Escola de Redes

18 - Da referência inicial do calendário de Nippur - introduzido, talvez, na "pré-história" da Suméria - aos nossos dias, já se vão mais de seis mil anos sob o mesmo "modelo", em que as civilizações derivantes do protótipo sumeriano recombinam padrões básicos em novas constelações. As matrizes que dão origem a tais padrões, entretanto, permanecem fundamentalmente as mesmas.

19 - É possível que tenham existido sociedades que escaparam da reprodução fiel do protótipo sumeriano, mas apenas em certos aspectos e durante curtos períodos. Ao que se possa supor, os cretenses (antes da chegada dos Aqueus) e os hebreus (antes que David abandonasse as tendas de Israel em Jerusalém). Talvez algumas remanescências de aldeias neolíticas na Europa antiga e no Oriente próximo e de tribos paleolíticos nas Américas e em outras partes do mundo. Talvez. Mas o que se chamou de expansão da civilização indica - não há como negar - um processo de clonagem cultural cuja matriz nos remete à Suméria.

20 - Levantou-se recentemente a hipótese de que em algum momento do final do quinto milênio (ou no início do quarto) entramos em um dos ramos de uma bifurcação que nos conduziu a este tipo de civilização em que vivemos. Se tivéssemos tomado o outro caminho, tudo poderia ter sido diferente. Ora, se conseguirmos descobrir alguma coisa das origens da visão de mundo que acompanhou e possibilitou a criação deste tipo de civilização em que vivemos - patriarcal, guerreira e dominadora: a civilização dos predadores eco-sociais - quem sabe poderemos imaginar como tudo poderia ter sido diferente. Se tivéssemos tomado o outro ramo da bifurcação, quem sabe fôssemos hoje algo assim como simbiontes em vez de predadores.

21 - Talvez não seja possível detectar os rastros de um simbionte primitivo, se é que ele existiu; ou seja, apresentar evidências da presença pré-histórica de seres humanos que viviam em regime de parceria, entre si e com a natureza. Todavia, parece não ser impossível imaginar como seria uma civilização de simbiontes desenvolvidos. Este é o motivo pelo qual vale a pena o esforço de investigar as características "genéticas" (meméticas) do padrão do predador, simbolizado pela figura de Darth Vader. Porque se tudo poderia ter sido diferente, então tudo poderá ser diferente.

22 - Muitas pessoas acreditam que a violência é inata ao ser humano. Ou, pelo menos, que existiu uma adaptação evolutiva que favoreceu ao desenvolvimento de grupos que utilizaram sistematicamente a violência para instaurar e manter a ordem social. Segundo essas pessoas, a violência tem uma origem sagrada: o sacrifício. A idéia de sacrifício humano como fundamento da ordem social estaria profundamente arraigada no subconsciente religioso. Essa idéia derivaria de uma tendência para a destruição que seria própria do ser humano. Para tais pensadores, alguns grupos humanos foram capazes de se impor aos demais porque estavam aglutinados pelo poder ritual de matar. Nesse sentido, o sacrifício teria dado forma à sociedade, instalando uma ordem inabalável, porque a espécie humana é aquela espécie dos seres que matam.

23 - Quase todo mundo que assistiu "2001, Uma Odisséia no Espaço" achou o filme excelente. Mas quase ninguém prestou atenção ao fato de que a história contada no filme se baseia numa visão muito problemática. O macaco se transforma em homem quando mata o outro ser da sua espécie. Usando uma arma - um osso, transformado em ferramenta para matar - aquele macaco do filme de Kubrick dá início ao progresso. A história do filme "2001" apenas reflete a idéia de que todas as importantes descobertas tecnológicas primitivas foram feitas pelo caçador e pelo guerreiro, ao buscarem uma maneira mais eficaz de matança. Assim, teria sido a ferramenta (transformada em arma, usada para matar) que nos tornou humanos. A maioria das pessoas é levada a acreditar nessa idéia porque ela tem uma aparência de verdade científica.

24 - Mas a ciência não nos obriga a acreditar que a violência seja inerente ou constitutiva da natureza humana e nem que a civilização tenha se desenvolvido a partir da arma ou do ato de matar. Podemos supor que algo aconteceu para que as coisas passassem a ser assim, o que significa admitir que elas não foram sempre assim. Alguns arqueólogos descobriram que os precursores dos seres humanos transportavam o alimento de um lugar para outro e distribuiam esse alimentos entre os membros do grupo. Ou seja, eles partilhavam o alimento. Apoiados em tal hipótese podemos dizer que a atitude básica que nos torna humanos é esta: a partilha do alimento, e não o uso da ferramenta para matar (a transformação da ferramenta em arma). São dois pontos de vista, completamente diferentes. Em um, como assinalou Thompson, temos uma definição tecnológica da cultura humana, na qual a ferramenta separa fundamentalmente a cultura da natureza. No outro, temos uma definição social da cultura humana, na qual o ato de partilhar o alimento estabelece uma relação entre natureza e nutrição.

25 - Não é muito fácil desenvolver o ponto de vista segundo o qual os primórdios da consciência humana não estão relacionados com a descobertas de ferramentas (e de armas). Porque a história que nos contaram nas escolas e universidades parece mostrar exatamente o contrário. Pesquisadores descobriram nos túmulos dos períodos egípcio e babilônico evidências de sacrifícios humanos em massa. Toda a ordem social que predominou no mundo nos últimos milênios está baseada na prática instrumental de matar e na imposição deliberada de sofrimentos aos semelhantes. Mas é possível pensar que a ordem social baseada na morte provocada pelas armas e na destruição desencadeada pela guerra é apenas um tipo de ordem social. Alguns pesquisadores imaginam que esse tipo de ordem não existia, por exemplo, na cultura Vinca, que florescia nos Balcãs há 7 mil anos.

26 - Alguns pesquisadores imaginaram que antes da nossa civilização patriarcal, guerreira e dominadora, existia um outro tipo de sociedade. Uma sociedade na qual os seres humanos viviam em regime de parceria, em relativa harmonia entre si e com a natureza. Para uma parte de tais pesquisadores foi a cultura patriarcal de algumas hordas seminômades de guerreiros (indo-europeus) que destruiu uma cultura uniforme e pacífica que se estendia por toda a Europa antiga, durante vinte mil anos, do paleolítico ao neolítico. Esses invasores teriam imposto sua ordem social hierárquica e autoritária - governada por poderosos sacerdotes e guerreiros, legitimada por deuses masculinos da guerra e das montanhas, voltada para o desenvolvimento de tecnologias de destruição - às aldeias agrícolas neolíticas que viviam em regime de parceria e cultuavam a deusa-mãe.

27 - Supôs-se que o poder conduzido pelos invasores patriarcais era de um tipo muito diferente daquele que existia nas sociedades de parceria. Era um poder de dominar e destruir, enquanto que o poder nas aldeias neolíticas era uma capacidade de alimentar e sustentar a vida. O poder dos invasores era baseado na arma. Eles cultuavam a arma. As armas eram sagradas, representavam as funções e os poderes divinos e eram adoradas como representações dos próprios deuses. O guerreiro e sua arma eram instrumentos divinos.

28 - Ninguém sabe ao certo o que teria acontecido para que surgisse povos com tais características. Ninguém sabe ao certo porque primitivos povos de caçadores e criadores de animais (se é que as coisas se passaram assim) foram transformados em invasores "profissionais" que desenvolveram uma ideologia sacerdotal-militar. Ninguém sabe ao certo nem onde nem como surgiram esses predadores, que saíram pelo mundo matando, mutilando, arrasando aldeias pacíficas, escravizando povos, deixando por onde passavam um rastro de destruição social e ambiental.

29 - A hipótese mais difundida para tentar explicar por que certas tribos primitivas de caçadores ou pastores foram levadas a se organizar para a guerra e para a conquista, se baseia na escassez. As tribos de conquistadores que se espalharam pelo mundo a partir do quinto ou do quarto milênios viviam provavelmente em ambientes áridos, em estepes. A escassez de recursos obrigou essas tribos a se dispersarem para outras paragens, em busca de água e comida. Quando essas tribos entraram em contato com aldeias neolíticas já estabelecidas - que possuíam, em alguns casos, abundância de tudo aquilo de que precisavam - houve conflito. Os invasores perceberam logo a necessidade de fabricar armas e de se organizar melhor para conseguir se apropriar do excedente produzido nessas aldeias. Foi aí que começaram a desenvolver outro padrão de organização social, voltado para a guerra, para o saque, para a conquista.

30 - A hipótese da escassez como fator originante do homem hostil permanece sendo a mais "lógica", porque é parte da "nossa lógica" de predadores. Isso sempre acontece: quando tentamos explicar o passado, projetamos no passado a cabeça que temos - no caso, a "cabeça do predador" - imaginando que os povos primitivos reagiriam "naturalmente" da mesma forma como nós reagiríamos se estivéssemos no seu lugar.

31 - A hipótese segundo a qual foi diante da escassez de recursos sobrevivenciais que habitantes das regiões áridas tornaram-se invasores cada vez mais organizados de aldeias, tendo tudo começado a partir daí, é uma explicação que se curva diante do império das condições objetivas, materiais, econômicas. Segundo esse ponto de vista, os conquistadores patrilineares que introduziram uma sofisticadíssima ordem hierárquica, sacerdotal-guerreira e autocrática em sociedades agrícolas de parceria, mais humanas e mais sustentáveis, seriam apenas vítimas das condições ambientais (sobretudo climáticas) desfavoráveis. Com isso muitos ficam satisfeitos: o homem hostil é um resultado do clima hostil. Pronto. Está tudo explicado!

32 - É possível, entretanto, fazer um esforço para pensar com outra cabeça. Podemos imaginar um coletivo estável do ponto de vista social e ambiental, que não domine a natureza mas conviva com ela. O elemento humano desse coletivo não é um parasita ou um predador, mas algo assim como um simbionte. Face a escassez de recursos, a reação "natural" do simbionte é a de aceitar a dissolução da cadeia da vida que o sustem e, simplesmente, morrer. A atitude diante da morte é radicalmente diferente quando se está em sinergia com os elementos que constituem o sistema que chamamos de vida numa escala mais ampla (como a das sociedades, dos ecossistemas e inclusive do ecossistema planetário - ou Gaia). (Talvez por isso a perda do território e a devastação dos seus ecossistemas representa de fato a morte para tribos paleolíticas remanescentes - como as de alguns de nossos indígenas atuais - mesmo que seus integrantes continuem respirando, biologicamente vivos. A tendência dessas tribos tem sido, muitas vezes, a de se deixarem morrer, não tendo mais filhos ou, até mesmo, por meio do suicídio coletivo de seus membros). Quem não aceita a morte é o predador, que é predador por isso mesmo, porque não aceita a morte.

33 - Quando tentamos explicar o comportamento dos povos pré-históricos, projetamos no passado a "cabeça do predador". Imaginamos que grupos ameaçados em sua sobrevivência são necessariamente forçados a saquear, violar, mutilar e destruir outros grupos. E que, a partir daí, tomando gosto pela coisa, organizam e sofisticam seu sistema social para a pilhagem e a guerra. O que, por sua vez, traz a necessidade de domínio permanente para sufocar conflitos internos que podem desestabilizar a ordem instalada. Segundo o ponto de vista do senso comum científico, assim se reuniriam os elementos do poder vertical.

34 - Se a escassez é a origem do homem hostil, os sistemas de dominação deveriam ter brotado em muitos lugares onde, certamente, ocorreu escassez provocada por intempéries e condições climáticas desfavoráveis. E não apresentariam tantas semelhanças entre si, como de fato apresentam. O problema é que os primeiros vinte ou trinta grandes sistemas de dominação (chamados às vezes de sociedades ou civilizações) que surgiram entre o quinto e o segundo milênios a. E. C.), replicam o mesmo padrão civilizatório que apareceu primeiramente (ou disso se tem registro, pelo menos até agora) em um lugar. Isso não pode ser explicado como coincidências. E nem, muito menos, pela hipótese de que a predação eco-social conduz necessariamente a um tipo único e universal de padrão, como se existissem leis históricas de evolução ou regressão das sociedades.

35 - Por mais fantástica que possa parecer resta a hipótese de que o predador foi gerado numa constelação particularíssima, que se formou em algum momento da proto-história sumeriana, possivelmente entre meados do quinto e o início do quarto milênios. Alguma coisa aconteceu, há seis mil anos... uma bifurcação. Houve uma experiência fundante que abriu um precedente, inventou uma tradição que induziu a replicação, em outros locais e em outras épocas, do mesmo "modelo", por meio da geração de um complexo que a partir daí possuiu sociedades ao logo dos últimos cinco milênios: o Complexo Darth Vader.

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