Escola de Redes

Na versão original e na versão traduzida (por Júlia Eugênia Gonçalves) seguem, em anexo, os dois textos em PDF do texto:

MATURANA, Humberto (s./d.): Aprendizaje o deriva ontogénica

MATURANA, Humberto (s./d.): Reflexões: Aprendizagem ou consequência ontogenética

Consegui converter o texto da tradução PDF para Word. Segue abaixo. Penso que deveríamos fazer uma revisão. É muito importante porque este é o texto mais importante que já li sobre aprendizagem.

Começando...

Augusto de Franco = Alternativas de tradução em vermelho.

REFLEXÕES: aprendizagem ou consequência ontogenética

 

Dr. Humberto Maturana

Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências Básicas e Farmacêutica.

Universidade do Chile, Santiago, Chile. Traduzido por Júlia Eugênia Gonçalves

Neste artigo em honra do meu amigo e muitas vezes mestre Joaquin Luco, quero apresentar, de forma sucinta e esquemática, a minha visão do fenômeno da aprendizagem. Naturalmente, o que vou dizer aqui não surge do nada e é baseado em minha história como um biólogo, no Chile, onde tive a oportunidade de aprender com Luco o que jamais poderia ter aprendido em qualquer outra parte do mundo. Portanto, este trabalho é a minha expressão de gratidão para com ele.

 

O problema

Digo que há aprendizagem quando o comportamento de um organismo varia durante sua história (ontogênese), de maneira consistente com as mudanças ambientais e o faz seguindo um curso contingente de suas interações com o ambiente.

Digo que há aprendizagem quando o comportamento de um organismo varia durante sua ontogenia (história) de maneira congruente com as variações do meio e o faz seguindo um curso contingente a suas interações com ele (esse meio).

Que o sistema nervoso participa no fenômeno de aprendizagem é evidente, na interferência que produz neste fenômeno quando se encontra danificado ou alterado. Embora o fenômeno designado pelo termo aprendizagem possa ser descrito de muitas maneiras diferentes, como quando se fala de "a geração de um comportamento adequado ao meio ambiente a partir de uma experiência anterior," ou se refere à "aquisição de uma nova habilidade como resultado da prática”, de acordo com o que o observador queira enfatizar, eu acho que a caracterização que proponho acima é necessária e suficiente para cobrir todos os casos possíveis.

Que o sistema nervoso participa no fenômeno da aprendizagem é evidente na interferência que em tal fenômeno se produz quando se o danifica ou altera. Ainda que o fenômeno aludido pela expressão aprendizagem possa ser descrito de muitas maneiras diferentes, como quando se fala da "geração de um comportamento adequado ao meio a partir de uma experiência prévia", ou se fala da "aquisição de uma nova habilidade como resultado da prática", segundo o que o observador queira enfatizar, me parece que a caracterização que proponho acima é necessária e suficiente para abarcar todos os casos possíveis.

Continua... (01/06/13 15h27)

Há duas perspectivas básicas para lidar com o fenômeno da aprendizagem, se quisermos explicá-lo:

1-Por uma determinada perspectiva, o observador vê que o meio está lá, do lado de fora, como o mundo em que o organismo tem de existir e agir, que lhe fornece as informações, os dados,  os  significados  que  precisa  para  fazer-se  uma  representação  do mesmo,  e,  assim, calcular o comportamento adequado que lhe permitirá sobreviver nele. De acordo com este ponto de vista, a aprendizagem é o processo pelo qual o organismo recebe informações do ambiente e constrói uma representação dele armazenada em sua memória, usando-a para planejar o seu comportamento em resposta às perturbações que vêm com ele. A partir deste ponto de vista, a recordação consiste em encontrar na memória a representação exigida para calcular as respostas apropriadas para as interações decorrentes do meio ambiente.

Nesta visão, o meio é instrutivo, pois produz no organismo mudanças de estado que, por serem congruentes com ele, constituem uma representação dele.

2-Numa outra perspectiva, o observador vê que o comportamento de um organismo (incluindo seu sistema nervoso central) é determinado em cada instante por sua estrutura, e que só pode ser  apropriado para o meio se esta estrutura é consistente com a estrutura do meio e sua dinâmica de mudança. De acordo com este ponto de vista, a aprendizagem é o próprio curso da mudança estrutural que o organismo vive (incluindo o seu sistema nervoso) de acordo com as  mudanças  estruturais  do  meio,  como  resultado  da  seleção  estrutural  produzida  entre ambos durante suas interações recorrentes, com conservação de suas respectivas identidades. Segundo esta visão, o organismo não constrói uma representação do meio e nem planeja um comportamento adequado  para  ele. Desta maneira, para o organismo operar não há meio, nem recordações, nem memória,  apenas uma dança estrutural no presente, que segue um curso consistente com o meio, ou se desintegra.

Nessa visão, o comportamento do organismo permanece adequado apenas se mantém a sua adaptação durante suas interações e o que um observador vê como uma lembrança consiste justamente  nisso:  na  aparição  de  comportamentos  vistos  como  adequados,  porque  o organismo mantém sua adaptação em relação a distúrbios ambientais tidos como recorrentes. Neste ponto de vista, não há interações instrucionais e o meio apenas seleciona as alterações estruturais do organismo e não as especifica.

 

Explicação

Como cientistas, a nossa tarefa é mostrar como os fenômenos surgem, isto é, a nossa tarefa é explicativa, não preditiva de sucessos que podem acontecer. Por isso, diante de um fenômeno a  explicar, só aceitamos como hipótese explicativa sua reformulação na proposição de um mecanismo que gere o fenômeno a ser explicado como um resultado de sua operação. Mais ainda, aceitamos como explicação científica apenas aqueles mecanismos que, além de explicar o fenómeno, gerem  outros  fenómenos observáveis não considerados para sua formulação, mas dedutíveis dela.

Em outras  palavras, as explicações científicas  são  proposições  de  sistemas determinados estruturalmente,  que geram  outros  fenômenos  observáveis além do fenômeno a ser explicado.                                         

Isto tem duas implicações fundamentais:

- A ciência só pode considerar os sistemas de estrutura determinada (sistemas fechados, limitados em sua estrutura), ou seja, sistemas em que tudo o que acontece é determinado por sua estrutura.

Quero esclarecer o seguinte:

A estrutura do sistema que o determina é específica e ocorre nele e para ele:

a) - um domínio de mudanças estruturais (mudanças nas relações entre os componentes ou mudanças nas propriedades dos componentes) que não destrói a sua organização (relações entre  os  componentes  que  definem  a  sua  identidade  de  classe) e que chamamos  de mudanças de estado;  

                                

b) - um domínio  de mudanças estruturais com perda de organização (desintegração) que chamamos de mudanças destrutivas;

c) - um domínio de interações possíveis que desencadeiam no sistema mudanças de estado a que denomino domínio de perturbações;

d) - um domínio de interações que desencadeiam mudanças destrutivas no sistema e que denomino  domínio de interações destrutivas.

 

Um  sistema  de  estrutura  determinada,  por  conseguinte,  não  suporta  as  interações  de instrução, isto é, não admite interações nas quais um agente externo, especifique nele uma alteração  estrutural  porque  todas  as  alterações  possíveis  estão especificadas  em  sua estrutura. Portanto, a ciência não é e não pode, por sua própria constituição, lidar com sistemas de ensino.                                                                                  

-  Explicações  científicas  podem  ser  propostas  a  qualquer  domínio.  As  únicas  restrições possíveis são aquelas oriundas de circunstâncias que interferem com: a distinção ou explicação do fenómeno a ser explicado, com a formulação do mecanismo gerador ou com a observação de outros fenômenos dedutíveis da proposição explicativa. Se algumas destas condições não forem satisfeitas, não há nenhuma explicação científica.

Assim, explicar o fenômeno da aprendizagem consiste, em princípio, em mostrar como, (a partir do organismo e seu sistema nervoso como sistemas de estrutura determinada), surge o que o observador  vê como aprendizagem; em distinguir a mudança de comportamento do organismo de acordo com  as mudanças no meio ambiente em virtude da interação entre ambos.

Particularmente, mostrarei que a aprendizagem é uma consequência necessária da história individual de todos os seres vivos com plasticidade estrutural ontogênica.

 

Escolha de perspectiva

Como   o   organismo   (incluindo   o   sistema   nervoso)   é   determinado   estruturalmente,   a perspectiva  informacionista,  que  requer  interações  instrutivas  porque  exige  que  o  meio especifique no organismo (e seu sistema nervoso) as mudanças que lhe permitem criar uma representação dele, deve ser abandonada.Em outras palavras, considero que a perspectiva informacionista é constitutivamente inadequada.

A outra perspectiva, no entanto, não exige interações instrucionais e é compatível com um tratamento do organismo e seu sistema nervoso como sistemas de estrutura determinada. Esta, portanto, será a perspectiva que vou adotar.

 

Justificativa

 

Comportamento

Um organismo ou um ser vivo é um sistema dinâmico. Isto é, um organismo ou uma vida, é um sistema que, apesar de manter sua organização, está em constante mudança de status.

Um observador, olhando para o organismo vivo como uma unidade interagindo num meio, não vê  suas mudanças de estado. Somente consegue ver suas mudanças de posição ou de forma como  reação  a perturbações no  meio ou como resultado de sua própria dinâmica interna. Estas alterações na forma ou posição de um organismo vivo em relação ao meio é o seu comportamento.   O  comportamento não pertence ao organismo ou ser vivo como uma característica de todas ou de algumas de suas mudanças de estado.  O comportamento é uma relação entre um ser vivo ou  organismo e o ambiente no qual um observador é capaz de distingui-lo e contemplá-lo.

O sistema nervoso, como um componente de um organismo ou ser vivo, por conseguinte, não produz o  comportamento,  só  participa  nas  alterações  do  estado  dinâmico que  o  sistema integra.  Para  um   observador,  no  entanto,  o  sistema  nervoso  participa  da  geração  do comportamento, na medida em que participa nas alterações de estado do organismo ou ser vivo, cuja mudança de forma ou de  posição no que diz respeito ao meio, ele contempla   e descreve. Assim, as estruturas que surgem de maneira ontogênica num organismo qualquer, relacionadas com sua história de interações, dão origem a comportamentos aprendidos.

A  distinção  entre  comportamentos  aprendidos  e  comportamentos  instintivos  (ou  inatos), portanto,  não está no comportamento em si, mas na história da origem das estruturas que criam a dinâmica de estados do organismo a qual o observador vê como comportamentos.

Assim, as estruturas que surgem na ontogênese de qualquer organismo, dependem da história de   interações  que  dão  origem  a  comportamentos  aprendidos,  enquanto  que  aquelas independentes desta história dão origem a um comportamento instintivo ou inato.

Finalmente, deve notar-se que qualquer alteração estrutural num organismo (incluindo os do sistema nervoso), para resultar em uma mudança na sua dinâmica de estados, pode aparecer como uma mudança de comportamento, e também, por outro lado, que qualquer alteração comportamental  que  aparece  nas  interações  de  um  organismo  no  ambiente,  revela  uma mudança estrutural nele.

Nestas  circunstâncias,  o  observador  verá  um  novo  comportamento  como  instintivo  ou aprendido, de acordo com a  origem histórica da nova dinâmica estrutural que o gerou.

 

Integração estrutural:

A conservação da organização de um sistema determinado estruturalmente no meio em que existe, é  uma condição sine qua non de sua existência. Quer dizer, um sistema dinâmico, determinado   estruturalmente,  existe  apenas  enquanto  sua  dinâmica  estrutural  possua conservação de sua  organização. Ao mesmo tempo, a conservação da organização de um sistema dinâmico determinado  estruturalmente no meio em que existe, exige que todas as suas interações sejam perturbações, pois, do contrario, se desintegra com a primeira interação destrutiva.

Isto  denota  que  a  conservação  da  organização  de  um  sistema  dinâmico  num  meio  de interação, exige a correspondência estrutural entre o sistema e seu meio. Quando isto não acontece,    a   correspondência   estrutural   se   perde   e   o   sistema   se   desintegra.   Esta correspondência estrutural entre sistema e meio, que perdura  enquanto o sistema conserva sua organização é o que eu chamo, de maneira geral, integração estrutural e corresponde nos organismos vivos e seres vivos à condição de  adaptação ao meio.

Em  resumo,  todo  sistema  perdura  como  tal  enquanto  conserva  sua  organização  e  sua integração estrutural ao meio em que existe. Por isso, a sobrevivência num ambiente e a conservação  de  sua  organização  é  operacionalmente  seletora  do  caminho  seguido  pela dinâmica  estrutural de um  ser vivo. Por isso também todo ser vivo se encontra  onde se encontra, em cada instante, como resultado de uma história ininterrupta de interações num ambiente, estático ou  mutante, no qual conservou sua organização e sua adaptação, sem interrupção (integração estrutural.)

A adaptação de um ser vivo a um meio ambiente não é consequência de seu existir neste meio, mas, pelo contrario, a condição necessária que torna possível tal existência. Por isso, a morte é, simultaneamente, perda da organização e adaptação.

A conservação da organização, sem dúvida, é a condição primária porque define a unidade cuja  adaptação se conserva, enquanto que a conservação da adaptação é relacional, pois define o contexto em que esta ocorre.

Vejamos como acontece a conservação da organização e a adaptação no ser vivo e no sistema nervoso:

A organização que define o ser vivo é a organização autopoiética (ver Maturana y Varela,1973). Isso quer dizer que qualquer mudança estrutural do ser vivo que interfira em sua autopoiesis, seja de origem interna ou externa, o desintegra.

A consequência geral de manter sua organização autopoiética, será que o ser vivo se manterá no futuro como ser vivo, numa contínua mudança estrutural específica em cada instante, que segue um curso continuamente determinado pela conservação de sua organização no âmbito de suas interações com o meio.

Se o observador acredita que pode descrever o meio, dirá que este seleciona no ser vivo  sua mudança estrutural ontogénica; se reconhece que não pode descrevê-lo, dirá que a ontogenia do   ser   vivo   transcorre  numa   derivação   estrutural   com   conservação   de  adaptação e organização.

Todo o anterior é válido para o sistema nervoso enquanto sistema, com a distinção de que a organização que se conserva não é autopoiética e o meio do sistema nervoso não é o mesmo de um ser vivo. Vejamos: o sistema nervoso é composto por um conjunto de células que, como sistemas dinâmicos determinados estruturalmente estão em contínua mudança estrutural, de forma  que  em   cada  uma  delas,  algumas  de  suas  mudanças  de  estado  resultam  em perturbações em outras do mesmo conjunto.

A estas mudanças de estado das células do sistema nervoso, que geram mudanças de estado em  outras  células  do  sistema  nervoso,  eu  chamo  de  mudanças  de  atividade  do  sistema nervoso. Mais ainda, eu digo que no sistema nervoso, os neurônios aferentes e eferentes (fibras musculares, por exemplo) quer dizer, todos os componentes celulares que mediante suas transformações de atividade geram mudanças nos componentes do sistema nervoso, são, por sua vez,  incluídos porque outros componentes do sistema nervoso geram mudanças de atividade neles. Em  suma, para mim, o sistema nervoso é uma rede fechada de elementos celulares nas quais toda mudança nas relações de atividade de alguns de seus componentes, sempre gera mudança na atividade de outros componentes da rede, entre os quais podem incluir-se eles mesmos.

A organização do sistema nervoso é, portanto, a de uma rede fechada de componentes que interagem entre si, promovendo mudanças de atividade que resultam em novas interações entre eles. Esta organização é a que se mantém invariante, enquanto o sistema nervoso se mantém  como   sistema  nervoso,  em  suas  mudanças  estruturais  com  conservação  da organização e a  integração estrutural que constitui seu futuro como componente de um organismo.

Neurônios aferentes e eferentes não constituem uma exceção no cerne do sistema nervoso como rede, não apenas porque, como sabemos, estão geralmente conectados com o restante da rede, mas porque os eferentes estão conectados com os aferentes por intermédio do meio. De fato, para o  sistema nervoso visto desta maneira, o meio não existe. Ou seja, o que o observador vê como externo ao sistema nervoso não existe para ele, que atua como uma rede fechada  de  elementos  que  interagem  entre  si  porque  o  meio  é  apenas  um  espaço  de fechamento, um espaço sináptico.

Não temos dificuldade em fazer abstração das características do espaço sináptico e reconhecer que elas não entram como tais na transmissão sináptica. O mesmo acontece com o meio que vemos interpor-se como espaço sináptico entre um aferente e um eferente.

O peculiar é que nós, como observadores, estamos parados no meio, como quem está parado num espaço sináptico do sistema nervoso, dentro do organismo e o abrimos na descrição.

Isso nos leva a dizer que é um erro pensar que o mundo de objetos que nós descrevemos como  seres  com  linguagem,  (ver  Maturana  1978),  participa na  geração  da  dinâmica  de estados   do sistema nervoso.   Para a dinâmica de estados do sistema nervoso, o ambiente descrito   pelo  observador  é  irrelevante.   O  que  é  significativo  para  esta  dinâmica  é  o fechamento da conexão aferente / eferente e não como ela ocorre.

Nestas  circunstâncias,  assim  como  o  operar  do  ser  vivo  como  uma  unidade  autopoiética consiste numa dança interna de produções moleculares fechada numa contínua autopoiesis, o operar do sistema nervoso consiste numa dança interna de contínua geração de mudanças de relações  nas atividades entre seus componentes, fechada sobre si mesma porque o sistema nervoso é uma unidade, uma rede de componentes que só interagem entre si. Por isso, assim como distintos sistemas autopoiéticos se  diferenciam na maneira particular de realizar sua autopoiesis, diferentes sistemas nervosos se  diferenciam na forma pela qual sua estrutura determina em cada um deles, o curso particular das mudanças de relações de atividade entre seus componentes que constituem seu operar como rede  fechada de interações. O sistema nervoso não gera condutas. Porém, sua operação como uma rede  fechada compondo um organismo num meio determinado (ao qual estão integrados estruturalmente) faz com que o observador veja as condutas do organismo em seu meio.

O ambiente de qualquer sistema é tudo aquilo que não fica determinado como parte dele, por sua  organização e que pode interagir com ele como unidade. Além do mais, todo sistema interage  em   seu  meio  por  intermédio  da  operação  de  seus  componentes,  mediante propriedades  distintas  daquelas  que  participam  no  sistema  que  integram.  Por  isso,  todo sistema  determinado  estruturalmente  interage  por  dimensões  octogonais  àquelas  que  o definem.   Assim, para o sistema nervoso que integra um organismo, o resto do organismo, o meio ambiente do organismo e, muitas vezes, os produtos deste organismo, constituem seu meio. O mesmo é válido para o organismo, considerando que o sistema nervoso é parte de seu meio.

Devido à sua condição de sistema fechado em sua dinâmica de estados, o sistema nervoso não tem entradas nem saídas e uma descrição sua nestes termos não reflete nem sua organização nem sua operação.

O que um observador chama de estímulo e vê como uma entrada é o operar mesmo do sistema nervoso. É, de fato, uma circunstância de interação do meio com os componentes do sistema  nervoso,   octogonal  à  sua  operação,  como  uma  rede  fechada  de  relações  de atividade   entre   componentes   que,   ao   desenrolar   uma   mudança   em   sua   estrutura, desenvolve também uma mudança em seu domínio de estados.

O sistema nervoso não interage nem pode interagir no nível de sua dinâmica de estados. Somente pode fazê-lo num domínio octogonal a esta dinâmica, no nível da estrutura  de seus componentes. Por isso, todos os componentes do sistema nervoso podem aparecer diante de um  observador  operando  como  superfícies  sensoriais,  já  que  nestes  pontos  de  interação octogonal acontecem as mudanças em seus domínios de estados.

O que um observador vê como estímulo é o que ele considera que interage com o sistema nervoso ou com o organismo. De fato, sem dúvida alguma, o observador é que determina a interação, já que em cada caso é a estrutura de cada sistema que especifica seu domínio de interações.

A conservação da organização do sistema nervoso (sua condição de rede fechada) como componente de um organismo, leva à conservação de sua organização como unidade de seu meio, na medida em que o organismo é parte do meio no qual existe o sistema nervoso e seus componentes.  Por isso, o domínio das mudanças de estados do sistema nervoso está restrito pela  conservação  da  organização  e  pela  integração  estrutural  ao  meio  (adaptação)  do organismo que integra.

Correlações Sensório motoras 

Na medida em que o observador está no espaço de fechamento do sistema nervoso como componente do organismo no nível da conexão aferente-eferente, está também em seu domínio e onde existe a conduta.  Nesta perspectiva, o observador pode descobrir a dinâmica de estados do sistema nervoso como uma dinâmica de relações sensório motoras, nas quais cada mudança de estado do sistema nervoso é vista como uma mudança de postura ou como um movimento do organismo ( como uma conduta). Na verdade, é uma mudança na conexão aferente- eferente que se realiza no contexto do sistema nervoso, por intermédio do meio no qual  ele  observa  o  organismo  mover-se.  De  maneira  geral,  portanto,  cada  vez  que  um observador especifica uma superfície de interações com um organismo, define para este um domínio de conduta como um domínio de mudanças observáveis de posições do organismo no meio, que ele vê no sistema nervoso como um domínio de correlações sensório motoras. Toda conduta  num  organismo  gerada  por  seu  sistema  nervoso,  surge  como  expressão  de  sua dinâmica de correlações sensório motoras.

Dinâmica Estrutural

Sistema  nervoso  e  organismo,  que  são  sistemas  dinâmicos,  estão  em  contínua  mudança estrutural.   Tais  mudanças   estruturais   podem   ser  modificações   nas   relações  entre  os componentes ou nas características de seus componentes.  No sistema nervoso, os primeiros aparecem como mudanças nas relações de atividade entre seus componentes, resultantes de mudanças   nas  propriedades  destes,  que  têm  caráter  reversível  por  sua  constante  de recuperação curta em relação à dinâmica total do organismo.   As mudanças de membranas associadas  à  condução  de  um  impulso  nervoso  ou  à  transmissão  sináptica,  que  modifica reversivelmente   a   estrutura   dos   componentes   do   sistema   nervoso   e,   portanto,   suas propriedades, são deste tipo. Estas mudanças são chamadas de modificações de primeira ordem.  Os  segundos  acontecem  no  sistema  nervoso  como  mudanças  irreversíveis  ou  de constante  temporal de recuperação muito longa em relação à dinâmica total do organismo. Os efeitos tróficos  e  hormonais que constituem mudanças estruturais irreversíveis, ou de constante  de  evolução  muito  longa,  num  dos  componentes  do  sistema  nervoso  e  que, portanto, modificam suas propriedades de uma maneira que admite uma história de mudança cumulativa irreversível, são modificações deste outro tipo. Estas mudanças são chamadas de modificações estruturais de segunda ordem.

VISLUMBRANDO A RESPOSTA

Consequência Ontogênica

Durante a ontogenia de um organismo e de seu sistema nervoso produzem-se continuamente mudanças estruturais de primeira e segunda ordem, produzidos interações em   seus respectivos meios. Isso tem várias consequências fundamentais. Vejamos:

1- Na medida em que tanto o organismo como o sistema nervoso formam parte cada um deles do meio do outro, suas respectivas consequências ontogênicas  devem ocorrer numa recíproca integração,   apesar   de  conservarem  suas  respectivas  organizações.  Isso  significa  que  o organismo forma  uma  unidade que  inclui o  sistema nervoso de uma tal maneira, que as interações dos componentes do sistema nervoso com o resto do organismo são octogonais à sua participação na dinâmica de estados do sistema nervoso. Ao mesmo tempo, significa que a consequência ontogénica da  dinâmica de estados no sistema nervoso deve ser congruente com a conservação da adaptação (integração estrutural) do organismo ao seu meio ambiente.

2- O que o observador vê como conduta ao contemplar as interações de um organismo com o sistema nervoso em seu meio, é sempre a expressão da dinâmica de estado de uma unidade que inclui o  sistema nervoso, não ele mesmo, mas apenas um produto deste último. Além disso, o  que o  observador  vê em  cada  instante  como conduta é  sempre  a expressão  do presente estrutural do organismo que inclui o sistema e este presente estrutural é sempre o resultado de uma consequência estrutural  ontogênica que se inicia com a célula original que dá origem ao organismo. A construção  genética da célula inicial é o ponto de partida que restringe as ontogenias possíveis, porém não as  especifica. Por isso, toda ontogenia é uma epigênese que trata sempre o organismo como unidade, sejam quais forem os componentes que um observador possa nele distinguir.

3- A dinâmica de estados do sistema nervoso como uma dinâmica de correlações sensório motoras é, em cada instante, o resultado da epigênese do organismo e, portanto, o resultado da história de sua mudança estrutural, com conservação de sua organização e adaptação. Ao mesmo tempo, é o resultado de sua própria epigênese como componente do organismo num meio.   O observador pode associar distintas configurações de correlações sensório motoras do sistema nervoso à diferentes  condutas e descrever o sistema nervoso como o gerador de ações do organismo sobre o mundo, com maior ou menor intencionalidade propositiva ou com maior ou menor eficiência ou eficácia. Em todos os casos, sem dúvida, a dinâmica de estados do sistema é uma dinâmica interna de correlações de atividade entre seus componentes, que segue um curso determinado em sua estrutura, em  circunstancias nas qual esta é, em todo instante de observação, o resultado da epigênese do organismo.

4- A diferença entre características estruturais de um organismo determinadas geneticamente e  não  determinadas  geneticamente,  não  têm  relação  com  sua  origem  epigenética  numa ontogenia  do  organismo  com  conservação  de  organização  e  adaptação,  mas  sim,  com  a diversidade de histórias ontogénicas que as  tornam  possíveis.  Assim,  uma  característica estrutural que aparece  na  epigênese, sob qualquer história de interações ontogénicas, é de determinação  genética. Outra  característica,  em  troca,  que  aparece  somente  sob  certas histórias  de  interações  genéticas,  é  adquirida.  No  processo  de  seu  estabelecimento  no decorrer da epigênese do organismo, sem dúvida, ambos os tipos de características estruturais são indistinguíveis: ambas aparecem   como  resultado de uma consequência ontogénica do organismo com conservação de organização e  adaptação. Um observador do organismo em seu  contexto,  imaginando  alternativas,  pode   descrever   este  processo  como  de  seleção epigênica na qual distintas histórias de interações ontogénicas selecionam distintos cursos de mudanças estruturais para o caso da mesma constituição genética inicial.

5- O que foi dito no tópico anterior é válido para a estrutura do sistema nervoso e, portanto, também  para  sua  dinâmica  sensório  motora  e  aquilo  que  o  observador  interpreta  como conduta.  As   condutas  instintivas  e  aprendidas, segundo este ponto  de  vista,  não  se diferenciam em sua natureza, mas nas possibilidades de surgimento epigênico das estruturas que determinam as  correlações sensório motoras do organismo que as exibe. Mais ainda, segundo este ponto de vista, não há condutas herdadas, somente se herdam estruturas iniciais (constituição genética da célula inicial de um organismo) que determinam pontos de partida para possíveis epigêneses.

 

RESPOSTA Aprendizagem

Tudo que foi dito mostra que a epigênese de um organismo é um processo contínuo de mudança estrutural e que este segue um curso em contínua congruência com as mudanças estruturais  do  meio  ambiente,  como  resultado  inevitável  da  necessária  conservação  da organização e da adaptação na qual tem que acontecer a ontogenia de todo sistema. Tudo que foi  dito  mostra  também  que  isso  acontece  de  maneira  que  as mudanças  de  conduta  do organismo surgem como resultado de sua história de interações associadas a estas mudanças estruturais, de maneira que  a adequação das mudanças de conduta do organismo com as mudanças do ambiente são o resultado da conservação e adaptação deste.

Em suma, tudo que foi dito mostra que não há diferença entre conduta instintiva e conduta aprendida, já que ambas são o resultado da epigênese do organismo e surgem, em cada caso, como consequência inevitável de sua  história de interações com conservação da organização e  da adaptação. A diferença entre elas está somente no grau de liberdade epigenética que determina a estrutura da célula inicial.

A aprendizagem, assim como a diferenciação celular, não é um fenómeno de adaptação do organismo  ao meio, é a consequência da epigênese do organismo com conservação de sua adaptação num meio particular no qual a organização e a adaptação tenham sido as referências operacionais para o caminho seguido pela mudança estrutural. O organismo está onde está porque conservou sua organização e sua adaptação num meio mutante ou estático, e decidimos que aprendeu porque, comparativamente, vemos que sua conduta está diferente a de um momento  anterior, de uma forma contingente à sua história de interações. Sem comparação  histórica  não   podemos  dizer  nada: somente veríamos um  organismo em congruência de conduta com seu ambiente, no presente.

Reflexões sobre as reflexões

O fenômeno a explicar era a mudança de conduta do organismo, congruente com as mudanças do meio e relacionadas à sua interação com ele. O procedimento explicativo foi indireto. Eu coloquei a sobrevivência como o fenômeno fundamental para a conservação da organização e adaptação do  mecanismo gerador do dito fenômeno e a aprendizagem como o fenômeno adicional   observável    como   consequência   do   operar   do   mecanismo   explicativo   da sobrevivência.  Isto  foi  conseguido  mostrando  que  a  conservação  da  congruência  entre  a conduta de um organismo e as perturbações que o meio exerce sobre ele são:

a)   Uma condição necessária da existência do organismo, implícita na conservação da organização e adaptação durante a ontogenia;

b)    O resultado de que a mudança estrutural do organismo com seu sistema nervoso incluído   siga  sempre  um  curso  determinado  pela  coincidência  das  perturbações ambientais é a  conservação da organização e adaptação que, de fato, constituem a condição de existência  do organismo. Isso parece uma tautologia, mas não é. É um sistema de equações com  algumas variáveis, tais como a estrutura inicial (o zigoto, num   organismo   com   reprodução   sexuada,   por   exemplo) e a sequência de perturbações  que  constituem  o  meio  efetivo  no  qual  se  realiza  a  ontogenia  do organismo, que uma vez fixadas, determinam uma única solução: a história individual do organismo em congruência com o meio, até sua morte ( perda de congruência com o meio). Percebo que isso oferece algumas dificuldades ao leitor. Vejamos:

1-Parece que o  que foi dito  deixa um problema aberto e não mostra como se produz a conservação da organização e da adaptação. Isso não é estritamente correto. O que se faz é mudar o problema.  O problema já não é mais como se acomoda o organismo ao meio, por meio da conduta ou de qualquer outra maneira. O problema agora é: como é a estrutura inicial de um organismo no nível da primeira célula (zigoto, no ser humano, por exemplo) de modo que admite uma epigênese que ocorre com  certa sequência particular de interações  e depois de 25 anos há um adulto com a conduta de um médico, ao passo que essa mesma célula inicial não admite uma epigênese que culmine num elefante ?

2- Tudo o que foi dito não parece tomar adequadamente em consideração o sistema nervoso. Isso  também  não  é  estritamente  certo.  O  que se faz é  devolver  ao sistema  nervoso  sua condição de componente do organismo e mostrar que seu papel na mudança de conduta não é “sui gêneris”.  Com efeito, na medida em que o sistema nervoso participa como qualquer outro órgão na formação estrutural ontogénica do organismo, o que lhe cabe propriamente é a  enorme  ampliação  de  estados  que  torna  possível  o  organismo.  Em  outras  palavras,  o sistema nervoso é peculiar na maneira como amplia o domínio das possíveis epigêneses do organismo, não na forma como se insere nelas.

3- Pareceria que a dança de correlações sensório motoras que ,segundo foi dito, caracteriza o operar do sistema nervoso como rede fechada de componentes que interagem entre si, não pudesse dar conta da enorme riqueza de condutas do ser humano. Esta dificuldade surge de se pensar que a complexidade de condutas do ser humano está em seu sistema nervoso. De fato, se a conduta é  o  que o observador vê na circunstancia de interações do organismo em seu meio, o que chamamos  de riqueza de conduta humana pela riqueza que nela vemos (arte, literatura, ciência, filosofia) não está no sistema nervoso como gerador de condutas, mas na circunstância histórica em que ocorrem as correlações sensório motores geradas por ele.

Em outras palavras, duas correlações sensório motores que um observador descreve como iguais  em  dois momentos históricos distintos podem ter significados radicalmente diversos porque  são  historicamente  condutas  distintas.  O  sistema  nervoso  torna  possível  certa variedade  de  correlações  sensório  motoras  num  organismo  determinado  mas,  sobretudo, torna possível seu enlace em muitas circunstancias de interações distintas, ao permitir muitas e variadas consequências estruturais ontogénicas do organismo em circunstancias históricas mutantes.  A riqueza da vida humana é social porque a sociedade é também parte do meio no qual  um  organismo  conserva sua organização e sua estrutura.  Com  o  sistema  nervoso acontece o mesmo, a partir de que epigênese participa; de todos os modos, ele existe imerso numa gênese estrutural. Ao ser social não acontece o mesmo, porque a sociedade que gera sua conduta opera recursivamente como o âmbito no qual deve conservar sua organização  e adaptação em sua epigênese.

4- Segundo tudo que foi dito, o problema já não é mais compreender a organização do sistema nervoso. Este é uma rede fechada de componentes que interagem entre si. O problema agora é, concretamente,  compreender a estrutura desta rede como um sistema fechado que gera mudanças de relações de atividade numa dança completamente interna, a qual, pelo lado de fora,  aparece  como  correlações  sensório  motoras. Muito já se disse  particularmente  no domínio da postura e dos movimentos oculares. Há muito mais a dizer ainda, sobre o domínio da integração estrutural do sistema nervoso por meio de suas interações octogonais aos seus domínios de estado. Neste sentido, os estudos de  Joaquim Luco sobre os efeitos tróficos abriram um mundo.

5- Para muitos, pensar no operar do sistema nervoso sem recorrer à noção de representação ou de captação de informação será uma dificuldade. Esta dificuldade é meramente aparente. Nenhum  mecânico precisa compreender como funciona um automóvel para descrever seu motor.  O que ele sabe é que existem dois domínios disjuntos que se relacionam: o domínio dos estados do motor, expresso como relações entre seus componentes e o domínio das interações  do  automóvel no ambiente em que é  usado  (a  estrada,  o  motorista).  Se  o carburador está com defeito o carro não anda bem, porém, não é devido ao carburador que o motorista falha em sua representação do caminho. O mesmo acontece com o sistema nervoso. O que hoje temos que fazer para compreendê-lo é reconhecer a existência de dois domínios disjuntos, o da conduta e o dos estados do sistema nervoso, e reconhecer que a conexão entre os dois é octogonal ao operar deste, ao qual está em integração estrutural.

6- Outra dificuldade para aceitar esta explicação geral do fenômeno da aprendizagem reside em que correntemente se pensa que o aprender  trás em si uma certa intencionalidade, um certo  propósito.  Isso  porque, em geral, se pensa que o cerne de  toda  conduta  são  suas consequências. Isto é um erro. O propósito que vemos nas condutas não pertence a elas, mas à descrição  ou  comentário  do  observador. Tal  descrição  é  boa  na  conversação,  mas  é enganadora no domínio conceitual. A aprendizagem não tem propósito, é uma consequência da  mudança estrutural dos seres vivos sob condições de sobrevivência com conservação da organização e da estrutura. Não há representação do meio, não há ação sobre o meio, não há memória, não há passado nem futuro, somente o presente.  Porém, porque a aprendizagem existe  há  linguagem  (ver  Maturana,  1978)  e  descrições  nas  quais  o  passado  e  o  futuro surgem... E podemos equivocar-nos na aprendizagem.

7-  Finalmente,  um  comentário  sobre  o  aprender. O que disse neste artigo é que a aprendizagem é um processo que acontece na vida, porém, não consiste em captar o mundo, como a palavra aprender sugere. O fenómeno de aprender é mudar com o mundo, quando o sistema nervoso está envolvido nisso. Este mudar com o mundo  aparece  como  uma mudança de conduta que  acontece com a mudança das correlações sensório motoras que são resultado da mudança estrutural do sistema nervoso, que segue a regra de conservar a organização e adaptação do organismo.

Para isso, o sistema nervoso deve estar em contínua mudança estrutural, de maneira que as interações do organismo com o meio resultem que estas mudanças sigam determinado curso e não  outro: as interações do organismo com o meio selecionam o curso da epigênese do sistema nervoso na qual ele conserva sua organização e adaptação.

O  sistema  nervoso,  sem  dúvida,  deve  ter  a  estrutura  que  permita,  sob  muitas  histórias distintas  de mudança ambiental, muitas epigêneses distintas que podem levar ao mesmo organismo  (mesma  constituição inicial) e muitas ontogenias distintas, com conservação da organização e da  adaptação. Portanto, e em  última instância, a grande pergunta sobre o sistema nervoso deve ser: qual é a estrutura desta rede fechada que somente gera correlações internas e que, dentro de certos  limites, admite mudanças sobre como se realizam estas correlações  internas  sem  interferir  com  a   conservação  da  organização  e  adaptação  do organismo que integra ?

Eu não tenho uma resposta em particular, mas creio que teria uma resposta geral.

Todo organismo existe num meio com o qual é congruente. Tal congruência trás consigo uma recorrência de estados em si, que tem a ver com a recorrência de alguns estados do meio ambiente. Estas  recorrências  constituem  uma  condição  que  exige  do  organismo  uma estabilidade estrutural básica que defina relacionalmente uma invariância operacional em torno da  qual   devem   acontecer  todas  as  mudanças  estruturais  que  ele  sofre  em  sua necessária dinâmica estrutural. Acontece, sem dúvida, que estas mudanças estruturais estão também ligadas por relações  com o meio. O sistema nervoso satisfaz estas duas condições com sua dinâmica de correlações  internas, vistas externamente como correlações sensorio motoras, assim :

a) Por um lado, assegura um conjunto de correlações sensório motoras capazes de gerar as necessárias condutas recorrentes;

b) Assegura a possibilidade de novas correlações sensório motoras ao admitir que as novas coincidências de relações internas de atividade que surgem das mudanças estruturais das superfícies sensoriais do organismo, gerem mudanças estruturais locais;

c) Assegura que estas últimas mudanças redundem em novas configurações de perturbações que substituam as configurações de perturbações antigas frente às novas  perturbações ambientais, recorrentes ou não.

Os estudos sobre aprendizagem de Joaquim Luco fizeram com que as baratas demonstrassem que é  assim. A barata, ao perder suas duas patas anteriores, tem a possibilidade de realizar todas as  correlações sensório motoras que um observador vê, como a limpeza da antena, usando uma das patas de seu segundo par. Sua aprendizagem é a seleção, em sua dinâmica estrutural,  de  mudanças  que  permitem  uma  nova  correlação  destas  correlações  sensório motoras.   O sistema nervoso não está desenhado para que o organismo viva de certa maneira. Porém, se o sistema nervoso gera certas correlações sensório motoras, o organismo vive de certa maneira em seu domínio de integração  estrutural. As baratas não foram feitas para perderem o primeiro par de patas e aprenderem a limpar as antenas apoiadas em três. Porém, foram feitas de tal modo que se perdem suas duas primeiras patas podem passar ao largo de sua ontogenia e apoiar-se nas três restantes e limpar-se com a quarta que está livre. Isto, se acontece, é o resultado de uma simples consequência evolutiva, segundo a  qual todos os organismos  atuais  pertencem  à  linhagens  que  nunca  foram  interrompidas  e  dos   quais resultaram os zigotos ou células iniciais que tornaram possível nossa epigênese particular. Mais ainda, nesta consequência evolutiva, a aprendizagem, como fenómeno ontogenético é simples   epigênese,  simples  consequência  estrutural  com  conservação  da  organização  e adaptação da unidade em ontogenia. O resto, disse o observador.

 

REFERENCIAS

MATURANA, H.R.; VARELA, F.G. (1973).   De máquinas y seres vivos. Editorial Universitaria, Santiago.

MATURANA, H.R. (1978).   Biology of languaje: epistemology of reality.   En: Psychology and Biology of Lenguage and Thought.  E.Lenneberg and H.  Miller. (Eds).  Academic Press, New York.

MATURANA, H.R. (1980).   Autopoiesis: reproducción, herencia y evolución.   En Autopoiesís, dissipative structures and spontaneous social orders.  A.A.A. Selected Symposium 55.  Milan Zeleny (Ed.).

MATURANA, H.R.; VARELA, F.G. Evolution or phylogenic and ontogenic drift.  En preparación.

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Respostas a este tópico

Consegui converter o texto da tradução PDF para Word. Segue abaixo. Penso que deveríamos fazer uma revisão. É muito importante porque este é o texto mais importante que já li sobre aprendizagem.


CADÊ???...


Augusto de Franco disse:

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