Escola de Redes

PARA SAIR DA MATRIX

Eis o texto básico que resume o conteúdo do NEXT - Programa de Investigação-Aprendizagem sobre a Transição de Hierarquia para Rede que será realizado no LABE=R no segundo semestre de 2013, de 5 de agosto a 23 de novembro. 

NEXT é uma iniciativa do LABE=R que se inspirou no texto Uma nova proposta para a Escola-de-Redes publicado em 7 de novembro de 2011. É necessário ler esse texto para entender as razões da criação de laboratórios pessoais da Escola-de-Redes. Qualquer pessoa conectada à E=R pode criar um laboratório pessoal da Escola-de-Redes.

Para sair da Matrix você precisa ser desensinado. Não há outro jeito. Você está na Matrix porque foi ensinado, quer dizer, programado. Agora precisa ser desprogramado. Não basta, porém. Você precisa também ser reprogramado. Tanto a desprogramação quanto a reprogramação devem ser feitas por você e pelas outras pessoas que interagem com você no seu emaranhado. Mas desprogramação e reprogramação não são ensino e sim livre-aprendizagem e comum aprendizagem. Toda aprendizagem autodidata ou alterdidata é desensino. 

O desensino fundamental é o da hierarquia. Desaprender hierarquia, sim, mas a palavra ‘desaprender’ é usada aqui em um sentido oposto ao da aprendizagem heterodidata, quer dizer, quando você aprende não o que você quer aprender e sim o que querem que você aprenda (ou seja, ensino). Nesse sentido, desaprender hierarquia é aprender a desobedecer (ou a desaprender a mandar, o que é a mesma coisa).

Na Matrix realmente existente, o ensino da obediência é constante. Começa na família, aprofunda-se na escola, fundamenta-se com razões transcendentes na igreja, instrumentaliza-se nas organizações sociais e políticas, exacerba-se no quartel, racionaliza-se na universidade e consolida-se no trabalho.

Para desprogramar aquela parte do programa (sua camada mais profunda) que você recebeu na família é necessário deixar de replicar família em todo lugar, resistindo à tentação de pertencer (ou formar) um grupo proprietário ou fechado, parando de projetar os pais nos chefes e autoridades em geral e – o mais importante – reaprendendo a brincar. Mas a reprogramação só virá quando você passar a conviver em rede (distribuída) ou viver em comunidade (aberta) com seus amigos (independentemente do grau de parentesco que tenham com você), sem qualquer outro propósito do que o de se comprazer na fruição da convivência com eles.

Para desprogramar a escolarização de que você foi vítima você tem que renunciar a ensinar os outros. Isso é mais difícil do que parece porque não se trata apenas de não ser professor (a maioria das pessoas não é) e sim de não reproduzir o comportamento docente lato sensu, em todas as suas formas. Não querer conduzir os outros, “fazer a cabeça” das outras pessoas – nem mesmo a pretexto de facilitar o seu processo de aprendizagem ou de dar oportunidades para que elas “se incluam” (onde mesmo?) – requer uma atenção constante. A reprogramação virá quando você passar a atuar como catalisador de processos de aprendizagem em comunidades livres de buscadores e polinizadores, estruturadas em rede.

Para quebrar o script que você talvez tenha recebido na igreja, você tem que abrir mão de se reunir exclusivamente em clusters dos que professam a mesma fé (ou crença) e de acreditar que existe um (único) caminho para a verdade. Não é necessário que você abandone a sua espiritualidade ou a sua vida mística, nem mesmo o seu deus (desde que você não queira impô-lo aos outros, separando fiéis de infiéis). Esse processo não se completará enquanto você erigir (ou aderir a) ordens sacerdotais que se proclamam o único caminho, a única porta, a única esperança de salvação, ou seja, enquanto você reeditar (ou pertencer a) alguma dessas armadilhas de fluxos construídas para arrebanhar ovelhas e apascentá-las (chamadas de igrejas). A reprogramação virá quando você – se for o caso e se você quiser fazer isso – começar a compartilhar formas pós-religiosas de espiritualidade com outras pessoas em novas ecclesias (como “assembleias de amantes”), como redes de buscadores que se dispõem a celebrar suas amorosidades e a polinizar mutuamente os modos pelos quais vivem sua mística ou sua espiritualidade.

Para desprogramar o que você recebeu nas organizações sociais e políticas, você tem que abrir mão do conservadorismo (que quer congelar e reproduzir configurações pretéritas resistindo ao fluxo interativo) e do transformacionismo (que quer converter as pessoas no que elas não são para conduzi-las para um porvir radiante que se instalaria com a transformação da sociedade no que ela não é por meio da realização de alguma utopia autoritária capaz de instalar uma nova ordem).

Para tanto, bastaria aderir à democracia, mas como essa palavra não é tomada no sentido original de desconstituição de autocracia e sim, frequentemente, confundida com modelo de governo ou forma política de administração do Estado, seu emprego puro e simples (sem adjetivos) – além de induzir à confusão com o sistema representativo ou eleitoral – não é muito elucidativo. A reprogramação virá quando você – desistindo das noções regressivas de patriotismo e nacionalismo e virando um cidadão transnacional de sua glocalidade – passar a se relacionar em redes de interação social e política (pública) em vizinhanças e setores de atividade, em comunidades que exercitem a democracia cooperativa na base da sociedade e no cotidiano das pessoas (que convivem com você).

Para desprogramar o que você eventualmente recebeu no quartel ou nas organizações militares em geral (inclusive nas organizações político-militares, como certos partidos; ou religioso-militares, como certas igrejas, seitas e ordens) você tem que renunciar à guerra e à construção de inimigos. Inimigos são criados pela luta contra alguém. Mas não há uma boa luta, não há um bom combate, não há uma guerra justa do bem contra o mal. Assim como o justo monarca legitima as autocracias, o “guerreiro da luz”, envolvido em permanente combate contra o “guerreiro das trevas”, legitima a existência da guerra (e, consequentemente, o emprego e a fabricação da arma). A guerra (ou a política praticada como arte da guerra) é, em si, o mal. O único inimigo que existe é o criador de inimigos. Se você lutar, você será o inimigo. A reprogramação virá quando você não lutar. Se você não lutar, não há luta.

Para desprogramar o que você recebeu na universidade você tem que renunciar à meritocracia, abrindo mão de erigir (ou validar) tribunais epistemológicos capazes de aprovar (ou reprovar) pessoas com base em verificações heterodidáticas do conhecimento ensinado. A reprogramação virá quando você passar a avaliar a árvore pelos seus frutos e não pelos certificados emitidos por alguma corporação de botânicos.

Para desprogramar o que você recebeu nas empresas e nos outros locais de trabalho, você tem que aprender a co-laborar (trabalhar com os outros), ou seja, desaprender a trabalhar para os outros e de colocar outras pessoas trabalhando para você. A reprogramação virá quando você for um empreendedor interdependente, quer dizer, um coempreendedor, um cocriador de ideias e um corealizador de projetos em empreendimentos compartilhados.

Aprender a desobedecer (ou desaprender a mandar); resistir à tentação de pertencer a um grupo, parar de projetar os pais nos chefes e autoridades e reaprender a brincar; catalisar processos de livre aprendizagem; compartilhar horizontalmente sua espiritualidade e celebrar suas amorosidades; exercitar a democracia cooperativa e não construir inimigos; avaliar as árvores pelos seus frutos deslegitimando os tribunais epistemológicos; e cocriar e coempreender. Parece difícil, mas ninguém nunca disse que seria fácil. No entanto, não é necessário que ninguém faça todas essas coisas de uma vez.

O programa-hierárquico que você está hackeando é o mesmo em todas essas armadilhas de fluxos que são a família, a escola, a igreja, as organizações sociais e políticas, o quartel, a universidade e as empresas e outras instituições hierárquicas do trabalho. Basta mexer no código de uma dessas instituições para alterar a programação das sociedades de controle. Você pode escolher por onde quer começar. Mas começar não é terminar. Para reprogramar sociosferas glocais não basta hackear, é necessário também fazer netweaving. 

Em suma, tudo isso pode ser resumido em uma palavra: rede. Redes devem ser encaradas, nesse sentido, como movimentos de desconstituição de hierarquias e como ambientes de constituição de outros mundos, protegidos – pelo menos temporariamente – da influência da Matrix realmente existente. Seria uma tarefa impossível para um indivíduo. Mas você não é um indivíduo como a Matrix quer que você acredite (porque a Matrix é uma fábrica de indivíduos). É necessário abandonar a ilusão de que você é um indivíduo e tornar-se pessoa. Pessoa comum.

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