Escola de Redes

Publicado originalmente na E=R em 30/03/2009

Já indiquei aqui - no meu Itinerário de Leituras Fundamentais - um livro importantíssimo da bióloga Lynn Margulis (1998): “O Planeta Simbiótico: uma nova perspectiva da evolução”. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. Mas agora quero falar de outro texto, também indicado no mesmo itinerário, que estou relendo: Margulis, Lynn & Sagan, Dorion (1998). “O que é a vida?”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002:


Simplesmente fantástico! E muito interessante para quem está dedicado a estudar as relações entre sustentabilidade e o padrão de rede. Uma coisa que chama a atenção são as misteriosas redes de fungos (um dos 5 reinos de organismos vivos: os Mychota; os outros quatro são Monera (bactéria), Protoctista, Animalia e Plantae). "Durante mais de 400 milhões de anos - escrevem Margulis e Sagan - seus esporos [dos fungos] têm-se assentado e espalhado redes micelianas por um vasto sortimento global de alimentos".

O mais interessante disso tudo, porém, é - a meu ver - o processo em rede.

Como Margulis observou, "os fungos são organismos realmente fractais", que fazem sexo por conexão ou conjugação de hifas (que são tubos que se assemelham aos cabos de rede que utilizamos hoje em dia para conectar nossos computadores) e existem "em extensas redes inacessíveis à visão, situadas abaixo do solo. Grandes micélios de hifas que saem em busca de alimentos prosperam sob as árvores das florestas. Os filamentos vivos chamados hifas tendem a se fundir. Depois de "praticar o sexo", acabam formando cogumelos ou tecidos bolorentos que, por sua vez, sofrem meiose e formam esporos... Toda rede miceliana é um clone fúngico, o filho distante de uma única linhagem genética. Acima do solo, os fungos produzem esporos que flutuam no ar, alguns dos quais você por certo está inalando neste momento. Quando pousam, os esporos crescem onde quer que seja possível. Fazendo brotar redes tubulares, as hifas, no substrato úmido, novamente os fungos produzem quantidades copiosas de esporos, os quais se disseminam, espalhando sua estranha carne pelo solo que ajudam a criar".

Fiquei pensando nesse processo pelo qual as conexões produzem esporos, que geram mais conexões, criando por replicação novos ambientes. Taí uma boa imagem para as relações entre rede distribuída e sustentabilidade. Não se trata de crescimento de um indivíduo ou mera replicação e sim, em alguns casos, de simbioses que aliam reinos distintos, dando origem a novos seres, como as 25 mil espécies diferentes de líquens, resultados da união entre fungos e algas verdes ou entre fungos e cianobactérias.

Margulis e Sagan escrevem que "o resultado [dessa] simbiose, longe de ser previsível pela simples adição, é uma surpresa não-cumulativa. Com tantos líquens diferentes, cada qual representando um encontro permanente entre um fungo e uma forma biológica fotossintética, a expressão "relacionamento de longo prazo" assume um novo significado... De algum modo, as algas e os fungos sentem a presença do corpo inteiro um do outro, formando uma parceria empreendedora e complexa que depende da história da relação. Como as células dos animais, as células de algas e fungos de um líquen comunicam-se metabolicamente. Diversamente da maioria dos animais, entretanto, o tamanho e a forma de qualquer variedade de líquen não são fixados com precisão, e a extensão da complexidade de seus tecidos restringe-se a uma ou poucas camadas de tecido. Todavia, os líquens ultrapassam os animais em longevidade: um dado líquen pode ter quatro mil anos de idade".

Para Margulis, tudo isso é evidência de que "a vida pode surgir repentinamente, de um salto, quando partes separadas se unem" (a simbiogênese). Isso significa que a vida - ou a propriedade autopoiética - nasce por conexão. Como metáfora, para nós, interessados em descobrir no "subsolo" disso que chamamos de sociedade aquelas "conexões de hifas" que ocorrem no invisível espaço-tempo dos fluxos, tudo isso não é nada menos do que excelente!

Bem, mas o livro "Que é vida?" também é importante para detonar os nossos modelos antropocêntricos ou "zoocêntricos" (do reino Animalia) ou, ainda, "fotossíntese-cêntricos" (da turma da preservação do verde, quer dizer, do reino Plantae) que se imaginam salvando o planeta por meio do proselitismo ambientalista.

É... Esse pessoal não presta muita atenção às grandes linhagens vivas que estão aí há 4 milhões de anos (como as bactérias), que não são - ao contrário do que se propaga - "menos evoluídas" do que nós, os animais e do que as plantas (que, aliás, são mais recentes do que nós). E também não presta atenção aos protoctistas e aos fungos. Margulis ataca: "todas as espécies existentes são igualmente evoluídas. Todos os seres vivos, desde a minúscula bactéria até o membro de um comitê do Congresso, evoluiram do antigo ancestral comum que desenvolveu a autopoese e que, com isso, tornou-se a primeira célula viva". Não há superioridade de uns em relação aos outros. E duvido muito que nossa forma de reprodução por formação de embriões (dos animais e das plantas) seja melhor - em termos de sustentabilidade - do que a conexão fúngica que ocorre na escuridão e solta esporos na claridade...

Vamos tomar um exemplo. A poluição. A maior catástrofe ambiental já ocorrida no planeta, que ameaçou quase todas as formas de vida então existentes, foi a liberação e a concentração do Oxigênio na atmosfera. Trata-se, como sabemos, de um gás instável (comburente), corrosivo e extremamente venenoso que chegou a alcançar a impressionante concentração de 20%. Todas as formas de vida existentes (à época do reino Monera) tiveram que se adaptar a essa terrível poluição. Se não fosse tal adaptação não existiríamos. Certamente outros seres (capazes de "respirar" metano, por exemplo) ocupariam hoje o nosso lugar. Não seriam seres inferiores, nem superiores, a nós. Seriam outros.

Margulis argumenta que "é um desejo compreensível, mas impossível, preservar o planeta em seu estado "original". A natureza prístina a que alguns gostariam de voltar não é eterna, mas o mundo verde sustentou tão esplendidamente nossos ancestrais que eles o superpovoaram. Além disso, o estrago humano dos meios ambientes exuberantes que nos nutriam não constitui prova de qualquer capacidade singular de pôr em risco toda a vida na Terra. No passado, nenhuma espécie isolada jamais ameaçou todas as outras. Qualquer tendência de uma espécie a crescer em demasia e causar devastação era contida por todas as demais. A essência da "seleção natural" está em que as tendências irrefreáveis de uma população a crescer, a ponto de causar degradação ambiental, são contidas pelo crescimento das outras. A expansão da população humana segue as mesmas regras: o ambiente degradado gera doenças, altos índices de mortalidade e, em última instância, até mesmo a extinção".

A vida existe na terra há 4 bilhões de anos. Mas não durará para sempre. Nada dura para sempre. A atmosfera do nosso planeta deixará de ser favorável à biosfera - a capa viva de 30 km que o envolve - em meros 100 milhões de anos (em virtude do aumento do calor do sol). E nem nosso sol, do qual toda vida depende, continuará produzindo a vida indefinidamente (ele deixará de fazer isso quando deixar de ser uma estrela amarela, daqui a aproximadamente 5 bilhões de anos). E nem nossa galáxia (em rota de colisão, inevitável, com a galáxia de Andrômeda, a 125 km por segundo: o desastre ocorrerá nos próximos 10 bilhões de anos) sobreviverá como tal. Não devemos achar que essas durações astronômicas estão em outra ordem de grandeza: em relação à vida na terra, já estamos no fim; e em relação ao sol estamos quase no meio do caminho.

Temos dificuldade de aceitar essas coisas porque nossa consciência de predador foi formada como uma recusa em aceitar a morte (tanto a morte do indivíduo, quanto a da espécie). É uma conseqüencia evolutiva da nossa forma sexuada de reprodução, que não preocupa, por exemplo, as bactérias - de longe os seres vivos mais expressivos. Como a própria Margulis nos mostrou, a morte é a primeira doença sexualmente transmissível (DST). Seres que não têm reprodução sexuada (e aqui entra todo o imenso reino Monera, sem o qual não conseguimos existir, até hoje) não têm morte programada (só podem morrer por acidente ou em virtude de uma catástrofe ambiental - como, por exemplo, aquela poluição pelo Oxigênio). "As bactérias - ela reconhece - tomaram conta do mundo e ainda o dirigem, usando seu metabolismo planetário descentralizado [ela queria falar, na verdade, distribuído] e sua capacidade de transferência genética mundial intra-específica... A vida na Terra é uma holarquia, uma rede fractal aninhada de seres interdependentes".

Imaginando-nos seres superiores, mais evoluídos e vivendo em uma cultura microfóbica, não aceitamos pensar a nós mesmos "como uma permutação simbiótica de bactérias". Sim, somos - nós e o ambiente em que vivemos - redes de seres microscópicos, comunidades de microorganismos. "Os seres humanos são colônias integradas de seres ameboides, assim como os seres amebóides - os protoctistas - são colônias integradas de bactérias. Queiramos ou não, viemos do lodo".

Mas tem muito mais coisa no livro, como, por exemplo, a evidência de que não há vida sem poluição (como estrutura dissipativa, um organismo vivo deteriora termodinamicamente o ambiente em que vive). Ou o processo pelo qual predadores se tornam simbiontes (no caso dos primeiros protistas isso fica mais ou menos claro, quando uma infecção mortífera transforma-se numa parte do corpo, as bactérias passam de patógenos virulentos a organelas necessárias). E por aí vai.

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Respostas a este tópico

Ainda ontem eu estava imaginando como os livros, em minha casa, brotam do mesmo modo que fungos nas madeiras das estantes que um dia foram árvores vivas. E que ultimamente, em vez de brotar nas estantes, na forma de derivados da celulose, eles (os novos/velhos livros) brotam nas nuvens, na forma de bites infinitos.

Hoje, esta foi a minha primeira leitura do dia. Embora eu tenha me inscrito neste grupo há algum tempo, só agora foi possível abrir um espaço, em outras palavras estabelecer alguma conexão efetiva. E que conexão...  

Alegra-me ingessar nesse grupo de discussão.

Estudar as idéias contidas nas obras de Margulis é estimulante, pois, motiva o mergulho nas obras de outros autores para amarrarmos os nós e descortinarmos a rede de informações que dá sustentação ao pensamento. A meu ver, as obras de Margulis são complementares, embora possam ser estudadas separadamente.

Iniciar com a leitura do livro O planeta simbiótico introduz o leitor nas suas idéias centrais: A terra é um planeta simbiótico; a vida evoluiu por simbiose; há cinco principais tipos de vida dos quais protoctistas, fungos, animais e plantas evoluiram através da simbiogênese; e, a reprodução sexuada trouxe consigo a morte programada.

O livro O que é vida, conforme o Augusto descreveu, nos informa sobre o surgimento da vida na terra e o processo evolutivo de cada reino, evidenciando "a teia da vida" que também é bem explicada por Fritjof Capra em seu livro de mesmo nome (A teia da vida). O livro de Capra permite que pessoas como eu - que tem pouca formação em Matemática e Física possam complementar as informações sobre alguns conceitos como modelos de auto-organização (pág. 73 - 98);  a matemática da complexidade, que inclui a geometria fractal (pág. 99 - 129) e, também sobre padrões de organização, na parte quatro do livro. 

Não sei,  exatamente, como participar das discussões, mas estou me propondo a ler o que disponho para conversarmos e, se alguém tiver alguma proposta, poderei seguir um roteiro de estudo para discussão.

Ops, achei que não tinha lido, mas encontrei comigo mesma há um ano atrás...lido, anotado e comentado rsss!

Deve ser a idade!

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