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O auto-didatismo e a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente & o alter-didatismo e as comunidades de aprendizagem na emergente sociedade em rede

Membros: 69
Última atividade: 7 Mar, 2014

DO QUE TRATA ESTE GRUPO

O trabalho dos membros deste grupo não é propriamente usar os campos de comentários para discutir os textos alheios e sim escrever seus próprios textos, como se estivessem escrevendo partes de um livro... Pois é isso mesmo que estarão fazendo!

Este grupo foi criado para escrever um livro em rede. O título do livro é “Buscadores & Polinizadores”.

E o subtítulo é: “O auto-didatismo e a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente & o alter-didatismo e as comunidades de aprendizagem na emergente sociedade em rede”.

O título e o subtítulo já explicam, em grande parte, o tema da obra. Mas quem quiser saber mais pode continuar lendo este post.

Vamos escrever este livro aqui na Escola-de-Redes. Convidei, para começar, algumas pessoas que já mostraram muito interesse no assunto: a Bárbara Dieu, o Luiz de Campos Jr, o José Pacheco, a Leila Paes de Miranda, o Nilton Lessa e o Reinaldo Pamponet. Pretendo convidar também o George Siemens (o que trará uma dificuldade adicional, pois acho que ele não lê português). Mas a experiência está aberta para quem quiser co-laborar.

É uma experiência inédita. Já usei blogs para escrever livros, mas nunca uma plataforma interativa de netweaving, como o Ning.

Ainda estou aguardando resposta de alguns convidados iniciais, mas vou começando. Pois pretendia escrever mesmo sobre isso, na linha de um texto que publiquei na Carta Rede Social 172 , aqui na Escola-de-Redes e na Rede Vivo Educação: Autodidatismo: a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente (as versões são um pouco diferentes). É para onde meu trabalho atual está me levando, sobretudo a experiência com a Rede Vivo Educação (Instituto Vivo) e com os Arranjos Educativos Locais (Sesi/Senai).

Para tanto abri este novo Grupo na Escola-de-Redes, usando a funcionalidade dos chamados Fóruns de Discussão para colocar a Introdução e os Capítulos (o que é outra dificuldade, pois o Ning limita o número de caracteres nesses espaços, a menos que queiramos ficar “pendurando” (carregando) arquivos, o que dificulta a leitura e a interação).

Qual será o trabalho do Grupo “Buscadores & Polinizadores”?

O trabalho do Grupo será escrever o livro.

Como será feito o trabalho?

Como base usaremos um hipertexto que será publicado em partes. Uma Introdução e alguns capítulos (mas ainda não sabemos quais ou quantos serão). Cada pessoa que quiser co-escrever vai fazer um link (sublinhando alguma palavra ou expressão) e desenvolvê-lo como sub-capítulo (ou episódio: ἐπεισόδιον, he he).

Um co-escritor (ou co-escritora) também pode propor um novo capítulo. A Introdução e os Capítulos serão publicados em Fóruns de Discussão separados (um para cada).

Todavia, cada sub-capítulo será publicado no campo reservado aos comentários. Quando não couber, será carregado como arquivo (no mesmo campo de comentários).

O que faremos com o resultado do trabalho?

Publicaremos o livro, em edição digital – entregue, portanto, ao Domínio Público – e também em papel, em uma edição da Escola-de-Redes ou, de preferência, em co-edição com alguma editora que tenha esquema de distribuição.

Clique aqui para ler a versão preliminar da Introdução (ainda em elaboração).

Veja abaixo a 4a versão do roteiro:

Fórum de discussão

Buscadores e Polinizadores - Versão 3 de Augusto com alguns comentários 17 respostas 

Iniciado por Nilton Lessa. Última resposta de Augusto de Franco 14 Jul, 2010.

CAPÍTULO 2 6 respostas 

Iniciado por Augusto de Franco. Última resposta de Celso Sekiguchi 18 Jun, 2009.

INTRODUÇÃO 1 resposta 

Iniciado por Augusto de Franco. Última resposta de Milton Francisco da S. Moreira 22 Abr, 2009.

CAPÍTULO 1 3 respostas 

Iniciado por Augusto de Franco. Última resposta de Augusto de Franco 22 Abr, 2009.

CAPÍTULO 3 1 resposta 

Iniciado por Augusto de Franco. Última resposta de Augusto de Franco 21 Abr, 2009.

SUMÁRIO 3 respostas 

Iniciado por Augusto de Franco. Última resposta de Leila País de Miranda 21 Abr, 2009.

Caixa de Recados

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Comentário de Sergio Storch em 11 maio 2012 às 21:55

No meio de tanta sobrecarga informacional, o que me faz vir e ler é ter visto 3 amigos nessa conversa. Que nome a ciência das redes dá a esse fenômeno? Fui agora protagonista vivo de um momento de swarming, Augusto? 

E não podia deixar de ler um artigo do Niraldo, meu guru em dinâmica de sistemas. Adorei o refinamento da análise na historinha do milho. E acho que tenho uma resposta para a sua pergunta no final: "Por analogia, não estariam as empresas, também, criando indivíduos “transgenicamente modificados” que podem vir a prejudicar o meio-ambiente empresarial?". 

NÃO, Niraldo, porque os indivíduos não são pés de milho:-))). 

Os indivíduos são, cada um, um outro universo, que recebe polinização de uma multiplicidade de fontes que não são as mesmas dos demais indivíduos. A complexidade do humano garante que não serão transgenicamente modificados, A NÃO SER QUE... estejam num ambiente em que sejam coagidas a serem uniformes, como numa instituição total (manicômio, prisão etc., que foram o objeto de estudo de Erwin Goffman), totalitária) ou de uma sociedade totalitária, como sob o regime nazista ou chinês. Mas mesmo neles há algum espaço para dissenso, e aí entramos num outro campo: qual o limiar da opressão que esmaga totalmente o livre arbítrio e a liberdade de pensamento? É o campo tão bem estudado da dignidade humana. Que é a diferença entre nós e os pés de milho. Aí é bom dar uma espiada nos experimentos de psicologia social relacionados à obediência e confo..., lindamente narrados por outro amigo blogueiro, o Rodolfo Araújo. Por essas e outras é que tenho arrepios ao ouvir a palavra tão em voga nas empresas hoje: compliance = conformidade.

Mas olhaí, Niro, onde fomos nos encontrar, hein? Aqui no nosso milharal... Isso é que é pólen voando pra todo canto...

Comentário de Niraldo José do Nascimento em 10 maio 2012 às 21:34

Envio uma pequena contribuição, com base em uma história que percorreu a  Web com sucesso, anos atrás, à qual apliquei conceitos da Dinâmica de Sistemas. Não há pretensão de ser incorporada ao livro, apenas como reflexão.

Abs polinizacao_do_conhecimento.docx

Comentário de Jaime Tak em 14 fevereiro 2011 às 11:01
Será que não somos ao mesmo tempo buscadores e polinizadores como o beija-flor e a borboleta?
Comentário de Jaime Tak em 11 fevereiro 2011 às 10:45
Augusto, eu estava lendo o capítulo 10, vou ler o capítulo 7 de Fluzz http://escoladeredes.ning.com/group/fluzz e aqui as emendas do Nilton Lessa. Acho que em rede pode se escrever grandes livros aleatórios e até alguns bem planejados e coordenados mas alguém tem que facilitar juntando e sintetizando todas as mensagens. Como sou um fractal, só vou lendo, comentando e me perdendo por aí, pela rede.   
Comentário de Augusto de Franco em 11 fevereiro 2011 às 8:51
Foi mais uma tentativa de escrever um livro meio-em-rede, Jaime. Aos poucos - e tendo em mãos os instrumentos adequados (o Ning, como plataforma p-based, não é um deles) - vamos conseguindo, penso. Mas o conteúdo básico de Buscadores & Polinizadores (com as emendas organizadas de Nilton Lessa) já foi incorporado em FLUZZ, no sétimo capítulo (que - entre outras muitas coisas - trata, justamente, de Não-Escolas). Agora é assim nestes mundos altamente conectados: os escritos se reciclam, se clonam...
Comentário de Jaime Tak em 11 fevereiro 2011 às 7:54
Agora já entendi que a idéia era escrever coletivamente um livro sobre educação. O problema que eu vejo é ler/ouvir todas as mensagens, ler as versões para poder analisar, comentar e colaborar. Posso passar meses perdido neste grupo mas como não existe outro jeito acho que é o que eu vou ter que fazer.     
Comentário de Jaime Tak em 10 fevereiro 2011 às 8:23
Vou ler Buscadores e Polinizadores e conversar com quem leu. O livro já está na quarta versão, infelizmente ninguém pode ler por mim mas podem me ajudar incentivando (rs...).
Comentário de Augusto de Franco em 19 agosto 2010 às 10:57
Acrescento aqui dois posts do meu TUMBLR.

SOBRE AS ORIGENS DO ENSINO E DO PROFESSOR

Como tudo isso pode ter começado?

É surpreendente constatar, como fizeram Joseph Campbell, Samuel Noah Kramer e outros renomados sumeriologistas, que os elementos centrais da nossa cultura, dita civilizada, compareciam em uma espécie de modelo ou protótipo ensaiado em complexos do tipo cidade-templo-Estado como Eridu, Nippur, Uruk, Kish, Acad, Lagash, Ur, Larsa e Babilônia. Esse modelo já estava em pleno funcionamento, segundo interpretações de relatos que não puderam ser contestadas, a partir do quarto milênio. Em particular a obra de Kramer (1956): “A história começa na Suméria”, revela as raízes sumerianas do atual padrão civilizatório (1).

Há doze anos tomei o seguinte trecho de Campbell (1959), em “As Máscaras de Deus”, como uma espécie de epígrafe da minha investigação:

“Um importante desenvolvimento, repleto de significado e promessas para a história da humanidade nas civilizações por vir, ocorreu... [por volta] (de 4.000 a. C.), quando algumas aldeias camponesas começaram a assumir o tamanho e a função de cidades mercantis e houve uma expansão da área cultural... pelas planícies lodosas da Mesopotâmia ribeirinha. Esse é o período em que a misteriosa raça dos sumérios apareceu pela primeira vez em cena, para estabelecer-se nos terrenos das planícies tórridas do delta do Tigre e do Eufrates, que se tornariam em breve as cidades reais de Ur, Kish, Lagash, Eridu, Sipar, Shuruppak, Nipur e Erech... E então, de súbito... surge naquela pequena região lodosa suméria – como se as flores de suas minúsculas cidades subitamente vicejassem – toda a síndrome cultural que a partir de então constituiu a unidade germinal de todas as civilizações avançadas do mundo. E não podemos atribuir esse evento a qualquer conquista da mentalidade de simples camponeses. Tampouco foi a conseqüência mecânica de um mero acúmulo de artefatos materiais, economicamente determinados. Foi a criação factual e claramente consciente (isto pode ser afirmado com total certeza) da mente e ciência de uma nova ordem de humanidade que jamais havia surgido na história da espécie humana: o profissional de tempo integral, iniciado e estritamente arregimentado, sacerdote de templo” (2).

Respeitados estudiosos confessam até hoje sua perplexidade diante da constelação desse ‘precedente sumeriano’ – para usar a feliz expressão do matemático Ralph Abraham (3). É o caso, por exemplo, da antropóloga e assirióloga Gwendolyn Leick, que leciona em Richmond (Londres). No seu “Mesopotâmia: a invenção da cidade” (2001), ela declara que “muito se tem escrito sobre o “súbito” aparecimento dos sumérios na Mesopotâmia e suas possíveis origens... [mas] a questão da origem dos sumérios continua aguardando solução, e tudo o que podemos dizer é que, no início do Primeiro Dinástico, sua língua foi escolhida para ser vertida em escrita. Talvez os sumérios se tivessem tornado politicamente dominantes e exercido o controle dos centros de formação de escribas nas primeiras cidades (4).

Essa casta ou estamento – composta pela burocracia sacerdotal que administrava as nascentes cidades-templo-Estado sumerianas – configurou o primeiro padrão de transmissão de ensinamento. Ensinavam como um imperativo para reproduzir seu próprio ensinamento; quer dizer, ensinavam para reproduzir (ou multiplicar os agentes capazes de manter) seu próprio estamento.

Por que? Ora, porque o livre aprendizado na rede social de então não seria capaz de cumprir tal função, que nada tinha a ver com sua sobrevivência ou com sua convivência. Não se tem notícia de escola, ensino ou professores em sociedades de parceria (5). Quando a rede social foi subitamente centralizada pela configuração particular que se constelou com o surgimento do complexo cidade-templo-Estado, os programas verticalizadores que começaram a rodar nessa rede eram replicados em outras regiões do espaço e do tempo pela transmissão-recepção de seus códigos – e já havia programas elaborados, como os que os sumérios denominavam “ME” (6) – aos membros do mesmo grupo social.

Ou seja: já havia um ensinamento (secreto, por certo, acessível somente aos membros do estamento). Já havia ensinantes (os primeiros professores, membros da casta sacerdotal) e ensinados (os futuros administradores em formação).

Essa hipótese é fortalecida pela investigação das origens da Kabbalah. O símbolo central desse sistema de sabedoria – a chamada “Árvore da Vida” – foi, sem dúvida, herdado do simbolismo templário do complexo Templo-Estado sumeriano, o qual deve ter passado ao judaísmo posterior por intermédio da Golah – a organização dos cativos (seqüestrados nas elites de Jerusalém) na Babilônia sob o reinado de Nabucodonozor e seu sucessor.

Não se sabe a origem da 'árvore da vida', mas ela aparece nas imagens da tamareira gravadas nas mais antigas tabuinhas sumerianas encontradas pelos escavadores. E aparece também – com o mesmo esquema, que depois foi transmitido pela tradição (cabalística) – na forma de uma nave, ladeada por dois seres alados (com cabeças de águia) (7). Uma nave – talvez como as naves dos templos, até hoje – que não sai do lugar, mas por meio da qual se pode “viajar” para os céus caso se tenha acesso ao “combustível” adequado: ao “fruto da vida” e à “água da vida”...

O mesmo schema básico da árvore da vida, representada em vários mundos que se interceptam (os da emanação, da criação, da formação e do produzir) compõe o que foi chamado de “Escada de Jacó”, uma escada pela qual os mensageiros – ou as mensagens – podem subir e descer estabelecendo os fluxos entre o céu e a terra. O céu, é claro, fica em cima. A transmissão, é claro, é top down.

Essa ideologia de raiz babilônica (suméria) que, quase dois milênios depois, foi se chamar de Kabbalah (cabala), na Idade Média européia, fez uma operação tremenda de “engenharia memética” no símbolo original, ressignificando a árvore da vida como uma “árvore do conhecimento”, quer dizer, tomando a vida pelo conhecimento da vida e do que com ela foi feito... Isso significa obstruir o acesso à vida, facultando-o somente aos que possuem o conhecimento (aquilo que a cabala chamou de “ensinamento” e que é transmitido então numa cadeia, tida por ininterrupta, que começa com o arquimensageiro Raziel, passa para Enoc – o escriba, não por acaso – e daí para os patriarcas e para os sacerdotes). Kabbalah vai designar, então, essa tradição sacerdotal: condução (transmissão-recepção) do ensinamento original por parte daqueles que são capazes de reproduzir esse mesmo padrão de ordem sagrada, isto é, separada do vulgo, do profano, daquele que não foi ordenado.

Isso tudo não somente fez, mas faz ainda, parte de uma experiência fundante de verticalização do mundo, que prossegue enquanto a tradição permanece ou se refunda toda vez que o meme é replicado. Do ponto de vista da memegonia, aqui pode estar a origem da relação mestre-discípulo ou professor-aluno.

Não foi a toa que uma mente arguta como a de Harold Bloom (1975) – ecoando, aliás, o erudito Gershom Scholem – percebeu que Kabbalah era uma ideologia de professores. Na origem de tudo está... uma Instrução: “o Ein-Sof instrui a Si mesmo através da concentração... Deus ensina a Si mesmo o Seu próprio Nome, e, dessa forma, começa a criação” (8). (Ein-Sof é uma formidável abstração dos cabalistas do século 13: o nada primordial do qual emana a “seiva” que percorre a “árvore” numérica que constitui a estrutura do universo, criando, formando e produzindo a existência).

Nessa memegonia, Deus é o primeiro professor e o ato de ensinar está na raiz do ato de criar o mundo. O conhecimento (via ensinamento) – e não a existência e a vida – é o objetivo: a origem e o alvo. Deus cria o mundo para se conhecer. Ele ensina, não aprende. Logo, seus “delegados”, ou intermediários (os sacerdotes), também ensinam. Todo corpus sacerdotal é docente.

É por isso que há uma enorme dificuldade de conciliar visões próprias de sistemas tradicionais de sabedoria com a visão das redes de aprendizagem. A tradição - dita espiritual - com raras exceções (como o Tao, mas não o taoismo; como o Zen - esse formidável sistema de desconstituição de certezas -, mas não o budismo) em geral replicou atitudes míticas, sacerdotais, hierárquicas e autocráticas. Maturana levantou a hipótese da "brecha" (na civilização patriarcal e guerreira) para mostrar como pôde ter surgido a democracia (9). Mas, na verdade, não foi só a democracia que penetrou pela "brecha": vertentes utópicas, proféticas, autônomas e democráticas floresceram ao longo da história e continuam florescendo - intermitentemente - toda vez que comunidades conseguem estabelecer uma interface para conversar com a "rede-mãe" (10). Essas duas vertentes permaneceram e ainda permanecem em permanente tensão.

O professor como transmissor de ensinamento e a escola como aparato separado (sagrado na linguagem sumeriana) surgiram, inegavelmente, como instrumentos de reprodução de programas centralizadores que foram instalados para verticalizar a "rede-mãe".

De certo modo, os deuses do panteão patriarcal e guerreiro foram os primeiros programas meméticos centralizadores (11). O IHVH bíblico – ensinador – encarna uma rotina desses programas (e é representado por uma das sefirot – um evento – na 'árvore da vida' ressignificada, no mundo da emanação).

Como os deuses do panteão patriarcal e guerreiro da Mesopotâmia do período Uruk (c. 4000-3200) – período sucedido, logo em seguida, não por acaso, pela escrita (no Primeiro Dinástico I: c. 3000-2750) – foram criados à imagem e semelhança dos homens que começaram a se organizar segundo padrões hierárquicos, tudo isso é muito relevante para entendermos que a transmissão do ensinamento já foi fundada, de certo modo, em contraposição ao livre aprendizado humano na rede social muito menos centralizada (ou até, quem sabe, distribuída) dos períodos pré-históricos anteriores (desde, pelo menos, o Neolítico). Para essas sociedades de dominação, nada de aprender (inventar). Era preciso ensinar (para replicar).

A tradição é tão forte que há até bem pouco a doutrina oficial católica romana (e ela não é a única) ainda dividia a igreja em docente (ensinante: os hierarcas) e discente (ensinada: os leigos). E as escolas, que também se estruturaram, em certo sentido, como igrejas (mesmo as laicas), consolidaram sua estrutura com base na separação de corpos entre docentes e discentes.

Aprender sem ser ensinado é subversivo. É um perigo para a reprodução das formas institucionalizadas de gestão das hierarquias de todo tipo. Por isso o reconhecimento do conhecimento é, até hoje, um reconhecimento não do conhecimento-aprendido, mas do conhecimento-ensinado, dos graus alcançados por alguém no processo de ordenação a que foi submetido. Como twittou outro dia Pierre Levy (12), as universidades não têm mais o monopólio da distribuição do conhecimento, mas retêm em suas mãos o monopólio da distribuição do diploma.


Referências

(1) KRAMER, Samuel (1956). A história começa na Suméria. Lisboa: Europa-América, 1977.

(2) CAMPBELL, Joseph (1959): op. cit.

(3) ABRAHAM. Ralph, McKENNA, Terence & SHELDRAKE, Rupert (1992). Caos, criatividade e o retorno do sagrado: triálogos nas fronteiras do Ocidente. São Paulo: Cultrix, 1994.

(4) LEICK, Gwendolyn (2001): Mesopotâmia: a invenção da cidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003.

(5) FRANCO, Augusto (1998-2001): Sociedades de dominação e sociedades de parceria.

(6) Cf. Inana and Enki: cuneiform source translation at ETCSL (The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature, University of Oxford, England) in ETCSL translation: t.1.3.1 http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.3.1#

Cf. ainda: What are ‘me’ anyway? In Sumerian Mythology FAQ (Version 2.0html): http://home.comcast.net/~chris.s/sumer-faq.html#A1.5. Another important concept in Sumerian theology, was that of me. The me were universal decrees of divine authority. They are the invocations that spread arts, crafts, and civilization. The me were assembled by Enlil in Ekur and given to Enki to guard and impart to the world, beginning with Eridu, his center of worship. From there, he guards the me and imparts them on the people. He directs the me towards Ur and Meluhha and Dilmun, organizing the world with his decrees. Later, Inanna comes to Enki and complains at having been given too little power from his decrees. In a different text, she gets Enki drunk and he grants her more powers, arts, crafts, and attributes - a total of ninety-four me. Inanna parts company with Enki to deliver the me to her cult center at Erech. Enki recovers his wits and tries to recover the me from her, but she arrives safely in Erech with them. (Kramer & Maier 1989: pp. 38-68: op. cit.)

Cf. também ‘Me (mythology)’ na Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Me_(mythology)

(7) Cf. Sobre Kabbalah e redes: um abstruso paralelo heurístico in Escola-de-Redes.

(8) BLOOM, Harold (1975). Cabala e crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

(9) MATURANA, Humberto & VERDEN-ZÖLLER, Gerda (1993). Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia. Santiago: Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.

(10) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

(11) FRANCO, Augusto (2008): O Olho de Hórus

(12) Cf. @plevy: "Universidades não tem monopólio da distribuição do conhecimento, só do diploma" (9:54 AM Sep 30th from Seesmic).

OS 'ME' COMO ENSINAMENTO

No post SOBRE AS ORIGENS DO ENSINO E DO PROFESSOR, escrevi que "quando a rede social foi subitamente centralizada pela configuração particular que se constelou com o surgimento do complexo cidade-templo-Estado, os programas verticalizadores que começaram a rodar nessa rede eram replicados em outras regiões do espaço e do tempo pela transmissão-recepção de seus códigos – e já havia programas elaborados, como os que os sumérios denominavam “ME” (6) – aos membros do mesmo grupo social".

Os 'ME' continuam sendo um enigma para os historiadores. A antropóloga e assirióloga Gwendolyn Leick (2001), no seu livro "Mesopotâmia: a invenção da cidade", escreve:

"Eridu, como a manifestação primária do Apsu, também era considerada o lugar do conhecimento, a fonte da sabedoria, sob o controle de Enki. Numerosas narrativas foram elaboradas em torno desse conceito. Eridu, como respositório de decretos divinos é descrita numa narrativa suméria chamada "Enki e Inanna". Enki, escondido no Apsu, está na posse de todos os me, termo sumeriano que abrange todas aquelas instituições, leis, formas de comportamento social, emoções e símbolos de carga que, em sua totalidade, eram vistos como indispensáveis ao funcionamento regular do mundo. Esses me pertenciam a Eridu e a Enki. Entretanto, Inanna, deusa da cidade de Uruque, deseja obter os me para si própria e levá-los para Uruque. Com esse fim, ela desfralda velas para chegar a Eridu de barco, sempre o caminho mais fácil para ir de uma cidade da Mesopotâmia a outra. Enki toma conhecimento da chegada de Inanna e preocupa-se com as intenções dela. Instrui o seu vizir para a receber com todas as honras e preparar um banquete, no qual ambas as deidades bebem muita cerveja. Enki não tarda em adormecer, deixando o caminho livre para Inanna carregar os preciosos me em seu barco, um por um, e zarpar. Quando Enki desperta da ébria sonolência e dá-se conta do que aconteceu, procura usar sua magia numa tentativa de recuperar os me. Inanna consegue rechaçar os demônios perseguidores e chegar sã e salva a Uruque. O desfecho da história não é claro, pois nenhuma das versões existentes do texto está suficientemente preservada, mas parece que uma terceira deidade logra a reconciliação entre Inanna e Enki. Esta é, obviamente, uma típica história de Uruque, concentrando-se nas deusas locais e em seu poder superior. Ao libertar os me das profundezas do Apsu, Inanna podia não só ampliar seus próprios poderes, mas também fazer valer os seus decretos entre os humanos. A lista dos me inclui a realiza, as funções sacerdotais, os ofícios e a música, assim como as relações sexuais, a prostituição, a velhice, a justiça, a paz, o silêncio, a calúnia, o perjúrio, as artes dos escribas e a inteligência, entre muitos outros".

Muitos anos antes, o famoso sumeriologista Samuel Noah Kramer (1956), em "From the Tablets of Sumer", já havia observado:

"Finalmente chegamos aos me, as leis divinas, normas e regras que, segundo os filósofos sumérios, governam o universo desde os dias da sua criação e o mantêm em funcionamento. Neste domínio possuímos considerável documentação direta, particularmente em relação ao me que governam o homem e a sua cultura. Um dos antigos poetas sumérios, ao compor ou redigir um dos seus mitos, julgou que vinha a propósito dar uma lista dos me relacionados com a cultura. Divide a civilização, segundo o conhecimento que dela tinha, numa centena de elementos. No estado atual do texto são apenas inteligíveis cera de sessenta e alguns são palavras mutiladas que, sem contexto explicativo, apenas nos dão uma vaga idéia do seu real sentido. Mas ainda subsistem os suficientes para nos mostrar o caráter e a importância da primeira tentativa registrada de análise da cultura, que resultou numa lista considerável de o que é hoje geralmente designado por "elementos e complexos culturais". Estes compõem-se de várias instituições, certas funções de hierarquia sacerdotal, instrumentos de culto, comportamentos intelectuais e afetivos e diferentes crenças e dogmas. Eis a lista das partes mais inteligíveis e seguindo a própria ordem escolhida pelo antigo escritor sumério:
1 - Soberania
2 - Divindade
3 - A sublime e permanente coroa
4 - O trono real
5 - O sublime cetro
6 - As insígnias reais
7 - O sublime santuário
8 - O pastoreio
9 - A realeza
10 - A durável senhoria
11 - A "divina senhora" (dignidade sacerdotal)
12 - O ishib (dignidade sacerdotal)
13 - O lumah (dignidade sacerdotal)
14 - O gutug (dignidade sacerdotal)..." [A lista segue até o número 67]

O que me chamou a atenção em tudo isso - ainda em meados da década passada (e escrevi uma nota no livro "O Complexo Darth Vader", que agora está sendo paulatinamente transcrito na Escola-de-Redes - foi o seguinte: essas "fórmulas divinas" (os me) reforçam a idéia da existência de uma espécie de protótipo. Os me parecem ser códigos replicativos para criar e reproduzir um determinado tipo de civilização (ou padrão societário). A existência material ou ideal dos me como conhecimentos armazenáveis em objetos que podiam ser transportados, evidencia que os sumérios não apenas desenvolveram historicamente o que chamamos de civilização. Eles também sistematizaram teoricamente um modelo dessa civilização para ser replicado em outros locais.

Mas o mais relevante é a ordem em que aparecem tais "elementos culturais". Os seres humanos e suas características próprias e qualidades distintivas só vão surgir lá pelo quadragésimo lugar. O schema é mítico, sacerdotal, hierárquico e autocrático. Aliás, pode-se dizer que essas "fórmulas divinas" são fórmulas da autocracia em "estado puro".

E havia um ensinamento organizado sobre tudo isso. Pois bem. Tal ensinamento a ser replicado foi o motivo de haver um ensino, como já afirmei no post citado.

Quem quiser mais informações pode ler os textos indicados por Leick (2001) e por Kramer (1956). Ou pode tentar decifrar o material disponível:

Inana and Enki: cuneiform source translation at ETCSL (The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature, University of Oxford, England) in ETCSL translation: t.1.3.1 http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.3.1#

What are ‘me’ anyway? In Sumerian Mythology FAQ (Version 2.0html): http://home.comcast.net/~chris.s/sumer-faq.html#A1.5. Another important concept in Sumerian theology, was that of me. The me were universal decrees of divine authority. They are the invocations that spread arts, crafts, and civilization. The me were assembled by Enlil in Ekur and given to Enki to guard and impart to the world, beginning with Eridu, his center of worship. From there, he guards the me and imparts them on the people. He directs the me towards Ur and Meluhha and Dilmun, organizing the world with his decrees. Later, Inanna comes to Enki and complains at having been given too little power from his decrees. In a different text, she gets Enki drunk and he grants her more powers, arts, crafts, and attributes - a total of ninety-four me. Inanna parts company with Enki to deliver the me to her cult center at Erech. Enki recovers his wits and tries to recover the me from her, but she arrives safely in Erech with them. (Kramer & Maier 1989: pp. 38-68: op. cit.).
Comentário de Claudio Estevam Próspero em 26 julho 2010 às 20:40
Comentário de Augusto de Franco em 19 julho 2010 às 6:14
 

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