem mesmo um grupo de pessoas, mas um padrão composto de interação com o mundo que se revela em cada hierarca-guerreiro que aparece em qualquer época, possuindo-o como um complexo. É nesse sentido que se pode dizer que Darth Vader nasceu na Suméria.

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