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Máquina em transe

Por que a sociedade em rede e, por extensão, a revolução digital é uma tendência? Este grupo pretende elaborar esta questão no sentido de relacionar a revolução digital às formas de subjetivação contemporâneas.

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Comentário de Augusto de Franco em 9 julho 2010 às 12:38
Como provocação é ótimo, caro Benjamin. Mas suspeito que, para você, é mais do que uma provocação (ao estilo "advogado do diabo"). Vejamos.

Você diz:

1 - Com hierarquia é possível planejamento de longo prazo, tipo: criar escolas e hospitais em lugares pobres que não conseguem se organizar - afinal, nem todos conseguem ser colaborativos.

Eu opino:

Todos os lugares (sócio-territorialidades) são colaborativos na razão inversa dos graus de centralização da sua rede social (quer dizer, da hierarquia). Você tem razão: com hierarquia é possível criar escolas. Digo: infelizmente, porém. Sem hierarquia, não haveria necessidade de escolas, quer dizer, de burocracias sacerdotais do ensinamento.

Você diz:

2 - com hierarquia há uma direção, para o bem e para o mal. Há um sentido histórico, dá pra separar bem do mal. na sociedade em rede, no puro fluxo de informações, não pode haver verdade, apenas opiniões que criam mais dissidências do que interação, ou seja, podemos estar conectados, mas profundamente sozinhos, ensimesmados no narcisismo das pequenas diferenças.

Eu opino:

Helas! O bem separado do mal é o problema. Separar as duas coisas é a operação básica da hierarquização (é a mesma separação do inconsciente do consciente, entendendo inconsciente como tudo aquilo que deixamos de ser conscientes). Não há um sentido histórico, a história não tem sentido algum (nenhuma imanência ou transcendência) a não ser aquele que lhe atribuímos. A história não vai para lugar algum: nós é que vamos (ou não vamos). Há duas terríveis confusões - a meu ver - neste tópico 2: a) na apreensão de rede: redes não são fluxos de informações, são apenas fluxos. b) a livre opinião não cria dissidência (esta, aliás, é uma afirmação perigosíssima do ponto de vista da democracia). A expressão "apenas opiniões", que desvaloriza a opinião (doxa) em relação ao saber (episteme ou tecné), é uma operação sacerdotal que cria hierarquia e autocracia. Os seres humanos podem se autoconduzir coletivamente a partir da interação de suas livres opiniões (este é o genos da democracia).

Você diz:

3 - Na hierarquia existe o inimigo. Derrota-se o algoz e há experança. Na sociedade em rede há angustia da falta de sentido histórico.

Eu opino:

Não há sentido histórico algum (como comentado acima) a não ser aquele que atribuímos. Noto aqui como estão profundamente fundeadas, no subsolo dos preconceitos, as hipóteses marxianas sobre a necessidade de um deus imanente à máquina (para substituir o deus ex machina).

Você diz:

4 - Na sociedade em rede não pode haver ética, apenas fluxo de opiniões que se consolidam no valor de mercado, ou seja, tudo pode desde que se venda. Clonagem humana, vida artificial, inteligência artificial, enfim, qualquer coisa que aumente os fluxos de informação.

Eu opino:

Novamente constato como o peso de um Marx morto pode oprimir como um pesadelo o cérebro de um Benjamin vivo. A interação da livre opinião não é regulada pelo modo de agenciamento que chamamos de mercado e sim por outro modo (que se chama de sociedade ou rede social). A visão deste tópico 4 assevera autocraticamente que somente em uma sociedade hierárquica (e autocrática, inevitavelmente) pode existir ética.

Você diz:

5 - Com hierarquia é mais fácil reconhecer os destacáveis.

Eu opino:

O ideal não pode ser alguém se destacar dos semelhantes e sim se aproximar deles.

Você diz:

Bom ... a lista pode se estender. Acho que não precisamos colaborar para o fim da sociedade autocrática, pois a lógica contemporânea já é a de queda da ordem paterna. A pergunta deve ser outra: como recriar instituições que preservem o que há de "bom" na hierarquia na sociedade em rede? Afinal, não estamos mais em transição, já vivemos a sociedade de controle, mas nossas instituições são disciplinares e, por isso, não respondem mais à sociedade, senão a si mesmas.

Eu opino:

A sociedade em rede não é a sociedade de controle e sim a sociedade da regulação emergente. Só há controle onde há hierarquia.
Comentário de Benjamin L Franklin em 9 julho 2010 às 11:42
Caros,

acho que precisamos começar a listar o lado bom e o lado ruim, tanto da sociedade hierárquica, quanto da sociedade em rede. Tentarei começar defendendo a sociedade autocrática.

1 - Com hierarquia é possível planejamento de longo prazo, tipo: criar escolas e hospitais em lugares pobres que não conseguem se organizar - afinal, nem todos conseguem ser colaborativos.

2 - com hierarquia há uma direção, para o bem e para o mal. Há um sentido histórico, dá pra separar bem do mal. na sociedade em rede, no puro fluxo de informações, não pode haver verdade, apenas opiniões que criam mais dissidências do que interação, ou seja, podemos estar conectados, mas profundamente sozinhos, ensimesmados no narcisismo das pequenas diferenças.

3 - Na hierarquia existe o inimigo. Derrota-se o algoz e há experança. Na sociedade em rede há angustia da falta de sentido histórico.

4 - na sociedade em rede não pode haver ética, apenas fluxo de opiniões que se consolidam no valor de mercado, ou seja, tudo pode desde que se venda. Clonagem humana, vida artificial, inteligência artificial, enfim, qualquer coisa que aumente os fluxos de informação.

5 - Com hierarquia é mais fácil reconhecer os destacáveis.

Bom ... a lista pode se estender. Acho que não precisamos colaborar para o fim da sociedade autocrática, pois a lógica contemporânea já é a de queda da ordem paterna. A pergunta deve ser outra: como recriar instituições que preservem o que há de "bom" na hierarquia na sociedade em rede? Afinal, não estamos mais em transição, já vivemos a sociedade de controle, mas nossas instituições são disciplinares e, por isso, não respondem mais à sociedade, senão a si mesmas.

Abraço a todos!
Comentário de Benjamin L Franklin em 23 junho 2010 às 20:11
Oi Marcelo,
entendo o que vc quer dizer, mas vejo a troca justamente como o contrário da escassez... explico: quando trocamos algo, com a moeda, significa que estamos quites, ou seja, criamos um sistema de equivalências, por isso, parece que tem uma escassez, mas, se vc olhar bem, não tem - pq a moeda tem esse fator de comum. Entendo que vc está aplicando a lógica da dádiva, na linha do moss (o antropólogo) dizendo, justamente, que a troca que vc tá fazendo com a ong não se neutraliza, como a moeda, que torna todos quites uns com os outros, mas se perpetua com novas dívidas e isso faz parte do ciclo da dádiva. Acho que essa lógica da dádiva, onde não basta uma troca financeira, é, justamente, a prerrogativa do capitalismo do século XXI.

Acho que o capitalismo contemporâneo - Augusto, veja que gostaria de achar outra palavra para usar, mas não acho - pede justamente um compromisso subjetivo - claro. Hoje o lance não é ter grana, mas ser realizado - ter plena correspondência entre a forma subjetiva e sua contraparte objetiva ... é ser UM, muito diferente do século XX, quando isso não entrava em questão.

Bom, resumindo, quero chamar a atenção, justamente, para esse aspecto de colonização subjetiva do capital. E acho que o futuro é da lógica da dádiva, não por retorno ao tribalismo, mas por sofisticação do capitalismo - putz ... preciso achar outra palavra pra isso.

Abraços
Comentário de Augusto de Franco em 23 junho 2010 às 16:53
O conceito de capital social é muito bom: é o antepassado (tocquevilliano - o "governo civil" -, definido com o sentido atual por Jane Jacobs) em linha direta, da idéia de rede social. No entanto a expressão capital social é ruim: 'capital' evoca economia e 'social' evoca sociologia, mas o construct é geneticamente político. Por isso tenho usado a expressão rede social.
Comentário de Benjamin L Franklin em 23 junho 2010 às 16:05
Oi Augusto,
Concordo que a economia é uma maquininha ideológica pela qual organizamos o social. A questão é que ela tem um poder de sedução, afinal mobiliza o trabalho dos corpos. Não é atoa ... e para modificar esse mecanismo, precisamos entender essas seduções.

cidades vinvisíveis rules!
[]s
Comentário de Benjamin L Franklin em 23 junho 2010 às 15:41
uau ... Augusto.

... e vc adora a palavra "capital social", que deveria ser evitada também, conforme sua prescrição.

[]s
Comentário de Marcelo Estraviz em 23 junho 2010 às 12:50
"troco" as comunidades imaginárias de westfália pelo cidades invisíveis do calvino (aí fica faltando só a 43 e a 125 do meu album da copa)

:)
Comentário de Augusto de Franco em 23 junho 2010 às 12:41
Caro Ben jamin

Virou mexeu lá vem você com capital, mercadoria, circulação, troca, valor... "Salário, preço e lucro" (hehe, não sei porque me veio à cabeça o velho Marx).

Desisti de discutir nesses termos quando cheguei à conclusão, para muitos surpreendente de que Economics foi a mais engenhosa e enganosa urdidura ideológica criada a partir do espanto com o crescimento. Sim, quando se deram conta disso - de que poderia haver crescimento - resolveram criar uma máquina para tentar replicar, num mundo de suposições básicas cujo cunho era obviamente religioso, os mecanismos pelos quais tal ocorria, com as novas comunidades imaginárias surgidas, poucas séculos antes, da Paz de Westfália (o modelo europeu de Estado-nação, um fruto da guerra, que depois se deram ao trabalho de dizer que era um modelo universal... e foi por aí, culminando com a loucura de Hegel até rastejar novamente com Marx).
Comentário de Benjamin L Franklin em 23 junho 2010 às 11:47
Oi Marcelo,

é algo nessa linha aqui
to saindo ... depois comento.

ps: tudo ok
Comentário de Marcelo Estraviz em 23 junho 2010 às 11:41
benjamin,

eu acho que fica uma discussão do ovo e da galinha. quando citas a moeda, já estamos considerando uma ação que ocorreu após a hierarquização da economia de escassez. então fica como dizer que tem alface no hamburguer, e isso é saudável. oras, o hamburguer não o é.

a troca já é uma lógica de escassez. veja: eu tenho algo, você tem outro algo. troquemos. mas vamos agora imaginar aquela tribo proto-sedentária faz uns milênios. eles não tinham ainda colocado muros ao redor de suas casas, nem escondias suas alfaces do menino do vizinho. ainda eram as alfaces de todos, como as gramas e as árvores.

hoje não cabe um retorno ao primitivo mundo tribal, mas sim uma tentativa de neotribalismo (seja isso o que signifique, ainda estou tentando entender). daniel quinn, do ismael, defende esse neo-algo. que não é um novo comunismo, não é ecovila, não é sociedade alternativa. é um conviver, com uns quantos, no meio de outros milhões. esse quantos estão criando alternativas para esses quantos. ele foca muito na galera do circo nomade. eu acho meio lirismo demais pros dias atuais, onde temos a holding cirque de soleil.

mas acredito sim num neotribalismo mental, ao menos. um desejo sincero de transformar as minhas relações em valores. falando de forma mais prática, estava eu semana passda em uma reunião, onde, voluntariamente vou ajudar uma ONG. ela tem uma história grande mas na ultima decada, está na merda, perdeu o bonde. e me perguntaram como eu posso ajudar e quanto quero por isso (em $$). eu disse que nao quero dinheiro. pois se a ONG se desenvolve, eu me desenvolverei, se eu estiver envolvido na melhoria dessa ong, eu me legitimo pra ganhar outros "clientes". é mais ou menos isso que penso. um ajuda o outro e isso (ainda nao quantificavel e não sei como pode ser) ajuda a todos, e ajudando a todos, ajuda cada um. meio que o tecnobrega, ou o linux.

faz sentido pra você?

ps: e espero que tenha entendido o ocorrido no desistência, ok? em nenhum momento criei atritos contigo. o oposto, isso sim! :)
 

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