Escola de Redes

Do jornalismo em rede a uma rede de jornalismo, ou algo que o substitua na era da desintermediação

Provocado a pensar sobre minha relação com o tema das redes, vi minha carreira reduzida a uma imagem daquelas em que um macaco se arrasta, vai ficando ereto e vê as estrelas, um conjunto inominável de possibilidades.

Escrevo poemas desde os 8 e, também cedo, fantasiei e decidi, dentro de minhas possibilidades, ser jornalista. Fantasiei a vida de repórter, conhecendo gente interessante, viajando e mudando o curso das histórias. Com o impulso dos pais, tracei um caminho certeiro nessa direção e o desejado, descartadas as infantilidades, simplesmente aconteceu. Em 1989, assumi posto de repórter de cultura no Correio Braziliense, subindo rapidamente como crítico de música e artes plásticas e escrevendo também sobre políticas culturais.

Dois anos de redação foram suficientes para eu ver que a vida de repórter não me servia. Havia uma brutalidade naquele ambiente, um certo sentido de controle e agendas próprias que não permitiam o relato imparcial da história, o que me causava profundo desgosto. Segui meu editor e mentor Ruy Nogueira por um tempo, mas não via futuro naquele tipo de contexto.

Comecei a imaginar o que poderia fazer da vida, como aproveitar o conhecimento adquirido e concluí que poderia ser o outro lado da moeda, a vidraça ou, como asseveraria Franklin Martins alguns anos mais tarde, em uma entrevista com Ruth Cardoso, o outro lado do balcão. Meu futuro parecia estar na assessoria de imprensa.

Minha esposa via as maquinações silenciosas pelos cantos da casa, os rabiscos e esquemas que fazia e resolveu colocar alguma estrutura no projeto, dando-me de presente um livro sobre metodologia para consultores. Lamentavelmente, não o encontro na biblioteca para poder listar como bibliografia.

Em 1992, assumi o posto de assessor de imprensa do Conselho Federal de Psicologia, onde desenvolvi, por mais de dois anos, atividades intensas de comunicação interna. Não sabia naquele tempo que era isso o que fazia, mas era a única saída, visto que a organização não gerava fatos jornalísticos de interesse da sociedade.

Três anos mais tarde, fui selecionado, após um processo bastante complicado, para o posto de oficial assistente de informação no UNICEF, uma verdadeira escola para mim. Ali, alem de ter fatos jornalísticos de sobra, recebi formação em formulação de projetos, monitoramento e avaliação de políticas públicas, desenvolvimento com perspectiva de gênero e várias outras técnicas.

Até esse momento, tudo o que fazia era, na verdade, promover processos de informação: transmissão unilateral de conjuntos de dados articulados que, por se relacionarem a capacidades e experiências anteriores, fazem sentido para um indivíduo ou grupo de indivíduos que compartilham determinado contexto

Deixei o UNICEF dois anos depois e, em 1997, escrevi um livro sobre os índios Xavante, montei um piloto de restaurante em Alto Paraíso, fiquei cabeludo, compus metade do meu primeiro CD e até tive tranças afro por uma semana. Foi uma ano bem interessante. Uma espécie de recreio.

Em 1998, entrei para a Comunidade Solidária e comecei a entender melhor o funcionamento da máquina do desenvolvimento. Aliás, foi ali que entendi a diferença entre crescimento e desenvolvimento, entre democracia e direito ao voto, bem como muitos outros conceitos fundamentais. À época, estimei um vocabulário adquirido de cerca de 5 mil palavras, o que é bem mais que o volume articulado por uma pessoa comum durante toda sua vida.

Na Comunidade Solidária, comecei a fazer gestão: análise, desenho, condução, mensuração e realinhamento de recursos com objetivo de geração de resultados específicos desejados.

Ali, também aprendi o verdadeiro significado da palavra comunicação: processo através do qual elementos de determinados grupos compartilham códigos e significados e tornam comuns ativos de informação ou conteúdos.

Nessa etapa, um livro muito influente foi Ecologia da Informação (Davenport, Thomas - Futura, 1997), em que se apresenta uma visão bastante original da organização em torno da informação, desenvolvida a partir de uma analogia com sistemas naturais. O capítulo Política da Informação é particularmente interessante e traça paralelos entre os modelos de gestão da informação e os tipos de regime de governo, transitando de monarquia a anarquia e passando pelo feudalismo e o federalismo.

Naquele contexto, em 1999, desenvolvi o primeiro projeto de gestão do conhecimento, que é o processo pelo qual se coloca conhecimento certo, em quantidade e qualidade certas, no momento certo, nas mãos da pessoa certa. Meu livro de cabeceira para o tema, desde então, é Managing Knowledge – a Web Based Approach (Applehans, Globe,Laugero – Addison Wesley Information Technology Series, 1999).

Ao colaborar com a Comunidade Solidária, conheci Augusto de Franco e com ele entendi a lógica dos “aminoácidos do desenvolvimento”, que são a democracia, a cooperação sistêmica, o empreendedorismo e a organização em redes.

A publicação Aminoácidos (edição 1, AED, 2001,) foi fundamental no desenvolvimento de minha metodologia de análise de situação e desenho de programas de informação, comunicação e gestão do conhecimento, sobretudo por apresentar uma abordagem bastante objetiva da questão da congruência organizacional nos meios interno e externo. O capítulo Sistema Conceitual da AED é emblemático e sintetiza o DNA das organizações tendentes à sobrevivência.

Em 2001, montei a empresa Heliocêntrica TIPG e prestei diversas consultorias a empresa, órgãos governamentais e não governamentais e mesmo pessoas físicas. Desenvolvi vários marcos referenciais de comunicação, modelos de informação e comunicação baseados em mídia digital e alguns sistemas pioneiros de gestão de conteúdo online.

Seria desnecessário ocupar espaço com a importância dos novos meios e a revolução decorrente dos potenciais por eles oferecidos. Fica aqui um referência que considero fundamental, o livro The Skin of Culture (De Kerckhove, Derrick – Sommerville, 1995)

Um tema que estudei bastante nesse período foi identidade corporativa, um elemento que via sendo mal aproveitado nas organizações, geralmente preocupadas somente com manifestações epidérmicas como papelaria, publicações, folders e banners. Sugiro a leitura de The New Guide to Identity (Ollins, Wolff – Gower/The Design Council, 1995) para quem resolver adotar uma postura mais séria sobre o assunto.

Escrevi sobre os temas acima nas edições 4 e 5 de Aminoácidos e em outras publicações, principalmente eletrônicas. Esses textos estão disponíveis no sitio www.mariosalimon.com e no blog a ele vinculado.

No ano de 2005, aceitei um contrato de longa duração com o IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), com quem desenvolvi uma colaboração bastante frutífera. Nos quase quatro aos que passei com eles, trabalhamos com bastante sucesso os temas de informação, comunicação e gestão do conhecimento, criando um modelo teórico/funcional de excelente custo-benefício para a organização.

No IICA, investi muito no estudo da economia do conhecimento, psicologia organizacional, da gestão da estratégia e, como decorrência, do método Balanced Scorecard, no qual acabei sendo treinado e certificado. Dessa fase, destaco as seguintes publicações, que me foram indicadas por especialistas das respectivas áreas:
• Principles of model building – the construction of models for decision analysis (Rivett, Patrick – Wiley, 1972)
• Psicologia social das organizações (Katz, Daniel/Kahn, Robert – Atlas, 1966)
• Intangibles – management, measurement and reporting (Lev, Baruch – Brookings, 2001)
• Balanced Scorecard – translating strategy into action (Kaplan, Robert/Norton, David – Harvard business Press, 1996)
• Balanced Scorecard Step-by-Step for Government and Nonprofit Agencies (Niven, Paul – Wiley, 2003)

Durante todos esses anos, segui acompanhando a mobilização de Augusto, com suas Cartas DLIS e seus desdobramentos, até a atual Carta Rede Social e a Escola de Redes.

Acho que não teria referencias sobre o tema que já não tivessem sido postos na mesa a esta altura, sobretudo todos os livros de Augusto. Mas, no momento em que resolvi participar do movimento e apoiar a criação do Nodo Brasília da Escola de Redes, entrava em uma nova fase profissional, justamente muito demandante no que toca a mobilização de redes potenciais de pessoas.

Em setembro de 2008, assumi a gerência de comunicação da Fundação AVINA, com o desafio de colaborar com uma organização predominantemente virtual (por oposição a presencial e centralizada), geograficamente dispersa e trilingüe.

O primeiro desafio que recebi foi trabalhar no projeto de uma nova intranet, como principal ferramenta de uma estratégia de comunicação interna, que imaginei ser factível com a criação de comunidades de prática. Neste momento, estou lendo os seguintes livros, como apoio aos processos de desenho desses projetos:
• A promessa da política (Arendt, Hannah – Difel, 2008)
• Cultures and organizations – software of the mind (Hofstede, Geert/Hofstede, Gert Jan – McGrawHill, 2005)
• Groundswell (Li/Bernoff – Harvard Business Press, 2008)
• Presentation Zen (Reynolds, Garr – New Riders, 2008)
• Novas visões (de Franco, Augusto - Escola de Redes, 2008)

Vejo minha colaboração no projeto da Escola de Redes com uma ênfase no tema da comunicação, pois é o fator de agregação do grupo com o qual me relaciono.

Minha visão profissional sobre o tema das redes é de que são potenciais dormentes. Podem resultar de construções sistemáticas, decorrentes de estratégias organizacionais que são análogos de circuitos (des)integrados, ou, simplesmente, por forças culturais, como as eólicas ou hídricas, que vão cavando canais e comunicando compartimentos estanques de maneira aleatória, casual.

Por serem potenciais, vão se realizar quando os circuitos, no sentido da energia, e não social, forem fechados, quando houver uma indução ou mobilização. Vão se estagnar quando houver uma obstrução, quando a energia investida acabar ou o trabalho, no sentido mesmo da física, for realizado. É isso que dói nas organizações: aceitar que devem ter fim e não ser um fim em si mesmas.

Portanto, ficou claro para mim que as redes não se decretam, mas podem ser objeto de atenção dos gestores, sempre que estes se abstiverem da tentação do controle. Nesse sentido, concordo plenamente com Augusto quando diz que redes de organizações são inviáveis. Elas sempre tentarão aplicar seus sistemas estratégicos e programas verticais sobre a rede, gerando obstruções.

Mas as motivações das redes de pessoas podem ser entendidas como uma co-missão para as organizações. Seu modo de funcionamento pode ser uma lição de governança e seus protagonistas podem ser atores importantes em um esquema de muitos benefícios a poucos custos.

Porém, isso vai muito ainda pelo caminho teórico, e por isso Augusto insiste na experimentação como um elemento da Escola de Redes. Agora, é preciso aceitar que isso não trivial nem fácil. Há muito trabalho pela frente.

Exibições: 73

Respostas a este tópico

Legal, Sua historia, visão e experiência Mario!

Estive no lançamento do nódulo Brasília da Escola de Rede. Fui convidado pelo amigo Everardo Aguiar. Meu interesse em aprender mais sobre as redes, se faz atualmente pelo fato de estar em uma proposta de desenvolvimento comunitário a ser exercido nas superquadras do plano piloto de Brasília que tem por estratégia criar uma “REDE DE SUPERCOMUNIDADES 21”.

Aproveitando que temos umas das áreas com maior inclusão digital do país, podendo assim aproveitar as potencialidades possibilitadas pelas ICTs de forma inteligente e criativa. Quero ver a possibilidade de ter maior liberdade para dialogar o aperfeiçoamento das idéias e da aplicação da mesma contigo. Atualmente temos uma cooperação do conselho comunitário da asa sul e do conselho de segurança de Brasília para exercer a idéia. Mais vejo que alguns eixos a qual necessitaremos de atuar deverá estar em constante aperfeiçoamento teórico e pratico. Daí o interesse "positivo" de ter uma comunicação mais estreita contigo !

Saudações Fraternas,

João Paulo
Caro joão Paulo
Obrigado pelo comentário. Conte mais sobreo projeto no Bolg de nosso grupo, pois, assim, todos poderemos ver como apoiar essa iniciativa interessante.
Abraço,



João Paulo disse:
Legal, Sua historia, visão e experiência Mario!

Estive no lançamento do nódulo Brasília da Escola de Rede. Fui convidado pelo amigo Everardo Aguiar. Meu interesse em aprender mais sobre as redes, se faz atualmente pelo fato de estar em uma proposta de desenvolvimento comunitário a ser exercido nas superquadras do plano piloto de Brasília que tem por estratégia criar uma “REDE DE SUPERCOMUNIDADES 21”.

Aproveitando que temos umas das áreas com maior inclusão digital do país, podendo assim aproveitar as potencialidades possibilitadas pelas ICTs de forma inteligente e criativa. Quero ver a possibilidade de ter maior liberdade para dialogar o aperfeiçoamento das idéias e da aplicação da mesma contigo. Atualmente temos uma cooperação do conselho comunitário da asa sul e do conselho de segurança de Brasília para exercer a idéia. Mais vejo que alguns eixos a qual necessitaremos de atuar deverá estar em constante aperfeiçoamento teórico e pratico. Daí o interesse "positivo" de ter uma comunicação mais estreita contigo !

Saudações Fraternas,

João Paulo
voce tem razao, é uma ótima ideia. Realmente, muita gente tem um sonho assim como vc, mas nem sempre se consegue sussesso é uma maneira de realizar-se de alguma maneira como jornalista. Resta saber se há pessoas interessadas na contrução deste processo.
Beth
Esse processo pode ser induzido mas não decretado. Essa foi uma das primeiras lições que aprendi sobre redes. Obrigado pelo comentário!

Horacia Alves Lopes disse:
voce tem razao, é uma ótima ideia. Realmente, muita gente tem um sonho assim como vc, mas nem sempre se consegue sussesso é uma maneira de realizar-se de alguma maneira como jornalista. Resta saber se há pessoas interessadas na contrução deste processo.
Beth
Joao Paulo,

Como podemos conhecer melhor a proposta de desenvolvimento comunitario nas superquadras?

Tenho interesse em saber mais.

Abraço

Fabio

João Paulo Brandão Barboza disse:
Legal, Sua historia, visão e experiência Mario!

Estive no lançamento do nódulo Brasília da Escola de Rede. Fui convidado pelo amigo Everardo Aguiar. Meu interesse em aprender mais sobre as redes, se faz atualmente pelo fato de estar em uma proposta de desenvolvimento comunitário a ser exercido nas superquadras do plano piloto de Brasília que tem por estratégia criar uma “REDE DE SUPERCOMUNIDADES 21”.

Aproveitando que temos umas das áreas com maior inclusão digital do país, podendo assim aproveitar as potencialidades possibilitadas pelas ICTs de forma inteligente e criativa. Quero ver a possibilidade de ter maior liberdade para dialogar o aperfeiçoamento das idéias e da aplicação da mesma contigo. Atualmente temos uma cooperação do conselho comunitário da asa sul e do conselho de segurança de Brasília para exercer a idéia. Mais vejo que alguns eixos a qual necessitaremos de atuar deverá estar em constante aperfeiçoamento teórico e pratico. Daí o interesse "positivo" de ter uma comunicação mais estreita contigo !

Saudações Fraternas,

João Paulo
Mario,

Sua experiência tem sido riquíssima. Obrigado por compartilha-la conosco.

abraços

Fabio
Obrigado Fabio. Isso me anima a seguir.


Fabio Henri disse:
Mario,

Sua experiência tem sido riquíssima. Obrigado por compartilha-la conosco.

abraços

Fabio
A propósito Mario e demais membros do NODO de Brasília,

Não poderíamos realizar uma reunião informal do NODO para troca de experiências e outras conversas?

abraços

Fábio
Podemos sim Fabio. Estou saindo para duas semanas de viagem, mas podemos combinar algo para a segunda quinzena de novembro. A idéia é muito boa.



Fabio Henri disse:
A propósito Mario e demais membros do NODO de Brasília,

Não poderíamos realizar uma reunião informal do NODO para troca de experiências e outras conversas?

abraços

Fábio
Vamos organizar isso então. Vou acionar o João Paulo também.

Mário Salimon disse:
Podemos sim Fabio. Estou saindo para duas semanas de viagem, mas podemos combinar algo para a segunda quinzena de novembro. A idéia é muito boa.



Fabio Henri disse:
A propósito Mario e demais membros do NODO de Brasília,

Não poderíamos realizar uma reunião informal do NODO para troca de experiências e outras conversas?

abraços

Fábio

RSS

© 2017   Criado por Augusto de Franco.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço