Escola de Redes

Pierre Levy (2010) tuitou recentemente que as universidades não têm mais o monopólio do conhecimento, apenas do diploma. É difícil discordar da sentença. Cabe agora ver por quê. E o quê surgirá no lugar dessas instituições medievais que remanescem na contemporaneidade.

Universidades são instituições que têm sua origem na passagem do primeiro para o segundo milênio da Era Comum. As primeiras universidades eram, com perdão do trocadilho (mas é mais do que um trocadilho), “univercidades”. Pois não eram instituições de países ou regiões de Estados nacionais (que àquela época inexistiam como tais) e sim de cidades. Tirando Karueein (c. 859) e Al-Azhar (c. 988), situadas, respectivamente, no Fez (Marrocos) e no Cairo (Egito), que eram madrassas (mais resistentes ao processo de laicização), as primeiras universidades surgiram no século 11, na Europa: em Bolonha (1088), Paris (1090) e Oxford (1096).

Há uma controvérsia sobre essas datas, porquanto não havia o conceito atual de Universidade como instituição pluridisciplinar. Assim, Paris só se transformou em um centro de ensino local mais aberto em 1170, ou depois, conquanto já existisse como escola na Catedral de Notre-Dame. Diz-se que Oxford já existia, mais ou menos nessa mesma condição, desde 998. O papa e os bispos e, em alguns casos, os reis e imperadores, os dois últimos, na maior parte dos casos, em associação com os primeiros, eram responsáveis pela fundação e direção dessas instituições, herdeiras, talvez, das regulações estabelecidas, desde o século 9, pelo sacro império romano. Fala-se de uma “reforma educacional” de Carlos Magno, que teria sido elaborada pelo monge inglês Alcuíno.

De qualquer modo, foi mesmo no dealbar do segundo milênio (ou entre os séculos 12 e 13, como querem alguns) que surgiram esses centros de transmissão de ensinamento que se tornariam laicos, abrindo o ensino mais fechado que era ministrado pelas ordens religiosas nos mosteiros, nas catedrais e em outras igrejas (lato sensu). De sorte que as universidades surgem das igrejas e – obviamente para alguns, mas não para todos – surgem também como igrejas. Não porque, na maioria dos casos, fosse o hierarca episcopal (de alguma cidade ou mesmo de Roma – i. e., o papa – às vezes) que nomeava os professores e controlava tudo que era transmitido e sim porque seu regime de funcionamento permaneceu seguindo uma racionalidade sacerdotal (não rompendo, nesse particular, com as primeiras escolas organizadas – mais de 4 milênios antes – pelos sacerdotes na antiga Mesopotâmia). Foi assim, a despeito de terem surgido no seu seio pesquisadores com uma visão mais científica nos termos atuais, como Roger Bacon (1215-1294), Guilherme de Ockham (1290-1349) e Alberto Magno (1193-1280).

A organização universitária (e escolar em geral) passou por várias transformações ao longo do renascimento, das luzes, e da chamada idade moderna, mas partes importantes do seu “DNA” permaneceram inalteradas (alguns desses traços genéticos já devem ter cerca de cinco a seis mil anos, posto que foram herdados das instituições de ensino sumerianas e replicados). Eram, basicamente, instituições de ensino, nas quais professores (mestres) transmitiam um ensinamento aos alunos (discípulos) (1).

A Universidade que chegou até nós é uma instituição europeia medieval, que surgiu acompanhando “o renascimento das cidades, o desenvolvimento das corporações de ofícios, o florescimento do comércio, o aparecimento do mercador” (2), sob a provável influência das escolas árabes e das antigas escolas monacais europeias e do Oriente próximo. Mas talvez nada disso tenha sido tão determinante quanto a intenção de controle e influência sobre a sociedade por parte de seus instituidores: a realeza e o papado.

Estava em disputa (entre a realeza e o papado) a governança das cidades e a hegemonia sobre o cidadão – um novo tipo de agente surgido com a urbanização medieval europeia. A vida social começava a se realizar nas cidades, o comércio florescia nas cidades, parte do trabalho produtivo acontecia pela primeira vez também nas cidades e até as ordens religiosas (como a dos dominicanos e a dos franciscanos) começaram a se instalar e a fazer seu proselitismo – e, em alguns casos, sua mendicância – nas cidades. Em Bolonha, aliás, já havia ocorrido um fato tão curioso quanto significativo: em 1158 o imperador Frederico I promulgou um estatuto universitário (Constitutio Habita) que reconhecia, para todos os efeitos práticos, a instituição como uma cidade-Estado! A Universidade se consolidava como uma univercidade autocrática.

O aparecimento das universidades representou uma inovação. Como escreveu Lusignan (1999), foi uma mutação importante o surgimento de instituições precipuamente baseadas no saber e dedicadas ao estudo. Ainda que esse saber e esse estudo continuassem organizados, como em qualquer escola, a partir do ensino e não da aprendizagem. E é o próprio Lusignan que aponta um elemento central dessa organização: ela é uma corporação (3). Uma corporação de sábios estudiosos que se destaca da massa dos ignorantes. As crenças que se formaram em torno desse movimento vão realimentar, tempos depois, a idéia platônico-socrática – e autocrática – do governo dos sábios. As raízes da meritocracia e da tecnocracia modernas estão misturadas às das universidades, que surgiram e se consolidaram como instituições avessas (ou pelo menos infensas) à democracia, no sentido “forte” do conceito (4).

Mas tudo isso foi, inegavelmente, uma revolução... na época em que aconteceu! Hoje, porém, o caráter progressista desse desaprisionamento do saber dos mosteiros e das demais organizações religiosas e a sua pretensa universalização em instituições corporativas e civis, citadinas e laicas (até onde isso era possível), não consegue mais esconder características francamente regressivas. Porque o saber permaneceu fechado, nas mãos de uma corporação. O conhecimento foi reaprisionado por uma nova hierarquia do saber – uma burocracia sacerdotal do ensinamento capaz de se replicar por meio de ordenação (outorga de títulos, diplomas e graus aos que são reconhecidos como capazes de reproduzir a ordem do conhecimento aceita pela corporação) e um “tribunal epistemológico” encarregado de julgar a validade desse conhecimento, não mais com base na revelação e nos textos sagrados e sim em pressupostos, em boa parte igualmente não-científicos, do affair científico.

No fundamental manteve-se, nas universidades, aquilo que caracteriza qualquer escola, religiosa ou laica: a transmissão de um ensinamento pré-existente por meio da relação de mão-única professor-aluno (ou mestre-discípulo), a separação entre um corpo docente e um corpo discente e a visão do conhecimento como conteúdo arquivável e transferível e não como resultado de interação social.

Mesmo quase um milênio depois, manteve-se, nas universidades, a topologia de rede mais centralizada do que distribuída que caracteriza as hierarquias (religiosas ou laicas).

O surgimento da Universidade (medieval) foi uma expressão do mundo (medieval), da cidade (medieval), da topologia da rede social da época, dos seus baixos graus de distribuição, conectividade e interatividade. Nos mundos altamente conectados que estão emergindo no terceiro milênio, não haverá mais lugar para algo como uma uni-versidade. Em termos sociais já estamos em um multiverso (distribuído) não em um (único) universo (centralizado). Assim, precisamos agora de multi-versidades. A cidade vertical, murada e fortificada, administrada autocraticamente, onde surgiu a univercidade, dará lugar agora à cidade-rede onde surgirá a multivercidade democratizada.

Por quê? Vejamos algumas constatações de insurgências e percepções de descobertas e tendências recentes (5):

  • O conhecimento não pode mais ser aprisionado e, portanto, esvai-se o monopólio das corporações do ensinamento. Os caminhos de acesso ao conhecimento deixam de ser únicos (hierarquias) e tornam-se múltiplos (redes).
  • Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio quem organiza o conhecimento é a busca. Toda organização do conhecimento para os outros corresponde a necessidades de alguma instituição hierárquica e está sintonizada com seus mecanismos de comando-e-controle. Toda organização do conhecimento de cima para baixo procura controlar e direcionar o acesso à informação por algum meio. Os organizadores do conhecimento para os outros ainda entendem conhecimento como “informação interpretada”. Interpretada, é claro, do ponto de vista de seus possíveis impactos sobre a estrutura e a dinâmica das organizações hierárquicas de que fazem parte. Pretendem, assim, induzir a reprodução de comportamentos adequados à reprodução da estrutura e da dinâmica dessas organizações hierárquicas. Por meio da urdidura de sistemas de gestão do conhecimento – desde os velhos currículos escolares aos modernos knowledge management systems, por exemplo – querem codificar, disseminar e direcionar a apropriação de conhecimentos para formar agentes de manutenção e reprodução de determinado padrão organizacional – o que é uma forma de privatização.
  • Na medida em que a privatização do conhecimento vai se tornando, cada vez mais, impraticável, vão perdendo sentido os esquemas que visam o seu aprisionamento. E assim como está ficando cada vez mais difícil aprisionar o conhecimento, ainda há outra evidência que corrobora essa hipótese: o conhecimento aprisionado estraga. É um bem que cresce quando compartilhado e decresce e perde valor quando não se modifica continuamente pela polinização.
  • Os processos de aprendizagem não dependem mais do ensino e, além isso, a livre-aprendizagem afirma-se cada vez mais como desensino (unschooling).
  • O heterodidatismo vai cedendo lugar ao autodidatismo da busca (já generalizado) e ao alterdidatismo da polinização (em emersão). Experiências de homeschooling reflorescem por toda parte e ensaios de communityschooling começam a surgir em vários lugares.
  • A pesquisa científica individual vai sendo substituída, cada vez mais, pela pesquisa de grupo. O trabalho autoral e fechado vai dando lugar ao trabalho interativo e aberto da colaboração em rede. Em ciência, a peer production já é uma realidade.
  • A memorização e a replicação vão sendo menos recompensadas do que a inovação. Comunidades de aprendizagem em rede vão abandonando a reprodução de conteúdos (antigos) e se dedicando à invenção de conhecimento (novo) a partir da interação. Novos critérios epistemológicos subsumidos nas avaliações de aprendizagem vão legitimando a criação (você só aprende verdadeiramente o que inventa). E processos de co-creation vão abrindo novos caminhos para a aprendizagem alterdidata.
  • Em suma, você não tem mais que aprender o que querem lhe ensinar (para que você se torne apto a reproduzir velhos sistemas ou para desempenhar funções predefinidas ou representar papéis sociais que esperam de você) e sim o que você precisa para desenvolver uma idéia – sua ou que surgiu no seu emaranhado de relacionamentos – ou para realizar um projeto desejado por você e compartilhado com outros.

Quando tudo isso acontece, não cabe mais esperar que as universidades (como escolas que são, quer dizer, burocracias do ensinamento) continuem conformando um ambiente adequado à aprendizagem e à criação. Os ambientes favoráveis à aprendizagem-criação serão outros, serão abertos, serão organizados segundo um padrão de rede, serão diversos e múltiplos. Não serão mais universidades, mas multiversidades. Quer dizer, não serão mais replicações do modelo Universidade, mas expressões diversas do processo Multiversidade.

A Modernidade ficou incompleta porque substituiu apenas em parte as instituições medievais (promoveu o declínio da monarquia constitucional, por certo, mas manteve várias outras, dentre as quais as universidades). Pelo menos em relação a este último ponto chegou a hora de completar a tarefa. Basta de escola: a escola agora é a rede.

Seria o mais razoável. Não vai, porém, acontecer de repente e em todo lugar ao mesmo tempo. Pois parece claro que a Multiversidade não substituirá de pronto a Universidade, mas conviverá com esta última. Escolas e universidades continuarão existindo por muito, muito, tempo. A elas cabe adestrar a mão de obra para as atividades da sociedade industrial, que não desapareceram. Mas não apenas isso.

Escolas são armadilhas de fluxos próprias do mundo hierárquico e são instituintes deste mundo, há milênios. Elas são como aquelas “fazendas humanas”, se quisermos esticar a excelente metáfora da série The Matrix. Universidades, como escolas que são, também podem ser encaradas assim, embora sejam apenas seculares e tenham surgido acompanhando o reflorescimento das sociedades mercantis no alto medievo.

Todavia, nos mundos altamente conectados que estão emergindo, o que chamamos de educação não se parecerá em nada com o que foi até agora. Talvez a “substituição” comece pelos mundos que já vivem na sociedade do conhecimento, ou melhor, nas sociosferas que não estão organizadas em função das atividades industriais.

Depois de algum tempo acontecerá com as universidades o que ocorreu com o Fax (toda empresa ou órgão governamental ainda tem lá seu velho aparelho de facsímile meio aposentado). Escolas e universidades perdurarão, portanto: lateralmente em um primeiro momento e vestigialmente depois. Não serão destruídas: simplesmente ficarão obsoletas. Na passagem do terceiro para o quarto milênio talvez ainda sejam encontrados vestígios dessas instituições (sobretudo nos museus, espera-se).

Neste texto vamos discutir em que medida já é possível antecipar as mudanças da Universidade dos anos 1000 para a Multiversidade nos anos 2000.

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