Escola de Redes

PROCESSOS DE REDE EM CIDADES

Estudiosos e especialistas que se conectaram à Escola-de-Redes a partir de 2008, se associaram para desenvolver e aplicar novas tecnologias de netweaving (processos de rede) em cidades, empresas e outras organizações. Isso gerou a iniciativa chamada Netweaving Technologies.

A abordagem de Netweaving Technologies - Cidades não é a de uma consultoria tradicional (prestação de serviços externa) e sim a de inserção simbiótica (imersão na cidade para interagir por dentro com as pessoas que conformam as redes sociais da cidade).

O objetivo dessa iniciativa é reconfigurar os ambientes (virtual, físico e de desenvolvimento) da cidade no sentido de aumentar a interatividade desses ambientes e, consequentemente, a sua inovatividade social (a sua capacidade sistêmica de inovar tempestivamente). 

BRIEFING

Inicialmente identifica-se na cidade aqueles que serão os parceiros e apoiadores (sponsors) do projeto. Em seguida, com a ajuda desses sponsors, seleciona-se, em cada localidade, uma pequena equipe de pessoas dispostas a cumprir o papel de netweavers (articuladores e animadores de redes). Essa equipe será então capacitada - teórica e praticamente - nos fundamentos da nova ciência das redes e em técnicas interativas presenciais e virtuais (como Open Space Technologie, Interactive Co-Creation, Netweaving em Plataformas e outras). Trabalhando conjuntamente com essa equipe os especialistas de Netweaving Technologies vão implantar um processo em 14 passos, descrito no diagrama acima e no diagrama abaixo:

Dentre as várias tecnologias de netweaving que serão aplicadas para tal fim (aumentar a inovatividade social da cidade), merece destaque a configuração de novos ambientes de inovação baseados em cocriação interativa. Pessoas de cada localidade serão estimuladas e incentivadas a se integrar voluntariamente a esses ambientes levando suas ideias de novos processos, de novos produtos ou serviços e de novos modelos de gestão para melhorar a vida da sua localidade e da cidade como um todo. As ideias capazes de virar projetos viáveis serão desenvolvidas, prototipadas e testadas.

Em torno de cada projeto em desenvolvimento se formará uma comunidade de projeto (móvel e temporária) que já será parte da nova cidade-em-rede (emergente e inovadora) dentro da cidade antiga, dando curso à transição organizacional necessária para que a cidade seja capaz de se adaptar tempestivamente às mudanças das circunstâncias em um mundo cada vez mais em rede.

 

ESCOPO

O processo será aplicado em todos os bairros da cidade, começando por 2 ou 3 localidades (consideradas piloto, embora a denominação não seja a mais adequada). As localidades serão indicadas pela Prefeitura e/ou por outros parceiros do projeto.

 

ESTRATÉGIA DE IMPLANTAÇÃO

A estratégia de implantação da Cidade-Rede prevê 14 passos. Em conjunto esses passos são uma espécie de procedimento para a instalação do programa, que depois poderá rodar sem o acompanhamento mais direto dos seus iniciadores.

É um estímulo concentrado em 17 meses que prevê uma rotina inicial de imersão no ecossistema composto pelas redes já existentes nas diversas localidades da cidade, um grande encontro de sensibilização para explicar o processo aos potenciais apoiadores (de toda a cidade), um encontro em cada localidade para seleção de netweavers (articuladores e animadores de redes sociais), a capacitação teórica e prática desses netweavers para que conheçam os fundamentos do projeto e saibam aplicar as novas tecnologias de netweaving, a instalação de uma ágora cocriativa (chamada Praça do Futuro) em cada localidade, sessões semanais de cocriação de ideias de melhorias para a sua localidade e sua transformação em projetos viáveis que podem ser desenvolvidos e realizados por comunidades de projeto (clusters conformados pelos seus cocriadores), tudo desembocando em um grande festival de ideias e projetos em cada localidade, chamado de Festa do Futuro. 

Quanto esse processo estiver sido implantado em todas as localidades haverá uma Festa do Futuro de toda a cidade. A partir daí as comunidades de projeto continuarão trabalhando normalmente, captando recursos e aglomerando competências para realizar seus projetos, em parceria com a prefeitura, com a iniciativa privada, com as organizações da sociedade civil e com as pessoas. O processo prevê em seguida a atração de voluntários para levantar os ativos existentes - recursos de toda ordem que podem ser usados para a realização dos projetos que surgiram - por domicílio (todos os domicílios), o que será aproveitado também para articular as redes locais e consolidar as Praças do Futuro como novos espaços públicos sociais em cada localidade. Serão promovidos intercâmbios entre as comunidades de projeto das diversas localidades, visitas das pessoas de uma localidade às Praças do Futuro de outras localidades como meio de articular e animar a rede de toda a cidade. A instalação do processo estará concluída com um grande festival onde os resultados esperados e inesperados dos projetos em implantação serão apresentados, numa espécie de celebração geral da implantação da Cidade-Rede.

CIDADE-REDE PASSO-A-PASSO

Expõe-se a seguir uma descrição mais detalhada de cada passo, com seus respectivos requisitos.

Considera-se ecossistema a cidade. Considera-se localidade qualquer rede social delimitada territorialmente por algum critério (ainda que a localidade seja a sócio-territorialidade e não a porção geográfica habitada por uma população ou conjunto de indivíduos). O local é o cluster (ou seja, o aglomerado particular da rede social realmente existente: não a coleção dos indivíduos e sim o que está - ou ocorre - entre as pessoas, as configurações móveis dos seus relacionamentos recorrentes).

O primeiro passo do processo é a entrada dos agentes que vão aplicar o projeto em cada localidade, uma imersão de vários meses e uma efetiva conexão às redes sociais locais e não apenas uma visita ou um conjunto de visitas esporádicas.

Simultaneamente ao passo anterior haverá a sensibilização dos sponsors do projeto (chamados de apoiadores). A sensibilização será feita em uma série de conversas culminando em um encontro geral (incluindo pessoas de toda a cidade e não apenas de uma localidade) que podem ser aliadas de primeira hora do processo que será desencadeado. Essas pessoas serão inicialmente indicadas pelos parceiros do projeto (notadamente a prefeitura) além das novas pessoas indicadas por elas. A elas será explicado todos os fundamentos do processo, as suas oportunidades, vantagens, ameaças e riscos. Elas não serão necessariamente patrocinadoras ou agentes da execução do projeto e sim uma espécie de padrinhos. Os apoiadores serão permanente informados sobre o andamento do projeto e terão acesso a uma mídia social específica para esse fim.

A seleção dos netweavers (os agentes articuladores e animadores de redes que serão os executores endógenos do projeto) será feita por localidade, a partir de indicações dos apoiadores e também em um grande encontro (em cada localidade e que deve contar com pelo menos 1% das pessoas da localidade). O critério principal para a seleção é o desejo de fazer o trabalho e não o nível de escolaridade ou outros atributos sociais, econômicos e políticos. Recomenda-se que os netweavers não sejam agentes políticos (cabos eleitorais, militantes partidários, funcionários governamentais) ou religiosos (pastores, padres, freiras etc.). Serão selecionados, em média, cerca de 5 netweavers por localidade. Embora não haja um número máximo (quanto maior o número de netweavers, melhor), há um número mínimo (pelo menos 3 agentes, que devem conformar um embrião de rede em cada localidade).

A equipe dos netweavers de cada localidade será capacitada nos principais fundamentos da nova ciência das redes, naqueles conhecimentos derivados que têm mais a ver com as bases conceituais do projeto e, sobretudo, no que se refere às habilidades práticas que qualificam alguém como netweaver (capacidade de atuar como "tecelão": viabilizando novas conexões entre as pessoas, removendo obstáculos aos fluxos e estimulando a ajuda-mútua e a cooperação). A capacitação dos netweavers não será, portanto, apenas teórica. Eles também aprenderão na prática, de forma continuada ao longo de todo o processo, técnicas interativas presenciais e virtuais (como Open Space Technologie, Interactive Co-Creation, Netweaving em Plataformas e outras).

Em cada localidade será instalada uma ágora cocriativa chamada Praça do Futuro. As pessoas serão convidadas pessoalmente (pelos netweavers) para comparecer nesses novos ambientes levando suas ideias para melhorar sua localidade (ou a cidade como um todo). Haverá uma pergunta-básica inicial para desencadear essas sessões - que deverão ser no mínimo semanais - de cocriação de ideias e projetos: "Se você pudesse mudar apenas uma coisa para melhorar sua localidade, que coisa seria esta?". A partir daí as pessoas vão entrar no processo cocriativo como se explicará no passo seguinte.

A Praça do Futuro pode ser instalada numa praça mesmo (desde que protegida da chuva e do frio), no mercado, numa associação ou igreja ou em qualquer outro lugar que esteja disponível e que possa ser configurado para os fins pretendidos.

A configuração física do ambiente é importante. Pequenas mesas com cadeiras móveis, flipcharts (ou folhas de flipcharts para cada mesa), pincéis atômicos, canetas hidrográficas e esferográficas, post its de várias cores e tamanhos, tesoura, cola, fita adesiva.

É muito importante que a arquitetura do interior e o mobiliário desestimulem a formação de reuniões grandes e assembleias. O ambiente deve possibilitar a interação (conversação) sobre ideias diversas e não sobre uma ideia. As Praças do Futuro não são palcos para discussão e, muito menos, para discursos. O trabalho cocriativo que nelas se realizará obedece a outra dinâmica: partindo do desejo de fazer, convoca das pessoas o futuro e não o passado (1)

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(1) Para entender como configurar ambientes de cocriação interativa clique aqui

Para assistir vídeos de diversos ambientes de cocriação em funcionamento clique aqui

Para conhecer as bases teóricas da cocriação interativa clique aqui

 

Nesse passo os netweavers convidam as pessoas para comparecer às sessões de cocriação que ocorrerão regularmente (de preferência semanalmente) na Praça do Futuro de cada localidade. Como já foi dito na descrição do passo anterior as pessoas são estimuladas a trazer sua ideia capaz de melhorar a vida ou a convivência social da localidade (ou da cidade). As pessoas são recebidas pelos netweavers e sentam nas diversas mesas onde escrevem qual a ideia que gostariam de desenvolver. O processo de aglomeração em torno de ideias que se sintonizam acontece naturalmente. Depois de algum tempo cada mesa estará conversando e desenvolvimento uma ideia. Com o tempo os mesmos grupos cocriativos que se conformaram para desenvolver uma ideia acabam constituindo uma comunidade de projeto. E também emergem espontaneamente da interação aqueles que cumprirão o papel de catalisadores dessas comunidades de projeto, sem a necessidade de eleger responsáveis ou indicar líderes.

Os netweavers ajudarão os grupos cocriadores que se formarem a desenvolver seus projetos (o que inclui todos os já conhecidos passos de prototipagem, teste etc. mas - muito importante - sem impor uma metodologia específica que seja obrigatória: nada de máquina, pois não há linha de montagem para a inovação, só para a reprodução).

Não haverá, em qualquer hipótese, discussão sobre os problemas da localidade ou sobre os responsáveis por tais problemas. O acordo implícito em qualquer processo de cocriação é deixar tudo isso no passado e colocar o foco no futuro, na criação da solução. Também não haverá, em hipótese alguma, o levantamento de demandas para levar à prefeitura, ao governo estadual ou federal ou a alguma instituição. Em geral tal dinâmica reivindicativa não se instala em ambientes de cocriação, mas aos primeiros sinais de que isso possa ocorrer os netweavers interromperão imediatamente o trabalho. Eles estão orientados a desmanchar qualquer grupo de discussão que se formar, qualquer roda geral de conversa sobre problemas. A tônica é a da cocriação.

Para assegurar a configuração de campos de cocriação interativa com tais características é fundamental que a iniciativa não apareça como um programa governamental, sobretudo da prefeitura e sim como uma iniciativa conjunta de várias entidades (dentre as quais a prefeitura, como parceira).

Depois de cerca de 10 a 12 sessões de cocriação interativa na Praça do Futuro, haverá uma espécie de festival de ideias, chamado Festa do Futuro, em cada localidade. Nesta festa serão apresentadas as ideias que estão sendo cocriadas, as ideias que já estão virando projetos e os projetos que já conseguiram nascer. Todas as pessoas da localidade serão convidadas e não apenas os cocriadores de ideias. É importante que haja um estímulo em recursos para as ideias que conseguiram ficar de pé (mesmo que ainda não tenham virado projetos viáveis). Pode ser um seed-money fornecido pelos parceiros ou patrocinadores do programa ou algum outro tipo de recurso que incentive o desenvolvimento da ideia ou a realização do projeto. Não é financiamento. Não se deve retirar de cada comunidade de projeto a oportunidade de aprender ao captar recursos para a sua concretização pois isso faz parte do processo de desenvolvimento que a iniciativa pretende desencadear.

Se o processo começar em duas ou três localidades (consideradas piloto), haverá uma expansão para as demais localidades da cidade após as primeiras Festas do Futuro. Nas novas localidades repete-se a mesma sequência de passos descrita anteriormente (do passo 3 ao passo 7).

Terminada a sequência de passos em cada localidade, ou seja, quando todas as Festas do Futuro tiverem sido realizadas, é hora de juntar tudo em uma grande Festa do Futuro de toda a cidade. Neste festival só poderão participar os projetos (ou seja, as ideias que foram desenvolvidos a ponto de ficar em pé ou poderem ser realizadas). Cabe notar que, enquanto isso, o processo continua em cada localidade: ou seja, as sessões regulares (semanais) de cocriação nas Praças do Futuro e as Festas do Futuro locais. Para essa grande Festa do Futuro da cidade é interessante instituir uma premiação dos projetos, cuidando porém para não criar um clima competitivo entre os projetos: na verdade eles não concorrem entre si de modo exclusivo e sim inclusivo, quer dizer, se completam, descobrem sinergias e se combinam. Não raro aparecerão projetos bem semelhantes provenientes de localidades distintas.

Logo após a Festa do Futuro de toda a cidade, investe-se mais intensamente na materialização dos projetos. Para tanto, a primeira providência é levantar, em cada localidade, os ativos de toda ordem que existem, em grande parte, em estado latente. São recursos humanos (capacidades, habilidades), sociais (inclusive culturais) e materiais mesmo (espaços e equipamentos, em funcionamento ou ociosos, públicos ou privados). Toda localidade possui esses ativos que jamais (ou muito raramente) são identificados, levantados e dinamizados. O levantamento dos ativos locais deve ser feito, preferencialmente, por domicílio. Cabe aos netweavers seduzirem mais voluntários (novos netweavers) para ir de casa em casa fazer tal levantamento. Esses recursos, em conjunto, representam um verdadeiro "tesouro enterrado" que, se forem monetizados, para efeitos demonstrativos, revelarão a imensa riqueza de cada localidade.

O levantamento dos ativos mencionado no passo anterior não tem prazo para terminar. É uma atividade constante, faz parte do processo contínuo de fund raising para realizar os projetos que vão surgindo nas ágoras cocriativas (Praças do Futuro). Mas é também um excelente pretexto para articular e ampliar as redes em cada localidade. Ou seja, essas redes não podem conectar apenas as pessoas que, eventualmente, comparecem nas Praças do Futuro e nas Festas do Futuro: elas devem conectar pelo menos uma pessoa de cada residência, de cada estabelecimento empresarial, de cada associação da sociedade civil e do próprio governo local. Ao serem visitadas em seus próprios domicílios as pessoas têm a oportunidade de saber o que está acontecendo e de estreitar laços de relacionamento com seus vizinhos. A topologia da rede local fica mais distribuída, mais conectada e mais interativa - o que é o objetivo central do processo.

Depois de alguns meses de funcionamento as Praças do Futuro vão se tornando atratores na rede local. Os fluxos da convivência social vão formando redemoinhos em torno desses novos lugares. Os caminhos urbanos vão sendo desviados pela atração gravitacional das Praças do Futuro e as pessoas vão se acostumando a passar por lá, não apenas nos dias de atividade de cocriação e sim a qualquer hora, simplesmente para conviver, pedir informações, dar informações, propor eventos. Uma nova institucionalidade não-formal começa a emergir: um novo espaço público-social (não-Estatal) que foi publicizado pelo processo de rede, bottom up, se consolida como referência para a vida coletiva, quer dizer, para a vivência social da convivência humana (e - eis o ponto fundamental - simultaneamente para a vivência humana da convivência social). Esta é a condição para que a cidade venha a ser uma rede de comunidades.

A articulação da chamada rede da cidade é uma consequência de todo o processo descrito nos passos anteriores. O estabelecimento de múltiplos atalhos entre os clusters locais é a chave para a conformação dessa rede. Tais atalhos são estabelecidos quando pessoas que estão envolvidas em um projeto em uma localidade passam a interagir com pessoas envolvidas em projetos de outras localidades. O caráter público social da cidade é um atributo do poder da rede, não a declaração normativa de que a coisa é pública porque estatal. Isto é a Cidade-Rede.

 

Embora não se possa prever de antemão um prazo para a Cidade-Rede acontecer, posto que ela é função dos níveis de interatividade alcançados, uma grande celebração simbólica da Cidade-Rede pode ser programada. Neste evento, que também é um festival de ideias e projetos, serão apresentados os novos caminhos que foram estabelecidos na cidade, os novos relacionamentos que foram estabelecidos a partir da associação de pessoas para contender com um problema ou realizar um desejo compartilhado, as novas amizades que foram feitas (inclusive com depoimentos pessoais e coletivos, reportagens, vídeos feitos pelos netweavers, pelos parceiros - inclusive pela prefeitura - e, pelas próprias pessoas). O espírito é o de celebração mesmo e de festa e não de apresentação de relatórios com resultados ou de comício. A celebração será organizada por voluntários de todas as localidades.

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