Escola de Redes

HIGHLY CONNECTED WORLDS

Os novos mundos altamente conectados do terceiro milênio

 

AUGUSTO DE FRANCO

2011

 

 

E naquele instante ele viu o planeta inteiro: cada vila, cada cidade,

cada metrópole, os lugares desertos e os lugares plantados.

Todas as formas que se chocavam em sua visão traziam

relacionamentos específicos de elementos interiores e exteriores.

Ele via as estruturas da sociedade imperial refletidas

nas estruturas físicas de seus planetas e de suas comunidades.

Como um gigantesco desdobramento dentro dele,

ele via nessa revelação o que ela devia ser:

uma janela para as partes invisíveis da sociedade.

Percebendo isso, notou que todo sistema devia possuir tal janela.

Mesmo o sistema representado por ele mesmo e o universo.

Começou a perscrutar as janelas, como um voyeur cósmico.

Frank Herbert em Os filhos de Duna (1976)

 

Muitos mundos, isso mesmo. Não existe um mundo que se possa dizer o mundo, a não ser por efeito de hierarquização.

Pensar e falar do mundo é tentar impingir um só mundo. Pois os mundos são muitos. Um só mundo é uma invenção do broadcasting. Broadcasting – um para muitos – é, obviamente, centralização, quer dizer, hierarquia. Tirem as TVs e as rádios, os jornais e revistas, as agências de notícias, talvez o cinema e não sobrará mais um só mundo. Sem o broadcasting já teremos múltiplos mundos: cada qual configurado pelas nossas conexões. Com a internet esses mundos se multiplicam velozmente, mas não por difusão e sim por interconexão. Desse ponto de vista, interconnected networks (internet) é, na verdade, interconnected worlds. E fluzz é o vento que varre esses inumeráveis interworlds (*).

No mundo hierárquico, não há interface para fluzz. Mas quando fluzz for do regime dos múltiplos mundos interconectados, esses mundos serão os novos Highly Connected Worlds do terceiro milênio (**).

 

Inumeráveis interworlds

Não havendo um mundo isolado dos demais, o tamanho do mundo de cada um será função do “vento” (fluzz) que varre seus interworlds

Pense em um mundo sem TV e rádio, sem jornais e revistas, sem agências de notícias, sem editoras e distribuidoras de livros de domínio privado e sem cinema. Não, não estamos propondo uma volta à Idade Média. Teremos telefone, Internet, redes P2P, redes Mesh e qualquer mídia (sobretudo interativa) não baseada no padrão um-para-muitos (incluído spaming). Neste caso não haverá mais um (mesmo) mundo para todos. Sem o broadcasting esvai-se a ilusão de um mesmo mundo para todos em termos sociais. Ficará claro que cada um tem o seu (próprio) mundo (em termos sociais). Mas ninguém estará aprisionado no seu mundo, pois poderá se conectar com outros mundos (os mundos das outras pessoas). Teremos uma rede de mundos: muitos mundos interconectados. Quanto maior a interatividade de uma rede de mundos, mais-fluzz ele – o mundo social configurado por essa rede – será.

Mas... atenção! Quanto mais-fluzz for um mundo, menor (não em termos geográficos ou populacionais e sim em termos sociais) ele será. Mundos grandes, nesse sentido, quer dizer, com altos graus de separação, são mundos menos-fluzz. A interatividade reduz o tamanho do mundo e isso não é uma função do número de seus elementos (pessoas e aglomerados de pessoas) e sim dos seus graus de distribuição e conectividade.

Onde fluzz está mais “ativo”, os mundos se contraem. Há um amassamento. Small-world networks são efeitos de crunching (um neologismo cunhado a partir da palavra crunch).

Não havendo um mundo isolado dos demais, o tamanho do mundo de cada um será função do “vento” (fluzz) que varre seus interworlds. Os interworlds serão inumeráveis; portanto, a rigor, o mundo de cada um é, potencialmente, uma série de inumeráveis mundos em interação. Sim, tudo depende da interatividade. O que significa dizer que não depende da capacidade ou do esforço de cada um de se fazer ver por muitos. Assim, nos novos Highly Connected Worlds, gente famosa (poderosa, rica, super certificada ou titulada, admirada por qualquer outra qualidade intrínseca massivamente reconhecida ou atribuída externamente à interação), tende a não ser mais tão relevante. Com isso vai também por água abaixo essa desastrosa idéia de sucesso, que predominou nos séculos passados, baseada na capacidade de alguém de se destacar dos demais.

Impelido por fluzz, ninguém se deixará desvalorizar facilmente no circo global montado para selecionar (e apresentar apenas) algumas atrações e para polarizar sobre elas a atenção dos demais. Cada qual pode ser a atração no seu próprio mundo e nos mundos conectados a esse mundo. Uma aldeia global montada para subordinar os vários mundos a apenas alguns, dando a impressão de que só estes últimos existem, está com os dias contados. Teremos inumeráveis aldeias globais.

 

Highly Connected Worlds

Seu mundo-fluzz é sua timeline

O estilhaçamento do mundo único é uma mudança de época jamais presenciada pelas chamadas civilizações (patriarcais, guerreiras, quer dizer, hierárquicas). Os padrões de vida e convivência social estão mudando. Isso significa que você também está mudando. Porque estão mudando seus relacionamentos recorrentes: sim, seu mundo-fluzz é sua timeline. Não, por certo, a timeline do Twitter, mas aquela que rola no espaço-tempo dos fluxos e que não pode ser captada por quaisquer das ferramentas digitais p-based disponíveis.

Essa mudança é a rede. À medida que aumenta a interatividade da rede na qual você está imerso, fenômenos surpreendentes começam a acontecer. Com a queda brusca dos graus de separação, chegará rapidamente o dia em que você chamará um taxi em uma cidade de dez milhões de habitantes e o motorista dirá: “O senhor não é o Steven Strogatz, que investiga redes sociais e que descobriu que o mundo está ficando pequeno mais rapidamente do que imaginávamos?”.

Isso, é claro, se você for de fato o Steven Strogatz. Mas, de certo modo, se você é o motorista que se relaciona (ou que se relaciona com quem se relaciona, ou que se relaciona com quem se relaciona com quem se relaciona) com Steven Strogatz, sobretudo se ele (ou quem se relaciona com ele) está na sua timeline e você (ou quem se relaciona com você) na dele, você será um pouco Steven Strogatz (na medida inversa do seu grau de separação dele): eis o ponto! Tal mudança vai muito além do que imaginávamos porque você está fazendo parte de um organismo capaz de inteligência e, quem sabe, de outros atributos ou qualidades que sequer conseguimos imaginar.

Os Highly Connected Worlds tendem a ser organismos humanos coletivos. Atenção: superorganismos humanos, não organismos super-humanos! Eles são os campos para o nascimento do ‘indivíduo social’. Steven Strogatz fará parte de você e você fará parte dele porque ambos farão parte de um mesmo organismo, não em termos metafóricos, como quando usávamos a palavra ‘organismo’ para designar o que imaginávamos que fosse ‘a sociedade’. Não. Trata-se de um organismo mesmo. E humano.

O indivíduo social está nascendo agora. Mas ele já estava presente, como prefiguração, desde o início, quando se constituíram os primeiros seres humanos. Para lembrar a bela Canción Tonta de García Lorca (1924), nós, os humanos, só o éramos enquanto estávamos “bordados en la almohada” da rede-mãe (1).

O indivíduo-social não pôde se consumar como humanidade enquanto algo estava impedindo: a escassez de conexões, uma escassez artificialmente introduzida por modos de regulação não-pluriárquicos. Fluzz não podia passar. Mas fluzz é empowerfulness. Se fluzz não pode soprar o corpo não se vivifica.

Essa mudança, todavia, é diferente – e única – em cada mundo. Não, não é sempre a mesma coisa. Depende de “onde” (ou como) o fluxo (o)corre. Manoel de Barros (1993) inventou “que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos” (2). Pois é. No limite, você fará seu mundo. Quer dizer, você (ou você e sua timeline – o que tende a ser a mesma coisa) será o mundo e os mundos serão tantos quanto as identidades coletivas que forem usinadas por fluzz.

Isso significa que os Highly Connected Worlds tendem a ser inumeráveis, assim como serão inumeráveis os interworlds, miríades de interfaces conectando miríades de mundos e “explodindo como uma ramada de neurônios”, para lembrar um artigo seminal de Pierre Lèvy (1998) (3).

Em termos tecnológico-sociais, o grande desafio hoje, ao contrário do que reza a metafísica que esse Mark Zuckerberg – o chefe do Facebook – quer nos empulhar – para torná-la, a sua plataforma proprietária única, a própria rede e não mais uma ferramenta –, é construir os inumeráveis interworlds que serão as novas internets.

O Facebook tem mais de 800 milhões de usuários? É ruim. Seria melhor ter 800 mil plataformas com mil usuários cada uma, conversando entre si... Tudo que não precisamos agora é reeditar a ilusão hierárquica de um mundo único. Uma sociedade em rede é uma configuração de miríades de Highly Connected Worlds interagentes. Essa é a única mudança verdadeiramente sustentável: tudo que é sustentável tem o padrão de rede porque rede é redundância de processos e abundância (diversidade) de caminhos.

A mudança-que-é-a-rede é fractal, não unitária. A mudança não é a emergência de muitos mundos locais (que, de resto, sempre existiram), mas os múltiplos caminhos (que não puderam existir nas civilizações hierárquicas) entre o local e o global. E ela não se consumará sem essas “zonas de transição” que são interworlds.

 

Interworlds

A nova internet – interconnected networks – são os incontáveis interconnected worlds

Começa assim: não uma Internet: miríades de internets. Bem, agora já está melhorando. Mas, como? Não estamos correndo o risco de perder todas as referências – e, com isso, o sentido – com esse estilhaçamento?

A preocupação com a fragmentação é uma herança típica de um mundo pouco-fluzz. A totalidade não está dada, tem que ser consumada. E serão sempre totalidades, no plural. Eins und Alles.

Que se dane se você não terá mais uma grande narrativa, um esquema explicativo geral. Não havendo um mundo (único), para que precisamos disso? Por certo, você fica incomodado com a fragmentação desses inumeráveis mundos que se fazem e liquefazem. Mas esse seu mal-estar baumaniano (de Zygmunt Bauman) é pura falta de Pó de Flu (aquele “Floo Powder” inventado por Ignatia Wildsmith, da série Harry Potter de J. K. Rowling, usado para conexão à Rede do Flu); ou seja, é falta de interworlds. Trata-se de referenciar o bem-estar na (fluição da) relação, não na (solidez da) coisa.

Ainda existem vários obstáculos à uma comunicação, por assim dizer, “isotropicamente distribuída” (capaz de manter as mesmas propriedades em todas as direções): a centralização da rede em servidores, provedores, roteadores, cabos, satélites, torres, mainframes transceptores de ondas eletromagnéticas, geradores de energia, resfriadores, protocolos de reconhecimento, trânsito e integração de mensagens; a variedade de línguas e a falta de tradutores-transdutores universais móveis que operem em tempo real; a falta de programas de busca inteligente e de criação de ambientes favoráveis à emergência de conteúdo novo por combinação não-humana (polinização mútua) de mensagens; a separação entre os dispositivos tecnológicos e o corpo humano; e a insuficiente interação entre pessoas e não-pessoas (desde a comunicação com outros seres sencientes ou coletivamente inteligentes, animados e inanimados, até a parceria simbiótica com uma variedade de seres vivos).

Para começar: fluzz é obstruído pela centralização das comunicações (pela difusão centralizada um-para-muitos chamada broadcasting), mas também pela Internet descentralizada. O grande desafio hoje é construir os interworlds que são as novas internets. Trata-se de um desafio ao mesmo tempo social e tecnológico.

Rolou por décadas uma discussão fora de lugar sobre as ameaças da tecnologia. Muitas pessoas tinham medo de que a tecnologia fosse nos dominar, nos afastar das outras pessoas, prejudicar nossa saúde física ou mental ou, até mesmo, inviabilizar a vida humana no planeta.

Mas, em termos sociais, não há nenhum problema com a tecnologia. O problema é com a tecnologia que introduz artificialmente escassez centralizando a rede social e ensejando o controle.

Por certo, os sistemas de dominação não teriam podido se manter sem o controle dos insumos básicos: a terra, a água, os alimentos e as fontes de energia. Mas a escassez foi introduzida por um tipo determinado de tecnologia urbana, hidráulica e agrícola: sem essa escassez (programada, em certa medida) de recursos sobrevivenciais, esses sistemas de dominação não teriam podido se reproduzir.

Assim, durante milênios fomos submetidos a tecnologias que viabilizavam o controle. Por exemplo, o modelo hidráulico redistribuidor de água em canais de irrigação, construídos e controlados pela tecnologia faraônica, criava o perigo ao adensar povoamentos em locais de risco, em uma proporção que ia muito além daquela exercida pela natural atração das terras mais férteis. O objetivo era o controle. Se o povo não vivesse sob a ameaça (do perigo), como poderia ser recompensado pela sua aquiescência, sendo salvo do perigo? E como poderia ser castigado por sua desobediência à ordem, sendo abandonado ao perigo? (4)

Agora precisamos de tecnologia para viabilizar e acelerar a distribuição da rede social. Quanto menor a possibilidade de comando-e-controle, mais-fluzz será essa tecnologia. Isso vale para tudo: energia e matéria, átomos e bits. E vale também para a comunicação.

Assim como fluzz é obstruído pela centralização das comunicações e pela Internet descentralizada, ele também é obstruído por todas as separações: desde aquelas impostas pela barreira da língua (que separa pessoas que falam idiomas diferentes), passando pela busca burra (que separa quem procura de quem gera conhecimento), pelos dispositivos tecnológicos interativos separados do corpo humano e, inclusive, no limite, pela separação entre pessoas e não-pessoas.

A barreira da língua é uma das principais remanescências do mundo único hierárquico. É curioso que, mesmo tendo sido imposto um mundo único, persistam várias línguas (cerca de 7 mil idiomas). Isso porque o mundo único não é monocentralizado e sim multicentralizado (ou descentralizado) em algumas identidades imaginárias (que chamamos de nações, povos ou culturas sócio-territoriais, dominados hoje por menos de duas centenas de Estados).

A metáfora bíblica sobre isso é esclarecedora. Na mesma Babel – não em várias – as pessoas não podiam se comunicar umas com as outras. Não era um problema de saber interpretar um código, de falar a mesma língua. O que houve em Babel foi a impossibilidade de um conversar, não porque as pessoas falassem vários idiomas e sim porque não conseguiam coordenar mutuamente suas atitudes (o linguagear, na expressão de Maturana, que pressupõe e exige cooperação) e, desse modo, não se entendiam (sem um acoplamento estrutural não pode haver comunicação). É a pirâmide (a topologia centralizada da rede social babeliana) que impede esse (assim como qualquer outro) conversar. Tal problema só tem solução social, não tecnológica.

A solução para Babel é a rede social distribuída. No entanto, o problema da remanescência de várias línguas, entendidas como idiomas, como códigos que podem ser traduzidos, tem solução tecnológica. Dispositivos móveis com programas de tradução simultânea, capazes de receber e emitir dados e voz, são partes (por aproximação, assimilação ou simbiose) dessas interfaces complexas que chamamos de interworlds.

A falta de programas i-based de navegação inteligente, da busca (semântica) à polinização (criativa, ensejadora de múltiplos significados), também é um obstáculo à interação entre os mundos. Mas tal desafio pode ser superado caso não se insista em recriar monstruosos sistemas de gerenciamento do conhecimento (top down) e em arquivar significados únicos de modo centralizado (como faz, por exemplo, a Wikipedia).

Repetindo: toda tecnologia é bem-vinda, inclusive aquela que modifica os corpos humanos, desde que possibilite mais distribuição. Há muito tempo estamos modificando nossos corpos: tomamos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (e. g., fluoxetina) e da fosfodiesterase-5 (e. g., sildenafila), injetamos insulina transgênica, fazemos implantes (dentários, auditivos e inclusive de chips capazes de devolver a visão), inserimos nanopartículas para corrigir rugas na pele, usamos próteses de todo tipo e instalamos órgãos ou partes de órgãos internos artificiais. Por que não poderíamos inserir em nossos corpos outros dispositivos capazes de ampliar e acelerar a comunicação?

Pode-se argumentar que não temos como saber se, no longo prazo, tudo isso prejudicará a saúde. Mas também não temos como atestar isso em relação à maioria dos medicamentos que tomamos ou das intervenções médicas que realizamos. Todas essas substâncias e procedimentos, em certa medida, provocam doenças ou desencadeiam novos padrões de saúde ou ensejam novos reequilíbrios saúde-doença. Sim, saúde não é ausência de doenças, mas a estabilidade relativa de um sistema que, se estiver vivo, estará necessariamente afastado do equilíbrio, convivendo, portanto, com alterações que convencionamos chamar de doenças (e que só são chamadas assim do ponto de vista de um padrão de saúde, baseado em indicadores cujos parâmetros de normalidade são variáveis com época, lugar, cultura, conhecimento). Só seres inanimados estão livres de doenças (ainda que as infestações de vírus em seres cibernéticos também possam vir, coerentemente, a ser encaradas como doenças).

Por outro lado, do ponto de vista biológico, já existe a parceria simbiótica do corpo humano com outros seres vivos. Somos, na verdade, colônias de bactérias, comunidades de micro-organismos. Somos os planetas onde vive boa parte dos seres vivos. Tal parceria está presente no interior de nossa unidade vital: a célula nucleada é o resultado da associação com um procarionte que passou a compor o novo organismo por endossimbiose.

Mas todas as tecnologias que podem apoiar, vamos dizer assim, o surgimento das múltiplas internets distribuídas, não são, elas próprias, os interworlds que conectam os mundos em rede aqui chamados de Highly Connected Worlds. Esses interworlds são sociais – fundamentalmente, são redes sociais – não dispositivos tecnológicos. Ou seja, no limite, os interworlds são pessoas.

 

Pessoa já é rede

Em cada pessoa há algo de seu próximo. Moises Cordovero (1522-1570) em Tomer Dvora (1588)

Toda pessoa é uma pequena sociedade. Novalis em Pólen (1798)

Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas. (“Umuntu ngumuntu ngabantu”: Máxima Zulu)

Todas as pessoas são feitas de todas as outras pessoas. http://twitter.com/augustodefranco (08/07/10)

Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos. John Guare em "Six degrees of separation" Peça de teatro na Broadway (1990)

Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio, vida humana e convivência social se aproximarão a ponto de revelar os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamente humanos. Todos compreenderemos a nossa natureza de “gholas sociais”.

Os tanques onde somos formados como pessoas são clusters, “regiões” da rede social a que estamos mais imediatamente conectados.

Um tipo especial de ghola: não um clone de um indivíduo, mas um “clone” de uma configuração de pessoas. Toda pessoa, como dizia Novalis (1798), é uma pequena sociedade; quer dizer, pessoa já é rede! Pessoa é um ente cultural que replica uma configuração. É um ghola social.

Em um mundo fracamente conectado, os caminhos são individuais. Cada pessoa vive sua vida, faz suas escolhas, estabelece suas rotinas e toma suas iniciativas sob a influência das demais, é claro, mas como se fosse uma unidade separada. Convive, por certo, com as demais, mas essa convivência é vivida como distinta daquela outra vida, que seria a sua própria vida. Pode viver a ilusão de que vive sua vida, fazendo suas escolhas, estabelecendo suas rotinas e tomando suas iniciativas de modo autônomo. Pode alimentar a crença de que já surgiu no mundo como pessoa, quer em virtude de uma instância super-humana que assim a tenha criado, quer por força da genética (o “sangue”) e das experiências particulares pelas quais passou logo após seu nascimento (o “berço”).

Em mundos altamente conectados tende a se esvair essa separação entre vida humana e convivência social. Nossas escolhas racionais raramente são nossas: reproduzimos padrões, imitamos comportamentos e cooperamos com outras pessoas sem ter feito individualmente e conscientemente tais escolhas. Adotamos princípios, escolhemos carreiras, compramos produtos e priorizamos atividades em função do que fazem as pessoas que se relacionam conosco ou que estão ligadas a nós em algum grau próximo de separação, muitas vezes pessoas que nem conhecemos (como os amigos dos amigos de nossos amigos).

Vivemos então, cada vez mais, a vida do nosso mundo constituído pela convivência e não apenas a nossa vida individual. Isso ocorre na razão direta da interatividade do mundo em que estamos imersos. O fluxo da nossa timeline pode chegar a atingir tal intensidade ou densidade que, no limite, não podemos mais afirmar inequivocamente que há um eu que deseja, julga, raciocina, escolhe e almeja de forma autônoma em relação à nuvem de conexões que nos envolve. Ao mesmo tempo, sentimos e sabemos que continuamos sendo uma pessoa, única, totalmente diferenciada. Mas ao viver a nossa vida (a vida humana única dessa pessoa que somos), vivemos, na verdade, a convivência (social, também única, desse mundo construído pelo emaranhado de conexões onde estamos fluindo e que nos constitui como seres propriamente humanos).

O social passa ser o modo de ser humano nas redes com alta tramatura dos novos mundos-fluzz. Em outras palavras, passamos a constituir um organismo humano “maior” do que nós. Passamos a compartilhar muitas vidas, com tudo o que isso compreende: memórias, sonhos, reflexões de multidões de pessoas, que ficam distribuídas por todo esse superorganismo humano. Podemos, como nunca antes, ter acesso imediato a um conjunto enorme de informações e, muito mais do que isso, podemos gerar conhecimentos novos com uma velocidade espantosa e com uma inteligência tipicamente humana (não de máquinas, computadores ou alienígenas), porém assustadoramente “superior” a que experimentamos em todos os milênios pretéritos.

E tudo isso pode ocorrer sem a necessidade de termos consciência (individual) do que está se passando. Ao viver a vida da rede, apenas vivemos a convivência: não precisamos mais tentar capturá-la e introjetá-la, circunscrevê-la ou mandalizá-la para conferir-lhe a condição de totalidade, erigindo um grande poder interior de confirmação para nos completar da falta dos outros e nos orientar nos relacionamentos com eles. Tal necessidade havia enquanto podia haver a ilusão da existência do indivíduo separado de outros indivíduos; ou quando um (ainda) não era muitos. Toda consciência é consciência da separação, inclusive a consciência da unidade, da totalidade, ou da unidade na totalidade, é uma resposta à separação. No abismo em que estamos despencando ao entrar em fluzz, não há propriamente isso que chamávamos de consciência.

Como epígrafe de um dos capítulos de "Os filhos de Duna", o escritor de ficção Frank Herbert (1976) colocou na boca de Harq al-Ada, cronista do Jihad Butleriano (a guerra ludista contra as máquinas inteligentes) (5):

"O pressuposto de que todo um sistema pode ser levado a funcionar melhor através da abordagem de seus elementos conscientes revela uma perigosa ignorância. Essa tem sido frequentemente a abordagem ignorante daqueles que chamam a si mesmos de cientistas e tecnólogos".

 

Gholas sociais

Um ghola não é um borg

No universo ficcional de Duna, obra monumental de Frank Herbert (1965-1985), os tanques axlotl são mulheres tleilaxu que sofreram um coma cerebral químico induzido, a par de outras intervenções genéticas, para servir como usinas de gholas (espécies de clones de uma pessoa morta a partir de seu material genético). Os Tleilaxu (ou Bene Tleilax) são uma sociedade fechada de religiosos muito avançados tecnologicamente.

No entanto, os gholas são réplicas que não manifestam automaticamente as qualidades dos originais. Para tanto eles devem passar por um processo longo de aprendizagem e devem viver certas experiências (sobretudo de relacionamento íntimo com seus treinadores) para despertar suas habilidades.

A leitura das diversas camadas da escritura de Herbert (literal, alegórica ou metafórica, simbólica etc.) permite um paralelo (meramente evocativo e para efeitos heurísticos) entre o processo biológico-cultural de clonagem e aprendizagem de um ghola e o processo social de geração de uma pessoa (que seria, então, uma espécie de “ghola social”).

Os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamente humanos seriam os clusters onde convivemos com outras pessoas (seres que já foram humanizados pelo mesmo processo) a partir do nascimento. De sorte que não somos humanos apenas por força da genética, da reprodução ou da hereditariedade biológica (que replicamos como indivíduos da espécie homo) e sim em virtude da rede social em que com-vivemos, cuja configuração particular replicamos como pessoas, ou seja, “gholas sociais”. Aquele que é geneticamente humanizável só consuma tal condição a partir do relacionamento com seres humanizados. Somos (enquanto entes culturais) filhos da rede social. E não podemos ser humanos sem esse tipo de relacionamento. Como reza a máxima Zulu, “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.

Tudo isso é para dizer que um ghola (social) não é um borg. Mas por que é tão importante dizer isso?

No universo ficcional de Star Trek os Borgs são uma “raça” alienígena de ciborgues, humanoides de várias espécies assimilados e melhorados com a injeção de nanossondas e a aplicação de implantes cibernéticos que alteram sua anatomia e seu funcionamento bioquímico, ampliando suas habilidades mentais e físicas.

Quando encontram suas presas - quaisquer membros de outras civilizações, aos quais andam a cata – os Borg recitam, com algumas variações, a seguinte litania:

“Nós somos os Borg. A existência como vocês conhecem acabou. Adicionaremos suas qualidades biológicas e tecnológicas à nossa. Resistir é inútil”.

Não existe uma rede social Borg, com algum grau significativo de distribuição, porque não existe pessoa-Borg. Transformados em indivíduos substituíveis, os borgs são replicados em série por uma estrutura fortemente centralizada em sua rainha (sim, o regime é monárquico absoluto), a única que pode pensar livremente (se é que isso é possível sem o conversar). Seus cérebros são conectados a uma mente coletiva (a Coletividade Borg) controlada por um hub central (Unimatrix Um). O objetivo declarado do povo Borg (que só é um povo naquele particular sentido original da palavra latina ‘populus’: “contingente de tropas”) é “aperfeiçoar todas as espécies trazendo ordem ao caos”.

Uma interpretação possível para a metáfora é a seguinte: de certo modo qualquer pessoa, transformada em peça substituível por uma organização centralizada (hierárquica), é – em alguma medida – um borg.

Sim, o paralelo é mais fértil do que parece. Dizer que um ghola (social) não é um borg (biotecnológico), seria como colocar na boca do primeiro – no dealbar de uma época-fluzz – uma paródia da “saudação” borg como a seguinte:

Nós somos gholas sociais. Novas possibilidades de existência, até agora desconhecidas de todos nós, estão sendo abertas. Nossas qualidades biológico-culturais estão se combinando em novos padrões sociais. É só preciso deixar-ir.

A rigor, como uma configuração de pessoas está sempre ligada a outras configurações, todas as pessoas estão de algum modo emaranhadas no espaço-tempo dos fluxos (quem sabe não era isso que chamávamos de humanidade, uma prefiguração). Assim, no limite, todas as pessoas são feitas de todas as outras pessoas.

 

Pessoas são portas

“Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos”

Pessoas são portas. Abrem caminhos. Na verdade, são caminhos. Atalhos entre clusters. Pontes. É sempre por meio de uma pessoa que podemos interagir com quem está em outros mundos.

Isso significa que os interworlds são realmente as pessoas, não um novo ambiente tecnológico, mas um novo ambiente social com novos recursos tecnológicos. Esta é uma típica compreensão-fluzz: pessoa não é o individual e sim o social. Surpreendentemente, em mundos altamente conectados as novas internets são... as pessoas!

Não, não é somente uma imagem poética. É uma nova compreensão das potencialidades humanas. Pessoas interagindo são seres humanos. A partir de certo grau de interatividade, são organismos sociais, quer dizer, superorganismos humanos.

Quando a tecnologia fornecer os meios para manter as pessoas continuamente conectadas e para acelerar a interação, ela o fará a partir dessa possibilidade social. Aliás, foi assim que nasceu a velha Internet: como percebeu Castells, sua estrutura interativa só foi projetada assim porque as pessoas que a projetaram a projetaram assim (6). E as pessoas que projetaram a Internet só a projetaram assim – com possibilidade de interatividade – porque havia tal possibilidade social. Da mesma forma estão nascendo as novas internets: seja com o aperfeiçoamento dos dispositivos móveis interativos, seja com implantes bioeletrônicos ou cibernéticos, enquanto a topologia da rede for mais distribuída do que centralizada não produziremos borgs, mas gholas-sociais.

Há sempre um risco. O risco de ser borg. A fronteira entre um borg e um ghola-social é móvel, nebulosa e quase sempre invisível. A hierarquia produz borgs. As redes humanas distribuídas geram gholas-sociais. Mas a maioria dos padrões de interação se configura no intervalo entre centralização máxima e distribuição máxima.

Evitar o risco é refugiar-se na vida individual, escolhendo racionalmente as interações, sendo seletivo nos relacionamentos, fechando-se ao outro. Esse é o fracasso de todas as chamadas “pessoas de sucesso”. Fecham-se à interação com o outro-imprevisível e, ao fazer isso, a despeito de serem muito conhecidas, obstruem conexões com a nuvem que as envolvem, desatalham clusters (ao se recusarem a servir como pontes), excluem outras pessoas do seu espaço de vida e simultaneamente se excluem de outros mundos, isolando-se do superorganismo humano e deixando de contar com uma parte (justamente aquela parte inusitada, que os marqueteiros, os políticos profissionais e os psicólogos sociais tanto procuram e não conseguem encontrar) das imensas potencialidades do social.

São raríssimas as pessoas de sucesso que se deixam abordar por qualquer um do povo. Seus endereços, e-mails e telefones são mantidos em sigilo. Seus ambientes de trabalho são protegidos por porteiros, agentes de segurança, secretários e assessores. Seus sites e blogs são fechados à comentários ou mediados. Sua participação nas mídias sociais é sempre para usá-las como broadcast, para fazer relações públicas e propaganda de si-mesmas (para ficarem mais famosas e auferirem os benefícios econômicos, sociais e políticos conferidos diferencialmente a quem alcançou tal condição).

Isso acaba se manifestando no que acreditam que seja sua vida pessoal, como indivíduos, supostamente autônomos, tão importantes que não podem ficar vulneráveis aos paparazzi do relacionamento. Como conseqüência começam a desenvolver aquela sociopatia mais conhecida pelo nome de fama. Na verdade ficam doentes por déficit de interatividade.

Quem não quer ser porta, não acha caminhos. O sucesso é o melhor caminho para perder caminhos. A perda de caminhos é também uma medida de não-rede, ou seja, uma expressão do poder. A contraparte de querer ser muito importante é a falta de importância para a rede (e não importa para nada se essas pessoas de sucesso têm milhares ou milhões de followers nas mídias sociais mais frequentadas ou se seu blog tem milhares ou milhões de pageviews).

E o risco? Bem, nos Highly Connected Worlds a pessoa é compelida a correr o risco, a fluir com o curso. Não pode se proteger, se sedentarizar em seu mundo, se agarrar às coisas para tentar permanecer como é ou a ser mais-do-mesmo (do que já é) em vez de surfar nos interworlds, navegar, ser nômade, fluzz.

“Se não posso achar o caminho farei um”, escreveu Sêneca (7). Nos novos mundos-fluzz, seria o caso de dizer: como não há caminho, serei um (uma porta para outros mundos)

 

Anisotropias no espaço-tempo dos fluxos

Os deuses eram ventos. Arturjotaef em Numância (2010)

Ama-gi é uma palavra suméria para expressar alforria... Traduzida literalmente significa “retorno à mãe” - na medida em que os ex-escravos eram “devolvidos às suas mães (i. e., libertados)”. Acredita-se ser a primeira expressão escrita do conceito de liberdade. Wikipedia (2010)

Não há nada a fazer. Deixem fluzz soprar para ver o que acontece. (Na verdade, dizer ‘deixem fluzz soprar’ é apenas uma maneira de dizer, pois fluzz já é o sopro).

Quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola? Quando fluzz soprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzz soprar, para que corporação, para que partido? Quando fluzz soprar, para que nação, para que Estado?

Oh! É claro que todas essas instituições perdurarão: como remanescências. Não serão mais prevalecentes. Aliás, como já se prenuncia, elas se contaminarão mutuamente: nações serão religiões, escolas serão igrejas, Estados serão corporações... e tudo será, afinal, o que é – sempre a mesma coisa: programas verticalizadores que “rodam” na rede social instalando anisotropias no espaço-tempo dos fluxos.

O cordobés Lucius Annaeus Sêneca (c. 3 a. E. C. – 65) escreveu que “se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável” (8). Mas é o contrário. Pouco importa onde está Ítaca. É o vento, soprando livre sobre a superfície das águas, que constitui o não-caminho (ou desconstitui todos os caminhos).

Como cantou Konstantinos Kaváfis, “se partires um dia rumo a Ítaca, faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras... Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca... Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas” (9).

Manobrando o leme para seguir uma rota já traçada não há como viver em processo de Ítaca. É preciso deixar-se ao sabor do vento.

Quando o sopro não percorre livremente os mundos é porque houve direcionamento de fluxo. Pré-cursos foram estabelecidos. Velas foram orientadas para capturar e condicionar o vento. Em geral isso é feito por essas intervenções antrópicas resultantes do congelamento de fluxos que chamamos de instituições (hierárquicas): escolas, ensino, religiões, igrejas, corporações, partidos, nações, Estados. São artifícios para exercer a Força, ou seja, para impor caminhos.

A pergunta é: quando fluzz soprar, para que forçar? Por isso se diz: não há nada a fazer (quando fluzz soprar). Não há nada a fazer significa que é preciso deixar-ir. Ter um comportamento fluzz é deixar-ir. Fluzz não é a força. Fluzz é o curso.

Impor caminhos é deformar um tecido, perturbar um campo. Se pessoas interagindo com pessoas são redes, o tecido deformado é sempre uma rede que se tornou mais centralizada ou menos distribuída. Se o campo social é composto pelo emaranhado de conexões, a perturbação é sempre um desemaranhar, de sorte que alguns mundos perderão contato com outros; ou melhor, deixarão de estar sujeitos às mesmas interações. Se isso acontece é porque interworlds foram aniquilados.

Quando forçamos um caminho exterminamos mundos (para nós, é claro – mas o que dá no mesmo, se não podemos mais interagir com eles). Perdemos então as oportunidades – de que fala o belo poema de Kaváfis – de “entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir” ou de peregrinar naquelas “muitas cidades do Egito... para aprender”.

 

Deformando a rede-mãe

Na ausência do poder as redes tendem a permanecer distribuídas

A investigação das redes sociais leva-nos a uma nova hipótese antropológica: uma outra visão da natureza humana (seja lá o que isso for), que se afasta do que foi concebido como Homo economicus, para se aproximar – como sugeriram Christakis e Fowler – do que eles chamaram de Homo dictyous (do latim homo, “humano”, e do grego dicty, “rede”) (10).

Indivíduos biológicos da espécie humana se tornam Homo dictyous (seres humanos), quando interagem. Mas quando interagem constituem rede. Logo, sem essa rede não podemos ser humanos.

Em outras palavras: se, como pessoas, já somos rede – do contrário não poderia haver a realidade biológico-cultural que chamamos de ‘ser humano’ – então, para nós, humanos, no princípio era a rede. Isso significa que somos “filhos” da rede. Logo, podemos dizer que a rede é a nossa “mãe”. Ou seja, que existe uma rede-mãe.

A interpretação que revela tal sentido é alegórica ou metafórica. Mas a metáfora da rede-mãe pode revelar mais coisas do que imaginamos. Ela sugere que, deixados a si mesmos, os humanos farão (ou melhor, serão) redes em vez de se engalfinharem em uma guerra de todos contra todos transformando sua vida em uma realidade “solitária, miserável, sórdida, brutal e curta”, como queria o agourento Hobbes (1651) (11).

Os pensadores e os economistas que cunharam e trabalharam com a concepção do homo economicus simplesmente partiram desse fundamento hobbesiano para reificar a existência da abstração chamada indivíduo. Trata-se de uma visão da natureza humana – na verdade quase uma tara – baseada no egoísmo, para a qual, como escreveu Hobbes, na ausência de “um poder que domestique os homens... não há sociedade; e o que é pior do que tudo, [há] um medo contínuo e perigo de morte violenta” (12). Vivendo nesse “mundo cão brutal em que a preocupação com o bem-estar dos outros não existe” (13) existiria, entretanto, paradoxalmente, o indivíduo enquanto unidade isolada dos outros indivíduos. Evidentemente, diante de tantos atos gratuitos de colaboração que praticamos e presenciamos no dia-a-dia, essa construção intelectual só pode se revelar uma perversão. Daí a tara individualista, tão frequente e inadequadamente denominada de liberalismo (econômico).

Não há nenhuma evidência científica de que os seres humanos abandonados à sua própria sorte (como se pudesse haver outra sorte...) poriam fim à sua convivência. As evidências apontam justamente o contrário. Não havendo motivo para guerrear, as pessoas – seguindo o fluxo da vida – viveriam sua convivência – ou seja, viveriam em rede. Como disse Lynn Margulis (1986): “A vida não se apossa do globo pelo combate, mas sim pela formação de redes” (14).

A alegação de Hobbes de que é o poder que evita a destruição coletiva deve ser invertida. Quando há poder, aí sim, é porque houve motivo para guerrear e a convivência fica ameaçada.

Na ausência de um poder que as domestique (para insistir na expressão de Hobbes), pessoas interagindo com pessoas tendem a configurar redes distribuídas em pequenos grupos, só não o fazendo, em grupos maiores, em virtude da falta de condições biológicas ou tecnológicas de interatividade ampliada e à distância. Não haveria motivo para obstruírem fluxos, separarem clusters ou excluírem nodos dessas redes (que é, exatamente, o que faz o poder), a menos que queiramos lançar mão de uma hipótese religiosa para vaticinar que o homem é inerentemente competitivo (ou em parte competitivo, por sua própria natureza – seja lá o que isso for). Tal hipótese é absurda neste contexto porque pressupõe que possam existir seres humanos (entes biológico-culturais) como entes (biológicos) isolados.

Mas não existe no ser humano nenhum atributo cultural (comportamental) que se possa dizer inerente. A “natureza” do Homo dictyous – se é que se pode afirmar que exista uma ‘natureza da cultura’ – é relacional.

Todo poder acarreta anisotropias no espaço-tempo dos fluxos (verticalizando a rede). E é por isso que o poder se define como uma medida de não-rede (em termos de rede distribuída) (15). Na ausência do poder (centralização) a rede tende a permanecer distribuída. Podemos dizer que o bios (Basic Input-Output System) pré-gravado lá no firmware da rede-mãe não é um programa verticalizador (centralizador) pelo simples motivo de que não há qualquer razão para sê-lo. Nesse caso, o que precisa ser explicado é o processo de centralização, não o estado de distribuição. São os obstáculos colocados à livre convivência que precisam ser justificados, não a convivência.

Por certo a rede-mãe não permanece com topologia distribuída na presença de programas verticalizadores. Aqui é um daqueles casos – mais comuns do que se pensa – em que o software modifica o hardware (como quando aprendemos uma língua e alteramos para tanto nossas conexões neuronais).

Programas verticalizadores deformam a rede-mãe, sejam programas meméticos (como os que chamamos de deuses – quando lhes atribuímos atributos super-humanos), sejam programas organizacionais (que rodam comandos de ordem, hierarquia, disciplina e obediência – como escolas, igrejas, partidos, corporações, Estados e outras instituições assemelhadas com todos os seus aparatos).

No interior e no entorno dessas organizações hierárquicas o campo social é profundamente perturbado. O espaço-tempo dos fluxos é deformado obrigando as fluições a percorrerem caminhos estranhos. A interação é disciplinada sem qualquer outra razão que a de manter tais estruturas monstruosas funcionando e se reproduzindo. A imagem da Fig. 2 é aterrorizante. Lembra à primeira vista aquelas naves de alienígenas predadores do filme de Roland Emmerich (1996) Independence Day. Talvez não por acaso: organizações hierárquicas de seres humanos geram seres não-humanos. Mas se trata apenas de uma outra maneira de representar o diagrama (B) de Paul Baran (1964) exposto na Fig. 1.

 

 

Fig. 1 | Diagramas de Paul Baran

 

 

Fig. 2 | Organograma de uma organização hierárquica

Se o fluxo deixar de ser aprisionado, orientado, conduzido, compelido a escorrer pelas valetas cavadas para pré-traçar caminhos (eliminando outros caminhos), a rede-mãe volta à sua topologia distribuída. É curioso que a primeira expressão escrita do conceito de liberdade – a palavra suméria Ama-gi – signifique literalmente “retorno à mãe”.

Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola? Quando fluzz soprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzz soprar, para que corporação, para que partido? Quando fluzz soprar, para que nação, para que Estado?

Um sinal de que fluzz está soprando é que tais instituições estão se misturando e se confundindo, quer dizer, está ficando cada vez mais claro que elas são aspectos das mesmas deformações ou do mesmo tronco de programas verticalizadores que “rodam” na rede social provocando anisotropias no espaço-tempo dos fluxos.

É assim que as perturbações no campo social que geram religiões revelam-se as mesmas que geram nações. De sorte que, nos múltiplos mundos altamente conectados que estão emergindo, os nômades optarão por essa ou aquela nação por mera preferência individual, como há bastante tempo já fazemos com as religiões que professamos quando nos convertemos depois de adultos. Alguém preferirá ser brasileiro por simpatia ou por outras razões afetivas, empáticas ou culturais; outro, por razões análogas, preferirá se identificar com uma região ou cidade: será californiano ou cidadão-cultural de Lyon.

Da mesma forma, ao renunciar a igrejas muitas pessoas retirarão também seus filhos das escolas (compreendendo que as duas coisas são – na condição de centros de deformação da rede-mãe ou de fontes de perturbação no campo social – basicamente a mesma coisa). O movimento do homeschooling já começou e avançará para o communityschooling (na linha do unschooling). Comunidades de aprendizagem em rede tendem a florescer e se multiplicar nos Highly Connected Worlds substituindo as atuais burocracias do ensinamento (chamadas de escolas).

Ainda: Estados (nacionais) dividirão com corporações (transnacionais) o controle dos fluxos econômicos e políticos mundiais globalizados e essa pulverização (dos 193 exemplares atuais do modelo europeu de Estado-nação – um anacrônico fruto da guerra, da paz de Westfalia – para milhares de centros com autonomia crescente), dará margem à configuração de novos modelos glocais de governança baseados no localismo cosmopolita de miríades de cidades como redes de comunidades interdependentes.

É claro que todas as velhas instituições perdurarão vestigialmente, como remanescências do mundo único. Não serão destruídas, simplesmente se tornarão inadequadas por não suportarem a fluição de alta intensidade que atravessará os interworlds dos mundos altamente conectados do terceiro milênio.

 

Perturbações no campo social

A nuvem que envolve-e-se-move-com uma pessoa conectada tem a capacidade de “sentir” perturbações no campo social

Walter Robinson (2008), também conhecido por Ritoku – um zen-budista que dá aulas de filosofia na Universidade de Indiana – escrevendo “Morte e Renascimento de uma Mente Vulcana”, observa que “Vulcanos têm “sete sentidos”, que incluem os cinco sentidos conhecidos pelos humanos e um sexto sentido animal, que é “a habilidade de sentir a presença de distúrbio em campos magnéticos” (16).

A metáfora, se não cai como uma luva, serve aos propósitos da presente digressão. Por certo, admitir a hipótese e trabalhar com o modelo de perturbações no campo social pode ser mais fácil do que sentir essas perturbações. Não é preciso ir muito longe para saber se um campo social foi deformado: basta entrar em uma organização hierárquica; por exemplo, basta visitar uma instituição estatal ou uma grande empresa para constatar com que intensidade o “campo gravitacional” em torno dos chefes modifica a estrutura do espaço (no caso, do espaço-tempo dos fluxos). Os fluxos se abismam nesses buracos negros. Eles são sumidouros, engolidouros, alçapões de fluxos.

Tão forte às vezes é a gravitatem dos hierarcas que a deformação do campo social sob sua influência alcança até mesmo os stakeholders externos da organização, transbordando para seu entorno. É por isso que uma grande empresa ou corporação, em uma pequena localidade na qual não existam outras organizações de mesmo porte, em vez de – como se acreditava – impulsionar seu desenvolvimento, faz o contrário: extermina o capital social local (quer dizer, centraliza a rede social). Existem exemplos à farta.

Nas organizações altamente centralizadas, as pessoas perdem a capacidade de ser elas mesmas (à medida que cresce sua porção-borg diminui a sua dimensão de pessoa, quer dizer, sua porção ghola-social). Vestem sempre uma espécie de farda; mesmo nas organizações civis que não usam uniformes elas se uniformizam interiormente. E até exteriormente: não raro preferem roupas que escondem o corpo e os tons de cinza para o vestuário. No exercício continuado da servidão voluntária, autolimitam suas potencialidades escondendo-se na penumbra das rotinas e optando por não se aventurar na claridade do ato inédito. Fazem tudo – sobretudo o que delas não é explicitamente exigido, eis o ponto! – para se submeter ao sistema e aos seus chefes.

E há uma reverência indevida, uma espécie de sujeição, quase uma genuflexão psicológica quando alguém se dirige a algumas dessas encarnações de Dario (aquele monstro Darayavahush, um rei-borg que, após perpetrar um golpe de Estado, dominou os persas entre 521 e 486 a. E. C. exigindo-lhes prosternação física à sua passagem).

Ésquilo (427 a. E. C.), em Os Persas – talvez a primeira obra escrita em que se menciona a democracia dos atenienses como realidade oposta a daqueles povos que têm um senhor – descreve bem a deformação do campo social sob o domínio da sombra de Dario (17). O regime monstruoso não tinha, ao contrário do que se propagou, grandes vantagens militares. Os persas foram rechaçados pelos irreverentes, insolentes e mais livres atenienses e seus aliados na planície de Maratona (em 490). Sim, mas o que é realmente monstruoso é que tal programa (que poderia ser chamado, em homenagem a Ésquilo, de A Sombra de Dario) – instalado quase três milênios antes de Dario – continue a rodar... quase três milênios depois!

Todavia, essas deformações já começam a ser sentidas. Um sexto sentido humano-social está surgindo nos Highly Connected Worlds. Não é propriamente um sentido individual. A nuvem que envolve-e-se-move-com uma pessoa conectada tem a capacidade de “sentir” perturbações no campo social. Uma rede altamente distribuída rechaçará de pronto, mesmo que seus membros não tenham consciência disso, quaisquer tentativas de comando-e-controle. Eis porque burocratas sacerdotais do conhecimento ou ensinadores, codificadores de doutrinas, aprisionadores de corpos, construtores de pirâmides, fabricantes de guerras e condutores de rebanhos não se dão muito bem em redes sociais distribuídas e, nem mesmo, nas mídias sociais, quer dizer, nas plataformas interativas que são utilizadas como ferramentas de netweaving dessas redes. Porque são, todos, netavoids.

Esta é uma das razões – até agora muito pouco compreendida – pelas quais o comando-e-controle, além de não poder se exercer, também não se faz necessário em uma rede distribuída (na medida, é claro, do seu grau de distribuição). Dizer que o emaranhado “sente” quer dizer que ele detecta distorções. Mais do que isso: primeiro ele encapsula e depois acaba metabolizando as fontes de perturbações que causam anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. E são esses incríveis seres sociais que chamamos de pessoas que sentem isso: ainda quando não saibam explicar os motivos dessa sensação, elas (as pessoas) percebem que “alguma coisa está errada” quando aparece um daqueles netavoids, ou um arrivista (ou mesmo um troll, nas mídias sociais).

É a rede-mãe se defendendo. Mas ela nem sempre consegue fazer isso.

 

Destruidores de mundos

Persistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadas para conversar com a rede-mãe

Darayavahush é um destruidor de mundos. Joseph Campbell diria que ele representa “uma força monstruosa, a força do Império, que se baseia na intenção de conquistar e comandar” (18). Como aquele Darth Vader do primeiro episódio da série que veio à luz – Uma Nova Esperança (1977) –, na decifração de Joseph Campbell (1988), ele não é uma pessoa. É um programa malicioso que se instalou na rede. Um programa verticalizador.

Não, não estamos tratando propriamente da figura histórica de Dario, o homem que governou a Pérsia. Todos os hierarcas – inclusive o próprio Dario – replicam o mesmo padrão Darth Vader porque estão emaranhados em configurações deformadas da rede-mãe, com deformações semelhantes. Qualquer um, inserido em sistemas com tais configurações, manifestará – em alguma medida – características de Darayavahush. E será em alguma medida destruidor de mundos. Na verdade, aniquilará interfaces (interworlds) estreitando o fluxo das interações, impedindo que pessoas se conectem livremente com pessoas. É por isso que organizações hierárquicas têm tanta dificuldade de gerar pessoas.

Sim, gerar pessoa é um processo contínuo que não se dá no nascimento e nem apenas logo após o nascimento, mas prossegue por toda a vida (a com-vida, quer dizer, aquela ‘vida social’ que se realiza quando vivemos a convivência). É algo assim como o que certas tradições espirituais chamaram de formação da alma humana: um veículo para “atravessar a morte” (em vez de tentar evitá-la, querendo ser imortal: o motivo da criação dos deuses à imagem e semelhança dos hierarcas) aceitando o fluxo transformador da vida.

Para continuar com o paralelo, se a alma humana é formada com a energia da compaixão, obtida nos atos gratuitos de valorizar a vida, compartilhar o alimento, aliviar os sofrimentos e promover a liberdade, Darth Vader não tem alma porque, ao invés de formá-la, criou um veículo-substituto para escapar de fluzz: sua nave-simulacro é feita com a energia da violência, obtida nos atos instrumentais de tirar a vida, se apoderar dos recursos vitais, infligir sofrimentos e, sobretudo, eliminar caminhos (pela imposição da ordem).

Nas organizações hierárquicas, um processo intermitente de despersonalização é posto em marcha quando obstruímos fluxos, separamos clusters e excluímos nodos. O resultado de tal processo poderia ser interpretado, lançando-se mão de nossa metáfora, como uma perda de contato com a rede-mãe. É por isso que nossas organizações de todos os setores têm tanta dificuldade de contar com (a adesão voluntária das) pessoas. A reclamação geral é sempre a de que “as pessoas não participam”. Imaginam alguns que o motivo dessa dificuldade seria a visão, a missão, a causa da organização ou do movimento, avaliadas então como incapazes de empolgar mais gente, porém a verdadeira razão está na deformação da rede. As pessoas sentem – mesmo quando não conseguem explicitar racionalmente seus motivos – que não lhes cabe entrar em um espaço já configurado de uma determinada maneira. Não querem ‘participar’ (tornar-se partes ou partícipes de alguma coisa) nos termos estabelecidos por outrem, senão ‘interagir’ nos seus próprios termos. Mesmo assim, persistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadas para conversar com a rede-mãe. Porque continuamos criando obstáculos à livre conversação entre pessoas.

Pessoas conversam com pessoas. Redes conversam com redes. Organizações hierárquicas não podem conversar com redes.

Organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização) têm imensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas. A rede social que existe independentemente de nossos esforços conectivos – ou que existiria se tais esforços não fossem verticalizadores; quer dizer, o que chamamos aqui de rede-mãe – não recebe bem a influência dessas organizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesse acontecido.

É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociais profundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentes reportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações não mudam, parece que tudo continua como d’antes...

Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações de base, veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um grau de enredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A rede social que existe de fato naquela localidade não está reconhecendo as mensagens emitidas pela organização. É muito provável que essa organização esteja estruturada e funcione como uma pequena fortaleza, um castelinho, uma igrejinha... É muito provável que ela faça parte da ‘nova burocracia das ONGs’, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar – com baixíssimo grau de rotatividade (menor ainda do que o dos partidos e organizações corporativas). É muito provável que seus chefes queiram se eternizar no poder (no caso, um micro-poder, é verdade, mas todo poder hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, se comporta mais ou menos da mesma maneira, sempre a partir do poder de excluir o outro...) porque precisem (ou imaginem que precisem) auferir o crédito ou obter o reconhecimento social pela sua atuação.

Se essa organização que não consegue boa comunicação com a rede-mãe for uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada a partir de um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico, seja com base no interesse político de um grupo particular que quer manobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede social não-deformada é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas que construímos para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são sempre privadas, mesmo quando urdimos teorias estranhas para legitimar a privatização, como aquela velha crença de que existem interesses privados que, por obra de alguma lei sócio-histórica, teriam o condão de se universalizar, quer dizer, de universalizar o seu particularismo quando satisfeitos.

Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com “a matriz”. Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja, construindo interfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição que for possível. Quanto mais distribuídas forem as redes que construirmos para copiar a rede-mãe melhor será a comunicação com ela.

Nos novos mundos altamente conectados que estão emergindo ficará cada vez mais difícil recrutar, arrebanhar, enquadrar ou aprisionar pessoas em organizações erigidas com base na seleção de caminhos válidos (ou na normatização de caminhos inválidos). Desde que tenham essa possibilidade, as pessoas perfurarão os muros, abrirão continuamente seus próprios caminhos mutantes e – na sua jornada para Ítaca – peregrinarão para aprender naquelas “muitas cidades do Egito...”

 

Hifas por toda parte

Toda rede miceliana é um clone fúngico, o filho distante de uma única linhagem genética. Acima do solo, os fungos produzem esporos que flutuam no ar... Quando pousam, os esporos crescem onde quer que seja possível. Fazendo brotar redes tubulares, as hifas... os fungos produzem quantidades copiosas de esporos, os quais se disseminam, espalhando sua estranha carne... Lynn Margulis e Dorion Sagan em O que é vida? (1998)

Jericó estava fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía ninguém entrava... O Senhor disse então a Josué: “No sétimo dia... os sacerdotes tocarão as trombetas... Quando ouvirdes o som da trombeta, o povo lançará um grande grito; o muro da cidade virá abaixo, o povo subirá, cada um à sua frente. Josué 6: 1-5

Enquanto isso, porém, crescem subterraneamente as hifas, por toda parte. Os alicerces das organizações hierárquicas vão sendo corroídos e seu muros, antes paredes opacas para se proteger do outro, vão agora virando “membranas sociais”, permeáveis à interação e vulneráveis ao outro-imprevisível. Pessoas conectadas com pessoas vão tecendo articulações que estilhaçam o mundo-único-imposto em miríades de pedaços, não pelo combate, mas pela formação de redes. E outras identidades – mais-fluzz – vão surgindo nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio.

Não se decepcione: provavelmente você não vai ver nada mesmo! As hifas crescem, em geral, abaixo do solo. Os esporos espalham-se pelo ar, mas são tão pequenos que a gente nem percebe.

Quando você notar as consequências, aí não adiantará mais se desesperar. Pois se o processo, por enquanto, ainda é lento e invisível (em parte “aéreo”, em parte “subterrâneo”), seus desfechos poderão ser bem concretos e fulminantes nos mundos em que ocorrerem.

Nos Highly Connected Worlds não há como fechar nada. Trancar, chavear, cerrar as fronteiras, isolar por meio de paredes opacas não é a solução para manter a identidade ou preservar a integridade de nenhum aglomerado. Quando os fluxos aumentam de intensidade, os muros não conseguem mais contê-los.

Parece que a vida “sabia” disso: tanto é assim que não encerrou seu “átomo” (a célula) em nenhuma estrutura fechada, separando-o do meio com paredes opacas: antes, construiu membranas – uma interface de sustentabilidade, um convite à conexão. Um convite ao sexo, já que estamos agora explorando um paralelo biológico: nos fungos – que são “organismos realmente fractais”, como percebeu a bióloga Lynn Margulis (1998) – o ato sexual (chamado de conjugação) é uma conexão (19).

Muros caindo por toda parte anunciarão “membranas sociais” surgindo por toda parte. Ou não: o que não virar “membrana social” será escombro.

O que as hifas – esses filamentos ou tubos finos que formam a estrutura em rede dos fungos – têm a ver com isso? Ora, tudo. Pois são elas (ou o processo espelhado, em termos biológicos, pela clonagem fúngica) que estão operando tal mudança.

 

A perfuração dos muros

Quando a porosidade aumentar, os muros vão começar a ruir

Eis como paredes opacas vão se tornando inadequadas para conter o fluxo: elas vão sendo perfuradas por hifas. Essa possibilidade existe concretamente desde que os subordinados em uma organização hierárquica não podem mais ser proibidos de se conectar com quem está do lado de fora do muro pelas polícias corporativas (os departamentos de segurança, os departamentos de pessoal e, inclusive – e hoje principalmente –, os departamentos de tecnologia da informação).

O aprisionamento de corpos e sua contenção física em prédios fechados, com salas e andares isolados um dos outros, controlados por portarias ou por barreiras eletrônicas que não deixam passar quem não tem o código válido no seu cartão magnético funcional, já não resistem adequadamente a aglomeração física não-prevista pelos protocolos de segurança; por exemplo, dos amigos que se encontram após o expediente em bares, restaurantes, shoppings e em suas próprias casas, ou até mesmo dos fumantes que são obrigado a se encontrar na rua, do lado de fora das sedes, por imposição legal. E muito menos é capaz de resistir à comunicação à distância, por celular, e-mail, pelos programas de mensagens e comunicação instantânea ou pelos sites de relacionamento na Internet.

É inútil proibir e não há como manter uma vigilância eficaz. Os departamentos de tecnologia da informação (TI) podem tentar barrar (como ainda insistem em fazer) o acesso às chamadas mídias sociais e aos vários serviços de comunicação web na sua própria rede de computadores, mas qualquer um que tenha um celular (3G, equivalente ou sucedâneo), ou melhor, um dispositivo móvel de interação conectado à Internet ou conectável a outros dispositivos por rádio (incluindo bluetooth quando seu alcance for ampliado) já pode – ao mesmo tempo em que trabalha (ou finge que trabalha) em uma empresa fechada – desenvolver outros projetos conjuntos com pessoas de outras empresas fechadas, inclusive concorrentes (20).

Tudo isso aumenta a porosidade dos muros. À medida que a porosidade aumentar, os muros vão começar a ruir.

Só então as organizações fechadas se darão conta de que estão irremediavelmente vulneráveis à interação e correrão desesperadas atrás das membranas. Aí já poderá ser tarde: uma membrana é um dispositivo ultracomplexo, que só pode ser construído pela dinâmica de um organismo vivo em interação com o meio, com outros organismos e partes de organismos.

Uma empresa que não aprendeu a se desenvolver conversando com as outras empresas por medo de perder mercado ou de ter roubadas as suas inovações ou seus funcionários, não conseguirá, da noite para o dia, fazer uma reengenharia de suas, por assim dizer, boundary conditions.

Uma corporação que insistiu em manter intranets mesmo depois de ter sido inventada a Internet, dificilmente estará preparada para operar, em tempo hábil, tal mudança.

 

A construção de “membranas sociais”

Deixar a interação pervadir um sistema não significa propriamente fazer, mas – ao contrário – não-fazer: não proibir, não-selecionar caminhos...

A derruição dos muros não esperará que os sacerdotes toquem as trombetas em Jericó (se bem que na saga bíblica de Josué foi o grito em uníssono do povo que derrubou as muralhas que trancavam a cidade). De qualquer modo, não há mais tempo para aprender a construir verdadeiras membranas. Na verdade, membranas não podem ser construídas, stricto sensu, como um ato voluntário de alguém que segue uma planta, um projeto, um esquema. As membranas são “construídas” pela interação biológica, elas surgem em função da autopoese: da produção contínua da vida por ela mesma.

No caso das membranas celulares (plasmalemas), sua estrutura e funcionamento complexos dependem da dinâmica de rede, de redes dentro de redes, com canais protéicos (proteínas de transporte – espécies de atalhos entre clusters) que atravessam suas camadas, passando por numerosos arranjos moleculares (21) até chegar, na interface com o citoplasma, a um emaranhado de “hifas” composto por filamentos e microtúbulos de citoesqueleto... tudo isso fluindo (imerso em fluido extracelular). E tudo isso com a função de ser uma porta seletiva que a célula usa para captar os elementos do meio exterior que são necessários ao seu metabolismo e para liberar as substâncias que a célula produz e que devem ser enviadas para o exterior (excreções que devem ser libertadas e secreções que ativam várias funções de seus, por assim dizer, “stakeholders externos”).

Esse produto de bilhões de anos de evolução biológica funciona, é claro, como um sistema não-hierárquico, sem-administração, auto-organizado para permitir o que chamamos de vida e não pode ser substituído por cancelas corporativas que sigam protocolos alfandegários burros, destinados a disciplinar a interação.

Seria inútil simular, nas organizações que voluntariamente construímos, mecanismos semelhantes às membranas celulares. E nem seria o caso de tentar fazê-lo, abusando do paralelo biológico. O que se deve captar aqui é o padrão, não reproduzir o mecanismo ou simular o organismo. E o padrão é o padrão de interação em rede.

“Membranas sociais”, seja o que forem (e como forem), serão sempre redes (mais distribuídas do que centralizadas), interfaces. A única solução-fluzz parece ser articular comunidades móveis (no ecossistema composto pelos stakeholders da organização) e deixar a interação configurar tais interfaces, esperando que elas cumpram funções equivalentes, no mundo social, às que são desempenhadas pelas membranas celulares no mundo biológico.

Na verdade, ao estabelecer contornos, estabelece-se a estrutura e a dinâmica do que está dentro dos contornos. Membranas são o que são (e como são) porque os meios que elas conectam são o que são (e como são). Mas tais meios são, eles próprios, constituídos pela interação, quer dizer, não se constituem como tais antes da interação. A membrana é um sistema complexo porque é, simultaneamente, uma interseção de conjuntos, uma zona de transição entre um ser e os outros seres nos quais se insere (ou, mais genericamente, com os quais interage), uma forma de ligação ou uma espécie de conjunção.

Ainda não sabemos muito sobre membranas e, sobretudo, sobre “membranas sociais”. Algumas coisas, porém, já sabemos. Sabemos, por exemplo, que deixar a interação pervadir um sistema não significa propriamente fazer, mas – ao contrário – não-fazer: não-proibir, não-selecionar caminhos (estabelecendo apenas alguns caminhos, proclamando-os como válidos e exterminando todos os demais caminhos, decretando-os inválidos); fundamentalmente, não gerar artificialmente escassez (22).

Sabemos também que as interfaces devem ser sociais stricto sensu e não organizacionais (em termos das teorias da administração baseadas em comando-e-controle). Ou seja, devem ser baseadas na livre conversação entre pessoas e na sua espontânea clusterização e não na designação, ex ante à interação, de caixinhas departamentais para alocar essas pessoas. Simples assim? É, mas a conversação é algo bem mais complexo do que parece. E os novos procedimentos e mecanismos, os novos processos de netweaving e as novas tecnologias interativas que inventamos para viabilizar e potencializar a conversação, alteram completamente o multiverso das interações que chamamos de social.

“Membranas sociais” são interworlds. Ao constituí-las multiplicamos os mundos, dando origem – se quisermos fazer uma comparação quantitativa para efeitos ilustrativos – a bilhões de organizações (em vez de milhões que existem atualmente). Uma mesma pessoa participará de muitas organizações, comporá numerosas empresas, entidades, movimentos, enfim, redes – pois tudo isso é válido, claro, na medida em que tudo for rede. Para tanto, não será necessário fazer quase nada adicionalmente ao que já se faz hoje. Bastará não proibir a conexão, não querer disciplinar a interação.

Um bom exemplo, hoje, são as plataformas interativas digitais, chamadas de “redes sociais”. A quantas “redes sociais’” alguém pertence (ou seja, em quantas mídias sociais está registrado)? O número é grande e só tende a crescer.

Os emaranhados se adensarão a tal ponto, as timelines ficarão tão caudalosas, que as identidades organizacionais não se manterão por muito tempo. Despencaremos da escala de décadas e anos (que é a vida média da imensa maioria das organizações que ainda temos) para a escala de meses e dias (ou, quem sabe, de horas e minutos).

Não é bem como disse Andi Warhol (1968) – “no futuro todo mundo será famoso por quinze minutos” – mas é parecido (23). Não é bem como ele disse porque ninguém será muito famoso, no sentido de visto por todo mundo, porque não haverá mais o mundo único forjado pelo broadcasting. Mas é parecido porque no futuro (um conceito que também será aposentado, de vez que não haverá mais um futuro único, um mesmo futuro para todos), as organizações serão sempre transitórias, estarão sempre fluindo para configurarem outras organizações e uma mesma configuração não poderá perdurar por muito tempo.

É assim porque redes são móveis. Novamente as mídias sociais oferecem uma boa imagem do que ocorre. Sites de relacionamento e plataformas interativas nunca são as mesmas ao longo do tempo e a velocidade com que mudam (em anos, dias ou horas) é função da sua interatividade. O exemplo mais flagrante é o twiver (as centenas de milhões – que logo serão bilhões, se considerarmos os sucedâneos do Twitter – de timelines fluindo no twitter-river).

Onde e quando tudo isso vai acontecer? Vai acontecer nos Highly Connected Worlds do terceiro milênio. Para aqueles mundos que já estão no terceiro milênio.

 

 

Notas e referências

(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no início de 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autor observava que Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação, argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based e não p-based, quer dizer, baseada em interação, não em participação). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, na ocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia de Buzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio (2011) e passou a não ter muito a ver com o programa mal-sucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceito complexo, sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem: “Tudo que flui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que não pode ser aprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismo da rede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não se expressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “lado de fora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo não há espaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. É de lá que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos... Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: são muitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move, dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interação que se constelam e se desfazem, intermitentemente”.

(**) Este texto foi originalmente escrito em 2010 e publicado em 2011 no livro Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola de Redes, 2011.

(1) Cf. LORCA, Frederico Garcia (1924). “Canción Tonta” in Canciones (Obras Completas I). Madrid: Aguilar, 1978.

(2) BARROS, Manoel (1993). Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

(3) LÉVY, Pierre (1998). “Uma ramada de neurônios” in Folha de São Paulo: 15/11/1998. Cf. ainda Caderno Mais da Folha de S. Paulo: 15/11/2002 (p. 5-3). O texto está disponível em:

<http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/uma-ramada-de-neuronios&gt;

(4) Cf. FRANCO, Augusto (1998). O Complexo Darth Vader. Slideshare [469 views em 23/01/2011]

<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-complexo-darth-vader&gt;

(5) HERBERT, Frank (1976). Os filhos de Duna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

(6) CASTELLS, Manoel (2001). A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

(7) Trata-se de uma tradução forçada do provérbio “Viam aut aut faciam inveniam” cuja localização não foi possível determinar. Cf. a bibliografia de SENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65) em:

<http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/&gt;

(8) SENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65). Cf. Wikiquote:

<http://pt.wikiquote.org/wiki/S%C3%AAneca&gt;

Não foi possível determinar a localização desta citação. Cf. a bibliografia de SENECA: <http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/&gt;

(9) KAVÁFIS, Konstantinos (1911). Ithaca. Kaváfis não publicou nenhum livro em vida. Estão disponíveis online as traduções de José Paulo Paes e Haroldo de Campos em:

<http://www.org2.com.br/kavafis.htm&gt;

(10) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James (2009): Connected: o poder das conexões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

(11) HOBBES, Thomas (1651). Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

(12) HOBBES: Op. cit.

(13) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James: Op. cit.

(14) MARGULIS, Lynn e SAGAN, Dorion (1986). Microcosmos: four billion years of microbial evolution. Los Angeles: University of California Press, 1997.

(15) Cf. FRANCO, Augusto (2009). O poder nas redes sociais. Slideshare [1893 views em 23/01/2011]

<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-poder-nas-redes-sociais-2a-versao&gt;

(16) ROBINSON, Walter (2008). “Morte e renascimento de uma mente vulcana” in EBERL, Jason & DECKER, Kevin (2008). Star Treck e a filosofia: a ira de Kant. São Paulo: Madras, 2010.

O sétimo sentido seria “o senso de unicidade com Tudo, isto é, Universo, a força criativa, ou o que alguns humanos poderiam chamar de Deus. Vulcanos não vêem, contudo, isso como uma crença, seja religiosa ou filosófica. Eles tratam isso como um simples fato que insistem não ser mais incomum ou difícil de entender do que a habilidade de ouvir ou ver” [como escreveu o criador da série Star Trek, Gene Roddenberry (1979)]. Vulcanos chamam essa filosofia de “Nome”, querendo dizer “uma combinação de uma diversidade de coisas para fazer com que a existência valha a pena” (Episódio “Por trás da cortina”: The Original Series)”. Cf. RODDENBERRY, Gene (1979). The Motion Picture. New York: Pocket Books, 1979.

(17) Em Os Persas, Ésquilo descreve os reveses de Xerxes, filho de Dario. Já morto na ocasião, Dario vai então aparecer na peça como uma sombra para advertir aos persas que jamais movam novamente uma guerra aos gregos. Depois de dar adeus aos anciãos e de recomendar que, mesmo “em meio a desgraças, alegrem-se na fruição do mundo... a Sombra de Dario esfuma-se no túmulo”.

(18) CAMPBELL, Joseph (1988). O poder do mito (entrevistas concedidas a Bill Moyers: 1985-1986). São Paulo: Palas Athena, 1990.

(19) MARGULIS, Lynn & SAGAN, Dorion (1998). O que é vida? Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

(20) A quase totalidade dos procedimentos e mecanismos de obstrução de fluxos, estabelecidos nas organizações a pretexto de segurança, não se justifica (em mais de 90% dos casos, não há nada de realmente decisivo, estratégico ou sigiloso que deva ser protegido ou não-compartilhado, fechado e trancado em vez de permanecer aberto e disponível). Isso vale para os protocolos de segurança impostos pelas áreas chamadas de “tecnologia da informação”. Não há qualquer ganho em proibir o acesso dos funcionários de uma organização ao Youtube ou ao Messenger, ao Slideshare ou ao 4shared, ao Facebook ou ao Twitter. Não há nenhuma razão para impor programas de e-mail proprietários, lentos, pesados e com limitações enervantes de poucos megabytes no lugar de adotar correios eletrônicos web mais eficazes, rápidos, com alta capacidade e, além de tudo, gratuitos (como o gmail ou o ymail). Não há nenhum motivo para editar hierarquias de permissões diferenciais e preferências de acesso a conteúdos que, se fossem realmente secretos (como listas de espiões ou processos de fabricação de artefatos de destruição em massa), não poderiam mesmo estar em rede. E não há explicação plausível para a manutenção de intranets, sobretudo em uma época em que já existe a Internet.

(21) Por exemplo, cabeças hidrofílicas com caudas hidrofóbicas em conjugação com fosfolípidos, aglomerados de proteínas globulares, glicoproteínas, glicolipídios, colesterol, proteínas extrínsecas etc.

(22) Cf. FRANCO, Augusto (2009). A lógica da abundância. Slideshare [2.172 views em 23/01/2011]

<http://www.slideshare.net/augustodefranco/a-lgica-da-abundncia&gt;

(23) WARHOL, Andi (1968). Cf. “15 minutes of fame” em

<http://en.wikipedia.org/wiki/15_minutes_of_fame&gt;

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