Escola de Redes

36 - Darth Vader nasceu na Suméria.

37 - Segundo os historiadores, o que ocorreu de tão notável na antiga Suméria foi (além da escrita, é claro), o surgimento da cidade - a chamada "revolução urbana". A Suméria teria sido o berço da civilização. Mas ao que tudo indica algum tipo de civilização já existia há vários milênios. Cidade por cidade, tínhamos Jericó (fundada, talvez, entre 8.350 e 7.370), Çatal Hüyük (cujas escavações arqueológicas retrocederam até a data de 6.250, ou antes) e Hacilar (que, com certeza, era habitada de 5.700 a 5.000). O que muitos historiadores não percebem na Suméria é a afirmação de um novo padrão civilizatório, em substituição ao "padrão" (neolítico, se se pode falar assim) anterior.

38 - O notável na antiga Suméria não é a cidade em si, mas o tipo de cidade. O que caracteriza essa cidade sumeriana é o fato de ela ser uma cidade-Templo. O precedente sumeriano se refere ao fato de que o cosmo social na Suméria passou a ser ordenado por um cosmo sobrenatural. As pessoas não apenas serviam, mas viviam no Templo (sim, existem registros dizendo isso: as "Tábuas de Fara"). O muro da cidade não separava somente o conterrâneo do estrangeiro, porém o sagrado do profano. Ao fazer isso, promovia uma equivalência de status entre os conceitos de outro e profano. Criava-se assim um pré-curso, um sulco para o futuro: o muro como símbolo do que afasta e separa do outro (o qual pode profanar ou tornar impuro o próprio modo de ser). Sem esse tipo de separação, de cuja gênese social encontramos um precedente de larga escala na antiga Suméria, não poderia ter se consolidado o poder vertical na terra dos homens.

39 - A chamada "revolução urbana" ocorrida na antiga Suméria foi, na verdade, um processo de aprisionamento da vida social pelos muros materiais e espirituais do Templo-Palácio. Os ritmos da vida social e pessoal neolítica foram radicalmente alterados, substituindo-se os elementos naturais que participavam da existência humana por outros elementos 'sintéticos' (produzidos "em laboratório", por assim dizer). Um desses principais elementos sintéticos ou artefatos foram as armas. A pedra fundamental da cidade era a arma sagrada (shuhadaku), quer dizer, a arma de uso restrito, que só os superiores podiam manejar.

40 - Os registros sumérios contêm nomes de armas horríveis: o "supremo caçador" (sarur), o "supremo exterminador" (shargaz), a "arma de cinquenta cabeças letais" (ib). E dezenas de outras, como o "supremo assassino", o "olho levantado que inspeciona a terra", o "feixe de emissões levantado". Para que tantas e tão terríveis armas? Segundo os textos encontrados, "para destruir as cidades más - limpá-las da oposição contra o Altíssimo" ou para "subjugar cidades más em terras estrangeiras". A expressão "limpá-las da oposição" diz tudo. A oposição ou a não aceitação do jugo dos superiores, é o mal, a sujeira que deve ser limpada porque pode contaminar o que é puro, que precisa ser mantido separado para não ser contaminado. Nesse caso, a violação, a destruição e a morte executadas por meio da arma se justificam eticamente. Estão respaldadas pela moralidade estabelecida pelos superiores.

41 - Existem registros dizendo que em tempos imemoriais os Dingir chegaram à terra, escolhendo o sul da Mesopotâmia para se instalar. Deram a essa região o nome de Kiengir e ali fundaram os primeiros povoados. Esses dingir eram uma espécie de super-homens, imortais ou extremamente longevos, possuidores de avançado conhecimento tecnológico, sobretudo de tecnologias de destruição que lhes permitiam fabricar armas terríveis. (Muito tempo depois esses Dingir foram chamados de deuses, pela primeira vez pelos gregos). Esses primeiros registros (de todos os que encontramos) que tratam de lendas sobre as relações entre "deuses" e homens na terra, são provenientes da Suméria. A Suméria era a terra de "shumer" - maneira como os acádios (um povo que veio depois) chamavam Kiengir.

42 - Não podemos saber quem eram os Dingir. Nem mesmo se existiram de fato esses seres diferentes que vieram de algum outro lugar, sobre os quais o povo que viveu na terra de "shumer" construiu suas lendas de "deuses". Entretanto, os relatos sobre sua natureza, seu comportamento, suas realizações e suas façanhas heróicas, contêm uma informação importante: eram seres guerreiros.

43 - A crônicas da corte de An (posteriormente chamado Anu pelos acádios) - o ser supremo, o chefe da dinastia dos Dingir que teria ordenado a colonização do sul da Mesopotâmia - estão repletas de intrigas, atentados, golpes de Estado e usurpações características de qualquer monarquia antiga. Não eram seres virtuosos esses "deuses" guerreiros, envolvidos constantemente em disputas terríveis por sucessão e supremacia, preocupados acima de tudo com a pureza genética de suas linhagens. A única coisa que parece distinguir os Dingir dos humanos é seu avançado conhecimento, em especial tecnológico (além da sua longevidade). Seu poder dá a impressão de ter como base a posse de horríveis tecnologias de destruição. Seu domínio sobre os homens - como o de Enlil, o "senhor do comando", herdeiro de An e chefe da "missão" dos Dingir - estabelece-se claramente pelo terror.

44 - Além do conhecimento avançadíssimo - ou provavelmente em virtude desse conhecimento - a segunda coisa que distingue os Dingir dos seres humanos é a sua aparente imortalidade. Isso é que é tão assustador nos relatos sumérios. Teríamos sido criados e, depois, colonizados (rigorosamente falando em termos históricos: civilizados) por seres com uma estrutura moral deplorável, mas possuidores de uma alta tecnologia que lhes garantia, inclusive, a imortalidade. Ou, no mínimo, incomensurável longevidade.

45 - Os "deuses" sumérios (que logo foram copiados por todas ou quase todas "civilizações" antigas derivantes) não são seres espiritualizados, no sentido que hoje atribuímos ao conceito. Pelo contrário, parecem até ser meio materialistas. Aliás, as lendas sumérias sobre os Dingir não se parecem nem um pouco com peças religiosas. Os "deuses" sumérios são hierarcas, às vezes brutais, genocidas, carnívoros, que ocultam seu conhecimento para acumular poder e para exercer e ampliar seu domínio sobre seus pares e sobre os humanos. Além disso, não morrem facilmente. Aqui parece estar uma das chaves da questão. A recusa em aceitar a morte (característica principal de todos os hierarcas-predadores) pode estar na raiz dessa concepção de "seres superiores" projetada nos Dingir das lendas sobre a pré-história sumeriana.

46 - É espantoso que todos os deuses de todas as civilizações antigas se pareçam tanto. Os mais antigos textos que encontramos - dos acádios, dos egípcios e dos indo-europeus; e depois dos assírios e babilônios, dos cretenses e dos gregos - contam histórias muito parecidas de deuses, que confirmam relatos sumérios anteriores. Do vale do Indo ao Mediterrâneo oriental, das terras banhadas pelo Nilo ao vale mesopotâmico, entre o Tigre e o Eufrates, e a leste do Tigre, e a oeste do Eufrates, as teogonias são extremamente semelhantes. Amoritas, cananitas, hurritas, hititas - todos dizem que existiam deuses na terra. Antes dos homens. Os homens teriam sido criados para servir aos deuses. Em alguns casos, como trabalhadores mesmo. Operários amestrados de quem os deuses exigiam trabalho, submissão às regras e oferendas sacrificiais.

47 - Os mais antigos textos que encontramos falam também que a monarquia e a hierarquia e o sacerdócio - a "coroa" e o "trono", o "cetro" e o "bastão"; em suma, os elementos do poder vertical que compõem o que chamamos de paradigma da tradicionalidade - foram instituídos entre os homens pelos próprios deuses. Ora, se as coisas não se passaram realmente assim, por que elas foram escritas assim por tantos e tão diferentes povos?

48 - A hipótese mais óbvia é a de que os antigos "deuses" sumérios foram criados pelos homens, para legitimar algum tipo de comportamento dos poderosos da época. Pelo que se pode depreender dos relatos, esses "deuses" intrigantes, belicosos, que em geral não amavam a humanidade e nem aos seus pares, guerreando constantemente entre si e algumas vezes até executando genocídios, são parecidos demais com os homens realmente existentes. Em quase nada diferem dos seres humanos que, segundo a tradição, eles próprios criaram em termos materiais, dando entretanto a impressão de que, de fato, por estes últimos é que foram criados, em termos espirituais. Deuses feitos à nossa imagem e semelhança... A explicação parece boa, não há dúvida. Pena que ainda não responda satisfatoriamente a muitas de nossas indagações.

49 - As inscrições sumérias, bem como o material disponível, assírio e babilônio, sobre a Acádia e a Suméria, falam de coisas que dificilmente podiam existir na época em que foram gravadas. A mitologia, a religião e sobretudo a astronomia da antiga Mesopotâmia, estão repletas de evidências de um súbita e avançadíssima civilização (nos termos desta - da nossa - civilização, é claro) que, simplesmente, apareceu, como que do nada, entre o Tigre e o Eufrates, há seis mil anos. Não há, pelo menos aparentemente, nenhuma linha de continuidade entre a Suméria e as aldeias agrícolas neolíticas que estão sendo descobertas pelos escavadores no último século, naquela região e em outras regiões da Ásia e da Europa antiga. É surpreendente constatar que os elementos centrais da nossa cultura, dita civilizada, compareciam numa espécie de modelo ou protótipo ensaiado em cidades-Templos-Estados como Eridu, Nippur, Uruk, Kish, Acad, Lagash, Ur, Larsa e Babilônia. E o mais surpreendente ainda é ver que esse modelo já estava em pleno funcionamento, segundo interpretações de relatos que ainda não puderam ser contestadas, a partir do início do quarto milênio.

50 - O que permanece para nós como algo definitivamente desconcertante e, ao mesmo tempo, relevador, é o fator de ter sido ensaiado na Suméria, pelo menos entre 3.800 e 1.800 (para ficarmos dentro dos limites do tempo histórico) um modelo social patriarcal, sacerdotal-militar e monárquico, de cuja gênese não se tem nenhum tipo de informação.

51 - As mais antigas inscrições sumérias, acádias, assírias e babilônicas, recolhidas, traduzidas e compiladas por especialistas de renome, revelam que os supostos colonizadores da Mesopotâmia fizeram pelo menos cinco coisas notáveis para definir o tipo de civilização que se espalharia depois: a) instituíram a monarquia humana, investindo sacerdotes e sagrando reis como intermediários; b) trouxeram o domínio e a guerra como forma de suprimir e resolver conflitos; c) fabricaram (ou conceberam) armas terríveis (ou assim consideradas ou descritas); d) estabeleceram uma moralidade normativa, baseada na obediência e repressora da sexualidade; e, e) introduziram toda sorte de restrições, visando separar o sagrado do profano e o puro (inclusive em termos "genéticos") do impuro.

52 - Em relação aos surpreendentes relatos sumérios, talvez estejamos diante de projeções, no passado, feitas por civilizações bem superiores. Quem sabe os babilônios e os assírios - que já possuíam um sistema de dominação que levou um ou dois milênios para se estruturar - não estavam apenas tentando legitimar tudo? E aí inventaram lendas sobre a sua origem, fabricando mitos sobre os "deuses" sumérios e seus atributos, que apenas reforçavam e possibilitavam a manutenção e a reprodução do seu próprio modelo social dominador. Neste caso, não teria havido protótipo sumeriano algum. Mas um "pós-tótipo" (com perdão do mal-jeito), projetado no passado por sociedades que já viviam segundo um modelo social dominador. A hipótese é verossímil, mas esbarra no material encontrado: milhares de tabuinhas de argila, provenientes da Suméria, encontradas pelos escavadores, que foram datadas pelos métodos aceitos pela ciência.

53 - Existem indícios de que os sumérios não apenas desenvolveram historicamente o que chamamos de civilização. Eles também sistematizaram teoricamente um modelo dessa civilização para ser replicado em outros locais - o que reforça a idéia de protótipo. Há quem diga que o protótipo sumeriano teria sido replicado, fora da Mesopotâmia, inicialmente no vale do Nilo, a partir de 3.200, e no vale do Indo, a partir de 2.800. Embora fantástica, tal hipótese pode ser apoiada por muitas coincidência culturais, sobretudo pelas semelhanças entre as teogonias dessas três civilizações aparentemente distintas.

54 - Antes da teocracia egípcia e antes da cristalização de uma sociedade de castas no vale do Indo já havia se realizado na Suméria um modelo social patriarcal, sacerdotal-militar e monárquico que, de fato, parece ter sido replicado, pelo menos em parte, naquelas duas civilizações e que, até hoje, "ressoa" em nossa época. É muito improvável que um "código replicativo" tão complexo como o da nossa civilização patriarcal pudesse ter sido elaborado por alguma horda bárbara, das que teriam invadido o Ocidente, em levas sucessivas, do final do quinto ao início do terceiro milênios. Lendo os textos ficamos com a impressão de que o software já estava pronto no início do quarto milênio. Pois a história da Suméria não registra nenhuma evolução do modelo. Aliás, o surgimento ha história (não só da Suméria, mas de todo o mundo dito civilizado) é a emersão súbita do que chamamos de protótipo sumeriano.

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