Escola de Redes

in Carta Capital Social 107 (16/03/06) by Augusto de Franco

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Resolvi transcrever nesta carta a tradução que fiz de excertos do recente experimento sobre Small-World de Peter Dodds, Roby Muhamad e Duncan Watts. O trabalho foi publicado em maio de 2003 na revista Science (2 December 2002; accepted 23 May 2003 |10.1126/science.1081058), adaptado, traduzido e republicado no meu livro “A revolução do local: globalização, glocalização, localização” no final de 2003.



Há alguns anos venho fazendo explorações imaginativas no universo de conexões ocultas que produzem o que chamamos de social. Tais investigações, conquanto imaginativas (e a palavra imaginativa é usada aqui mais no sentido de libertadas dos velhos métodos sociológicos que ainda dificultam a apreensão dos fenômenos surpreendentes associados à morfologia e dinâmica das sociedades do que no sentido ficcional), estão apoiadas em algumas descobertas científicas recentes, como a do chamado “efeito ‘Small-World Network’”, ao qual vêm se dedicando jovens pesquisadores de talento como Duncan Watts (Columbia, Santa Fe Institute). No entanto, aqui entre nós, no Brasil, mesmo os que trabalham com capital social e rede social, ainda não têm conhecimento de muitos dos trabalhos que estão surgindo na área. Os poucos que se dedicam ao tema, do ponto de vista acadêmico, não mantêm diálogo com os que procuram aplicar esses novos conceitos ao trabalho prático de organização social e promoção do desenvolvimento.

Resolvi então transcrever, nesta ‘Carta Capital Social 107’, a tradução que fiz de excertos do recente experimento sobre Small-World de Peter Dodds, Roby Muhamad e Duncan Watts. O trabalho foi publicado em maio de 2003 na revista Science (2 December 2002; accepted 23 May 2003 |10.1126/science.1081058), adaptado, traduzido e republicado no meu livro “A revolução do local: globalização, glocalização, localização” no final de 2003 com a seguinte introdução:

"Laços “fracos” são desproporcionalmente responsáveis pela conectividade social.”

No final de 2002, Peter Sheridan Dodds, Roby Muhamad e Duncan Watts, da Universidade de Colúmbia, apresentaram à revista Science os resultados de um estudo experimental de busca em redes sociais globais. Utilizando programas de e-mail, eles, de certo modo, buscaram refazer o trabalho experimental pioneiro realizado por Travers e Milgram no final dos anos 60.

Os resultados da pesquisa são surpreendentes. Duncan e seu colegas encontraram, para o mundo inteiro – e 35 anos depois –, um resultado muito parecido com o de Milgram, que focalizou apenas a sociedade americana. Isso sugere que o ‘tamanho de mundo’ do mundo inteiro no final de 2002 é mais ou menos o mesmo do ‘tamanho de mundo’ dos USA em 1967. Mas talvez não seja possível afirmar isso a partir (ou somente a partir) do experimento de Duncan.

Travers e Milgram encontraram, em média, seis graus de separação. Duncan e sua turma, que pareciam já conhecer o resultado antes mesmo do experimento, encontraram cinco a sete graus de separação! Supondo que o ‘tamanho de mundo’ seja função direta do capital social, isso reforça a hipótese (defendida por Robert Putnam e outros) de que a sociedade americana vem perdendo, nos últimos anos, velocidade relativa na produção de capital social; ou, em outras palavras, vem dilapidando aceleradamente o seu estoque de capital social. Se o experimento de Duncan tivesse sido feito, com outros meios não-eletrônicos, no final dos anos 60, provavelmente seria encontrado um grande intervalo entre os valores mundiais e os americanos. Como isso não é possível, restaria a Duncan e sua equipe refazer a experiência para algumas sociedades escolhidas, inclusive a americana.

De qualquer modo, o experimento revelou, entre outros, quatro resultados importantes: a) existe mesmo o efeito ‘Small-World Network’. Esta é a principal conclusão; b) os laços “fracos” são mais relevantes que os “fortes”; ou seja, cooperação social vale mais do que laços de sangue ou parentais (confirmando as hipóteses das teorias do capital social). Como eles próprios escreveram: “Laços “fracos” são desproporcionalmente responsáveis pela conectividade social”; c) nas palavras dos próprios autores,”"a busca social parece ser um exercício geralmente igualitário, cujo sucesso não depende de uma pequena minoria de indivíduos excepcionais”; e d) “um ligeiro incremento de incentivos pode levar as buscas sociais ao sucesso sob diferentes condições”. Ou seja, como eles dizem, “a rede não é tudo”, porém, existindo a rede, basta um peteleco... Excertos das conclusões desse novo experimento são reproduzidos abaixo.

Um Estudo Experimental de Busca em Redes Sociais Globais

“Relatamos um experimento de busca social global, no qual mais de 60 mil usuários de e-mail tentaram se comunicar com uma de dezoito pessoas-alvo em 13 países, encaminhando mensagens a alguém conhecido. Constatamos que a busca social bem sucedida é realizada, primordialmente, por meio de laços que variam de intermediários a fracos, não requer “hubs” de muitos contatos para obter êxito e, contrariamente à busca social mal sucedida, depende, de forma desproporcional, de relações profissionais. Contabilizando o atrito de correntes de mensagens, estimamos que as buscas sociais podem alcançar seus alvos com um número médio de cinco a sete passos, dependendo da separação entre a fonte e o alvo, embora pequenas variações nos comprimentos das correntes e taxas de participação gerem grandes diferenças na acessibilidade. Concluímos que, embora as redes sociais globais sejam, em princípio, passíveis de busca, o sucesso de fato depende, sensivelmente, de incentivos individuais.

Já se tornou lugar comum a afirmação de que qualquer pessoa no planeta pode chegar a qualquer outra por meio de uma curta corrente de laços sociais. Um trabalho experimental pioneiro realizado por Travers e Milgram, sugeria que o comprimento médio dessas correntes é de mais ou menos seis passos; trabalhos teóricos e empíricos recentes generalizam a alegação de uma vasta gama de redes não-sociais.

Entretanto, muito do que se fala sobre essa hipótese de “mundo pequeno” é mal compreendido e carece de substância empírica. Em particular, em redes sociais reais os indivíduos dispõem apenas de informações limitadas e locais sobre a rede social global e, portanto, encontrar atalhos representa um esforço de busca significativo. Ademais, e contrariamente à sabedoria aceita, a evidência experimental no que se refere a comprimentos de correntes globais curtas é extremamente limitada. Por exemplo, Travers e Milgram relatam 96 correntes de mensagens (das quais 18 foram concluídas), iniciadas por indivíduos selecionados aleatoriamente em uma cidade que não a do alvo. Quase todos os demais estudos empíricos de redes de larga escala focalizaram redes não-sociais ou substitutos grosseiros de interação social tal como cooperação científica, e estudos específicos de redes de e-mail têm-se limitado, até o momento, a instituições individuais.

Abordamos essas questões por meio de um experimento de busca social global, baseado na Internet. Os participantes se inscreveram on-line, tendo-lhes sido atribuída, aleatoriamente, uma das 18 pessoas-alvo em 13 países. Os alvos incluíam um professor de uma renomada universidade norte-americana, um inspetor de arquivos na Estônia, um consultor de tecnologia na Índia, um policial na Austrália, e um veterinário do exército norueguês. Os participantes foram informados de que sua tarefa seria ajudar a retransmitir uma mensagem ao alvo que lhes havia sido atribuído, enviando a mensagem a um contato social que considerassem “mais íntimos” do alvo do que eles próprios. Dos 98.847 indivíduos inscritos, cerca de 25% forneceram informações pessoais e iniciaram correntes de mensagens. Como os remetentes subseqüentes foram efetivamente recrutados por seus próprios conhecidos, a taxa de participação após o primeiro passo subiu para uma média de 37%. Incluindo-se os remetentes iniciais e subseqüentes, foram registrados dados referentes a 61.168 indivíduos em 166 países, que constituíram 24.163 diferentes correntes de mensagens. Mais da metade de todos os participantes viviam na América do Norte e eram de classe média, exerciam uma profissão, tinham grau universitário e eram cristãos, refletindo idéias comumente aceitas sobre a população usuária da Internet.

Além de fornecer o nome e o endereço de e-mail do contato escolhido, cada remetente foi solicitado a descrever como havia conhecido a pessoa, bem como o tipo e a intensidade do relacionamento mantido com esta...

Ao enviar suas mensagens, os remetentes geralmente recorreram a amizades em detrimento de laços profissionais ou familiares. Entretanto, quase metade dessas amizades foi formada em ambientes de trabalho ou escolares. Ademais, em comparação com correntes interrompidas, as correntes bem sucedidas envolviam, de forma desproporcional, laços profissionais (33,9% versus 13,2%), em detrimento de relacionamentos de amizade ou familiares (59,8% versus 83,4%).

Correntes bem sucedidas também apresentavam maior probabilidade de apresentar laços estabelecidos em ambiente de trabalho ou de educação superior (65,1% versus 39,6%). Os homens transmitiam mensagens mais freqüentemente a outros homens (57%) e as mulheres a outras mulheres (61%), e essa tendência de transmitir mensagens a um contato do mesmo sexo aumentava em cerca de 3% se o alvo fosse do mesmo gênero do remetente e diminuía, na mesma proporção, no caso oposto.

Tanto nas correntes bem sucedidas quanto nas mal sucedidas, os indivíduos geralmente usavam laços com conhecidos que consideravam “relativamente íntimos”. Entretanto, nas correntes bem sucedidas, laços “ocasionais” e “não íntimos” foram escolhidos com uma freqüência 15,7% e 5,9% superior àquela registrada nas correntes mal sucedidas, agregando suporte, e alguma resolução, à duradoura asserção de que laços “fracos” são desproporcionalmente responsáveis pela conectividade social.

Os remetentes também foram solicitados a indicar o motivo pelo qual consideravam o conhecido escolhido um destinatário adequado. Duas razões – a proximidade geográfica entre o conhecido e o alvo e a semelhança de ocupação – responderam por pelo menos metade de todas as escolhas, corroborando constatações anteriores. A geografia dominou, claramente, os estágios iniciais de uma corrente (quando os remetentes estavam geograficamente distantes), mas após o terceiro passo foi citada com menor freqüência do que outras características, das quais a ocupação foi a mais freqüentemente citada. Em contraste com asserções anteriores, a presença de indivíduos com muitos contatos (“hubs”) parece ter relevância limitada em relação ao tipo de busca social incluído em nosso experimento (busca social com grandes custos/recompensas associados, ou incentivos individuais de outra forma modificados podem se comportar de forma diferente). Os participantes raramente indicaram uma pessoa conhecida pelo fato de esta ter muitos amigos, e os indivíduos de correntes bem sucedidas apresentaram uma probabilidade infinitamente menor de enviar mensagens a “hubs” do que os indivíduos de correntes interrompidas (1,6% versus 8,2%). Também não encontramos evidência de “afunilamento” de mensagens por meio de uma única pessoa conhecida do alvo. No máximo 5% das mensagens passaram por uma única pessoa conhecida do alvo e 95% de todas as correntes foram concluídas por intermédio de indivíduos que transmitiram no máximo três mensagens. Concluímos que a busca social parece ser um exercício geralmente igualitário, cujo sucesso não depende de uma pequena minoria de indivíduos excepcionais.

Embora a taxa média de participação (cerca de 37%) fosse alta em relação àquelas relatadas na maioria das pesquisas baseadas em e-mail, os efeitos combinados do atrito em laços múltiplos resultou em uma atenuação exponencial de correntes como uma função de seu comprimento e, portanto, em uma taxa extremamente baixa de conclusão (384 de 24.163 correntes chegaram aos seus alvos). As correntes podem ter sido rompidas (i) aleatoriamente, devido à apatia do indivíduo ou à sua pouca disposição em participar; (ii) especialmente em comprimentos mais longos de corrente, correspondendo à alegação das correntes “se perder” ou não conseguir chegar aos seus destinatários; ou (iii) especialmente em comprimentos menores de correntes porque, por exemplo, os indivíduos mais próximos ao alvo apresentam maior probabilidade de dar continuidade à corrente... [mas] a falta de interesse ou de incentivo, e não a dificuldade, foi a principal razão para a ruptura da corrente...

Em conjunto... [as] evidências sugerem um cenário misto de busca em redes sociais globais. Por um lado, todos os alvos podem, efetivamente, ser alcançados a partir de remetentes iniciais aleatórios em apenas alguns passos, com uma variação surpreendentemente pequena nos alvos em diferentes países e profissões. Por outro lado, pequenas diferenças, quer nas taxas de participação ou nos comprimentos de correntes adjacentes, podem produzir um impacto brutal na aparente acessibilidade de diferentes alvos. O alvo 5 (um professor de uma renomada universidade dos EUA) se sobressai nesse sentido. Como 85% dos remetentes tinham educação universitária e mais da metade eram americanos, os participantes podem ter previsto poucas dificuldades para contatá-lo, o que justifica o fato de que a taxa de atrito de sua corrente (54%) foi bem inferior àquela de qualquer outro alvo (60% a 68%). O alvo 5 alcançou notáveis 44% dentre todas as correntes concluídas. Ainda assim, esse resultado é coerente com o fato de sua “verdadeira” acessibilidade ter sido um pouco diferente da de outros alvos. Seus remetentes talvez estivessem mais confiantes no sucesso.

Nossos resultados, portanto, sugerem que, se os indivíduos que buscam alvos distantes não tiverem incentivos suficientes para prosseguir, a hipótese de “mundo pequeno” não terá sustentação, mas que mesmo um ligeiro incremento de incentivos pode levar as buscas sociais ao sucesso sob diferentes condições. Em termos mais gerais, a abordagem experimental aqui adotada sugere que uma estrutura de rede observada empiricamente somente poderá ser significativamente interpretada à luz das ações, das estratégias e mesmo das percepções dos indivíduos envolvidos na rede: a estrutura da rede sozinha não é tudo.”

Comparação com o experimento original de Milgram

“O experimento de Travers e Milgram foi realizado no final dos anos 1960, quando o volume de correspondência indesejável era bem inferior ao de hoje. Como resultado, é improvável que a taxa de respostas de Travers e Milgram, de cerca de 75% em cada passo de sua corrente de cartas, pudesse ser reproduzida hoje, quando as taxas de respostas típicas em pesquisas de correspondência não ultrapassam 1% ou 2% (cf. www.surveywriter.com/site/news/Shoestring.htm) Analogamente, a prevalência atual de e-mails indesejáveis (spam) representa um problema substancial para qualquer experimento envolvendo e-mails. Estima-se que, no momento, os e-mails indesejáveis representem 40% de todos os e-mails recebidos (ver http://zdnet.com.com/2100-1106-977809.html, por exemplo).

Evidências indicam que filtros automatizados de e-mails indesejáveis bloqueiam os e-mails do experimento, levando indivíduos dispostos a participar do experimento a tomar esses e-mails por correspondência comercial. Entretanto, a taxa média de participação em cada link após o primeiro foi de cerca de 37%, excedendo a taxa típica de resposta em pesquisas de e-mails. Como indicamos no documento, a baixa taxa de conclusão de correntes (0,4%) resulta da atenuação exponencial das correntes de mensagens, uma característica inevitável do protocolo experimental. Para esclarecer esse ponto, considere o efeito do aumento de nossa taxa de resposta por link (37%) em relação àquela obtida por Travers e Milgram (75%): em uma corrente de comprimento 6, a taxa de conclusão de corrente correspondente aumentaria em um fator de aproximadamente 64”.

(As tabelas, equações, referências e notas originais deste artigo podem ser acessadas em sciencemag no endereço http://www.sciencemag.org/cgi/content/full/301/5634/)

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Respostas a este tópico

Esperando o resultado no experimento Yahoo-Facebook: os nodos buscam entre os seus contatos quem achar mais próximo do alvo.

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