Escola de Redes

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Estamos vivendo agora a transição para a sociedade-rede ou o estilhaçamento do mundo único hierárquico em múltiplos mundos altamente conectados segundo um padrão cada vez mais distribuído do que centralizado, que aponta, inegavelmente, para uma democratização (no sentido “forte” do conceito) das sociedades.

Neste momento de transição, a grande tentação dos chamados “educadores” é pegar a onda dos novos processos interativos, que já começam a se manifestar, para melhorar a escola, tentar complementá-la ou modernizá-la montando uma escola ou para-escola dita "alternativa" ou "nova". Ou para organizar uma “universidade do futuro”, uma “universidade da sustentabilidade” ou da “singularidade”, uma “universidade aberta” ou do “livre pensamento” – o que for. Todas essas tentativas tendem a reproduzir a velha escola e a velha Universidade.

Maquiagens e alterações de denominações nada mudarão. Uma escola que recebeu um novo nome será uma escola com novo nome. Uma universidade diferente continuará sendo uma Universidade.

Mesmo se mudarmos as denominações dos atores, nada acontecerá. Professores continuarão sendo professores quando chamados de facilitadores, tutores, catalisadores ou animadores – se o padrão de ensino for mantido. E alunos não deixarão de ser alunos só porque passamos a batizá-los de aprendentes, participantes ou interagentes do processo de aprendizagem – se o fluxo da aprendizagem tiver que escorrer por um caminho pré-cursado. Desde que permaneça a relação professor-aluno, com estes ou outros nomes, permanecerá a escola.

Introdução de tecnologias de ponta – como a utilização de um computador conectado por aluno em sala de aula ou à distância ou a adoção generalizada de mídias sociais (do tipo: “Todo mundo agora fazendo exercícios e provas no Facebook”) – e outras tentativas de aggiornarmento que mantenham a relação vertical fundante da escola, nada mudarão.

Sim, a escola é o problema. Se a Universidade não fosse uma escola (como burocracia do ensinamento), não haveria metade do problema (a outra metade do problema diz respeito à supervivência de uma corporação sacerdotal que valida o conhecimento e impõe normas ao acesso e à geração de conhecimento válido). Se a Universidade fosse uma rede transdisciplinar de pesquisa onde os pesquisadores fossem livres para se associar uns aos outros e para traçar seus próprios caminhos de pesquisa – aprendendo enquanto pesquisam – não haveria problema. Acontece que ela – a Universidade – é, fundamentalmente, escola (em duplo sentido: como burocracia do ensinamento e como centro disciplinador de fluxos para impedir ou restringir a livre invenção).

Ocorre que estamos descobrindo que proteger as pessoas da experiência da livre aprendizagem (a escola como estrutura centralizada de ensino) e protegê-las da experiência da livre invenção (a escola como centro autorizador de conhecimento válido e de processos capazes de gerar conhecimento válido) é a mesma coisa. Como essas relações são transitivas, o inverso também é verdadeiro: livre-invenção é aprendizagem e livre-aprendizagem é desensino.

Mas o que fazer então? Como podemos substituir essa instituição milenar (a escola) e, consequentemente, esse seu espichamento vertical corporativo secular (a Universidade)?

Substituir, stricto sensu, não podemos. E não podemos nem adivinhar o que virá porque o que virá não será uma coisa, uma instituição, um tipo de organização e sim expressões de novos processos, múltiplos e diversos. Serão novas constelações de miríades de processos.

Isso significa que não há um modelo. Nos Highly Connected Worlds do terceiro milênio não haverá mais uma instituição universal para ser espelhada e replicada em todas as sociedades como se todas fossem a mesma sociedade. Serão muitos processos – multiversais – em constituição. Como não levaremos mais a sério as abstrações regressivas e cognatas chamadas de “a sociedade” e “a educação”, cada sociosfera que se conformar terá os seus modelos de multiversidade (13).

Mais uma vez, em determinadas condições e dentro de certos limites, acontecerá o que formos capazes de imaginar.

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