Escola de Redes

Epílogo

Quando projetamos a imagem do simbionte no passado, modificamos o passado. Como deuses, que somos, dos antigos, alteramos a sua história - quer dizer, a nossa própria história - modificando também o nosso futuro.


Nota final (1998)

Não pensei em escrever um livro de futurologia e sim um ensaio que reunisse fragmentos de um novo modo-de-ver as origens da cultura civilizada. Todavia, acabei imaginando possibilidades alternativas ao "modelo" sumeriano. Fui levado a isso ao constatar que, a partir desse "modelo" - como salientou o matemático Ralph Abraham (1992) - "a espécie humana vem avançando cada vez mais para dentro do mal, do demoníaco e das formas de sociedade evolutivamente mal-sucedidas".

Porque talvez a melhor maneira de criticar as coisas de que não gostamos é imaginando como desejaríamos que elas fossem. Imaginar e desejar um futuro alternativo é condição para realizá-lo. O que, certamente, é a melhor forma de mudar as coisas de que não gostamos.

Para tanto, não é necessário falar de realidades e, muitas vezes, nem de tendências verificadas hoje em dia. Ao colocar a idéia de que as coisas não precisam continuar sendo como foram estamos exercendo uma poderosa crítica ao nosso tempo.

Imaginar um desejável futuro alternativo para o mundo significa, de algum modo, desestabilizar a situação do mundo atual. Pois quando as pessoas começam a vislumbrar a possibilidade do novo, o velho pode começar a se preocupar. Levantar novas possibilidades é contribuir para que as coisas não continuem sendo como são. É, em certo sentido, criar futuro.

Se o futuro imaginado e desejado for realizado antecipatoriamente, isto é, se algumas pessoas - e depois outras e cada vez mais gente - começarem a se comportar como se esse futuro já tivesse chegado, então ele deixa de ser futuro e passa a ser presente. Nesse caso, a mudança do velho para o novo terá se consumado.

De qualquer modo, se quisermos alterar alguma coisa no presente, temos que fazer uma viagem de ida e volta ao futuro. Pois que o futuro vem antes do presente. Ou seja, para chegar a um (novo) presente - que não seja apenas repetição de passado - é necessário, antes, passar pelo futuro.

Quando comecei a escrever este livro estava plenamente convencido das idéias que acabei de expor acima. Mas agora, que chegou a seu final, me dou conta de que não basta imaginar e desejar um futuro melhor para antecipá-lo por meio de ações concretas. É necessário também modificar o passado.

O simbionte é, obviamente, uma imagem de futuro projetada no passado. Na verdade ele não pode voltar porquanto nunca existiu enquanto alternativa de projeto civilizatório.

Existiram, certamente, agrupamentos humanos que não se caracterizavam pela predação eco-social, embora - eventualmente - disputassem com a natureza e entre si por recursos sobrevivenciais. Em alguns casos talvez se possa dizer que a dinâmica de certos grupos de coletores paleolíticos e de algumas aldeias agrícolas neolíticas se aproximavam de um padrão de simbiose, uma vez que os seres humanos inseridos nesses coletivos se beneficiavam mutuamente da sinergia estabelecida com o meio ambiente em consonância com os ritmos naturais. As águas, o solo, o clima e os organismos vivos compunham uma totalidade biocenótica eco-equilibrada que possibilitava, durante determinados períodos, um efeito antrópico não-desarmonizante. Durante tais períodos, às vezes bastante longos, é possível que tenham existido, de fato, sociedades de parceria.

Projetamos a imagem do simbionte no passado justamente para dizer que essa poderia ter sido uma alternativa civilizatória, se os seres humanos tivessem tomado o outro ramo da bifurcação, em vez daquele que nos levou às sociedades de dominação.


[Fim da transcrição]

[Atenção: Tudo isso foi escrito há bem mais de uma década e a versão original está sendo mantida nesta transcrição.]

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