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Gaia - a Terra Viva: De um experimento da NASA para detectar vida em Marte surge uma reveladora comprensão do Planeta Terra como um ORGANISMO VIVO: um sistema que se auto regula e preserva suas condiç

Gaia - a Terra Viva: De um experimento da NASA para detectar vida em Marte surge uma reveladora comprensão do Planeta Terra como um ORGANISMO VIVO: um sistema que se auto regula e preserva suas condições de existência

A teoria de Gaia olha para a vida de maneira sistêmica, reunindo geologia, microbiologia, química atmosférica e outras disciplinas cujos profissionais não estão acostumados a se comunicarem uns com os outros.

 

Lovelock e Margulis desafiaram a visão convencional que encarava essas disciplinas como separadas, que afirmava que as forças da geologia estabelecem as condições para a vida na Terra e que as plantas e os animais eram meros passageiros que, por acaso, descobriram justamente as condições corretas para a sua evolução. De acordo com a teoria de Gaia, a vida cria as condições para a sua própria existência. Nas palavras de Lynn Margulis:

 

Enunciada de maneira simples, a hipótese [de Gaia] afirma que a superfície da Terra, que sempre temos considerado o meio ambiente da vida, é na verdade parte da vida. A manta de ar - a troposfera - deveria ser considerada um sistema circulatório, produzido e sustentado pela vida. ... Quando os cientistas nos dizem que a vida se adapta a um meio ambiente essencialmente passivo de química, física e rochas, eles perpetuam uma visão seriamente distorcida. A vida, efetivamente, fabrica e modela e muda o meio ambiente ao qual se adapta. Em seguida, esse "meio ambiente" realimenta a vida que está mudando e atuando e crescendo nele. Há interações cíclicas constantes.

Gaia - a Terra Viva

As idéias-chave subjacentes aos vários modelos de sistemas auto-organizadores que acabamos de descrever cristalizaram-se em poucos anos, no início da década de 60. Nos Estados Unidos, Heinz von Foerster montou seu grupo de pesquisas interdisciplinares e promoveu várias conferências sobre auto-organização; na Bélgica, ílya Prigogine realizou a ligação fundamental entre sistemas em não-equilíbrio e não-linearidade; na  Alemanha, Hermann Haken desenvolveu sua teoria não-linear do laser e Manfred Eigen estudou os ciclos catalíticos; e no Chile, Humberto Maturana atacou o quebra-cabeça da organização dos sistemas vivos.

 

Ao mesmo tempo, o químico especializado na química da atmosfera, James Lovelock, fez uma descoberta iluminadora que o levou a formular um modelo que é, talvez, a mais  surpreendente e mais bela expressão da auto-organização - a idéia de que o planeta Terra como um todo é um sistema vivo, auto-organizador.

 

As origens da ousada hipótese de Lovelock estão nos primeiros dias do programa espacial da NASA. Embora a idéia de uma Terra viva seja muito antiga, e teorias especulativas a respeito do planeta como um sistema vivo tenham sido formuladas várias vezes, os vôos espaciais no início da década de 60 permitiram aos seres humanos, pela primeira vez, olhar efetivamente para o nosso planeta a partir do espaço exterior e percebê-la como um todo integrado. Essa percepção da Terra em toda a sua beleza – um globo azul e branco flutuando na profunda escuridão do espaço - comoveu profundamente os astronautas e, como vários deles têm  declarado desde essa ocasião, foi uma profunda experiência espiritual, que mudou para sempre o seu relacionamento com a Terra. As magníficas fotografias da Terra inteira que eles trouxeram de volta ofereceram o símbolo mais poderoso do movimento da ecologia global.

 

Enquanto os astronautas olhavam para o planeta e contemplavam sua beleza, o meio ambiente da Terra também era examinado do espaço exterior pelos sensores dos instrumentos científicos, assim como também o eram o meio ambiente da Lua e dos planetas mais próximos. Na década de 60, os programas espaciais soviético e norte-americano lançaram mais de cinqüenta sondas espaciais, a maioria delas para explorar a Lua, mas algumas viajando para mais além, para Vênus e para Marte.

 

Nessa época, a NASA convidou James Lovelock para o Jet Propulsion Laboratories, em Pasadena, na Califórnia, para ajudá-los a projetar instrumentos para a detecção de vida em Marte. O plano da NASA era enviar a Marte uma nave espacial que procuraria por vida no local de pouso, executando uma série de experimentos com o solo marciano. Enquanto Lovelock trabalhava sobre problemas técnicos de desenho dos instrumentos, também fazia a si mesmo uma pergunta mais geral: "Como podemos estar certos de que o modo de vida marciano, qualquer que seja ele, se revelará a testes baseados no estilo de vida da Terra?" Nos meses e anos seguintes, essa questão o levou a pensar profundamente sobre a natureza da vida e sobre como ela poderia ser reconhecida.

 

Ponderando sobre esse problema, Lovelock descobriu que o fato de todos os seres vivos extraírem energia e matéria e descartarem produtos residuais era a mais geral das características da vida que ele podia identificar. De maneira muito parecida com o que ocorreu com Prigogine, ele pensava que seria possível expressar matematicamente essa característica-chave, em termos de entropia, mas então seu raciocínio seguiu por uma direção diferente. Lovelock supôs que a vida em qualquer planeta utilizaria a atmosfera e os oceanos como meio fluido para matérias-primas e produtos residuais. Portanto, especulou, poder-se-ia ser capaz, de algum modo, de detectar a existência de vida analisando-se a composição química da atmosfera de um planeta. Dessa maneira, se houvesse vida em Marte, a atmosfera marciana revelaria algumas combinações de gases, algumas “assinaturas" características, que poderiam ser detectadas até mesmo a partir da Terra. Essas especulações foram dramaticamente confirmadas quando Lovelock e um colega, Dian Hitchcock, começaram a realizar uma análise sistemática da atmosfera marciana, utilizando observações feitas a partir da Terra, e comparando-a com uma análise semelhante da atmosfera da Terra. Eles descobriram que as composições químicas das duas atmosferas são notavelmente semelhantes. Embora haja muito pouco oxigênio, uma porção de dióxido de carbono (CO2) e nenhum metano na atmosfera de Marte, a atmosfera da Terra contém grande quantidade de oxigênio, quase nenhum CO2 e uma porção de metano.

 

Lovelock compreendeu que a razão para esse perfil atmosférico particular em Marte é que, num planeta sem vida todas as reações químicas possíveis entre os gases na atmosfera foram completadas muito tempo atrás. Hoje, não há mais reações químicas possíveis em Marte; há um total equilíbrio químico na atmosfera marciana. A situação na Terra é exatamente oposta. A atmosfera terrestre contém gases, como o oxigênio e o metano, que têm probabilidade muito grande de reagir uns com os outros, mas mesmo assim coexistem em altas proporções, resultando numa mistura de gases afastados do equilíbrio químico. Lovelock compreendeu que esse estado especial deve ter por causa a presença de vida na Terra. As plantas produzem constantemente o oxigênio, e outros organismos produzem outros gases, de modo que os gases atmosféricos estão sendo continuamente repostos enquanto sofrem reações químicas. Em outras palavras, Lovelock reconheceu a atmosfera da Terra como um sistema aberto, afastado do equilíbrio, caracterizado por um fluxo constante de energia e de matéria. Sua análise química detectava a própria "marca registrada" da vida.

 

Essa descoberta foi tão significativa para Lovelock que ele ainda se lembra do exato momento em que ocorreu:

 

Para mim, a revelação pessoal de Gaia veio subitamente - como um flash de iluminação. Eu estava numa pequena sala do pavimento superior do edifício do Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, na Califórnia. Era o outono de 1965 ... e eu estava conversando com um colega, Dian Hitchcock, sobre um artigo que estávamos preparando. ... Foi nesse momento que, num lampejo, vislumbrei Gaia. Um pensamento assustador veio a mim. A atmosfera da Terra era uma mistura extraordinária e instável de gases, e, não obstante, eu sabia que sua composição se mantinha constante ao longo de períodos de tempo muito longos. Será que a vida na Terra não somente criou a atmosfera, mas também a regula - mantendo-a com uma composição constante, e num nível favorável aos organismos?

 

O processo de auto-regulação é a chave da idéia de Lovelock. Ele sabia, pela astrofísica, que o calor do Sol aumentou em 25 por cento desde que a vida começou na Terra e que, não obstante esse aumento, a temperatura da superfície da Terra tem permanecido constante, num nível confortável para a vida, nesses quatro bilhões de anos. E se a Terra fosse capaz de regular sua temperatura, indagou ele, assim como outras condições planetárias - a composição de sua atmosfera, a salinidade de seus oceanos, e assim por diante - assim como os organismos vivos são capazes de auto-regular e de manter constantes a temperatura dos seus corpos e também outras variáveis? Lovelock compreendeu que essa hipótese significava uma ruptura radical com a ciência convencional:

 

Considere a teoria de Gaia como uma alternativa à sabedoria convencional que vê a Terra como um planeta morto, feito de rochas, oceanos e atmosfera inanimadas, e meramente habitado pela vida. Considere-a como um verdadeiro sistema, abrangendo toda a vida e todo o seu meio ambiente, estreitamente acoplados de modo a formar uma entidade auto-reguladora.

 

Os cientistas espaciais da NASA, a propósito, não gostaram, em absoluto, da descoberta de Lovelock. Eles tinham desenvolvido uma impressionante série de experimentos para a detecção de vida, para serem   utilizados na missão de sua Viking a Marte, e agora Lovelock estava lhes dizendo que realmente não havia necessidade de enviar uma espaçonave ao Planeta Vermelho à procura de vida. Tudo o que eles precisavam fazer era uma análise espectral da atmosfera marciana, o que poderia ser feito facilmente através de um telescópio na Terra. Não é de se admirar que a NASA tenha desprezado o conselho de Lovelock e tenha continuado a desenvolver o programa Viking. A nave espacial da NASA pousou em Marte vários anos depois, e, como Lovelock havia previsto, não achou lá nenhum traço de vida.

 

Em 1969, num encontro científico em Princeton, Lovelock, pela primeira vez, apresentou sua hipótese da Terra como um sistema auto-regulador. Logo depois disso, um amigo romancista, reconhecendo que a idéia de Lovelock representava o renascimento de um importante mito antigo, sugeriu o nome "hipótese de Gaia", em honra da deusa grega da Terra. Lovelock, com prazer, aceitou a sugestão e, em 1972, publicou a primeira versão extensa de sua idéia num artigo intitulado "Gaia as Seen through the Atmosphere".

 

Nessa época, Lovelock não tinha idéia de como a Terra poderia regular sua temperatura e a composição de sua atmosfera; o que ele sabia é que os processos auto-reguladores tinham de envolver organismos na biosfera. Também não sabia quais eram os organismos que produziam quais gases. No entanto, ao mesmo tempo, a microbiologista norte-americana Lynn Margulis estava estudando os mesmos processos que Lovelock precisava entender - a produção e a remoção de gases por vários organismos, incluindo especialmente as miríades de bactérias presentes no solo da Terra. Margulis lembra-se de que continuava perguntando: "Por que todos concordam com o fato de que o oxigênio atmosférico ... provém da vida, mas ninguém fala sobre os outros gases atmosféricos que provêm da vida?" Logo depois, vários colegas dela recomendaram que conversasse com James Lovelock, o que levou a uma longa e proveitosa colaboração, a qual resultou na hipótese de Gaia plenamente científica.

 

Os backgrounds e áreas científicos em que eram peritos James Lovelock e Lynn Margulis converteram-se num perfeito casamento. Margulis não teve dificuldade em responder a Lovelock muitas perguntas a respeito das origens biológicas dos gases atmosféricos, ao passo que Lovelock contribuiu com concepções provenientes da química, da termodinâmica e da cibernética para a emergente teoria de Gaia. Desse modo, ambos os cientistas foram capazes de, gradualmente, identificar uma complexa rede de laços de realimentação, a qual - conforme propuseram como hipótese - criaria a auto-regulação do sistema planetário.

 

O aspecto de destaque desses laços de realimentação está no fato de que ligam conjuntamente sistemas vivos e não-vivos. Não podemos mais pensar nas rochas, nos animais e nas plantas como estando separados uns dos outros. A teoria de Gaia mostra que há um estreito entrosamento entre as partes vivas do planeta - plantas, microorganismos e animais - e suas partes não-vivas - rochas, oceanos e a atmosfera.

 

O ciclo do dióxido de carbono é uma boa ilustração desse ponto. Os vulcões da Terra têm vomitado enormes quantidades de dióxido de carbono (CO2) durante milhões de anos. Uma vez que o CO2 é um dos principais gases de estufa, Gaia precisa bombeá-lo para fora da atmosfera; caso contrário, ficaria quente demais para a vida. Plantas e animais reciclam grandes quantidades de CO2 e de oxigênio nos processos da fotossíntese, da respiração e da decomposição. No entanto, essas trocas estão sempre em equilíbrio e não afetam o nível de COZ da atmosfera. De acordo com a teoria de Gaia, o excesso de dióxido de carbono na atmosfera é removido e reciclado por um enorme laço de realimentação, que envolve a erosão das rochas como um componente-chave.

 

No processo da erosão das rochas, estas combinam-se com a água da chuva e com o dióxido de carbono para formar várias substâncias químicas denominadas carbonatos. O CO2 é então retirado da atmosfera e retido em soluções líquidas. Esses processos são puramente químicos, não exigindo a participação da vida. No entanto, Lovelock e outros descobriram que a presença de bactérias no solo aumenta enormemente a taxa de erosão das rochas. Num certo sentido, essas bactérias do solo atuam como catalisadores do processo de erosão das rochas, e todo o ciclo do dióxido de carbono poderia ser visto como o equivalente biológico dos ciclos catalíticos estudados por Manfred Eigen. Os carbonatos são então arrastados para o oceano, onde minúsculas algas, invisíveis a olho nu, os absorvem e os utilizam para fabricar primorosas conchas calcárias (de carbonato de cálcio). Desse modo, o CO2 que estava na atmosfera vai parar nas conchas dessas algas diminutas (Figura 5-4). Além disso, as algas oceânicas também absorvem o dióxido de carbono diretamente do ar.

 

Quando as algas morrem, suas conchas se precipitam para o fundo do mar, onde formam compactos sedimentos de pedra calcária (outra forma do carbonato de cálcio). Devido ao seu enorme peso, os sedimentos de pedra calcária gradualmente afundam no manto da Terra e se fundem, podendo até mesmo desencadear os movimentos das placas tectônicas. Por fim, parte do COZ contido nas rochas fundidas é novamente vomitado para fora por vulcões, e enviado para uma outra rodada do grande ciclo de Gaia. O ciclo todo - ligando vulcões à erosão das rochas, a bactérias do solo, a algas oceânicas, a sedimentos de pedra calcária e novamente a vulcões - atua como um gigantesco laço de realimentação, que contribui para a regulação da temperatura da Terra.

 

Figura 5-4

Algas (coccolithophore) oceânicas com conchas calcárias.

 

À medida que o Sol fica mais quente, a ação bacteriana no solo é estimulada, o que aumenta a taxa de erosão das rochas. isso, por sua vez, bombeia mais CO2 para fora da atmosfera e, desse modo, esfria o planeta. De acordo com Lovelock e com Margulis, laços de realimentação semelhantes - interligando plantas e rochas, animais e gases atmosféricos, microorganismos e os oceanos - regulam o clima da Terra, a salinidade dos seus oceanos e outras importantes condições planetárias.

 

A teoria de Gaia olha para a vida de maneira sistêmica, reunindo geologia, microbiologia, química atmosférica e outras disciplinas cujos profissionais não estão acostumados a se comunicarem uns com os outros.

 

Lovelock e Margulis desafiaram a visão convencional que encarava essas disciplinas como separadas, que afirmava que as forças da geologia estabelecem as condições para a vida na Terra e que as plantas e os animais eram meros passageiros que, por acaso, descobriram justamente as condições corretas para a sua evolução. De acordo com a teoria de Gaia, a vida cria as condições para a sua própria existência. Nas palavras de Lynn Margulis:

 

Enunciada de maneira simples, a hipótese [de Gaia] afirma que a superfície da Terra, que sempre temos considerado o meio ambiente da vida, é na verdade parte da vida. A manta de ar - a troposfera - deveria ser considerada um sistema circulatório, produzido e sustentado pela vida. ... Quando os cientistas nos dizem que a vida se adapta a um meio ambiente essencialmente passivo de química, física e rochas, eles perpetuam uma visão seriamente distorcida. A vida, efetivamente, fabrica e modela e muda o meio ambiente ao qual se adapta. Em seguida, esse "meio ambiente" realimenta a vida que está mudando e atuando e crescendo nele. Há interações cíclicas constantes.

 

De início, a resistência da comunidade científica a essa nova visão da vida foi tão forte que os autores acharam que era impossível publicar sua hipótese. Os periódicos acadêmicos estabelecidos, tais como Science e Nature, a rejeitaram. Finalmente, o astrônomo Carl Sagan, que trabalhava como editor da revista Ícaro, convidou Lovelock e Margulis para publicarem a hipótese de Gaia em sua revista. É intrigante o fato de que, dentre todas as teorias e modelos de auto-organização, foi a hipótese de Gaia que encontrou, de longe, a mais forte resistência. Somos tentados a nos perguntar se a reação altamente irracional por parte do establishment científico não teria sido desencadeada pela evocação de Gaia, o poderoso mito arquetípico.

 

De fato, a imagem de Gaia como um ser sensível foi o principal argumento implícito para a rejeição da hipótese de Gaia depois de sua publicação. Os cientistas expressaram essa rejeição alegando que a hipótese era não-científica porque era teleológica - isto é, implicava a idéia de processos naturais sendo modelados por um propósito. "Nem Lynn Margulis nem eu jamais propusemos que a auto-regulação planetária é propositada", protesta Lovelock. "Não obstante, temos encontrado críticas persistentes, quase dogmáticas, afirmando que nossa hipótese é teleológica."

 

Essa crítica volta à velha discussão entre mecanicistas e vitalistas. Embora os mecanicistas sustentem que todos os fenômenos biológicos serão finalmente explicados pelas leis da física e da química, os vitalistas postulam a existência de uma entidade não-física, um agente causal dirigindo os processos vitais, que desafia explicações mecanicistas. A teleologia - palavra derivada do grego telos ("propósito") - afirma que o agente

causal postulado pelo vitalismo é propositado, que há propósito e plano na natureza.  Opondo-se energicamente a argumentos vitalistas e teleológicos, os mecanicistas ainda lutam com a metáfora newtoniana de Deus como um relojoeiro. A teoria dos sistemas vivos que está emergindo nos dias atuais finalmente superou a discussão entre mecanicismo e teleologia. Como veremos, ela concebe a natureza viva como consciente (mindful) e inteligente sem a necessidade de supor qualquer plano ou propósito global.

 

Os representantes da biologia mecanicista atacaram a hipótese de Gaia como teleológica porque não eram capazes de imaginar como a vida na Terra poderia criar e regular as condições para a sua própria existência sem ser consciente e propositada. "Há reuniões de comitês das espécies para negociar a temperatura do próximo ano?", perguntaram esses críticos com humor malicioso.

 

Lovelock respondeu com um engenhoso modelo matemático batizado de "Mundo  das Margaridas". Esse modelo representa um sistema de Gaia imensamente simplificado, no qual é absolutamente claro que a regulação da temperatura é uma propriedade emergente do sistema, que surge automaticamente sem nenhuma ação propositada, como uma conseqüência de laços de realimentação entre os organismos do planeta e o meio ambiente desses organismos.

 

O Mundo das Margaridas é um modelo de computador de um planeta aquecido por um sol cuja radiação térmica aumenta de maneira uniforme e tendo apenas duas espécies vivas crescendo nele - margaridas negras e margaridas brancas. Sementes dessas margaridas estão espalhadas por todo o planeta, que é úmido e fértil por toda parte, mas as margaridas crescerão somente dentro de uma certa faixa de temperaturas.

 

Lovelock programou seu computador com as equações matemáticas correspondentes a todas essas condições, escolheu uma temperatura planetária no ponto de congelamento como condição de partida, e então deixou o modelo rodar no computador. "Será que a evolução do ecossistema do Mundo das Margaridas levaria a uma auto-regulação do clima?", era a pergunta crucial que ele fazia a si mesmo.

 

Os resultados foram espetaculares. À medida que o planeta modelado se aquece, em algum ponto o equador fica quente o bastante para a vida vegetal. As margaridas negras aparecerão em primeiro lugar, porque absorvem melhor o calor do que as margaridas brancas, e estão portanto mais bem adaptadas para a sobrevivência e a reprodução. Assim, em sua primeira fase de evolução, o Mundo das Margaridas mostra um anel de margaridas negras espalhadas em torno do equador (Figura 5-5).

 

Figura 5-5

As quatro fases evolutivas do Mundo das Margaridas.

 

À medida que o planeta se aquece mais, o equador vai ficando demasiadamente quente para as margaridas negras sobreviverem, e elas começam a colonizar as zonas subtropicais. Ao mesmo tempo, aparecem margaridas brancas ao redor do equador. Como elas são brancas, refletem calor e se esfriam, o que permite que elas sobrevivam melhor em zonas quentes do que as margaridas negras. Então, na segunda fase, há um anel de margaridas brancas ao redor do equador, e as zonas subtropical e temperada estão cheias de margaridas negras, embora ainda esteja frio demais em torno dos pólos para qualquer margarida crescer aí.

 

Em seguida, o sol fica ainda mais quente e a vida vegetal se extingue no equador, onde agora o calor é excessivo até mesmo para as margaridas brancas. Enquanto isso, margaridas brancas substituem as negras nas zonas temperadas, e margaridas negras começam a aparecer em torno dos pólos. Desse modo, a terceira fase mostra o equador vazio, as zonas temperadas povoadas por margaridas brancas e as zonas ao redor dos pólos cheias de margaridas negras, e apenas as calotas polares sem nenhuma vida vegetal. Na última fase, finalmente, enormes regiões ao redor do equador e nas zonas subtropicais estão quentes demais para quaisquer tipos de margaridas sobreviverem, embora haja margaridas brancas nas zonas temperadas e margaridas negras nos pólos. Depois disso, o planeta modelado fica quente demais para qualquer tipo de margaridas crescer, e a vida se extingue.

 

São essas as dinâmicas básicas do sistema do Mundo das Margaridas. A propriedade fundamental do modelo que produz auto-regulação é o fato de que as margaridas negras, absorvendo calor, aquecem não apenas a si mesmas mas também o planeta. De maneira semelhante, embora as margaridas brancas reflitam o calor e se esfriem, elas também esfriam o planeta. Desse modo, o calor é absorvido e refletido ao longo de toda a evolução do Mundo das Margaridas, dependendo da espécie de margaridas que está presente. Quando Lovelock apresentou em gráfico as mudanças de temperatura sobre o planeta ao longo de toda a sua evolução, obteve o notável resultado de que a temperatura do planeta é mantida constante em todas as quatro fases (Figura 5-6). Quando o sol está relativamente frio, o Mundo das Margaridas aumenta sua própria temperatura graças à absorção térmica pelas margaridas negras; à medida que o sol fica mais quente, a temperatura é gradualmente abaixada devido à predominância progressiva de margaridas brancas refletoras de calor. Assim, o Mundo das Margaridas, sem nenhuma previsão ou planejamento, "regula sua própria temperatura ao longo de um grande intervalo de tempo por meio da dança das margaridas".

 

Laços de realimentação que ligam influências do meio ambiente ao crescimento das margaridas, as quais, por sua vez, afetam o meio ambiente, constituem uma característica essencial do modelo do Mundo das Margaridas. Quando esse ciclo é quebrado, de modo que não haja influência das margaridas sobre o meio ambiente, as populações de margaridas flutuam descontroladamente, e todo o sistema se torna caótico. Porém, tão logo os laços são fechados ao se ligar de volta as margaridas ao seu meio ambiente, o modelo se estabiliza e ocorre a auto-regulação.

 

Figura 5-6

Evolução da temperatura no Mundo das Margaridas: a curva tracejada mostra o aumento da temperatura sem vida presente; a curva cheia mostra como a vida mantém uma temperatura constante; extraído de Lovelock (1991 ).

 

Desde essa época, Lovelock elaborou versões muito mais sofisticadas do Mundo das Margaridas. Em vez de apenas duas, há, nos novos modelos, muitas espécies de margaridas, com pigmentações variadas; há modelos nos quais as margaridas evoluem e mudam de cor; modelos nos quais coelhos comem as margaridas e raposas comem os coelhos, e assim por diante. O resultado efetivo desses modelos altamente complexos é que as pequenas flutuações de temperatura que estavam presentes no modelo original do Mundo das Margaridas se nivelaram e a auto-regulação se torna progressivamente mais estável à medida que a complexidade do modelo aumenta. Além disso, Lovelock introduziu em seus modelos catástrofes, que dizimam 30 por cento das margaridas em intervalos regulares. Ele descobriu que a auto regulação do Mundo das Margaridas é notavelmente elástica sob essas sérias perturbações.

 

Todos esses modelos geraram vívidas discussões entre biólogos, geofísicos e geoquímicos, e, desde a época em que foi publicada pela primeira vez, a hipótese de Gaia ganhou muito mais respeito na comunidade científica. De fato, hoje existem várias equipes de pesquisa em várias partes do mundo que trabalham sobre formulações detalhadas da teoria de Gaia.

 

 

Trecho acima extraído do livro:

 

Capra, Fritjof. A TEIA DA VIDA. Uma nova compreensão científica dos 
sistemas vivos. Tradução: Newton Roberval Eíchemberg

 

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Atenciosamente. 
Claudio Estevam Próspero 

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