Escola de Redes

[Inovação necessária] Tribalismo étnico => Civilização de conquista => ?

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Além da Civilização - recomendação de leitura
Postado por Claudio Estevam Próspero em 30 março 2009 às 2:42

http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/alem-da-civilizacao

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Respostas a este tópico

Algumas informações obtidas em:

Antizero - Leitura - Links - Ações - Blog - Wiki

"Com o fim do homem, haverá esperança para o gorila? Com o fim do gorila, haverá esperança para o homem?"

http://br.geocities.com/janosbiro/largue.htm

Este site é dedicado ao pensamento crítico. Eu compreendo os problemas acerca do questionar a civilização, mas creio que a civilização, em seus fundamentos, é uma questão a ser examinada mais profundamente. Apesar desse questionamento ter começado para mim com os livros de Daniel Quinn, hoje em dia me afasto muito do pensamento desse autor. Ainda assim acho que alguns trechos de suas obras podem ser bastante esclarecedoras a esse respeito, especialmente para aqueles que estão começando a ler sobre isso agora. Em resumo, quero deixar bem claro: Não acredito na criação de uma nova civilização, eu acredito no fim da civilização e no começo de algo diferente.

É pegar ou largar... (Passagens dos livros de Daniel Quinn)

Cativeiro

PROFESSOR procura aluno. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.

— Entendo — disse eu. — E o que você ensina?
Ismael selecionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o brevemente e começou a mordiscá-lo, olhando-me com languidez. Enfim respondeu:
— Baseando-se em minha história, que assunto diria que estou mais preparado para ensinar?
Olhei-o sem entender e respondi que não sabia.
— Claro que sabe, Meu assunto é cativeiro.
— Cativeiro?
— Correto.
Fiquei quieto por um minuto, depois disse:
— Estou tentando imaginar o que isso tem a ver com salvar o mundo.
Ismael pensou um pouco.
— Dentre as pessoas de sua cultura, quais desejam destruir o mundo?
— Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
— E no entanto o destroem, todos vocês. Cada um contribui diariamente para
a destruição do mundo.
— Sim, é verdade.
— Por que não param?
Encolhi os ombros.
— Francamente, não sabemos como.
— São cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos os compele a prosseguir destruindo o mundo para continuarem vivendo.
— Sim, é o que parece.
— Portanto são cativos e tornaram o próprio mundo um cativeiro. É o que está em jogo, não é? O cativeiro de vocês e o cativeiro do mundo.
Sim, é verdade. Mas nunca pensei dessa maneira.
— Você mesmo é um cativo a seu modo, não é?
— Como assim?
Ismael sorriu, revelando uma grande massa de dentes brancos como o mármore. Até então eu não sabia que era capaz de sorrir.
— Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que tenho tal impressão — disse eu.
— Anos atrás (você devia ser criança na época, talvez não se lembre), muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingênuo e desorganizado de escapar do cativeiro, mas acabaram fracassando, porque não foram capazes de encontrar as grades da jaula. Se você não descobre o que o está prendendo, a vontade de sair logo se torna confusa e ineficaz.
— Sim, é essa a sensação que me causou — disse eu, e Ismael assentiu. — Mas, outra vez, como isso está relacionado com salvar o mundo?
— O mundo não sobreviverá por muito tempo no cativeiro da humanidade.
Isso precisa de explicação?
— Não. Pelo menos, não para mim.
— Acho que existem muitos entre vocês que gostariam de libertar o mundo do cativeiro.
— Concordo.
O que os impede de fazê-lo?
— Não sei.
— Eis o que os impede: são incapazes de achar as grades da jaula.


Daniel Quinn, Ismael.

O Vazio da Pré-História

Quando os pensadores basilares da nossa cultura consideraram o passado anterior ao surgimento do homem como agricultor, viram...Nada. Era o que esperavam ver, pois, tal como imaginaram, não poderiam existir pessoas antes da agricultura assim como o peixe não poderia existir antes da água. Para eles, estudar o homem pré-agrícola teria sido como estudar ninguém.

Quando a existência do homem pré-agrícola passou a ser um fato inegável no século XIX, os pensadores da nossa cultura não se deram ao trabalho de alterar a sabedoria recebida dos antigos, de modo que estudar o homem pré-agrícola passou a ser sinônimo de estudar ninguém.

Eles sabiam que não podiam escapar impunes dizendo que os povos pré-agrícolas não viveram na história, por isso disseram que viviam em algo chamado pré-história. Tenho certeza de que vocês entendem o que é pré-história. É mais ou menos como pré-água, e todos vocês sabem do que se trata, não sabem? Pré-água é o estudo da substância onde os peixes viviam antes de haver água, e pré-história é o período em que as pessoas viveram antes de haver história.

Como observei muitas e muitas vezes, os pensadores basilares da nossa cultura imaginaram que o homem nasceu como agricultor e criador de civilização. Quando os pensadores do século XIX foram obrigados revisar esse pressuposto, fizeram-no da seguinte maneira: o homem talvez não tenha nascido como agricultor e criador de civilização, mas apesar disso nasceu para tornar-se agricultor e criador de civilização. Em outras palavras, o homem daquela ficção conhecida como pré-história atingiu nossa consciência cultural como uma espécie de desencadeador de um processo muito, muito lento, e a pré-história tornou-se uma seqüência de pessoas desencadeando um processo, lento, muito lento para se tornarem agricultores e criadores de civilização. Se vocês precisarem de um sinal que confirme o que estou dizendo, considerem a designação habitual dos povos pré-históricos como povos da "idade da pedra": essa nomenclatura foi escolhida por pessoas que não duvidaram nem por um momento que as pedras eram importantes para esses nossos ancestrais patéticos da mesma forma que as prensas tipográficas e as locomotivas a vapor foram importantes para as pessoas que viveram no século XIX. Se vocês quiserem ter uma idéia da importância das pedras para os povos pré-históricos, visitem uma cultura moderna da "Idade da Pedra" na Nova Guiné ou no Brasil e vão ver que as pedras são tão cruciais para sua vida quanto a cola é para a nossa. Eles usam pedras o tempo todo, claro - assim como usamos cola o tempo todo -, mas chamá-los de povos da Idade da Pedra faz tanto sentido quanto nos chamar de povo da Idade da Cola.


Daniel Quinn, História de B.

O mito da Revolução Agrícola

A terra como centro imóvel do universo foi uma idéia que as pessoas aceitaram durante milhares de anos. Em si, parece bem inofensiva, mas gerou mil erros e limitou o que poderíamos entender a respeito do universo. A idéia de Revolução Agrícola que aprendemos na escola e ensinamos aos nossos filhos na escola parece igualmente inofensiva , mas ela também gerou mil erros e limita o que podemos entender a respeito de nós mesmos e do que aconteceu com o planeta.

Em poucas palavras: a idéia de Revolução Agrícola é que há cerca de dez mil anos as pessoas começaram a abandonar a vida de caça e coleta em favor da agricultura. Essa afirmação é um equívoco em dois planos profundamente importantes. Primeiro, ao sugerir que a agricultura é basicamente uma coisa só (assim como a caça-coleta é basicamente uma coisa só). Segundo, ao sugerir que essa única coisa foi adotada pelos povos do mundo inteiro mais ou menos na mesma época. Há tão pouca verdade nessa questão que não vale a pena perder tempo com ela; por isso só vou discutir a outra:

Muitos sistemas de agricultura foram empregados em todo o mundo há dez mil anos, quando nosso sistema particular de agricultura surgiu no Oriente Próximo. Esse sistema, nosso sistema, é o que chamo de agricultura totalitária, a fim de enfatizar o modo pela qual subordina todas as formas de vida à produção incessante e exclusiva de alimento para os seres humanos. Alimentado por enormes excedentes de comida gerados unicamente por esses sistemas de agricultura, ocorreu um rápido aumento da população entre aqueles que a praticavam, seguido por uma expansão geográfica igualmente rápida que obliterou todos os outros estilos de vida que estavam em seu caminho (até mesmo aqueles baseados em outros sistemas de agricultura). Essa expansão e essa obliteração de estilos de vida continuam sem interrupções pelos milênios que se seguiram, acabando por chegar ao Novo Mundo no século XV e continuando até o presente momento em áreas remotas da África, Austrália, Nova guiné e América do Sul.

Os pensadores basilares da nossa cultura acharam que o que nós fazemos é o que os povos de todos os outros lugares têm feito desde o início dos tempos. E, quando os pensadores do século XIX foram obrigados a reconhecer que não era bem isso, acharam então que o que nós fazemos é o que os povos do todos os lugares têm feito durante os últimos dez mil anos. Teria sido muito fácil para eles conseguir informações acuradas, mas é obvio que acharam que não valia a pena perder tempo com isso.


Daniel Quinn, História de B.

Trechos diversos:

“As pessoas de sua cultura se agarram com uma tenacidade fanática à idéia de que o homem é especial. Querem desesperadamente perceber um imenso abismo entre o homem e o resto da criação. Essa mitologia da superioridade humana justifica que façam o que bem quiserem com o mundo, assim como a mitologia de Hitler sobre a superioridade ariana justificou que fizesse o que bem quisesse com a Europa. Mas essa mitologia não é muito satisfatória, afinal. Os Pegadores são um povo profundamente solitário. O mundo, para eles, é um território inimigo, e vivem em todos os lugares como um exército de ocupação, alienados e isolados por serem tão extraordinários e superiores.” - Daniel Quinn, Ismael.

"A história que os Largadores vêm encenando durante os últimos três milhões de anos não é uma fábula de domínio e conquista. Encená-la não lhes deu poder. Encená-la lhes deu vidas satisfatórias e significativas. É o que verá se conviver com eles. Não estão agitados pelo tédio e a revolta, não estão perenemente debatendo o que deveria ser permitido ou proibido, nem se acusam uns aos outros por não viverem de modo correto, nem sentem pavor de seu vizinho, nem enlouquecem porque suas vidas parecem vazias e sem sentido, nem precisam se estupidificar com drogas para suportar os dias, nem inventam uma nova religião a cada semana para terem algo a que se agarrar, nem estão sempre buscando algo para fazer ou em que acreditar que torne suas vidas dignas de serem vividas. E, mais uma vez, isto não é porque vivem perto da natureza ou porque não têm governos formais ou porque sua nobreza é inata. É assim apenas porque estão encenando uma história que dá certo para as pessoas, uma história que deu certo durante três milhões de anos e que continua dando certo onde os Pegadores ainda não conseguiram espezinhá-la." - Daniel Quinn, Meu Ismael.

"Não são os produtos que fazem com que a economia tribal funcione e sim a energia humana. Essa é a transação fundamental, que ocorre tão naturalmente que as pessoas se equivocam freqüentemente pensando que não existe nenhuma economia, assim como supõem, equivocadamente, que elas não têm nenhum sistema educacional. Vocês fazem e vendem centenas de milhões de produtos a cada ano para construir, equipar e contratar pessoas para trabalhar nas escolas e educar seus filhos. Os povos tribais atingem o mesmo objetivo, graças a um nível menor, porém constante, de troca de energia entre adultos e crianças, que mal é percebida. Vocês fazem e vendem centenas de milhões de produtos a cada ano para poder contratar policiais para manter a lei e a ordem. Os povos tribais atingem os mesmos objetivos fazendo isso eles mesmos. Manter a lei e a ordem não é uma tarefa agradável, mas isso não chega a tirar o sono deles, como ocorre com vocês. Vocês fazem e vendem trilhões de produtos a cada ano para manter governos incrivelmente ineficientes, como você bem sabe. Os povos tribais conseguem se autogovernar com eficiência, sem comprar nem vender nada. Um sistema baseado na troca de produtos inevitavelmente canaliza a riqueza para as mãos de poucos, e nenhuma mudança governamental será capaz de corrigir isso. Não tem nada a ver com o capitalismo especificamente. O capitalismo foi apenas a expressão mais recente de uma idéia que surgiu há dez mil anos com a fundação da sua cultura. Os revolucionários do comunismo internacional não se aprofundaram suficientemente para realizar as mudanças que sonhavam. Eles pensaram que poderiam parar o carrossel se capturassem todos os cavalos. Mas, claro, os cavalos não faziam o carrossel girar. Os cavalos eram apenas passageiros, como todos vocês." - Daniel Quinn, Além da civilização.

“As pessoas não podem simplesmente desistir de uma estória. Isto é o que os garotos e garotas tentaram fazer nos anos sessenta e setenta. Eles tentaram parar de viver como os dominadores, mas não havia outra maneira para se viver. Eles falharam porque não se pode simplesmente sair de uma estória, tem que haver outra estória para se estar. E se houvesse outra estória, as pessoas iriam ouvir sobre ela? Você acha que elas querem ouvir sobre ela? Eu não sei, acho que não se pode começar a querer algo até você saber que existe.” - Daniel Quinn, Ismael.

O que fazer?
Se você está realmente interessado numa nova visão para a cultura, então há muito que aprender, discutir e criar. Leia os textos e veja os links nesse site para mais informações. Se você quer encontrar outras pessoas com uma crítica à civilização, participe de um dos grupos de discussão e exponha sua opinião.
Uma pequena provocação:

Uma Civilização de Conquista pode ser resumida em dois "mandamentos":

Crescei e Multiplicaí-vos.

Controlem e Explorem, para o que entendem ser o seu benefício, todo o seu Ecosistema.


Qual tipo de Cultura Celular conhecemos que obedece estes dois princípios de existência?

A única que me ocorre é o Câncer...
DOMINGO, 13 DE JANEIRO DE 2008
Solução animista

Texto de Luiz Cipher

Muitos que analisam a obra de Daniel Quinn preferem se limitar aos seus três primeiros livros, a saber, na seguinte ordem: "Ismael", "A História de B" e "Meu Ismael". Alguns complementaram esta trilogia com o "Além da Civilização" e uns poucos ousaram incluir "After Dachau" na sua lista de análise.

Somente uma minoria parece reconhecer um padrão, intencional ou não, por trás da mensagem de DQ que se complementa em um dos seus livros mais estranhos, e pouco compreendido: "The Holy".

Os que se limitam à trilogia acima, acusam DQ de enveredar pelo caminho xamânico do guru brasileiro Carlos Castaneda em "The Holy", outros afirmam que tudo não passou de um exercício literário do autor que nunca negou gostar de livros deste gênero (inclusive ele já escreveu um conto de terror no passado e afirmou em uma entrevista que admira o trabalho de Castaneda).

Se as pessoas podem mudar de idéia, livros uma vez publicados tendem a congelar o pensamento. Felizmente isso não aconteceu com DQ, embora tenha acontecido com seus leitores mais conservadores.

Neste ponto, se hoje o nosso amado gorila não estivesse aposentado tranquilamente comendo brotos de vegetais nas florestas africanas graças aos esforços de seus amigos, qual seria sua mensagem? Será que ele continuaria delineando o problema ad infinitum com um acúmulo de informação típico da civilização? E a contribuição de todos os outros autores geniais como Zerzan, Jensen, Bob Black, para citar somente alguns?

Não. Ismael estaria muito mais ativo neste momento do que há 20 anos. Volto a inquirir: qual seria sua mensagem depois das conclusões e dúvidas de seus principais discípulos?

Resposta:
The Holy (O Sagrado).

Para quem ainda não entendeu a progressão das idéias de Quinn, a seguir faço uma breve sinopse da sua trilogia e dos livros que a complementam e, naturalmente, a enriquecem. O leitor deve entender que DQ gosta de simplificar esta matéria tão vasta e por isso tende a condensar seu texto cada vez mais, quer seja usando parábolas ou escrevendo livros para o público infanto-juvenil.

"Ismael": o problema é apresentado em termos de metáforas durante um diálogo. O mundo, não a elite que o controla, está à beira da devastação, seja natural ou artificial. Quem é este mundo: a humanidade, seja ela pegadora ou largadora. A solução prévia: avisar o máximo de pessoas, a Humanidade, a respeito desta ameaça. Leia a parte em que Ismael explica para Lomax sobre o papel de um professor que deve ensinar outros a ensinar e espalhar a mensagem.

"A História de B": o problema agora é mais bem dissecado e por isso este livro pode ser considerado o mais polêmico, uma vez que é também o mais revelador. As causas são apontadas e a solução apresentada é mais drástica: controle da comida para controlar a população. Aqui ele apresentou uma das soluções propostas no "Relatório Lugano", livro de Susan George igualmente chocante.

"Meu Ismael": seguindo sua linha de pensamento reducionista, DQ coloca na boca do gorila uma simplificação do problema, bem como esboça as formas de uma "nova revolução tribal", inclusive oferecendo uma série de passos e demonstrando que tribo e seita são basicamente o mesmo tipo de comunidade. E, assim como Lomax e B (Charles, Shirin e Jared), Julie acaba por incorporar o pensamento de acordo com seu "background" e tempo de exposição à cultura pegadora.

Lomax é um jovem adulto (uns 30 anos), escritor/jornalista e fica no âmbito da divulgação de idéias e teorias. B (Charles e Jared são homens maduros) têm formação sacerdotal e Shirin (uma mulher adulta) é uma defensora do animismo e ficam na área da religião. Julie é uma adolescente e fica no terreno da ação, profundamente tocada com a história do suicídio de um jovem de classe média e as matanças nos guetos de jovens pobres.

Assim, "Meu Ismael" prepara o solo para lançar a semente no formato de um livreto modesto e sem nada de "bombástico" para brindar o leitor.

"Além da Civilização", uma séria de ensaios curtos, é esta semente tímida, uma vez que DQ prega a necessidade de um abandono inicial da Civilização, um escape do modo de vida nas cidades para um outro mais comunitário e autônomo, mesmo que inicialmente dependente dos meios e dos recursos de uma metrópole. Porém, ele não dá modelos, apesar de citar alguns mais ou menos bem-sucedidos, como os circos e as companhias itinerantes de teatro e de desempenho artística corporal, e mesmo as cooperativas.

Em seguida, no livro distópico "After Dachau", ele mostra o futuro em que a elite (os novos faraós) sobreviveu: a eugenia foi a solução para os problemas apresentados no seu primeiro livro. Ele é sucinto, mas com um pouco de imaginação poderemos ver como ele descreve a mega-repressão que a humanidade passou durante séculos desde uma suposta vitória do III Reich. Hitler perdeu a guerra na história oficial, enquanto os EUA e outros países europeus e asiáticos deram seqüência ao seu movimento fascista. Ou seja, o III Reich continua!

Logo, "After Dachau" não é inteiramente fictício ou um relato comovente de reencarnação. Um genocídio progressivo e sistemático seria uma solução final fácil conforme demonstrou Susan George no "Relatório Lugano".

Finalmente, em "The Holy", Daniel Quinn lança sua cartada final e conta como um pai de família se torna um neo-beatnick, largando esposa e filho para empreender uma jornada estranha e non-sense depois da sua descrença no sistema educacional vigente (a exemplo de Quinn que passou por frustração semelhante depois de trabalhar no mercado editorial).

Mesmo "The Man Who Grew Young", "The Tales of Adam" e "The Book of the Damned", "Work, Work, Work" e "If They Give You Lined Paper, Write Sideways", seu mais recente livro, são apenas complementos para a solução animista que apresenta em "The Holy".

Enquanto a trilogia prepara as mentes, "The Holy" derruba sua inércia (uma das falhas que manteve na trilogia) e ousa exemplificar uma alternativa revolucionária e seus resultados imprevisíveis no mundo. E a mensagem final de "The Holy" é pura e simplesmente o que Daniel Quinn sugere abertamente em "Além da Civilização":
"Deixem meu povo ir embora!"

E nós somos este povo (sem toda a carga bíblica e/ou marxista que deram a ela, obviamente). Reparem também que no final o gorila Ismael volta para a floresta, Jared e Shirin viram foragidos depois do assassinato do B original, Julie sugere que irá preparar a sua "nova revolução tribal" (livre de escolas e universidades) e David (de "The Holy") se torna um outsider que mesmo com um fim trágico, realiza seu sonho e prepara a missão do seu filho com o exemplo de sua escolha por um modo diferente de viver e morrer.

Mesmo que DQ não tenha cogitado nada disso ou que ele nunca endosse o que descrevi acima, esta tese pode nos indicar algum caminho, afinal, esta é a vantagem da didática maiêutica de Sócrates.

Por favor, perdoe minha arrogância em tentar encontrar um modo pragmático de ação direta. E, depois de todo o exposto acima, a melhor e mais viável ação direta seria o fomento do êxodo urbano começando individualmente até gerar uma verdadeira onda que iria se acelerar com a inevitável busca de recursos naturais cada vez mais escassos. Esta troca de ambiente pode não erradicar o problema da mente Pegadora que iria junto com algumas das pessoas mais desavisadas, mas iria filtrar quem fica e quem sai. Na natureza selvagem não adianta o "pede prá sair"!

O corpo é a arma, como dizia o psiquiatra Roberto Freire.
Luiz Cipher

AVISO DE COPYRIGHT

"Minha mensagem, se essa é a palavra que você quer usar, não possue copyright. Você é livre para reproduzir, interpretar, distribuir, distorcer, fazer o que quiser, até mesmo assumir autoria, sem meu consentimento ou de ninguém."


POSTADO POR JANOS ÀS 19:07
MARCADORES: RESENHAS

5 COMENTÁRIOS:

Punk disse...
Realmente o anarquismo precisa conhecer o xamanismo mais a fundo... Castañeda era brasileiro? Não sabia dessa! Já que estamos no Brasil, que tal irmos mais atrás da antropologia dos povos amazônicos e xamânicos para ver se prodemos trocar umas idéias com eles?
14 DE JANEIRO DE 2008 11:30

Janos disse...
É uma idéia, eu gosto muito de conhecer a cultura dos povos tribais do Brasil, só que a maioria dessas culturas já se perdeu, infelizmente.
15 DE JANEIRO DE 2008 06:20

Rômulo disse...
Eu também tenho muita vontade de fazer uma coisa dessas, ver como são realmente esses tribais de quem tanto falamos.

29 DE JANEIRO DE 2008 16:59
Luiz Cipher disse...
Saudações,

Sou o autor do texto acima.
A Solução Animista foi inspirada em um fenômeno recente na natureza denominado pelos cientistas de DCC, a Desordem do Colapso das Colônias.
Não sei se Daniel Quinn já estava ciente disso quando escolheu a capa com a colméia invertida para o livro "Além da Civilização"...

Antes de citar o texto da notícia que gerou a Solução Animista, gostaria de complementar o mesmo citando outro livro de Daniel Quinn, uma espécie de autobiografia, chamado de "Providence". É excepcionalmente significativo a parte em que ele descreve seu sonho com um besouro sob uma árvore tombada em seu caminho e como este encontro alterou sua vida e culminou em seu livro mais famoso, Ismael.
Boa leitura,

Luiz Cipher
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DESORDEM DO COLAPSO DAS COLÔNIAS
Por Fábia de Mello Pereira

No início desse ano várias reportagens sobre o repentino sumiço de abelhas nos Estados Unidos e na Europa deixaram alarmados os produtores, ambientalistas, pesquisadores e público em geral. Desde então muito se tem questionado sobre os efeitos do aquecimento global e mesmo dos plantios de culturas transgênicas nesse sumiço. Por outro lado, existe o temor que esse problema venha a acontecer no Brasil, prejudicando não somente a apicultura, mas a produção de todas as culturas que utilizam os serviços de polinização das abelhas, como maçã, melão e laranja.

A Desordem do Colapso das Colônias é caracterizada pela ausência de abelhas vivas ou morta na colônia, mas com a presença de crias e alimento, podendo ser encontrado, em alguns, uma pequena quantidade de operárias e a rainha dentro da colméia. Em caso de colônias que estão iniciando a DCC, observa-se uma quantidade de cria maior do que a capacidade das operárias de cuidarem das mesmas, concentração de operárias novas na população da colônia, a presença da rainha e uma relutância da colônia em consumir o alimento energético ou protéico fornecido. Não se sabe, ainda, as causas da DCC, mas as maiores desconfianças incidem sobre uma nova doença que acomete as abelhas, envenenamento por defensivos agrícolas, desnutrição, alto nível de consangüinidade e estresse.

Segundo o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, órgão responsável por informar oficialmente a ocorrência de problemas sanitários animais e vegetais no Brasil, até o momento a Desordem do Colapso das Colônias não foi detectada no país. De qualquer forma é preciso que os produtores fiquem atentos e procurem auxílio técnico para qualquer problema de sanidade que encontrem em suas colônias, com o intuito de investigar as causas.

É importante que se deixe claro que problemas de doenças, morte de abelhas e mesmo abandono de colônias acontecem no Brasil, mas as causas são conhecidas e os sintomas são bem diferentes dos causados na Desordem do Colapso das Colônias. Em geral, a aplicação de agrotóxico é a principal causa da mortalidade de colônias no Brasil. Contudo, existe também a mortalidade por consumo de plantas tóxicas (em especial o barbatimão e o falso barbatimão), morte por fome e por doenças conhecidas.

O abandono das colméias é outro fator que provoca perda aos apicultores. Nesse caso as abelhas (operárias e rainha) vão embora da colméia, podendo ou não deixar o alimento e as crias para trás. Esse problema é sempre é precedido de uma situação de estresse (condições ambientais desfavoráveis, manejo inconveniente, falta de alimento ou ataque de predadores). No Nordeste, em períodos de estiagem prolongada, é possível que o apicultor perca até 100% de suas colônias. A principal diferença dessa perda e da DCC é que no abandono os favos deixados para trás são imediatamente atacados por inimigos naturais (como a traça da abelha) e por abelhas de outras colônias para saque. Na DCC isso não acontece, a colméia vazia passa algum tempo sem ser atacada por inimigos naturais ou saqueada por outras abelhas, sugerindo haver alguma substância tóxica ou repelente na mesma.

Como as causas do problema ocorrido nos Estados Unidos e Europa ainda não estão esclarecidas, é difícil saber se existe possibilidade da DCC chegar ao Brasil, sendo importante acompanhar de perto os resultados das pesquisas nos outros paises para que possamos tomar as providências necessárias e evitar que nossas abelhas sejam atacadas por esse mal.


Por Fábia de Mello Pereira
Pesquisadora da Embrapa Meio-Norte

___________________________

P.S.: recentemente também estão surgindo "misteriosamente" milhares de citações na web tratando da DCC (ou CCD, na sigla inglesa). Naveguem e confiram. LC

28 DE FEVEREIRO DE 2008 06:29

Anônimo disse...

Os cientistas que nomearam este fenômeno, o fizeram com êxito. Se tivessem chamado de Distúrbio do Colapso das Colméias, teriam cometido um erro básico de substantivo coletivo.

Não se sabe de casos em que Colméias de abelhas selvagens - como as africanas - desapareceram "misteriosamente". Somente as criadas de maneira artificial e as domesticadas, em colônias monitoradas de apicultura e nos ambientes onde rege a monocultura agrícola, é que estão padecendo deste distúrbio.

Este evento pode ter passado desapercebido para os antropólogos que ainda acham que Civilização, assim como Colônia, é a forma ideal dos humanos viverem e se reproduzirem biológica e culturalmente.

Uma vez que estamos arrebanhados nos grandes centros urbanos (qualquer comunidade com mais de 150 habitantes), e trocamos as tribos pelas colônias, o risco de um Distúrbio do Colapso da Civilização é tão certo quanto o que está ocorrendo com as abelhas.

O mal da vaca louca, a gripe aviária e mesmo as pragas e vírus decorrentes do uso de pesticidas nas plantações e do excesso de antibióticos no tratamento médico, podem todos ser considerados algum tipo de distúrbio: é o efeito - e não a causa - sinalizado no colapso do meio artifical em que foram inseridos.
É uma lei que inevitavelmente seria descoberta:

"A redução populacional em uma dada espécie é proporcional ao tempo em que ela se mantem fora do seu habitat natural".

Adiem o turismo para conhecer os índios e seu modo de viver, e reflitam sobre este assunto com a devida atenção.

28 DE FEVEREIRO DE 2008 08:46

Vejam o arquivo anexo: O Grande Esquecimento (De A História de B)
Anexos
Literatura |
Ismael
Daniel Quinn, 1992


http://www.rascunho.net/critica.php?id=1199

Hoje em dia é difícil encontrar uma boa obra, de cunho espiritual, que nos ajude a reflectir sobre a condição humana. A moda dos livros místicos pegou. É só olhar para os escaparates das livrarias ou para os top’s e reparar que este tipo de literatura (?) tem cada vez adeptos entre nós, seja porque vivemos numa sociedade de deprimidos, seja porque são fáceis de ler e nos prometem, ainda que por breves instantes, uma felicidade ilusória, seja porque são escritos por 'pessoas famosas'. Um escape, dizem alguns, um pesadelo, dizem outros.

Ismael não pertence definitivamente à categoria de livros espirituais bacocos de trazer por algibeira. Assente em dados arqueológicos e antropológicos, oferece-nos um novo olhar sobre o lugar do homem no mundo, examinando o nosso passado, presente e futuro. Ismael ajuda-nos a quebrar os falsos estereótipos e preconceitos que fomos absorvendo inconscientemente desde a nascença.

O livro, escrito na primeira pessoa, começa com o sobressalto do autor ao encontrar um anúncio estranho no jornal: «PROFESSOR PROCURA ALUNO. Deve ter um desejo fervoroso de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente». Curioso, ele responde e vai ter com o professor. Qual não é a sua surpresa ao verificar que o professor é um gorila. Ismael começa a contar a história da sua vida, fala-lhe dos anos de cativeiro e como posteriormente desenvolveu a sua inteligência. E assim começa a viagem do aluno pela verdadeira história do homem e da sua relação com o mundo.

"E ensinas o quê?"
Ismael seleccionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o por um momento e começou a mordiscá-lo, olhando-me languidamente. Por fim, respondeu: "Com base na minha história, que matéria dirias estar eu mais qualificado para ensinar?"
Pestanejei e disse-lhe que não sabia.
"Sabes, é claro. A matéria que ensino é: cativeiro".
"Cativeiro".
"Exacto".
Fiquei calado por um minuto, dizendo então: "Estou a tentar imaginar o que tem isto a ver com salvar o mundo".
Ismael pensou um pouco. "Dentre as pessoas da tua cultura, quais são as que querem destruir o mundo?"
"Quais são as que querem destruir o mundo? Tanto quanto sei, ninguém quer especificamente destruir o mundo".
"E no entanto destruí-lo, cada um de vós. Cada um de vós contribui diariamente para a destruição do mundo".
"É verdade, sim".
"E não parais porquê?"
Encolhi os ombros. "Francamente, não sabemos como".
"Sois cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos vos compele a prosseguirem com a destruição do mundo de forma a continuarem a viver".
"É o que parece, sim".
"Sois portanto cativos — e fizestes do próprio mundo um cativo. É isso que está em jogo, não é? — o vosso cativeiro e o cativeiro do mundo".
"É verdade, sim. Só que nunca o pensara desta maneira".
"A teu modo, tu mesmo és um cativo não és?"
"Como assim?"
Ismael sorriu, revelando uma grande parede de dentes brancos como mármore. Até então eu não o sabia capaz de sorrir.
"Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que motivo tenho eu tal impressão," disse eu.
"Faz alguns anos — à época devias ser tu criança, talvez não estejas recordado —, muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingénuo e desorganizado para escaparem do cativeiro, mas acabaram por fracassar, por não terem sido capazes de encontrar as grades da jaula. Se não descobrirmos o que nos está a prender, a vontade de sair em breve se torna confusa e ineficaz".
"Foi essa a sensação que tive, sim"
Ismael assentiu.
"Mas, insisto, como está isto relacionado com a salvação do mundo?"
"O mundo não sobreviverá por muito mais tempo como cativo da humanidade. Carece de explicação, isto?"
"Não. Pelo menos para mim, não".
"Acho que dentre vós muitos existem que gostariam de libertar o mundo do seu cativeiro".
"Concordo".
"O que é que os impede de o fazer?"
"Não sei".
"Eis o que os impede: São incapazes de encontrar as grades da jaula".


A verdade é uma: o homem é a criatura para quem tudo o resto foi criado. O mundo gira à sua volta. A água existe para o saciar, os animais para lhe darem alimento, a terra para plantar. Recebe e usa. Não dá ou sequer respeita as outras formas de vida. «O mundo foi feito para o homem, e o homem foi feito para governá-lo». Esta é uma das primeiras ideias-chave do livro. A este ritmo, se continuarmos a destruir o mundo, rapidamente deixará de haver mundo e homem. A necessidade de Ismael ser um animal é óbvia: a possibilidade de criticar a sociedade humana de fora, sem cair em falsas hipocrisias.

É impossível falar nesta crítica da multiplicidade de ideias que o livro contém. Os dados vão surgindo encadeados, num longo raciocínio que exige uma leitura atenta e pausada.

Ao abrir Ismael reparo são poucas as frases que escaparam ao sublinhar incisivo do lápis. Mesmo depois de fechado, Ismael continua a exigir reflexão. É que depois de termos acesso a determinados factos e dados sobre a nossa cultura é impossível continuar a ver o mundo com os mesmos olhos, ignorar ou sequer esquecer. Não dá para voltar atrás, fingir que não se sabe de nada e continuar o caminho em direcção à destruição total.

Ismael não propõe uma solução infalível para os problemas globais. Caso contrário, já a teríamos usado. Mas abre portas de vontades, pensamentos e acções. Retira as lentes que a Mãe Cultura colocou e ensina a ver nitidamente.

Em torno deste livro criaram-se autênticas comunidades. Há sites, chats e forúns dedicados a Ismael. A nota de curiosidade, o filme Instinto, com o Anthony Hopkins teve por inspiração este livro.
Duas Visões do Universo ou da Vida - Trecho de História de B - Daniel Quinn.

Como mais um estimulo para encorajar a leitura da obra de Quinn, segue anexo um trecho onde é discutida a diferença entre a Nossa Cultura ("Pegadora") e as Culturas Tribais ("Largadoras").

Reforço minha convicção de que os livros de Quinn são ferramentas necessárias para formar Novas Cabeças, que conseguirão fazer a transição para Além da Civilização: um modo de vida melhor e viável para manter a Vida na Terra. Algo que Velhas Cabeças, mesmo que com Novos Programas, não podem fazer.

Um abraço.
Claudio
Anexos
Uma parábola sobre a durabilidade

Um inventor levou seus projetos de um aparelho para um engenheiro, que olhou para eles e disse:

“O que você tem aqui é sistematicamente defeituoso, o que significa que vai quebrar depois de apenas alguns minutos de funcionamento”.

“Não, se for bem feito”, replicou o inventor. “Toda peça deve ser feita com o melhor material que existe com as especificações exatas”.

O engenheiro mandou construir o aparelho, mas ele quebrou depois de apenas quatro minutos de funcionamento. O inventor não desanimou.

“Você não fez o que lhe disse para fazer”, disse ele. “Você vai ter de usar materiais bem melhores — os melhores de todos — e fabricar as peças seguindo as especificações da maneira mais exata possível”.

O engenheiro tentou novamente, e o novo modelo funcionou durante oito minutos.

“Viu?”, disse o inventor. “Fizemos um progresso tremendo. Tente de novo, agora com materiais melhores ainda e seguindo as especificações de maneira mais fiel ainda”.

O último aparelho durou dez minutos. O inventor pediu ao engenheiro que fizesse outro modelo, usando materiais bem melhores e sendo mais fiel ainda às especificações. O novo modelo durou onze minutos.

O inventor queria continuar indefinidamente o processo, esforçando-se por ter peças perfeitas, mas o engenheiro recusou, dizendo:

“Não está vendo que estamos tendo melhorias cada vez menores? É um desperdício de tempo tentar fazer um projeto defeituoso funcionar melhorando suas peças. Traga-me um projeto viável que lhe garanto um aparelho que vai funcionar durante anos, usando peças de materiais comuns com especificações comuns”.

173
Por que o que temos não é durável
É um princípio fundamental de nossa mitologia cultural que a única coisa errada conosco é que os seres humanos não são suficientemente bem feitos. Precisamos ser feitos com materiais melhores, com um conjunto de especificações melhores (criados, talvez, pelas versões ecológicas de nossas religiões tradicionais). Só precisamos ter mais bondade, gentileza, carinho, amor; menos egoísmo, mais visão, e assim por diante, e aí, então, tudo vai ser ótimo. É claro que ninguém conseguiu nos melhorar no ano passado, nem no anterior, nem no outro antes deste, nem no anterior a este último — aliás, em ano nenhum da história documentada —, mas talvez este ano a gente tenha sorte... ou talvez o próximo, ou o outro depois dele.

O que tentei dizer em todos os meus livros é que o defeito da nossa civilização não está nas pessoas, mas no sistema. É verdade que o sistema tem feito um barulhão nos últimos dez mil anos, que é um tempo bem longo segundo a escala de uma vida individual, mas, visto segundo a escala da história humana, esse episódio não é notável por sua duração épica, mas por sua trágica brevidade.

Em Ismael, comparo o nosso aparato civilizatório a um avião que está no ar há dez mil anos — mas em queda livre, não em vôo. Se ficarmos dentro dele, vamos nos espatifar com ele, e logo. No entanto, se a maioria de nós diminuir sua carga abandonando-o, ele talvez consiga manter-se no ar durante muito tempo (enquanto o resto de nós tenta alguma coisa que faça mais sentido).

174
Vamos saltar de pára-quedas e passar para o outro lado do muro!
James W. Fernandez, professor de antropologia, escreveu o seguinte:

“Os antropólogos, ao contrário dos filósofos, acham que os mundos culturais nascem com o uso (a promulgação) de metáforas combinadas” (itálicos meus).

É isso aí. Estou satisfeito por combinar algumas metáforas em prol da criação de um novo mundo cultural.

Depois de várias horas de discussão sobre o movimento que deve levar para uma vida tribal além da civilização, um dos membros do seminário de que participei disse que ainda não entendia por que essa proposta serviria para tornar a vida humana mais sustentável. Já se passou um bocado de tempo desde a última vez que falei dessa questão e por isso acho que devo abordá-la de novo. É uma questão válida e importante. A Nova Revolução Tribal pode dar uma vida melhor às pessoas, mas, se não servir para perpetuar a nossa espécie além de algumas décadas, qual é o problema?

Neste exato momento, há cerca de seis bilhões de seres humanos no que chamei de “cultura do prejuízo máximo”. Só dez por cento desses seis bilhões de pessoas estão sendo prejudiciais ao máximo — esgotando recursos a toda a velocidade, contribuindo para o aquecimento global a toda a velocidade, e assim por diante —, mas os outros noventa por cento, sem nada melhor em vista, só querem ser como os dez por cento. Invejam aqueles dez por cento porque estão convencidos de que viver de um modo que seja prejudicial ao máximo é o melhor de todos os modos de vida possíveis.

Se não lhes oferecermos algo melhor para querer, estamos fritos.

175
Uma mudança sistêmica
A Nova Revolução Tribal é um plano de fuga da prisão da nossa cultura. Os muros da nossa prisão são econômicos, isto é, a necessidade de ganhar a vida nos mantém dentro deles, pois não há como ganhar a vida do lado de fora. Não podemos empregar a solução maia — não podemos desaparecer num mundo de tribalismo étnico. Mas podemos desaparecer numa vida de tribalismo ocupacional.

Isso vai transformar a nossa civilização em ruínas fumegantes? Claro que não. Vai diminuí-la. À medida que um número cada vez maior de pessoas entender que pular o muro significa conseguir algo melhor (não “renunciar” a alguma coisa), um número cada vez maior de pessoas vai abandonar a cultura do prejuízo máximo — e quanto mais essa cultura for abandonada tanto melhor. O plano de fuga leva para além da civilização, para além daquilo que, segundo a nossa mitologia cultural, é a invenção suprema, a última invenção da humanidade.

O plano de fuga leva para a próxima invenção da humanidade.

Mesmo assim, será que essa próxima invenção vai dar-nos um modo de vida sustentável? Eis aqui uma forma de avaliar isso: os seres humanos que viviam em tribos eram tão estáveis ecologicamente quanto leões ou babuínos que viviam em bandos. A vida tribal não foi algo que os humanos se sentaram e ficaram imaginando. Foi o presente da seleção natural, um sucesso comprovado — não a perfeição, mas difícil de melhorar. A hierarquização, por outro lado, mostrou ser não somente imperfeita, mas catastrófica, em última instância, para a Terra e para nós. Quando o avião está caindo e alguém lhe oferece um pára-quedas, você não faz questão de ver sua garantia.

176
Mas por que próxima grande aventura da “humanidade”?
Em A história de B e em outras obras, fiz questão de deixar bem claro que nós — os conquistadores, o povo dessa cultura — não somos a humanidade e, com toda a certeza, nunca refutei essa afirmação. Não é a humanidade que está convertendo a biomassa deste planeta em massa humana, são os membros da nossa cultura — nossa. Não é a humanidade que está levando milhares de espécies à extinção todos os anos com sua expansão, são os membros da nossa cultura — nossa.

Por que então descrever a Nova Revolução Tribal como próxima grande aventura da “humanidade” em vez de “nossa” próxima grande aventura? A resposta é simples: a civilização não foi “nossa” aventura. Como disse muitas e muitas vezes neste livro, a civilização foi uma aventura da qual muitos povos participaram. “Nós” não fomos os únicos; fomos apenas os únicos que a mantiveram próximo da auto-imolação. E, se a civilização não era apenas a “nossa” grande aventura, como a próxima grande aventura poderia ser apenas “nossa”?

A Nova Revolução Tribal não pretende ser nossa apenas — afinal de contas, qualquer um pode participar dela. Mas também não é compulsória. O velho tribalismo com o qual a humanidade se tornou humanidade é tão bom quanto sempre foi. Nunca vai se desgastar, nem ficar obsoleto. Pousar na Lua foi uma grande façanha da humanidade, mas não significa que todos os seres humanos têm de ir até lá.

Que tipos de negócio se prestam a isso?
Para mim, qualquer tipo de negócio que pode dar certo de maneira convencional pode dar certo de maneira tribal — com algumas exceções. Um negócio estruturado em torno do trabalho de um único indivíduo não parece prestar-se a uma abordagem tribal. Por exemplo: é difícil imaginar um clínico-geral e sua equipe trabalhando tribalmente. A disparidade entre o que o médico oferece e o que todos os outros oferecem é grande demais. Por outro lado, a idéia de um hospital tribal não é um absurdo, pois lá o clínico-geral ofereceria um trabalho equivalente ao do cirurgião, do administrador, do anestesista, e assim por diante. Não consegui imaginar uma forma de transformar o trabalho de escritor/a num negócio tribal (a menos que ele/ela prefira publicar a própria obra).

Para citar só algumas coisas: restaurantes, firmas de jardinagem e empreiteiras poderiam se estruturar tribalmente (e tenho certeza de que muitas já fazem isso). Lembre-se de que, tal como já foi definida, uma tribo não é nada mais que uma coalizão de pessoas que trabalham juntas como iguais para ganhar a vida.

Realmente não vejo limites para as possibilidades.

Trechos extraídos de ALEM DA CIVILIZAÇÃO - A próxima grande aventura da humanidade
Leia apenas se acredita que a Humanidade deve ser salva

Preparei isso aqui para vocês, mas como ficou muito salgado, vou servir em pedaços pequenos para evitar a indigestão.
Janos Biro

As falhas de Ismael
Baseado numa entrevista com Daniel Quinn, concedida a Lance Pierce e traduzido por Janos Biro.

Parte 1 de 6

Acredito que quase todo mundo que leu História de B, de Daniel Quinn, irá concordar que este é um dos mais importantes livros que já foram escritos. Quinn conseguiu tocar num ponto complexo com uma linguagem simples, nos mostrando algo óbvio, porém ampla e profundamente ignorado, de importância primordial.

Mas seu livro mais famoso é o premiado Ismael, que atrai até hoje a curiosidade de milhares de pessoas.

Quando estava escrevendo Ismael, Quinn sabia que o que ele tinha para dizer era grande, e por isso resolveu tratar do assunto da maneira mais sutil e prática possível: escreveu uma ficção que é quase uma fábula. O livro levou 12 anos para ser escrito, depois de ser revisado e passar por oito versões. Depois da primeira publicação, Quinn achou que seu trabalho tinha acabado, pois ele tinha dito tudo que tinha para dizer. Mas o tempo mostrou que escrever Ismael não era suficiente, as pessoas estavam fazendo muitas perguntas, e ele estava se esforçando em responder o máximo que podia em seu site. Ele respondeu centenas de perguntas de leitores desde então, até que percebeu que Ismael estava sendo "mal interpretado". As pessoas estavam aplicando ao livro conceitos que Quinn não defendia, ou pior, que ele achava indefensáveis.

Ele achou que Ismael seria suficiente, e que as pessoas iriam sozinhas continuar e aperfeiçoar o que ele começou. Mas as pessoas não fizeram isso, elas ficaram admiradas demais com o livro, e não puderam seguir em frente. No seu livro Meu Ismael, que fecha a trilogia de Quinn, ele chega a dizer isso literalmente, dizendo que o protagonista de Ismael, Lomax, não conseguiu captar toda a mensagem do gorila. Lomax ficou dependente demais de Ismael e não transcendeu a mensagem, como Julie e o padre Osborne fizeram. A idéia é expressa em História de B fazendo com que a estória continue fluindo normalmente mesmo depois que B é assassinado, pois o que importa não é fonte original da mensagem, mas a capacidade da mensagem de criar novas fontes.

O objetivo de Quinn, segundo ele mesmo, é que seu próprio nome se desligue de sua idéia e seja esquecido, para que a idéia se torne parte do nosso ambiente cultural, ou seja, que as pessoas se lembrem da idéia mesmo que não consigam se lembrar da fonte. Que a tratem com naturalidade, e não mais espanto. Há várias idéias que se incorporam de tal forma na sociedade, e acabam por a transformar silenciosamente. Esse é o objetivo de Quinn: criar idéias que se incorporem na cultura de forma a transformá-la radical e positivamente.

Na entrevista com Lance Pierce, Quinn fala um pouco sobre o filme Instinto, que foi baseado no livro Ismael. Ele disse que não teve controle algum sobre ele, e que estória do filme não entra propriamente na essência do livro, mas apenas nos conceitos menos importantes. Ele esperava que o filme contasse a estória da humanidade pelo ponto de vista de Ismael, mas não foi isto que aconteceu.

Uma das coisas que Quinn quis deixar bem claro em História de B é que suas idéias só podem ser entendidas fora do contexto das religiões civilizadas (isto inclui o cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo, espiritismo, etc). Isto porque ele está criticando a idéia de que "o mundo foi feito para o homem conquistar e governar, o homem foi feito para conquistar e governar o mundo, e o motivo porque não funcionou é que o homem é falho". Esta idéia se encontra no que ele chama de "nossa mitologia", que é a mitologia da civilização. Esta mitologia só começou a ser questionada, segundo Quinn, nos anos 60, com a publicação de Primavera silenciosa, de Rachel Carson, sobre o DDT. Era a primeira vez que alguém afirmava que deve existir um limite ao que podemos ou não fazer com o planeta.


Janos


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Parte 2 de 6
Para Quinn, a idéia de que existe um progresso humano na civilização faz parte da nossa mitologia. As pessoas imaginam que a situação humana vai piorando quando vamos observando o passado cada vez mais distante, mas que tem melhorado em direção ao presente. O que Quinn diz é que tudo que está ruim hoje é resultado de muito do que considerávamos bom ontem, e não há motivo para achar que vai ser diferente no futuro. Mesmo a melhor das nossas intenções, sem o questionamento de nossa mitologia do avanço tecnológico, trará muito mais problemas que soluções. O que Quinn está dizendo não é que toda mitologia é ruim, mas que a nossa é. Ele não tem a pretensão de que o homem acabe com toda e qualquer mitologia. O que ele está defendendo é que criemos uma mitologia melhor, e não que criemos a um modo não-mitológico.

Um ponto importante que não fica claro em Ismael, mas que ele tenta explicar melhor em História de B, é que a história da nossa civilização não se inicia com a agricultura, mas com um tipo especial de agricultura que ele chama de agricultura totalitária. A agricultura de subsistência existia antes e existe até hoje, mas a agricultura totalitária não faz parte da evolução humana, é uma invenção de uma cultura específica. A agricultura totalitária é um tipo de agricultura sem comprometimento com a terra. Mesmo os povos que conquistaram seus vizinhos e fizeram impérios, como os Astecas, não deixaram sua terra natal. Nós plantamos tudo que pudemos no oriente médio com nossa agricultura, transformamos grandes áreas em desertos e depois nos mudamos para a Europa, e continuamos a nos mudar sem qualquer ligação com a terra, mas apenas com a expansão e com a produção.

O que Quinn tenta fazer é apresentar um novo paradigma para a história humana, localizando o início da história humana bem antes da civilização, há milhões de anos atrás. Neste paradigma não podemos dizer que exista um período pré-histórico, onde os homens viviam de uma maneira primitiva. Os homens ainda vivem em tribos, essa maneira não pertence ao passado humano, mas ao presente. Apenas uma cultura vive de forma diferente. Esta cultura não é "mais avançada" que as outras, mas simplesmente diferente.

Sua diferença, porém, é excludente. Ela não pode aceitar qualquer outra visão de mundo que não a sua própria, e por isso confunde a si mesma com a "humanidade". É impossível concordar com Quinn sem discordar não só da civilização como é hoje, mas como sempre foi e sempre será, e isso não fica claro para muitos leitores de Ismael. Ele está criticando a própria essência de civilização, e não apenas algumas idéias ruins dentro dela. Não apenas uma "era de trevas" dentro dela.

Em outras palavras, o que Quinn está dizendo não é simplesmente que nossas escolas, igrejas e instituições têm mentido para nós, mas que elas foram feitas para isso. Todo produto de nossa cultura carrega em sua essência a idéia fundadora da civilização. Não é possível corrigir os problemas sem mudar de paradigma. Estas críticas radicais são "amaciadas" pelos leitores, que acabam acreditando que Quinn defende algo como uma reforma social, seja nos moldes liberais ou marxistas.

Para Quinn, não depende dos líderes políticos mudar o mundo, ou de leis. A tarefa de Quinn, segundo ele, é "voltar e jogar tudo com que começamos fora e repensar a coisa toda".

Janos

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Parte 3 de 6

Quinn tem uma idéia bastante radical quanto ao controle da população. Para ele, temos que parar de aumentar a produção de comida, porque quanto mais a aumentamos, mas pessoas morrerão de fome no futuro. Esta idéia é defendida hoje por raros acadêmicos, mas é ainda uma das mais polêmicas e difíceis de ser compreendida por uma pessoa comum. Lembrando que o objetivo de Quinn é que suas idéias pudessem ser assimiladas por pessoas mais simples, não só a elite intelectual. O que uma pessoa comum iria dizer é que "não podemos deixar as pessoas morrerem de fome!". Quinn acha que isso é um indicativo do quanto estamos iludidos por uma idéia de que o homem é senhor absoluto na Terra: nada nasce ou morre sem que ele queira e permita. As plantas crescem onde permitimos, as espécies não permitidas são exterminadas. Nós decidimos que os famintos devem viver, ao mesmo tempo decidimos quem deve morrer também, em guerras, crimes e desastres.

Uma das idéias que Quinn comenta na entrevista é que o principal motivo de tantas pessoas que estudam a sociedade serem pessimistas em relação a ela é que acreditam que se elas ainda não sabem como resolver o problema, então ele não tem solução. É por isso que Quinn não está dando um programa de ação. Ele não está escondendo o programa, ele não o tem. A intuição geral é que não se pode criticar algo e não dar solução em resposta, mas o que Quinn quer dizer é que não há solução possível porque o verdadeiro problema ainda não foi aceito pelas pessoas. Uma vez que as pessoas reconheçam o problema, aí sim poderão pensar numa solução, e só depois iniciar uma ação de mudança verdadeira. Qualquer ação direta contra o sistema antes disso é meramente paliativa, nem um enorme número delas alcançará a mudança real. Exemplo: "Claro, sabemos que prisões não funcionam, mas é a melhor solução que pensamos até agora, logo não há outra solução possível. Vamos investir tudo nisso!".

Talvez a idéia mais importante é que as idéias de Quinn não são compatíveis de forma alguma a qualquer conceito de Deus monoteísta. Não havia deus único antes de 3 mil anos atrás, o deus único faz parte da nossa mitologia cultural. É por isso que não há síntese possível com o cristianismo, ou qualquer religião monoteísta, ou mesmo as politeístas hierarquizadas. A única religião de Quinn admite em seu sistema é o animismo. O animismo, para Quinn, é a religião original, é a única que pode ser universal. O animismo é uma religião sem hierarquia: todos os seres, vivos ao não, são igualmente sagrados, assim como o mundo, e fora isso não há necessidade de outros mundos, outras naturezas (entidades ou fenômenos sobre-naturais), rituais, cerimônias ou sacramentos, apenas a convivência com o mundo.

O fato de que levamos quase todos os povos tribais à extinção não pode servir para justificar uma superioridade ou uma melhor capacidade de sobrevivência e adaptação ao meio. De fato, a destruição da diversidade é um grande indicativo de que estamos sendo extintos, pois a natureza depende de um nível de "diversidade mínima" para manter a vida em qualquer ecossistema. Nós não vivemos em ambientes artificiais, nem estamos separados da natureza. Ainda vivemos num ecossistema e ainda somos seres naturais, assim como tudo que fazemos. Nossa mitologia enxerga apenas os defeitos nos seres humanos, ela culpa nossa espécie em si, e não o sistema que ela criou para viver. Quinn se recusa a falar sobre a natureza humana. Para ele, isso é irrelevante. Não estamos assim por natureza, embora a natureza nos tenha dado essa possibilidade, fomos nós que resolvemos levar o projeto à frente apesar de tudo.

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As falhas de Ismael, parte 4 de 6
Duas noções chave que são geralmente confundidas por leitores, segundo Quinn, são as noções de Pegadores e Largadores. Ele define Pegadores como as pessoas que pegam o controle do mundo em suas mãos, e não querem desistir dele por nada. Largadores são os que decidem largar o controle do mundo nas mãos dos deuses, ou seja, das forças da natureza. Isto não significa que Largadores não tem organização social, mas apenas que a organização deles interfere o mínimo possível no mundo. Interfere apenas para sobrevivência, e não para dominação. Isto também não significa que Largadores são moralmente bons e Pegadores são maus.

Quinn diz claramente: Ninguém se torna um Largador lendo seus livros. Estes não são estados internos, de sentimentos ou de atitudes, mas sim modos de vida diferentes. Nas palavras de Quinn: "Você pode se tornar um budista mudando sua mente. Você não pode se tornar um Largador mudando sua mente". Logo essas noções não designam estados mentais, os Largadores não são mais conscientes e os Pegadores mais ignorantes, portanto mudar o mundo, segundo Quinn, não pode significar simplesmente conscientizar as pessoas, mas mudar radicalmente o modo de vida para além da civilização.

Mudar mentes é apenas tudo que podemos fazer por enquanto. É apenas o primeiro passo, e ele ainda não está dado.

Para Quinn, problemas ecológicos globais não estão no centro da questão, eles são os efeitos que nos fizeram perceber a questão central. O mundo está nos dando todo espaço que ele pode, está nos dando corda para fugir do buraco ou nos enforcar, o que quer que escolhamos. Mas ele não nos trata diferente de qualquer outro animal. As mesmas regras valem para todos os seres vivos. O mundo não se vinga de nós, ele apenas responde da maneira que pode. Um dia ele não poderá garantir nossa sobrevivência, porque existe um limite de sustentação de danos que ele pode suportar.

No final o equilíbrio será reestabelecido, então o que está em jogo aqui não é preservação da natureza como ela está agora, mas a preservação da vida humana de maneira sustentável. Mas isso também não significa que devemos preservar nossa espécie a qualquer custo. Um dia ela deverá ser extinta como qualquer outra, e segundo Quinn, isso não será um problema se estivermos vivendo sustentavelmente. Será algo natural como morrer de velhice. De uma maneira bem particular,

Quinn apresenta uma certa tendência ao determinismo, principalmente o biológico. Quinn diz que suas idéias não são bem aceitam entre cientistas sociais, elas são mais bem aceitas entre biólogos. Ele acredita que os acadêmicos ainda não conseguem aceitar que as leis biológicas que valem para todos os animais devem valer para os seres humanos. As respostas que ele costuma ouvir são "Você não está dizendo nada. Isso não existe. Não há nada aqui para se pensar. O que você diz não se aplica a nada". É por isso que Quinn resolve escrever para pessoas comuns, e não para acadêmicos. Ele acredita, como tem acontecido, que essas pessoas levarão suas idéias até a academia.

Uma das piores perguntas que Quinn recebeu de leitores de Ismael foi: vale a pena salvar a humanidade? Porque deveríamos salvar a humanidade?

Quinn responde a isso de maneira bem dura: "Se você não vê utilidade em salvar a humanidade, vá ler outro livro. Minhas idéias não são pra qualquer um". Ele também sugere que seus leitores não tentem convencer as pessoas de que a humanidade é digna de existir, mas que procurem aqueles que "tem o desejo sincero de salvar o mundo". A primeira dúvida que surge na nossa cabeça é: será que há pessoas interessadas em número suficiente? Quinn somente espera que haja, pois é sua única esperança.

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As falhas de Ismael, parte 5 de 6
Outra questão que Quinn deixa bem clara na entrevista é que ele não é de forma alguma contra a tecnologia. Ele diz que somos tecnólogos a mais de 3 milhões de anos, e a tecnologia não foi uma coisa ruim. Assim como não podemos culpar a agricultura, mas sim a agricultura totalitária, não podemos culpar a tecnologia, mas sim a nossa tecnologia, que é um tipo específico de tecnologia voltada aos interesses próprios de nossa cultura. Se revoltar contra a tecnologia, pura e simplesmente, é uma bobagem, segundo Quinn. É neste ponto que ele se distingue de John Zerzan, outro crítico cultural radical, que acredita que a tecnologia, a matemática e as artes são início da alienação do homem em relação ao mundo, e o início de uma divisão de trabalho crescente que culmina na nossa sociedade desigual e domesticada.

Quinn também não gosta quando Ismael é confundido com um livro de auto-ajuda, de exploração interna ou guia para o autoconhecimento. Em suas palavras: "Eu não estou falando sobre uma jornada interna aqui. Se você está numa jornada interna, bom pra você. Continue assim. Eu estou falando de outra coisa". Mais duramente ainda: "Esqueça sua maldita jornada interna por enquanto, porque nós temos que manter esse planeta vivo! Temos que mantê-lo habitável para que nossas crianças tenham um lugar para viver. Sua jornada interna pode esperar. Isto não". Como ele mesmo reconhece, isso surpreendeu muitos leitores que gostaram de Ismael, mas não gostaram de História de B.

Quinn tem um grande problema com os marxistas, pois eles geralmente querem ver Marx como antecessor da crítica cultural proposta em Ismael. Mas Quinn não aceita o marxismo porque não aceita que o problema seja o conflito de classes. Para ele, o problema antecede as classes sociais. O conflito de classes é mais um efeito do problema que Quinn está observando, logo a teoria marxista pouco tem a oferecer como solução. Dizer que é só um problema de classes é o mesmo que dizer que é só de tecnologia. Tribais viviam em grupos pequenos, eles não necessitavam de governo, eliminavam todos esses problemas pela raiz. Quinn acredita que este modo de vida não é uma utopia, é real. As pessoas que ainda vivem assim gostam de viver assim e preferem morrer que se tornar um de nós.

Quinn admite que ele não conseguiu explicar muito bem o que é a estória dos Largadores em Ismael. As pessoas perguntavam: "Você mudou seu modo de vida? Como você pode criticar o modo de vida se você ainda faz parte dele?" Quinn responde que as pessoas estão pensando da maneira cristã: precisam de um exemplo a ser imitado.

Ele não está se dispondo como modelo, ele está em busca de um modelo. É a nossa estória que está nos matando, não é o consumismo. Quinn destaca que isso não pode ser entendido como metáfora, ele não está sendo metafórico, está dizendo literalmente que é nossa visão de mundo que está nos matando, é dela que temos que nos livrar.

Ele não está dizendo que devemos reciclar mais, isso faz uma diferença muito pequena. É um adorno, uma coisa para nos sentirmos bem, como a caridade. É uma espécie de caridade que fazemos ao mundo, mas não estamos lidando diretamente com o problema. O que podemos reciclar é apenas 5% do que jogamos fora.

Por outro lado, cada vez que você muda uma mente, você está fazendo algo. E todos estão em posição de ajudar a mudar a visão de mundo, é só começar por você mesmo, e naturalmente as pessoas ao seu redor serão influenciadas. Os leitores pensam em largar tudo que estão fazendo, os estudos e o trabalho, e dedicar o máximo de tempo a mudar mentes. Quinn diz que não é preciso. Não é uma coisa que você pode mudar em um ano de pregações intensivas, se fosse seria bem mais fácil.

Provavelmente você tem mais chance vivendo normalmente e espalhando naturalmente essas idéias da sua própria maneira, sem forçar ninguém a pensar nelas ou a aceitá-las.

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As falhas de Ismael, parte 6 de 6
Um dos pontos controversos da entrevista de Quinn é quando ele afirma que "todos sabem secretamente que se vamos salvar o mundo vai precisar haver um novo despertar religioso que a tecnologia não será capaz de dar. Os governos não farão. As leis não farão. Tem que ser um despertar entre pessoas do tipo religioso".

Por que ele diz isso? Porque, segundo ele, a extinção da humanidade é um assunto religioso, não exatamente no sentido de propor uma nova religião, mas de criticar as religiões salvacionistas. Para as religiões salvacionistas, a salvação do homem é independente do mundo. Mais que isso, o mundo é barreira entre o homem e a salvação, uma vez que ele é um lugar corrupto, dominado pelo sofrimento ou pelo pecado.

Para Quinn, a recente e repentina tendência das religiões de se preocuparem com questões ambientais é uma traição das raízes. Todas as religiões salvacionistas, em suas raízes, negam o mundo, e por isso nunca se importaram com ele. Em suas palavras "Não há uma única delas que não diga que a salvação não consiste em sair desse mundo, de uma maneira ou de outra". Para os cristãos o mundo é do demônio, e quando ele for destruído será uma coisa boa. "Então não me venha dizer que você ama o mundo. Pode ser que você ame, mas sua cultura não", diz Quinn. O amor pelo mundo que ele está querendo não é o amor pelo mundo enquanto sala de espera do paraíso, mas como mundo em si, com valor independente da existência de seres humanos nele.

Talvez a questão mais importante que Ismael não aborda, mas História de B sim, é a diferença entre visão e programas. Os leitores de Ismael exigiram um programa de Quinn, mas ele não está falando de programas, não pode haver um programa para salvar o mundo. Ele está falando de visão. A pergunta agora é "Como você pode ter certeza que isso vai funcionar?".

Quinn responde: "Eu não tenho. Só tenho certeza que se não fizermos nada vai haver uma catástrofe". Tudo que podemos fazer é tentar algo diferente, o que há é a possibilidade de sucesso, não a necessidade de sucesso. Temos que nos contentar com isso.

Quinn não se sente mal pelos problemas apontados em Ismael. Isso o ajudou a reformular de maneira mais precisa e clara as suas idéias. História de B consegue transmitir e expandir toda a mensagem de Ismael, sem exigir que o leitor tenha lido outro livro. É, como ele disse, uma nova opção, uma nova forma de oferecer essas idéias ao leitor. Ainda assim não é para qualquer um. A pergunta quase inevitável de alguém que acabou de ler um dos livros de Quinn é: o que eu posso fazer? Essa é a pergunta mais comum feita a ele, para a qual a melhor resposta é: "O que eu posso fazer é problema meu. O que você pode fazer é problema seu".

Isto não é para ofender, apenas para mostrar que o que podemos fazer depende apenas de nós, uma vez que Quinn fez sua parte em nos mostrar onde pode estar o fundamento do problema através de seus livros. Devemos ser agradecidos por isso, e não cobrar mais do que é possível que ele ofereça sem se transformar num charlatão e num "lugar comum".

Janos Biro

você pode ler a texto inteiro e muito mais em:

www.largue.cjb.net



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Atenciosamente.
Claudio Estevam Próspero

http://pt.wikipedia.org/wiki/Usuário:ProsperoClaudio (Apresentação pessoal)
http://escoladeredes.ning.com/ (Escola de Redes [E = R])
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aliança_para_uma_Nova_Humanidade
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecocidade
http://www.criefuturos.com.br/criefuturos.html
http://www.holos.org.br/cursosetreinamentos/ (HOLOS - Coaching e Mentoring)
http://www.nef.org.br (Núcleo de Estudos do Futuro)
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/
http://www.portalsbgc.org.br/sbgc/portal/ (Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento)

Antes de imprimir, pense em sua responsabilidade e compromisso com o MEIO AMBIENTE.
Nosso Planeta Agradece!
Uma Visão Nobre da Humanidade (trecho extraído do Capitulo 12 – Ismael – Daniel Quinn)

Pontos ressaltados do arquivo anexo

E a premissa da história dos Pegadores é: “O mundo pertence ao homem”. — Pensei alguns minutos, depois dei risada. — É quase exato demais. A premissa da história dos Largadores é: “O homem pertence ao mundo”.

— Quer dizer que, desde o princípio, tudo o que vivia pertencia ao mundo. E foi assim que as coisas vieram a ser como são. As criaturas unicelulares que viviam nos antigos oceanos pertenciam ao mundo e por isso tudo o que se seguiu veio a existir. Os peixes próximos às margens dos continentes pertenciam ao mundo e por isso os anfíbios um dia vieram a existir. E porque os anfíbios pertenciam ao mundo, os répteis um dia vieram a existir. E porque os répteis pertenciam ao mundo, os mamíferos um dia vieram a existir. E porque os mamíferos pertenciam ao mundo, os primatas um dia vieram a existir. E porque os primatas pertenciam ao mundo, o Australopithecus um dia veio a existir. E porque o Australopithecus pertencia ao mundo, o homem um dia veio a existir. E durante três milhões de anos o homem pertenceu ao mundo e, porque pertencia ao mundo, ele cresceu e se desenvolveu e se tornou mais inteligente e mais hábil, até se tornar tão inteligente e tão hábil que tivemos de chamá-lo de Homo sapiens sapiens, o que significava que ele veio a ser o que somos.
— E foi assim que os Largadores viveram durante três milhões de anos: como se pertencessem ao mundo.
— Isso mesmo. E foi assim que nós viemos a ser.

— Ocorreu-me que a história que acabei de contar é de fato a que os Largadores encenam aqui há três milhões de anos. A história dos Pegadores é: “Os deuses fizeram o mundo para o homem, mas foi um serviço malfeito, e tivemos que tomar a situação em nossas próprias mãos, pois somos mais competentes”. A história dos Largadores é: “Os deuses criaram o homem para o mundo, assim como criaram o salmão, o pardal e o coelho para o mundo. Esse sistema parece ter funcionado muito bem até agora, portanto podemos relaxar e deixar que os deuses governem o mundo”.

— O significado do mundo... Acho que o terceiro capítulo do Gênese estava certo. O mundo é um jardim, o jardim dos deuses.

— Intenções divinas... Parece que há uma espécie de tendência na evolução, não acha? Se partirmos daquelas criaturas ultra-simples nos mares antigos e subirmos degrau por degrau até tudo o que existe agora, e além, podemos observar uma tendência para a... complexidade. E para a consciência e a inteligência. Concorda?

O mundo é um lugar muito, muito bom. Nunca foi um caos. Não precisa ser conquistado e governado pelo homem. Em outras palavras, o mundo não precisa pertencer ao homem. Mas precisa que o homem pertença a ele. Era necessário que alguma criatura passasse primeiro por isso, que visse que havia duas árvores no jardim, uma boa para os deuses e outra boa para as criaturas. Era necessário que alguma criatura encontrasse o caminho, e se isso ocorrer, não haverá mais limite para o que pode acontecer aqui. Em outras palavras, o homem tem um papel no mundo, mas não o de governar. Os deuses se encarregam disso. O papel do homem é ser o primeiro. O papel do homem é ser o primeiro sem ser o último. O papel do homem é descobrir como é possível fazer isso e, depois, abrir espaço para outros capazes de se tornar o que ele se tornou. E talvez, quando chegar a hora, o papel do homem será o de professor de todos os outros capazes de se tornar o que ele se tornou. Não será o único nem o último professor. Talvez apenas o primeiro professor, o professor do jardim da infância. Mas mesmo isso não seria desprezível.

— Nunca saberemos o que os Largadores da Europa e Ásia faziam quando as pessoas de sua cultura chegaram para enterrá-los para sempre. Mas sabemos o que faziam na América do Norte. Buscavam modos de adaptação que estivessem de acordo com a vida que sempre levaram, modos que deixassem espaço para que o restante da vida prosseguisse em volta deles. Não digo que tenham feito isso levados por nobres ideais. Digo apenas que não lhes ocorria tomar a vida do mundo nas próprias mãos e declarar guerra ao restante da comunidade da vida. Se a situação prosseguisse desse modo por mais cinco ou dez mil anos, poderiam ter aparecido neste continente dezenas de civilizações tão sofisticadas quanto a sua é agora, cada uma com seus próprios valores e objetivos. Não é algo impensável.

— As criaturas que agem como se elas pertencessem ao mundo seguem a lei da paz e, porque seguem essa lei, dão às criaturas ao seu redor a chance de crescer e alcançar o grau de evolução que lhes for possível. Foi assim que o homem veio a existir. As criaturas ao redor do Australopithecus não imaginavam que o mundo lhes pertencesse, e deixaram que ele vivesse e crescesse. Como a civilização modifica isso? A civilização torna necessário destruir o mundo?

Obviamente, pertencer ao mundo significa... pertencer ao mesmo clube a que todos pertencem. O clube é a comunidade da vida. Significa pertencer ao clube e seguir as mesmas normas seguidas por todos.
— E, se ser civilizado significa alguma coisa, deve significar que vocês são os líderes do clube, e não apenas criminosos e destruidores.

A história do Gênese precisa ser invertida. Primeiro, Caim deve parar de matar Abel. Isso é essencial para que a humanidade sobreviva. Dentre as espécies ameaçadas de extinção, os Largadores são a mais crucial para o mundo. Não só por serem humanos, mas porque só eles podem mostrar aos destruidores do mundo que não há um único modo correto de se viver. Depois, é claro, vocês devem cuspir o fruto da árvore proibida. Devem abdicar de uma vez por todas da idéia de que sabem quem deve viver e quem deve morrer neste planeta.

— Deve ensinar para cem pessoas o que eu lhe ensinei, e motivar cada uma a ensinar outras cem. É assim que se faz sempre.
— Sim, mas... isso basta?
Ismael franziu a testa.
— É claro que não. Mas, se começar de qualquer outro modo, não haverá esperança. Não pode achar que vai mudar o comportamento das pessoas em relação ao mundo sem mudar o modo como pensam sobre o mundo, ou sobre as intenções divinas no mundo, ou sobre o destino do homem. Enquanto as pessoas de sua cultura estiverem convencidas de que o mundo pertence a elas, e que o destino que os deuses lhes outorgaram é conquistá-lo e governá-lo, é claro que continuarão a agir do modo como vêm agindo nos últimos dez mil anos. Continuarão a tratar o mundo como se fosse propriedade humana e continuarão a conquistá-lo como se fosse um adversário. Não se pode mudar essas coisas com leis. É preciso mudar a mente das pessoas. E não se pode simplesmente extrair um complexo nocivo de idéias e deixar um vazio no lugar. É preciso dar às pessoas algo tão significativo quanto àquilo que perderam, algo que faça mais sentido do que o antigo e abominável Homem Supremo, varrendo tudo no planeta que não sirva as suas necessidades, direta ou indiretamente.

o mundo dos Pegadores é uma vasta prisão e, exceto por um punhado de Largadores espalhados pelo mundo, toda a raça humana está agora dentro dessa prisão. Durante o último século, foi dada uma escolha a todo povo Largador remanescente na América do Norte: ser exterminado ou aceitar a prisão. Muitos escolheram a prisão, mas poucos foram capazes de realmente se adaptar à vida de prisioneiro.

— Naturalmente, uma prisão bem-administrada deve ter uma fábrica. Deve saber o motivo.
— Bem... ajuda a manter os prisioneiros ocupados, creio eu. Afasta-os do tédio e futilidade de sua vida.
— Certo, e sabe o que vocês fazem em sua fábrica?
— Na fábrica da nossa prisão? Não de imediato, mas suponho que seja óbvio.
— Bastante óbvio, eu diria.
Pensei um pouco.
— Destruímos o mundo.

é verdade que os homens (e, como disse, principalmente os brancos do sexo masculino) deram as cartas dentro da prisão durante mil anos, talvez até mesmo desde o início. E claro que é verdade que isso é injusto. E é claro que é verdade que o poder e a riqueza dentro da prisão deveriam ser igualmente redistribuídos. Mas devemos notar que o crucial para sua sobrevivência como raça não é a redistribuição de poder e riqueza dentro da prisão, mas sim a destruição da própria prisão.

libertar-se da prisão dos Pegadores é uma causa comum, que toda a humanidade pode apoiar.
Balancei a cabeça, discordando.
— Creio que é uma causa que nenhuma parcela da humanidade apoiará. Brancos ou negros, homens ou mulheres, o que as pessoas desta cultura querem é ter o máximo possível de riqueza e poder dentro da prisão dos Pegadores. Não dão a mínima se é uma prisão e não dão a mínima se está destruindo o mundo.
Ismael encolheu os ombros.
— Como sempre, está sendo pessimista. Talvez esteja certo. Espero que esteja errado.
— Também espero,
Anexos
Os cristais de Rapanah
Quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Um texto de Daniel Quinn. Traduzido por Janos Biro. Revisado por Elaine Cristina.

O destino não fez bem ao me escolher como descobridor dos Rapanah, que viviam num planeta na órbita de uma estrela em Órion. Pelo bem da nossa própria raça, eles deveriam ter sido encontrados por um lingüista e cientista competente, e não sou nem um dos dois. Ainda assim, eu vivi com eles e aprendi o que pude com meus recursos limitados. No começo, naturalmente, eu não entendi quase nada do que estava vendo entre os Rapanah. Minha primeira impressão é de que eles deviam ser uma raça muito nova, pois havia poucos deles, e eles viviam de uma maneira muito simples (apesar de que num tipo de perfeito conforto que parecia quase elegante). Enquanto eu, dificilmente, aprendia os rudimentos de sua linguagem, comecei a ver o quão errado estava. Os Rapanah eram velhos no tempo em que nossos ancestrais primatas ainda viviam em árvores.

Comecei a reconhecer que o que eu estava vendo era uma civilização. Era uma estrutura tão refinada e delicada que meus olhos, condicionados a ver prédios gigantes e máquinas como sinais de civilização, falharam em perceber isso no começo. Sua tecnologia era tão sutil e transparente que fazia a nossa parecer com uma briga de rinocerontes.

Nós terrestres somos criaturas à base de carbono, o que significa que temos uma afinidade com carvão e diamantes. Os Rapanah não puderam deixar claro do que eles eram constituídos, mas eles não eram à base de carbono. Ainda assim, eles também tinham uma afinidade com substâncias cristalinas que pareciam para olhos humanos tão inertes quanto carvão e diamantes. Uma dessas, eles diziam de forma meio brincalhona, era na verdade um primo distante. Eles me mostraram um exemplo que eu só poderia descrever inadequadamente como beleza de tirar o fôlego. Um cristal que parecia como se tivesse quebrado um arco-íris, pulsando com cores evanescentes. Eles a chamavam de Pedra Tava, que em português ficaria no meio termo entre conselheiro e confortador.

Ao invés de me explicar o uso do cristal em sua própria cultura, eles queriam ver se eu poderia responder a ele como um “primo” sem qualquer instrução. Eles me disseram para guardá-lo comigo pelo resto do dia e para colocá-lo embaixo da cama à noite. Eu o fiz e na manhã seguinte relatei que tive sonhos muito comoventes e deliciosos, motivados por uma voz cujas palavras eu não entendi direito, mas que me deixou num estado de êxtase ampla e oceânica na qual eu me senti bem seguramente um com o universo.

Já que eu demonstrei uma afinidade com a pedra, eles me explicaram que toda criança de Rapanah recebia uma e experimentava seu poder na sua iniciação como adulto. A pedra Tava era considerada como um tipo de “amigo em necessidades”, um conforto para ser procurado em tempos de perda profunda e stress. Era entendido que usá-la rotineiramente seria banalizar e diminuir seu efeito.

Apesar disso, havia alguns que em cada geração que experimentavam uma afinidade especial com a pedra e entravam numa vida contemplativa centrada na sua influência. Mas eu não deveria falar muito da pedra Tava. É apenas uma das dez mil maravilhas que eu encontrei entre os Rapanah.

Enquanto eu ficava mais confortável com sua linguagem, gradualmente me tornei consciente que estava sendo poupado de um segredo. No início meus professores me garantiram que eu estava imaginando coisas, mas enquanto o tempo passava os sinais se tornavam mais inconfundíveis para mim. Eu implorei, exigi, persuadi, ameacei e os aborreci ao ponto em que eles tiveram que falar a verdade que tanto tentavam esconder de mim.

Como eu já sabia, eles não eram uma espécie populosa. Havia apenas alguns milhares deles em todo o planeta. Isto, eu aprendi, não foi sempre o caso. Ao contrário, em algum tempo há apenas alguns séculos atrás, havia centenas de milhões deles. Desde lá eles se tornaram uma raça decadente. Os poucos milhares que eu via agora seriam apenas algumas centenas na próxima geração e apenas algumas dúzias na geração seguinte. A extinção estava a não mais que cinqüenta anos dos Rapanah.

Nada estava “errado” com eles que eles pudessem encontrar. Eles não estavam doentes. Eles não estavam debilitados ou sofrendo. Por alguma razão, sua taxa de nascimento estava simplesmente caindo próximo de zero. Como uma raça, eles estavam acabados. Esta era a maneira que eles viam. Seu tempo foi glorioso, mas acabou. Não tinham ressentimentos, mas eu tinha. Pois eu compreendia claramente que eles tinham um segredo de importância vital para as pessoas da Terra. Os Rapanah sabiam como construir uma civilização que não vivia de devorar o mundo. E eles usaram este conhecimento e provaram este conhecimento por literalmente milhões de gerações.

Eu comecei minhas preparações imediatas para retornar para a Terra para pedir ajuda. Possivelmente ajuda para eles, mas certamente para nós. Você já sabe o que uma jornada como essa leva, quinze anos em animação suspensa. Eu não era especial. Na minha chegada, nenhuma multidão iria me receber. Nenhuma reunião marcada para me interrogar. Ao contrário, eu tive que lutar pela atenção, com cartas, artigos, palestras, livros.

Mesmo à beira da extinção, as pessoas da minha cultura pareciam raramente se interessar pela possibilidade de aprender algo vitalmente importante para o futuro da humanidade. Levou quase três anos para organizar uma nova expedição, com o pessoal certo. Fisicamente incapaz de suportar outro congelamento tão próximo quanto este, eu não poderia ir. Eu tive que me reconciliar com a probabilidade de que eu nunca saberia os resultados do esforço. A nova expedição gastaria quinze anos para chegar lá, quinze anos trabalhando lá, e quinze anos voltando. Quarenta e cinco anos no total, obviamente.

Você pode imaginar minha surpresa, então, quando eu ouvi que a expedição havia retornado depois de apenas trinta anos. Desta vez ouve um interrogatório, e eu estava lá, exigindo saber se meus piores medos se realizaram, que os Rapanah não sobreviveram o bastante para ser contatados pela expedição. Eu fui garantido que este não foi o caso.

“Ainda havia cerca de oitocentos Rapanah vivos e bem quando nós chegamos”, o comandante me informou.
“Então porque vocês não ficaram?”, eu exigi. “Para chegar lá e voltar em trinta anos vocês devem ter ido tão logo chegaram!”.

“Acalme-se”, o comandante disse. “Nós temos o que fomos pegar”.

“Que diabos está dizendo?”.

Ele colocou uma caixa sobre a mesa da conferência. “Há mais cinqüenta dessas”, ele disse, abrindo-a. Um brilho de arco-íris encheu a sala, e todos correram para pegar um cristal para si.

Sobre “Os Cristais de Rapanah”
Há um sentido em que eu sou o “descobridor” da cultura largadora, o primeiro a reconhecer que os povos largadores são algo mais que meramente “primitivos”, que eles possuem um segredo que os manteve vivos por três milhões de anos e que vai NOS manter vivos; se nós ouvirmos a eles.

Vendedores da Nova Era têm um interesse diferente nos povos largadores. Eles querem saquear as suas pedras Tava; suas doces residências, sua medicina, seus rituais xamânicos, e assim por diante. Uma vez que eles tenham isso, eles jogam fora o resto; têm o que vieram pegar. Há um monte de pessoas que querem as pedras Tava, como esses vendedores sabem, pessoas que não se importam com os Rapanah ou sua sabedoria. Elas estão famintas de apetrechos e especialmente apetrechos “confortantes”, apetrechos que os façam sentir mais “espirituais” e menos vazios. Que eles vivam e prosperem.

O ponto definitivo desta parábola, eu suponho, é que nem todos os exploradores estão procurando pela mesma coisa.

--
Atenciosamente.
Claudio Estevam Próspero

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A civilização é um esquema de pirâmide
Por Ronald Wright
Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Traduzido por Janos Biro


A floresta é tão fechada que você entra na cidade sem saber que ela está lá. Então assombras se aprofundam e, olhando pelas folhas, você vê uma torre de pedra queimando no sol. Os prédios poderiam ser montes ou encostas, a não ser por uma escada coberta de raízes, uma estátua com musgos, uma inscrição. Você anda o dia todo, e nunca deixa a floresta ou a cidade. Uma parece crescer da outra – árvores dos prédios, prédios das árvores – como se sempre estivessem juntas, como se as pedras fossem cortadas e erguidas pelos jaguares, que fazem suas tocas nos vãos, como se as inscrições contassem os épicos dos morcegos.


As pessoas de nosso tempo vieram e cavaram por baixo das ruas e pisos, perguntando, o que aconteceu aqui? Onde foram os construtores? O que silenciou os escritores? Por que os astrônomos, que podiam traçar a trajetória dos planetas no passado e no futuro, estavam cegos para sua própria catástrofe? Senão cegos, por que impotentes?


A queda da civilização maia clássica no século nove por muito tem intrigado os arqueólogos. Agora respostas estão surgindo que devem preocupar todos nós. Tikal, a maior cidade, parece uma Manhattan de pirâmides em arte deco (a arquitetura maia influenciou o estilo moderno) presidindo sobre uma área urbanizada de 120 quilômetros quadrados. Levou 1500 anos para atingir esse tamanho, ainda assim todos os arranha-céus de Tikal foram construídos em seu século final, um extravagante florescimento na véspera do colapso.


Copan é menos grandiosa, com uma escultura intrincada, as estátuas de seus reis radiando ordem e refinamento. Mas escavações mostraram que esta cidade, pelos séculos, arruinou o solo rico em que cresceu. A melhor terra foi pavimentada, os montes foram achatados para fazer fazendas. A classe governante (revelada por seus ossos) cresceu alta e gorda; os camponeses ficaram magros. O fim foi uma agonia de caos ecológico e social, uma luta por recursos num mundo lotado. Escavações em Dos Pilas mostraram um momento finais. As pessoas se juntando no centro da cidade, tirando as pedras dos templos para fazer barricadas.


A Terra é cheia de cidades mortas. Civilizações, como indivíduos, nascem, crescem e morrem. Exceto a nossa. A nossa, acreditamos, é diferente. A beneficiária de todo o resto. A tarde ensolarada em que estamos vai se estender para sempre. Nesta crença, nós estendemos nossas vidas contra a evidência do tempo.


A civilização (eu uso o termo no sentido antropológico, significando sociedades complexas e populosas) é, para ser direto, um experimento de 10000 anos de começa com a invenção da agricultura e áreas chave, no leste próximo, sudoeste da Ásia, Meso-américa e Peru. A agricultura levou às cidades, aos especialistas e aos sacerdotes, ao governo de muitos por poucos. Com isso vieram coisas maravilhosas: arte, literatura, música, ciência. A civilização também retirou outras formas de vida, geralmente forçosamente. Agora não há alternativas viáveis, nenhum espaço branco no mapa. Não há retorno sem desastre. Enquanto subimos as escadas do progresso, as chutamos para baixo.


Dez mil anos pode parecer tempo bastante para declarar um sucesso irreversível. Mas é menos que 1 por cento da nossa carreira na Terra. Até nossa subespécie moderna, homo sapiens, existiu 10 vezes mais tempo que a civilização. O modo de vida sedentário que tratamos como normal hoje em dia não é o modo de vida em que, e para o qual, nós evoluímos. Então porque não havia civilizações em qualquer lugar até 10000 anos atrás, quando elas surgiram independentemente em quase todos os continentes?


A data é significante, e possivelmente a própria explicação. Estudos do clima antigo mostram que o clima do mundo tem estado estranhamente estável desde o fim da última era do gelo. Não poderíamos ter inventado a agricultura antes, mesmo que tentássemos. Agora encaramos a evidência de que a civilização por si mesma está desestabilizando o longo período de clima bom no qual cresceu.


Civilizações se erguem porque elas encontram novas formas de explorar os recursos humanos e naturais, para forçar a balança entre cultura e natureza. Elas se alimentam da ecologia local até que se degrade, prosperando apenas enquanto cresce. Quando não podem mais se expandir, caem vítimas do seu próprio sucesso. A civilização é um esquema de pirâmide.


O espaço entre ascensão e queda é uma questão de escala, de demanda superando os limites naturais. Bandos nômades de caçadores coletores poderiam viver nos pântanos e planícies do leste próximo indefinidamente. Seu impacto era leve, seus números cresciam e diminuíam de acordo com a abundância de presas e vegetação. Então, lentamente, eles começaram a plantar e colher. Tudo foi bem por um bom tempo, trazendo excesso e estabilidade para o suprimento de comida. Em terras onde alguns antes andavam, milhares agora trabalhavam em campos de trigo. Em tempos vagarosos do ano, ficavam ocupados com trabalhos públicos e monumentos. Este foi o fim do Éden, o começo do nosso mundo.


Mas havia um custo, um débito com a natureza acontecendo tão gradualmente que mal foi observado, quanto mais compreendido. Florestas diminuíam e retrocediam, a terra desnuda trazia secas e inundações (incluindo, talvez, o Dilúvio), campos irrigados ficaram gastos. As cidades da planície transformaram seus arredores em desertos. O deserto em que suas ruínas estão são desertos criados por elas.


No passado, esses ciclos eram regionais. Enquanto Roma caía no mediterrâneo, os Maias ascendiam na América Central, e assim por diante; as perdas eram locais, o experimento como um todo continuou. Mas agora as apostas de 10000 anos todas recaem num único lance. Temos uma grande civilização, se alimentando da Terra inteira numa taxa em que podemos observar a exaustão de capital natural em nossos períodos de vida, seja a perda de vida selvagem, água, recifes de corais ou florestas. Estamos devastando florestas em todo lugar, estamos irrigando em todo lugar, estamos pescando em todo lugar, e nenhum canto da biosfera escapa da nossa hemorragia de lixo. Mesmo que parássemos nesse minuto, nosso domínio sobre a Terra ainda apareceria nos vestígios fósseis tão feio quanto o impacto de um asteróide.


Há um ditado na Argentina que diz que toda noite Deus limpa a bagunça que os argentinos fazem durante o dia. Isto parece ser o que todos nós estamos esperando. Durante apenas o século XX nossa população multiplicou-se por quatro, enquanto o consumo cresceu por 40. Ainda assim o número de pessoas em pobreza abjeta é tão grande quanto de toda humanidade em 1900. Isto é progresso? Pode o mercado ser confiável para governar o mundo? Ou nossa explosão consumista é a riqueza ilusória de herdeiros gastando sua herança – e de forma alguma apenas a deles. É a promessa de prosperidade para seis bilhões a maior mentira de nosso tempo?


A história logo vai responder a grande questão: O experimento de 10000 anos acabará sendo uma falha? Na minha sátira distópica, Um Romance Científico, eu imaginei o veredicto que podemos ouvir. Nossas cidades atarefadas caem tão silenciosas quanto Tikal. Espero estar errado. O que é certo é que temos uma última chance, no máximo, para nos equilibrar direito. Na há mais espaço para erros, nem sequer espaço para não fazer nada. Se falharmos em limitar nosso número e impacto, se não trocarmos nossa economia sedenta por ouro por um compartilhamento racional do que a terra pode suportar este novo século não vai ficar velho antes de entrarmos numa era de caos e colapso que irá ultrapassar todas as idades das trevas do nosso passado.


A história mostra que tal reforma é improvável. Assim como os eventos correntes. De acordo com os cálculos das Nações Unidas, os três indivíduos mais ricos têm uma riqueza total igual aos 48 países mais pobres.

Enquanto escrevo, o maior poder que já existiu está planejando gastar 60 bilhões de dólares numa nova corrida armamentista, uma quantia que pode prover o mundo com água potável segura e deixar 20 bilhões de troco.

A típica resposta do poder é continuar construindo pirâmides mais altas enquanto as nuvens de tempestade se acumulam; como aqueles reis maias mortos.



--
Atenciosamente.
Claudio Estevam Próspero

http://pt.wikipedia.org/wiki/Usuário:ProsperoClaudio (Apresentação pessoal)
http://escoladeredes.ning.com/ (Escola de Redes [E = R])
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aliança_para_uma_Nova_Humanidade
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecocidade
http://www.criefuturos.com.br/criefuturos.html
http://www.holos.org.br/cursosetreinamentos/ (HOLOS - Coaching e Mentoring)
http://www.nef.org.br (Núcleo de Estudos do Futuro)
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/
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Terça-feira, 27 de Maio de 2008
A ideologia da civilização

http://umanovacultura.blogspot.com/2008/05/ideologia-da-civilizao.html

A humanidade viveu na animalidade por quase toda sua história. Só nos últimos séculos é que realmente se desenvolveu e superou o estágio primitivo. A humanidade floresceu e amadureceu com o surgimento da hierarquia, a organização social racionalizada, o que nos tornou mais científicos e possibilitou a produção em larga escala. Caçadores coletores são atrasados, são culturas que quase não existem hoje porque eram fracas e foram eliminadas. Nós aprendemos a dominar a natureza e vencemos os obstáculos naturais com nossa inteligência superior. A natureza só tem valor quando utilizada para o bem da humanidade, porque nós governamos esse planeta.

Os modos de vida que eram sustentáveis pertencem ao passado. Passamos dessa fase. Certamente vamos nos destruir, mas tudo morre um dia. É o preço da evolução.

Todos sabem que o único problema é o excesso de devastação ambiental, mas podemos reverter isso quando quisermos, com educação, leis, fiscalização, punição e novas tecnologias. Enquanto isso, nós abrimos novos segmentos de mercado vendendo produtos e atitudes ecológicas. Ensinamos as crianças que poluir é errado. Assim, quando crescerem, elas consumirão nossos produtos, pois nós ensinamos a elas que isso é mais saudável e mais ético.


O ser humano não pode viver cercado pela imundície da selva. As pessoas que defendem isso são hipócritas porque não querem ir para a selva e nos deixar em paz. A natureza humana nos leva à destruição. O homem deixado por si mesmo levava uma vida miserável. É incrível que ele tenha sobrevivido por tanto tempo nesse estado, e é por isso não construiu nada grandioso. A única explicação é que homem ainda era um animal, não tinha alcançado sua forma superior. Nós criamos diversas doenças físicas e psicológicas, mas também criamos vários remédios com diversos preços. Enquanto isso nós extinguimos as espécies inferiores, porque elas não deviam existir. Deus deu esse mundo para nós. Não estamos cuidando bem dele porque somos imperfeitos. Mas com muita fé no que foi dito acima, podemos mudar tudo isso. Nada pode deter a civilização, ela é o destino da humanidade.


-- Este pequeno texto resume em poucas linhas todos os argumentos que eu tenho refutado em vários dos meus artigos. E é incrível a quantidade de pessoas que acreditam nessas coisas. É possível que algumas até mesmo não percebam que se trate de uma ironia, mas sim de um texto sério. Para piorar eu considerei um cenário bem otimista, onde a pessoa sabe e considera uma série de coisas. Muitas pessoas ainda ignoram a idade real da humanidade, e um monte de outras informações que eu levei em consideração aqui. --

Postado por Janos às 23:43
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Trecho abaixo foi extraído do livro Meu Ismael - Daniel Quinn - Editora Peirópolis (páginas 185 a 194)

"
Pense num sistema que vocês têm e que não funciona para as pessoas em geral, mas que pode funcionar bem para algumas. Pense num sistema com o qual vocês andam às turras, combatendo-o desde o início.

Pense em outra roda, que vocês têm certeza de que precisam inventar a partir do nada. Pense num problema que certamente vocês resolverão um dia.

— Você está pensando num sistema em particular, Ismael?

— Não estou brincando de adivinhação. Essas são as características dos sistemas que vocês inventaram para substituir os sistemas descartados no início da sua revolução.

— Tudo bem. Há um sistema no qual estou pensando que tem todos esses aspectos, mas não sei se existe uma arca no tesouro dos Largadores que corresponda a ele. Na verdade, duvido muito.

— Por quê, Julie?

— Porque é o sistema que usamos para trancar a comida.

— Entendo o que está querendo dizer. Uma vez que os povos Largadores não trancam a comida deles, não possuem um sistema para fazer isso.

— Acertou.

— Mesmo assim, vamos pensar um pouco mais no assunto. Não sei se entendi exatamente a que sistema você se refere.

— Acho que estou falando do sistema econômico.

— Ah, sim. Então, você não acredita que no sistema dos Pegadores a economia funcione para as pessoas em geral?

— Bem, funciona maravilhosamente bem para algumas pessoas, é claro. Trata-se de um lugar-comum. Existe um pequeno grupo no topo, que se dá superbem. Muitas pessoas do meio acabam se virando. E a maioria, da base, vive na pior.

— O sonho socialista é nivelar todos. Redistribuir a riqueza eqüitativamente, de modo que a maior parte dela não fique concentrada nas mãos de uns poucos, enquanto a massa passa fome.

— Acho que é isso aí. Mas devo dizer que entendo mais de foguetes espaciais do que disso aí.

— Você sabe o suficiente, não se preocupe, Julie... Quando vocês começaram a ter problemas com a distribuição da riqueza? Deixe-me reformular a pergunta: quando uma parcela desproporcionalmente grande da riqueza começou a se concentrar nas mãos das pessoas que estão no alto da pirâmide?

— Minha nossa! Eu não sei! Imagino os primeiros potentados vivendo em palácios magníficos, enquanto os súditos viviam como animais.

— Não há dúvida de que foi esse o caso, Julie. As primeiras civilizações de Pegadores foram inteiramente construídas nesses moldes. Não havia a menor hesitação quanto a isso, na época. Assim que existe riqueza visível — em oposição a comida na mesa, roupas para vestir e um teto sobre a cabeça —, fica fácil prever como ela será distribuída. Haverá alguns imensamente ricos no topo, uma classe mais numerosa de ricos em segundo lugar e um número bem maior de comerciantes, soldados, artesãos, trabalhadores, servos, escravos e miseráveis no fundo. Em outras palavras, realeza, nobreza e povo.

O tamanho e a formação das classes mudaram com o passar dos séculos, mas não o modo como a riqueza é distribuída entre elas. Típica e compreensivelmente, as duas classes superiores acreditam que o sistema está funcionando admiravelmente bem, porque, na verdade, está mesmo — para eles. O sistema permanece estável enquanto as duas classes superiores são relativamente grandes, como ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos. Mas, na França de 1789 ou na Rússia de 1917 a riqueza ficou concentrada em um número de mãos reduzido demais. Entende o que estou querendo dizer?

— Acho que sim. Não haverá nenhuma revolução se a maioria das pessoas acreditar que está se dando relativamente bem.

— Isso mesmo. Na atualidade, a disparidade entre os mais ricos e os mais pobres em sua cultura é maior do que um faraó egípcio seria capaz de imaginar. Os faraós não tinham como dispor de recursos remotamente similares aos existentes hoje para as extravagâncias dos seus bilionários. Pode-se até argumentar que essa foi a razão para a construção das pirâmides. O que mais poderiam fazer com o dinheiro? Eles não podiam comprar mansões em ilhas paradisíacas, nem viajar para elas em jatos particulares ou iates de cem metros de comprimento.

— Bem lembrado.

— Entre os ricos da sua cultura, o colapso do império soviético é considerado como uma vitória clara da ganância capitalista. Para eles, trata-se da prova de que os pobres preferem viver num lugar onde pelo menos podem sonhar em ser ricos a morar num mundo em que todos são pobres, porém mais ou menos igualmente pobres. A ordem conservadora foi reafirmada, e agora pode se esperar um futuro interminável de fartura, desde que, como sempre, você esteja entre os privilegiados. Se não estiver, diz o argumento, não deve culpar ninguém além de si mesma, pois, afinal de contas, todos têm a possibilidade de se tornar ricos no sistema capitalista.

— Muito persuasivo — disse eu.

— Os ricos estão sempre dispostos a manter as coisas como estão e não criar problemas. Eles não entendem por que as outras pessoas não adotam a mesma atitude.

— Faz sentido — disse eu.

— Bem, agora vamos ver se você consegue identificar o mecanismo básico de criação de riqueza dos Pegadores.

— Mas ele não é igual ao de todos?

— Claro que não — respondeu Ismael. — O mecanismo de criação de riqueza dos Largadores é basicamente diferente.

— Você está me pedindo para descrever o mecanismo de criação de riqueza dos Pegadores?

— Isso mesmo. Não é nada terrivelmente obscuro.

Pensei um pouco e disse:

— Acho que, em resumo, seja: “Tenho algo que você quer e posso dar isso em troca de algo que eu quero”. Ou estou sendo muito simplista?

— Acho que não, Julie. Prefiro começar pelo osso a cavar até encontrá-lo. Ismael disse isso enquanto pegava um bloco e uma caneta hidrográfica. Ele folheou o bloco até encontrar uma página em branco e passou três minutos desenhando um diagrama, que grudou no vidro para que eu pudesse observá-lo.

Ver arquivo anexo: EconomiaPegadora

— Esse esquema mostra como sua economia funciona: fazer produtos para obter produtos. Obviamente, estou usando a palavra “produto” em seu sentido mais amplo, mas qualquer pessoa que trabalhe num setor de serviços entende o que estou dizendo se eu me referir à sua atividade também. E, em termos gerais, as pessoas conseguem dinheiro por seus produtos, mas o dinheiro está apenas a um passo de distância dos produtos que pode adquirir, e as pessoas querem os produtos e não pedacinhos de papel. Se você se lembrar das nossas conversas anteriores, não terá dificuldade em identificar o evento que possibilitou o início dessa troca de produtos.

— Claro. Foi o trancamento da comida.

— Sem dúvida. Antes daquela época, não havia sentido fazer produtos. Fazia muito sentido moldar um pote de barro, uma ferramenta de pedra ou um cesto de vime, mas não havia sentido produzir uma centena deles.
Ninguém estava no ramo da olaria, das ferramentas de pedra ou da cestaria. Mas, com a comida trancada à chave, tudo isso mudou imediatamente. Graças ao simples ato de ser trancada, a comida se transformou imediatamente em produto — o produto fundamental de sua economia. De repente, alguém que tivesse três potes poderia conseguir o triplo de comida do que outro que possuísse apenas um pote. E, de repente, alguém que possuísse trinta mil potes poderia residir num palácio, enquanto alguém com três mil potes poderia viver numa bela casa e alguém sem nenhum pote teria de viver na rua. Toda a economia se organizou assim que a comida foi trancada.

— Então, você está dizendo que os povos tribais não têm economia.

— Não estou dizendo nada disso, Julie. Eis a transação fundamental da economia tribal.

Ele grudou no vidro outra página do bloco, com um novo esquema:

Ver arquivo anexo: EconomiaLargadora

— Não são os produtos que fazem com que a economia tribal funcione e sim a energia humana. Essa é a transação fundamental, que ocorre tão naturalmente que as pessoas se equivocam freqüentemente pensando que não existe nenhuma economia, assim como supõem, equivocadamente, que elas não têm nenhum sistema educacional. Vocês fazem e vendem centenas de milhões de produtos a cada ano para construir, equipar e contratar pessoas para trabalhar nas escolas e educar seus filhos. Os povos tribais atingem o mesmo objetivo graças a um nível menor, porém constante, de troca de energia entre adultos e crianças, que mal é percebida. Vocês fazem e vendem centenas de milhões de produtos a cada ano para poder contratar policiais para manter a lei e a ordem. Os povos tribais atingem os mesmos objetivos fazendo isso eles mesmos. Manter a lei e a ordem não é uma tarefa agradável, mas isso não chega a tirar o sono deles, como ocorre com vocês. Vocês fazem e vendem trilhões de produtos a cada ano para manter governos incrivelmente ineficientes e corruptos, como você bem sabe. Os povos tribais conseguem se autogovernar com eficiência, sem comprar nem vender nada.

“Um sistema baseado na troca de produtos inevitavelmente canaliza a riqueza para as mãos de poucos, e nenhuma mudança governamental será capaz de corrigir isso. Não tem nada a ver com o capitalismo especificamente.

O capitalismo foi apenas a expressão mais recente de uma idéia que surgiu há dez mil anos com a fundação da sua cultura. Os revolucionários do comunismo internacional não se aprofundaram suficientemente para realizar as mudanças que sonhavam. Eles pensaram que poderiam parar o carrossel se capturassem todos os cavalos. Mas, claro, os cavalos não faziam o carrossel girar. Os cavalos eram apenas passageiros, como todos vocês”.

— Ao falar em cavalos, você está se referindo aos governantes, não é?

— Isso mesmo.

— E o que nós podemos fazer para deter o carrossel, afinal?

Ismael pensou um pouco e disse:

— Suponha que você nunca tenha visto um carrossel e se depare com um completamente fora de controle. Talvez tente pular na frente dos cavalos e segurá-los pelas rédeas, gritando “Oooopa”, para detê-lo.

— Acho que sim, se acordar meio doida nesse dia.

— E, se isso não desse certo, o que faria?

— Pularia para fora e tentaria achar os comandos.

— E se não houvesse comandos à vista?

— Aí acho que tentaria descobrir como aquilo funcionava.

— Por quê?

— Por quê? Se não tivesse um botão de desligar, seria preciso entender como aquilo funciona para poder pará-lo.

Ismael concordou, balançando a cabeça.

— Agora você compreende por que estou tentando mostrar como funciona o carrossel dos Pegadores. Não há um botão para desligá-lo, e, se quiser detêlo, precisará descobrir como ele funciona.

— Um minuto atrás — disse eu — você afirmou que um sistema baseado na troca de produtos sempre concentra a riqueza nas mãos de poucos. Por que isso acontece?

Ismael pensou por um momento e disse:

— A riqueza, em sua cultura, é algo que pode ser trancado à chave. Concorda com essa afirmação?

— Acho que sim. Exceto, talvez, por um pedaço de terra.

— A escritura de um pedaço de terra fica trancada à chave — disse Ismael.

— Certo.

— O dono da terra talvez nunca tenha posto os pés lá. Se ele possuir a escritura, pode vendê-la a alguém, que tampouco irá até lá.

— Certo.

— Uma vez que sua riqueza pode ser trancada, ela é trancada, e isso significa que ela se acumula. Especificamente, ela se acumula entre as pessoas que possuem as chaves. Talvez um exemplo ajude... Se você imaginar a riqueza do antigo Egito como uma substância visível sendo retirada da terra átomo por átomo pelos agricultores, mineiros, pedreiros, artesãos e assim por diante, verá uma névoa difusa que cobre o país inteiro, no início. Mas essa névoa de riqueza está em movimento. Vem sendo sugada por cima, formando uma corrente cada vez mais densa e estreita de riqueza que flui na direção dos armazéns da família real. Se você imaginar a riqueza de um condado medieval inglês como uma substância visível similar, verá que ela é canalizada para o conde ou duque local. Se imaginar a riqueza dos Estados Unidos no século XIX, verá que ela é canalizada diretamente para as mãos dos magnatas das ferrovias, industriais e financistas. Cada transação no nível mais baixo conduz uma pequena parcela da riqueza para um Rockefeller ou um Morgan. O mineiro que compra um par de sapatos enriquece Rockefeller mais um pouquinho, pois parte desse dinheiro acaba chegando à Standard Oil. Outra parte diminuta vai para Morgan, graças a uma de suas ferrovias. Nos Estados Unidos, hoje, a riqueza é canalizada para o mesmo tipo de pessoa, embora se chamem Boesky e Trump em vez de Rockefeller e Morgan. Obviamente, pode-se aprofundar muito o assunto. Mas já responde à sua pergunta, não é?

— Sim. Eu não entendo uma coisa. Se existe riqueza, para onde ela pode ir senão para as mãos dos indivíduos?

— Estou vendo o que a deixa confusa — disse ele, balançando a cabeça. — A riqueza deve ir para os indivíduos, claro. Mas essa não é a questão. Não estou falando que a riqueza gerada pelos produtos sempre vai para indivíduos e sim que sempre vai para poucos indivíduos.

Quando a riqueza é gerada por produtos, oitenta por cento dela acaba sempre nas mãos de vinte por cento da população. Isso não é privilégio do capitalismo. Numa economia qualquer, baseada em produtos, a riqueza se concentra sempre em poucas mãos.

— Agora, estou entendendo. Mas tenho uma pergunta.

— Diga.

— E os astecas e incas? Pelo pouco que eu sei, aposto que mantinham a comida trancada à chave também.

— Você está absolutamente correta, Julie. A idéia de trancar a comida surgiu também no Novo Mundo, de forma independente. E, entre os povos como os astecas e os incas, a riqueza fluía inexoravelmente para as mãos de alguns poucos, os ricos.

— E esses povos eram Pegadores ou Largadores?

— Eu diria que estavam no meio-termo, Julie. Deixaram de ser Largadores, mas não chegaram a Pegadores, pois lhes faltava um elemento essencial: eles não acreditavam que todos deviam viver da mesma maneira que eles viviam.

Os astecas, por exemplo, ambicionavam conquistar outras terras. Mas, quando conquistavam outro povo, não se importavam com o modo de vida desse povo.
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+ Informações sobre as obras de Daniel Quinn:

[Inovação necessária] Tribalismo étnico => Civilização de conquista => ?
http://escoladeredes.ning.com/group/ecoloucos/forum/topics/inovacao...

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Atenciosamente.
Claudio Estevam Próspero

http://pt.wikipedia.org/wiki/Usuário:ProsperoClaudio (Apresentação pessoal)
http://escoladeredes.ning.com/ (Escola de Redes [E = R])
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aliança_para_uma_Nova_Humanidade
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecocidade
http://www.criefuturos.com.br/criefuturos.html
http://www.holos.org.br/cursosetreinamentos/ (HOLOS - Coaching e Mentoring)
http://www.nef.org.br (Núcleo de Estudos do Futuro)
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/
http://www.portalsbgc.org.br/sbgc/portal/ (Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento)

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