Escola de Redes

FESTIVAL DE IDEIAS (2011-2013)

O QUE FIZEMOS NO FESTIVAL DE IDEIAS

Publicado originalmente no Facebook em 30 de abril de 2013

Escrito entre 15h00 e 18h00, durante a sessão de cocriação de terça-feira 30 de abril de 2013 no LABE=R. Enquanto as pessoas conversavam (sobre vários assuntos), eu ia escrevendo (ao vivo).

Uma frase que resume tudo. Tudo que estamos fazendo, estamos fazendo para fazer acontecer o que estamos fazendo!

Em outras palavras: não estamos fazendo nada para acumular forças, conquistar mais prestígio, adensar o currículo para fazer outra coisa diferente do que estamos fazendo.

Não estamos nos esforçando para produzir alguma coisa conhecida, gerar um produto (que saia da máquina conforme o que foi projetado), obter algum resultado (que surja do processo atendendo a uma expectativa, a uma coisa já esperada). O resultado é o processo. E o processo visa apenas nos manter vivos em mundos com crescente interatividade.

Isso é o mais difícil de ser entendido, inclusive pelas pessoas mais empolgadas com a iniciativa.

Vamos recordar. Começamos em 2011, com um grande evento na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. A ideia, naquela época, era fazer uma espécie de concurso (daí o nome “festival”, como um festival de música, só que ideias). Então organizamos as coisas pensando nisso. Criamos uma plataforma para as pessoas inscreverem suas ideias. Mais de 300 ideias apareceram em três semanas (putz!, que sucesso!). As ideias apresentadas foram selecionadas por um comitê de curadores e seus autores foram então convidados para o encontro. Um corpo de jurados, juntamente com todos os participantes, escolheram algumas ideias (que lhe pareceram as melhores). As ideias escolhidas ganharam então um prêmio (em dinheiro) para apoiar o seu desenvolvimento.

Bem, mas naquele primeiro encontro aconteceu uma coisa muito importante: antes da apresentação das ideias, as pessoas que se agruparam em torno das ideias selecionadas começaram a experimentar um processo inédito de cocriação interativa, sem metodologia predeterminada. Deu certo. Para nós – os chamados curadores – foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, constatamos em seguida.

Aprendemos assim, no primeiro evento do Festival (para nós, naquela época, era apenas um evento precedido pela apresentação de ideias), as potencialidades da cocriação livre, aberta e interativa.

Em 2012 repetimos a dose, dando porém mais ênfase ao processo cocriativo. Inauguramos, na sede do Centro Ruth Cardoso, entidade promotora da iniciativa, sessões semanais de cocriação. Abolimos os prêmios, substituindo-os por um investimento-semente de valor variável (dependendo do número de ideias que conseguissem ficar de pé ao final de cada encontro). Abolimos o corpo de jurados: os curadores passaram a atuar como netweavers e se reuniam antes (para selecionar as ideias que deveriam ir para o encontro e durante o processo cocriativo realizado no próprio encontro). Aliás, nos encontros. Fizemos dois grandes encontros em 2012: em agosto no Auditório do Ibirapuera e em novembro no Museu da Casa Brasileira.

Aprendemos assim que sem estimular a competição, a concorrência, o interesse em receber um prêmio, o processo pode funcionar. E funcionar melhor!

Em 2013, introduzimos mais modificações. Distribuímos os espaços de cocriação por lugares diferentes de São Paulo: quase todos os dias da semana tem. Praticamente acabamos com a tal curadoria (sem dispensar os curadores), pois agora não há mais seleção prévia de ideias. Todas as ideias que se inscreverem para o encontro de 2013 podem ir lá para ser cocriadas no encontro se habilitando a receber o investimento-semente. Mais importante ainda: cocriamos um site indexador para as pessoas inscreverem suas ideias para o encontro, desde que elas tenham publicado essas ideias em qualquer lugar de sua preferência na Internet (fornecendo o link correspondente). Em outras palavras: mantivemos a antiga plataforma do Festival, mas acabamos com a centralização. A pessoa pode publicar sua ideia no Facebook, no Google+, num blog, site ou plataforma.

O novo encontro acontecerá nos dias 12 e 13 de junho 2013, novamente na Cinemateca Brasileira. 

Mas em 2013 já estamos aprendendo muita coisa. E o mais importante desse aprendizado, a meu ver, é o aprendizado de deixar-ir.

Cada ação que fazemos não tem outro objetivo além daquele que está contido na própria ação. Se dessa ação sair alguma linha de desenvolvimento capaz de reforçar uma próxima ação, ótimo. Mas cada coisa de uma vez.

Como escreveu o Paulo Brabo (2007), na sua bela homilia herética “Microsalvamentos: como salvar o mundo um instante de cada vez”:

“O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da existência em grandes e eficientes vassouradas. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desentupir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez. O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas... O único modo verdadeiramente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dispendioso, frustrante e tremendamente lento dos microsalvamentos: redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez. Os microsalvamentos não são glamurosos, não são definitivos, não dão manchete e não são recompensadores. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empurramos até o topo hoje terá deslizado invariavelmente o morro amanhã, e amanhã haverá outras. Não temos infelizmente o chamado ou a capacitação para salvar o amanhã, o que nos pareceria infinitamente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impensável tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insuportável, irredimível momento”.

Uma sessão de cocriação se justifica pelo que acontece lá. O que acontece lá não pode ser avaliado pelo número de pessoas que comparecem (“a pessoa que vem é a pessoa certa”), pelo número de ideias que são cocriadas, pela importância atribuída por alguém a uma ou outra ideia. Na verdade, o mais importante é a configuração do ambiente. Não é bem um evento ou uma sucessão de eventos: é um ambiente, um espaço-tempo configurado de maneira favorável à emergência da criatividade coletiva. É um espaço, sim, mas com um tempo associado... Às vezes a gente não presta a devida atenção a esse “detalhe”. Tudo tem um tempo para acontecer, nada dura para sempre.

Um encontro também se justifica pelo que acontece lá. O que acontecer lá “é a única coisa que poderia ter acontecido”. 

O próximo encontro de 12 e 13 de junho de 2013 será bom? Juntará muita gente? Terá muita repercussão? São perguntas tolas: esse encontro será o que será. Será diferente, por certo, do que foram o primeiro encontro de 2011 e os dois encontros de 2012. Ainda bem.

Haverá outro encontro em 2014? Quem sabe? Durará essa iniciativa do Festival de Ideias até 2020 ou 2030? Muito improvável. Nada dura para sempre.

Tenho notado que organizações hierárquicas ficam muito incomodadas com essa maneira de ver as coisas. Afinal, elas precisam alcançar resultados esperados. Elas precisam reforçar seu currículo institucional. Elas precisam de propaganda. Tudo isso já era esperável... O que não é esperável é que nós, os netweavers, os entusiastas do processo de interação livre, também fiquemos preocupados com essas coisas.

P. S. 20/12/2013 | O encontro aconteceu. E, de certo modo, confirmou as expectativas e, também, as preocupações.

 


Cocriação no Museu da Casa Brasileira from festivaldeideias on Vimeo.




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