Escola de Redes

RECONHECIMENTO DE PADRÕES AUTOCRÁTICOS

Estamos começando a experimentar um projeto de investigação-aprendizagem democrática pelo exercício do reconhecimento de padrões autocráticos (esta parte inicial do projeto é baseada em 10 livros clássicos de ficção e 10 filmes). Mas o projeto é mais amplo: depois ele vai abordar 10 livros históricos e, em seguida, 10 textos teóricos fundamentais de referência (ver a lista completa no final deste post). 

Tudo começa com a leitura e reflexão exploratória na busca de "isomorfismos" (em sentido figurado ou metafórico), ou melhor, de características que permitam o mapeamento entre objetos para desvelar relações entre suas propriedades ou operações. No caso estamos buscando identificar padrões de organização e de regulação que permitam reconhecer a presença - em diferentes manifestações ou eventos - de matrizes hierárquicas e autocráticas próprias do estatismo. O estatismo é definido como um tipo de comportamento político conforme a uma visão estadocêntrica do mundo (que não reconhece, para além do Estado, a autonomia - e, em alguns casos, a legitimidade - de outros modos de agenciamento, como o mercado e a sociedade civil, as comunidades glocais e as redes (mais distribuídas do que centralizadas) de pessoas. 

O estatismo não incide apenas no comportamento político que foi identificado como fascismo (nazismo ou nacional-socialismo), mas também naqueles de raiz marxista (marxista-leninista ou marxista-gramscista) que se declararam socialistas ou comunistas (do socialismo realmente existente) e, ainda, nos diversos tipos de jihadismo (com ou sem Estado formal instalado e reconhecido), como o jihadismo fundamentalista islâmico ou os jihadismos laicos (de caráter nacionalista e, via de regra, militarista), nas teocracias (como a iraniana) e nas ditaduras em geral e, por último, nas formas híbridas (como o neoexpansionismo da Rússia de Putin que pretende reeditar a guerra fria e a política de blocos - neste caso apenas como pretexto para consolidar uma hegemonia de longa duração de um grupo privado sobre a sociedade russa a partir do Estado controlado pela FSB).

Um exemplo de reconhecimento de padrões é o culto necrófilo do trabalho: A <=> B | A = Na entrada dos campos de concentração nazistas (como Auschwitz I e Sachsenhausen, Dachau, Gross-Rosen e Theresienstadt, Auschwitz III / Buna / Monowitz e Flossenbürg), bem em cima de portões de ferro, havia a frase: Arbeit macht frei (O trabalho liberta) | B = Na entrada dos campos de concentração soviéticos (Gulag), em geral em lugar bem visível, havia inscrições com frases de Josef Stálin. Uma delas era: "Honra e glória ao trabalho, exemplo de entrega e heroísmo".

Quando se trata de padrões de organização ou comportamento, isomorfismos (lato sensu) são pistas de deciframento. Mas a "ciência" de reconhecimento de padrões está apenas começando.

Usamos a palavra isomorfismo em sentido figurado (e deslizado do seu sentido matemático original). Na álgebra abstrata, um isomorfismo é um homomorfismo bijetivo. Duas estruturas matemáticas são ditas isomorfas se há um mapeamento um-para-um entre os elementos das suas estruturas matemáticas. Essencialmente, dois objetos são isomorfos se eles são indistinguíveis com base apenas na seleção de suas características correspondentes. Isomorfismo é então o mapeamento entre objetos que mostra um relacionamento entre duas propriedades ou operações. Como toda metáfora é imperfeita e corre alto risco não ser bem-entendida.

Vejamos mais um exemplo. Robert Paxton (2004), em Anatomia do Fascismo, conta a seguinte passagem:

"O cabo Adolf Hitler, de volta ao serviço ativo no IV Comando dos Grupos do Exército, em Munique, após se recuperar da cegueira histérica que o acometera ao saber da derrota alemã, foi enviado pelo Serviço de Inteligência do Exército, em setembro de 1919, para investigar um dos muitos movimentos nacionalistas que vinham surgindo na desordem do pós-guerra. O Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei - DAP) havia sido criado ao final da guerra por um chaveiro patriota, Anton Drexler. Encontrando um punhado de artesãos e jornalistas que sonhavam em conquistar trabalhadores para a causa nacionalista, mas que não faziam ideia de por onde começar, Hitler se juntou a eles, recebendo o cartão do partido número 555. Ele logo se tornou um dos oradores mais hábeis do movimento e membro de seu comitê diretor.

Em inícios da década de 1920, Hitler foi colocado no comando da propaganda do DAP. Com o auxílio de oficiais do exército simpatizantes, como o capitão Ernst Röhm, e de alguns partidários ricos de Munique, Hitler ampliou em muito a audiência do partido. Perante quase duas mil pessoas reunidas numa grande cervejaria de Munique, o Hofbräuhaus, em 24 de fevereiro de 1920, Hitler deu ao movimento um novo nome - o National-sozialistische Arbeiterpartei (NSDAP, ou o partido "nazi", abreviando) - e apresentou um programa de vinte e cindo pontos que misturava nacionalismo, anti-semitismo e ataques a lojas de departamentos e ao capital internacional. No 1 de abril que se seguiu, deixou o exército para se dedicar em tempo integral ao NSDAP. Cada vez mais, ele era reconhecido como seu líder, seu Führer (termo adotado - assim também como a saudação "Heil" - do líder pan-germânico Georg von Schönerer, muito influente na Viena do pré-guerra)".

Em apenas dois parágrafos temos terabytes de dados para fazer mapeamentos um-para-um (bijetivos). Para quem está trabalhando com reconhecimento de padrões, este é um excelente exercício teórico. Em princípio, tudo é sinal, mas aqui eles abundam. Vamos apresentar, apenas a título de exemplo, algumas pistas:

1) O partido original se chamava Partido dos Trabalhadores (Arbeiterpartei). Por que tanta fixação no trabalho? Como vimos acima, o culto necrófico do poder é um elemento importante. O novo nome desse partido manteve a denominação original, acrescentada do termo National-sozialistische (nacional-socialista). A introdução do termo nacional é de fácil explicação em razão do caráter nacionalista (e do ressentimento com a derrota alemã) do movimento: o nome original já dizia que o partido era dos trabalhadores alemães. Mas por que também socialista?

2) O programa do partido renomeado como Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, já sob a liderança de Hitler, pregava ataques a lojas de departamentos e ao capital internacional. Não há como não fazer uma correspondência (atenção, apenas formal: estamos tratando de isomorfismo e não de intenções subjacentes ou aderentes a conteúdos) com a tática Black Bloc. É bom repetir: não estamos dizendo com isso que os Black Blocs sejam nazistas, pois as relações aqui não são de conteúdo (e não têm nada a ver com ideologia ou visão de mundo). São disposições estruturais que possibilitam - e mais do que isso: ensejam - comportamentos conformes (não por causalidade, mas por condicionamentos recíprocos).

3) Hitler ascendeu no Arbeiterpartei quando foi colocado no comando da propaganda partidária e iniciou uma vigorosa campanha de marketing financiada com doações das elites econômicas (as pessoas ricas) de Munique. As elites financiavam um partido de trabalhadores.

4) Até o momento em que assumiu a posição de mono-líder (um líder único com altagravitatem) e de chefe (ou Führer, condutor), Hitler atuava como agente do Serviço de Inteligência do Exército. Ora, mesmo depois de uma "paz celebrada", inteligência militar continua sendo guerra (essa é a essência característica da construção cultural militar: si vis pacem, para bellum). O paralelo militar na política (que leva à perversão da política como arte da guerra ou como continuação da guerra por outros meios na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin) aparece aqui em estado puro. Hitler era um agente em preparação de conquista de hegemonia no sentido leniniano do termo (que corresponde ao seu sentido original grego de comando de um exército) que exige mesmo a centralização da rede ou a deformação do campo social introduzida pela existência de um Führer.

5) A reunião que simbolicamente marcou a virada do pequeno partido dos trabalhadores (de quadros) em um partido socialista dos trabalhadores (de massa) aconteceu numa grande cervejaria. Os sinais aqui são mais fracos, mas isso não significa que não signifiquem alguma coisa...

Uma infinidade de outros sinais (alguns mais fortes, outros mais fracos) também estão contidos explícita ou implicitamente nos dois parágrafos acima: o ressentimento social (e a vontade de revanche) que levou um artesão a criar um partido dos trabalhadores; a ligação entre um patriotismo-trabalhador do pós-guerra e a ideologia de um pan-germanismo do pré-guerra; a indefinição generalizada (considerada sinal de desordem) sobre "por onde começar" - título de um texto de Lenin (1901) que antecedeu ao seu famoso Que fazer? (1902); a fusão de nacionalismo com socialismo (em maior ou menor grau verificada em todos os movimentos para consertar o mundo a partir de grandes experimentos sociais, sejam considerados de esquerda ou de direita: por exemplo, a fusão da figura de José Martí em Cuba com a trinca Marx-Engels-Lenin, criando o quatérnio em que se baseou por décadas a propaganda castrista); o papel assinalado à propaganda: antes de Joseph Goebbels, o propagandista número 1 era o próprio Adolf Hitler (o caminho da conversão de um cabo do exército em Führer foi o caminho da propaganda, do marketing) e os princípios hitlerianos (e depois goebbelianos) da mistificação das massas pela propaganda política são até hoje adotados em ditaduras, protoditaduras e democracias formais parasitadas por regimes neopopulistas manipuladores e autocratizantes.

Bem... a "ciência" (se é que existirá uma propriamente dita) de reconhecimento de padrões está apenas começando. Ela aqui, neste exemplo, está identificando padrões de hierarquia e autocracia que são próprios do estatismo.

Na verdade, tudo isso é um programa de investigação (todo programa de aprendizagem é um programa de investigação, de vez que reprodução de investigações pretéritas não é realmente aprendizagem e sim ensino). 

Estamos investigando a democracia no que ela é essencialmente (processo de desconstituição de autocracia) e por isso pode-se dizer que é impossível investigar-aprender democracia sem investigar-aprender autocracia. Como estamos há quase seis mil anos vivendo sob autocracias (e tivemos experiências estáveis de democracia em menos de meio milênio e ainda assim, na metade desse tempo, localizadas: no caso em apenas um local, Atenas entre 509 e 322 a. E. C.), toda nossa cultura é basicamente autocrática. A democracia como modo-de-vida (como queria John Dewey) é então um meio de desprogramar cultura autocrática (não no sentido neurolinguístico, da desprogramação do cérebro dos indivíduos e sim da rede social).

Em outras palavras: aprender democracia é desaprender autocracia. Compreendendo o que pode florescer em ambientes sociais fortemente centralizados e nos quais os modos de regulação de conflitos não são democráticos, podemos perceber os sinais e interpretar os sintomas do processo de autocratização da política onde quer que eles surjam, inclusive no interior de regimes formalmente democráticos. Pode-se, inclusive, aprender a detectar as tentativas contemporâneas de autocratização da democracia, baseadas no uso instrumental da democracia no sentido “fraco” do conceito (quer dizer, na utilização de alguns dos mecanismos, instituições e procedimentos da democracia representativa, como o sistema eleitoral), para enfrear o processo de democratização das sociedades, seja pela via da protoditadura (que se caracteriza, fundamentalmente, pela abolição legal ou de facto da rotatividade democrática), seja pelo emprego da manipulação em larga escala, como ocorre nas novas vertentes do populismo que vêm sempre acompanhadas do banditismo de Estado, da corrupção no governo (e nas empresas estatais), da perversão da política (como "arte da guerra") e da degeneração das instituições por meio da privatização partidária da esfera pública e do aparelhamento da administração governamental. De qualquer modo, para conhecer o poder vertical – a sua “anatomia” e a sua “fisiologia”, vamos dizer assim – devemos estudá-lo em estado puro. Depois será mais fácil perceber seus indícios em nosso cotidiano, inclusive quando surgem em uma pequena organização.

Ainda que estudemos textos teóricos sobre a democracia e experimentemos a democracia como modo de administração política do Estado (que foi ao que se reduziu, nos últimos três séculos, a democracia reinventada pelos modernos), não conseguimos ter um entendimento profundo da democracia na medida em que nossas redes de conversações repetem circularidades inerentes que são próprias da cultura autocrática. 

Em contrapartida, não é preciso qualquer esforço para aprender autocracia: começamos aprendendo na família monogâmica e depois vamos aprendendo na escola, na igreja, nas organizações juvenis, no quartel, na universidade, no trabalho em empresas hierárquicas, nas corporações, nos partidos e nos órgãos do Estado. 

Aprender democracia exige então identificar matrizes de comportamentos que estão presentes nesses ambientes hierárquicos regidos por modos autocráticos. E é muito difícil fazer isso porque tais padrões estão escondidos sob camadas e camadas de discursos legitimatórios ou disfarçados por explicações funcionais e pragmáticas baseadas na inevitabilidade da hierarquia ou numa suposta competitividade inerente à natureza humana (a besta-fera - um Homo Hostilis - que existiria no interior profundo de cada um de nós, a espera de ser domada pela civilização ou pela religião, como apregoam alguns discursos liberais e conservadores). 

Para identificá-los precisamos observá-los e estudá-los - como foi dito acima - em estado puro (por exemplo, num campo de concentração nazista; ou mesmo num campo dito socialista: seja um Gulag do período stalinista ou num campo atual da Coreia do Norte ou numa prisão política cubana).

Por isso é tão importante estudar as 60 ditaduras que remanescem no mundo contemporâneo (e sob as quais - pasme-se! - ainda vive mais da metade da população do planeta). Há uma quantidade imensa de material sobre isso não apenas na história, mas nas práticas institucionais atuais dos seguintes países: Afeganistão, Angola, Arábia Saudita, Argélia, Azerbaidjão, Barein, Belarus, Brunei, Burkina Faso, Burma, Camarões, Camboja, Cazaquistão, Chade, China, Comoros, Congo (Kinshasa | Brazzaville), Coréia do Norte, Costa do Marfim, Cuba, Djibuti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Eritreia, Etiópia, Fiji, Gabão, Gâmbia, Guine, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Irã, Jordan, Kuwait, Laos, Líbia, Madagascar, Marrocos, Mianmar, Nigéria, Omã, Palestina (Faixa de Gaza, sob controle do Hamas), Qatar, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Rússia, Síria, Somália, Suazilândia, Sudão, Sudão do Sul, Tajiquistão, Togo, Turcomenistão, Uzbequistão, Venezuela, Vietnam, Yemen e Zimbábue. A esses talvez ainda se possa acrescentar, em futuro próximo, Nicarágua, Bolívia, Equador e - oxalá não - democracias formais parasitadas por governos neopopulistas manipuladores e autocratizantes (como Argentina, Brasil e alguns outros).

Por razões facilmente explicáveis, os que desvendaram esses padrões autocráticos tiveram, muitas vezes, que disfarçar suas descobertas e embuti-las na forma de livros de ficção (e mesmo assim sofreram com os ataques das patrulhas da esquerda e da direita). O mesmo ocorreu com os relatos históricos (que são, pelas mesmas razões, em geral, tardios: Varlam Shalamov só conseguiu contar o que viu e o que sofreu no Gulag de Kolyma, no nordeste da Sibéria, já no final de sua vida, aos 75 anos e a obra só foi publicada na União Soviética nos anos 80).

Arbitrariamente escolhemos então uma lista de 10 obras de ficção e de 10 livros históricos como universo a ser explorado neste projeto de reconhecimento de padrões autocráticos. Acrescentamos também 10 textos teóricos que contêm algumas pistas de deciframento.

OBRAS DE FICÇÃO
1. A Nova Utopia. Jerome K. Jerome (1891)
2. Nós. Yevgeny Zamyatin (1921)
3. Admirável Mundo Novo. Aldous Huxley (1932)
4. O Zero e o Infinito. Arthur Koestler (1941)
5. A Revolução dos Bichos. George Orwell (1945)
6. 1984. George Orwell (1949)
7. Fahrenheit 451. Ray Bradbury (1953)
8. O Senhor das Moscas. William Golding (1954)
9. Um dia na vida de Ivan Denisovich. Alexander Soljenítsin (1962)
10. Duna. Frank Herbert (1965)

ESTUDOS HISTÓRICOS
1. O julgamento de Sócrates. I. F. Stone (1988)
2. Lênin: a biografia definitiva. Robert Service (2000)
3. Stálin: a corte do czar vermelho. Simon Sebag Montefiore (2003)
4. Mao: a história desconhecida. Jung Chang e Jon Halliday (2005)
5. Contos de Kolyma. Varlam Shalamov (1954-1962 ou 1973)
6. Hitler, 1889-1936. Ian Kershaw (1998-2000)
7. Mussolini. Pierre Milza (1999) 
8. Eichmann em Jerusalém: Hannah Arendt (1963)
9. O Imperador: a queda de um autocrata. Ryszard Kapuscinski (1978)
10. A era dos assassinos. Yuri Felshtinsky e Vladimir Pribilovski (2008)

REFERENCIAIS TEÓRICOS
1. A democracia na América. Alexis de Tocqueville (1835)
2. Sobre a liberdade. John Stuart Mill (1859)
3. Escritos Políticos Escolhidos (Em busca do público, Em busca da grande comunidade, A ideia filosófica inclusiva, Liberalismo renascente, A democracia é radical e Democracia criativa: a tarefa diante de nós). John Dewey (1927-1939) 
4. O que é política? Hannah Arendt (c. 1950-9)
5. As origens do totalitarismo. Hannah Arendt (1951)
6. A invenção democrática. Claude Lefort (1981)
7. Sobre O Político de Platão. Cornelius Castoriadis (1986)
8. Conversações Matrísticas e Patriarcais. Humberto Maturana (1993)
9. A democracia é uma obra de arte. Humberto Maturana (1993)
10. Democracia como valor universal. Amartya Sen (1999)

A primeira experiência começa em 10 de janeiro e se quiser saber mais vá para o evento do Facebook:

https://www.facebook.com/events/1528659634033782

Ou então clique no link: https://www.sympla.com.br/100-dias-de-verao__23054

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