Escola de Redes

Fonte = http://www.saskiapsicodrama.com.br/Jacob-Levy-Moreno/jacobavida.html

 


Sua inspiração provinha das tradições antigas da filosofia grega e do drama clássico como catarse, embora fosse um profundo estudioso de sociologia e psiquiatria. Personalidade independente e megalomaníaca, ainda jovem fundou uma espécie de movimento espiritual , um teatro e uma revista próprios e, no ápice da carreira, possuía um hospital psiquiátrico, uma escola e uma editora.

Moreno encontrava-se isolado na propagação de métodos de psicoterapia de grupo. Não conseguia submeter-se às restrições de instituições. Também não se preocupava em associar seu nome a sua produção: suas primeiras obras foram publicadas anonimamente; freqüentemente suas idéias acabavam permeando a cultura geral.

Moreno descendia de uma família de judeus sefaraditas que da Espanha havia-se refugiado na Turquia. Otimismo e fervor religioso eram parte da vida desses judeus e é dentro deste contexto que podemos entender o estilo pessoal de Moreno – expressivo, carismático e criativo – e sua busca por níveis cada vez mais altos de espontaneidade, amor e bondade. Moreno acreditava que para o homem ser amoroso e bom, precisava tentar imitar as qualidades de Deus, pois só Ele era bom.

Sua vida: infância e adolescência

Jacob Levy Moreno nasceu em 1889, na Romênia. Sua mãe, Pauline, teve-o com apenas 16 anos. Era uma mulher fervorosa, cheia de idéias e sonhos, grande contadora de histórias, versátil em idiomas. A ela cabia a transmissão das tradições judaicas no lar. Seu pai, Nissim, era sério e autoritário. Ausentava-se muito de casa e iniciou sem sucesso diversos negócios.

Aos seis anos de idade, Moreno se mudou com a família de Bucareste para Viena. Com o pai cada vez mais ausente, Jacob, o primogênito de seis filhos, acabou assumindo uma posição especial de autoridade. A família era tradicional e Moreno fez seu barmitzvá em uma sinagoga sefaradita em Viena. Quando estava com quatorze anos de idade, em 1903, seu pai fez uma última tentativa de manter a família unida e de prover o seu sustento, mudando-se para Berlim.

Moreno voltou a Viena sozinho para dar continuidade a seus estudos, e se sustentava trabalhando como tutor, sendo bem sucedido nesse trabalho com jovens. Enquanto isso, os negócios do pai em Berlim fracassaram.O casal acabou separando-se definitivamente: o pai mudou-se para Istambul e a mãe voltou para Viena. Após a separação, Jacob continuou a viver sozinho; havia-se tornado rebelde; deixara crescer a barba, largara a escola e vivia uma vida errante e boêmia.

Durante a adolescência, importantes leituras marcaram o jovem Jacob: a Bíblia, o Zohar, assim como os filósofos Agostinho, Pascal, Spinoza, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche e os autores Dostoievski, Tolstoi e Goethe. Ele foi particularmente influenciado pelo misticismo judaico e pela Cabala, com seu postulado central de que toda a Criação é uma emanação da Divindade. 


Origem do psicodrama e dos grupos de encontro

O jovem Moreno se sentia uma espécie de “escolhido”. Sua barba ruiva lhe dava um aspecto paternal e sábio, apesar da pouca idade. Seus olhos azuis pareciam ler a mente de seus interlocutores. Toda sua pessoa transmitia ternura, bondade e altruísmo. Sua conduta o havia tornado conhecido e era procurado por pessoas com problemas. Fiel ao papel que criara para si, usava sempre um longo manto verde, no inverno e no verão. Pregava a santidade do ser, a auto-perfeição, a ajuda e a boa ação cumprida no anonimato.

Aos dezenove anos, em 1908, estava matriculado na Faculdade de Medicina de Viena. Neste período, seu passatempo predileto era caminhar pelos parques da cidade reunindo crianças e formando grupos de brincadeiras de improvisação. Costumava contar-lhes contos de fadas. Nunca repetia a mesma história, para manter a sensação de encantamento. Ao trabalhar com as crianças, Moreno queria lhes proporcionar meios de lutar contra os estereótipos da sociedade, mantendo a espontaneidade e criatividade.

Cultivava a idéia de um universo primordial, onde se situavam os modelos de um mundo melhor. Queria mostrar como um homem com sinais de paranóia, megalomania, exibicionismo e outras formas de desajuste individual e social não era um doente mental, mas podia ser alguém controlado e saudável. E podia ser mais produtivo se “representasse” seus sintomas , como um ator numa peça, em vez de reprimi-los ou resolvê-los. Nisso ele antecipava o papel de protagonista do psicodrama de sua própria vida.

Entre 1908 e 1914, Moreno e cinco seguidores que compartilhavam seus ideais, viviam na comunidade . Não aceitavam remuneração por seus serviços e tudo que recebiam como gratificação ia para a Casa do Encontro, um local criado para abrigar refugiados que, nos anos tumultuados precedentes à Primeira Guerra Mundial, transitavam por Viena em busca de um novo lar nas Américas ou em Eretz Israel.

A Casa de Encontro era um local onde as pessoas eram ajudadas e assistidas pelo tempo necessário. Todas as noites havia sessões de “grupos de encontro” em que eram discutidos os problemas e desfeitos os ressentimentos. Após compartilhar os sentimentos, as pessoas cantavam e dançavam e os encontros eram uma experiência muito alegre.

Esses reuniões foram os modelos dos grupos de encontro que se espalharam mais tarde pelo mundo. Em seguida Moreno estendeu este método de terapia a um dos grupos mais problemáticos da sociedade: o das prostitutas. Assim elas puderam ajudar-se mutuamente. Conseguiram advogados para defendê-las e médicos para as tratar.

Posição filosófico-religiosa

As principais correntes ideológicas do século XX rejeitavam a religião e repudiavam a idéia de uma comunidade baseada no amor, altruísmo, bondade e santidade. Ao contrário, Moreno se colocou do lado de uma religião positiva. Sua ideologia se baseava em três princípios. O primeiro dizia que a espontaneidade e a criatividade são as verdadeiras forças propulsoras do progresso humano; mais importantes, em sua opinião, que a libido e as causas sócio-econômicas. O segundo dizia que o amor e o compartilhar mútuo são a base da vida em grupo. Enfim, o terceiro dizia que podia-se construir uma comunidade dinâmica baseada nesses princípios.

Após a Primeira Guerra Mundial, publicou “A filosofia do aqui e agora” e “As palavras do pai”, em que expõe sua posição filosófico-religiosa. A esta ele sempre se manteve fiel. Mas sua linha de pensamento foi relegada para segundo plano pelos círculos intelectuais. No entanto, sua filosofia era a base teórica das técnicas de sociometria, psicodrama e terapia de grupo, que foram universalmente aceitas fora do contexto ideológico que as inspirou. Já para Moreno, sua doutrina constituía a parte mais revolucionária de seu trabalho.

Em 1912, durante o curso de medicina, Moreno assistiu a uma conferência de Sigmund Freud. Num breve diálogo que conta terem mantido, ele afirmou: “O senhor analisa os sonhos de seus pacientes. Eu lhes dou coragem para sonhar de novo. O senhor os analisa e os despedaça. Eu os faço representar seus papéis conflitantes e os ajudo a reunir seus pedaços, de novo”.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) Moreno cuidou, como oficial médico, de um campo de refugiados nos arredores de Viena, cuja população era originária do Tirol do Sul e falava italiano. No campo desenvolveu-se uma vida comunitária completa. Através dessa experiência surgiu a idéia do planejamento sociométrico das comunidades e a busca de parâmetros de objetividade científica nas Ciências Sociais.

Em 1917 Moreno recebeu seu diploma de Doutor em Medicina pela Universidade de Viena. Seu diploma foi um dos últimos assinados pelo imperador Francisco José.

Teatro da espontaneidade

Na década de 1920, Viena era uma cidade muito estimulante para os intelectuais e artistas. Os cafés eram o local de encontro favorito. Moreno freqüentava com seu grupo o Café Museum, onde conheceu personalidades como Martin Buber, Arthur Schnitzler, Robert Musil e outros. Em 1918 iniciou a publicação de um jornal mensal de filosofia existencialista, o Daimon. Nele colaboraram vários intelectuais de seu círculo.

Ao mesmo tempo, Moreno se envolvia com o Teatro da Espontaneidade. Numa noite de 1911 passava a peça “Assim Falou Zaratustra”. Moreno e seus amigos, sentados na primeira fila, intervieram para despertar os atores e o público. Queriam chamar a atenção sobre os conflitos entre personagem e espectador e personagem e ator. O ator devia representar a si mesmo e não o personagem. Moreno dissertou, aos berros, sua teoria sobre um novo teatro, que representasse os problemas próprios do ator e do público, que fosse de total imaginação e criatividade, como o trabalho que ele estava realizando com as crianças nos parques de Viena.

Foi um escândalo, cuja conseqüência por sorte foi apenas uma noite passada na prisão. Mas serviu para abrir o caminho para a primeira sessão oficial de psicodrama, que se realizou num famoso teatro, em 1921. Na apresentação, Moreno tentava expurgar a platéia de uma doença que era o sentimento geral de descontentamento e revolta que pairava na Viena do pós-guerra. O público eram elenco e autor; a peça, sobre a situação.

O Teatro da Espontaneidade tornava-se uma forma de arte viável e um local de encontro para artistas e intelectuais conhecidos. Até pessoas de fora faziam questão de freqüentá-lo quando estavam em Viena. O material dramático era sugerido pela platéia ou surgia da cabeça dos atores.

Este teatro evoluiu para o teatro terapêutico. Notou-se que os atores, após representar seus papéis, lidavam melhor com seus problemas pessoais. E era mais fácil defender a espontaneidade num teatro terapêutico no qual as imperfeições e incongruências de um paciente mental são até esperadas e bem recebidas.

Nesses anos após a Primeira Guerra Mundial, Moreno clinicava como chefe do departamento de saúde numa pequena aldeia nos arredores de Viena, Voslau, onde se tornara o ‘Doutor do Povo”. Continuava não aceitando dinheiro dos pacientes que vinham consultá-lo. Sua paixão pelo anonimato o circundou de uma aura de prestígio e fama, e seu apelido tornou-se “Wunderdoktor” (o médico prodígio).

Mas em Viena as sementes do nazismo e do anti-semitismo começavam a germinar . Enfrentando como judeu a inveja e o desejo de vingança, além da crescente mediocridade da sociedade germânica da época, Moreno teve uma intuição: deixar a Europa e buscar refúgio nos Estados Unidos. Talvez a motivação da emigração não fosse unicamente a preocupação com a salvação e a segurança pessoais, mas também a urgência de encontrar um lugar adequado para a realização de seu trabalho.

A vida na América

Em outubro de 1925, Jacob Levy Moreno chegou a Nova York. Fora convidado para os Estados Unidos graças a uma sua invenção, o “Radio Film”, um disco de aço em que podiam ser gravados sons. O modelo da invenção foi patenteado e desenvolvido por uma companhia que lhe pagaria royalties.

Mas Moreno queria mesmo seguir sua vocação. Após uma demonstração da aplicação das técnicas de psicodrama para crianças com problemas, começou a trabalhar na clínica do Hospital Monte Sinai, em Nova York. Lá foram desenvolvidos e aperfeiçoados vários testes sociométricos e de espontaneidade. Depois o psicodrama foi levado às crianças do Plymouth Institute, no Brooklyn, uma instituição ligada à Igreja. Em 1927 recebeu a licença para o exercício da medicina nos Estados Unidos.

Tendo chamado atenção sobre o seu trabalho com as prostitutas de Viena, antes da Primeira Guerra Mundial, e com a comunidade dos refugiados italianos do Tirol, durante a guerra, foi nomeado diretor da Pesquisa Social do estado de Nova York, trabalhando em duas áreas, na prisão de Sing Sing e na N. Y. State Training School for Girls, em Hudson. O objetivo era tornar a prisão uma sociedade terapêutica e ajudar as jovens da Hudson School a prepararem-se para uma vida decente e digna.

A base do seu trabalho continuava sendo o Teatro da Espontaneidade e instituiu um “Impromptu Theatre”, no Carnegie Hall, em 1927.

Em 1936 fundou o Beacon Hill Sanatorium, seu próprio hospital para doentes mentais, e uma escola, em Beacon. Era um casarão branco comprado por US$ 2 mil, emprestados pelas filhas de uma paciente. O dinheiro da reforma do sanatório e da construção do teatro de psicodramaveio de outra paciente ilustre, Gertrude Tone, internada devido ao alcoolismo. O teatro de Beacon foi dedicado a ela. Nesses anos Moreno recebeu um importante apoio moral e financeiro de seu irmão William, que emigrara para a América pouco antes dele e era um empresário bem sucedido. Com sua ajuda foi montado, em 1942, um teatro de psicodrama, em Nova York, e uma editora, a Beacon House, para publicar os trabalhos de Moreno de forma independente e sem interferências. A revista Sociometry e a edição americana de The Words of the Father (Ética dos Pais) foram as primeiras publicações, seguidas depois por muitas outras.

Em 1938 se casa com Florence, com quem teve uma filha, Regina, mas esse casamento não deu certo.

Zerka, a companheira

Somente alguns anos mais tarde, em 1941, Moreno iria encontrar sua verdadeira companheira. Celine Zerka Toeman chegou ao consultório levando a irmã doente. Fugira da Europa nazista. Surgiram imediatamente um interesse e uma simpatia mútuos e uma necessidade um do outro. Zerka logo tornou-se uma colaboradora notável e insubstituível.

Em 1952 nascia o filho Jonathan. Os pais decidiram criá-lo de acordo com os princípios dopsicodrama e da sociometria.

Três anos depois Zerka começou a sentir fortes dores no ombro direito. Depois surgiu um nódulo. Recebeu durante anos tratamento para artrite. Só em 1957 foi diagnosticado um tumor maligno no ombro. A única solução era uma cirurgia radical.

Moreno, médico, sentia-se impotente e não se perdoava por sua ingenuidade e insensibilidade diante do sofrimento da mulher. Zerka estava arrasada. Ele só lhe pedia que preservasse o equilíbrio por causa do filho, assegurando-lhe que a amaria para sempre.

Após a cirurgia bem-sucedida, Zerka continuou trabalhando e assumindo tarefas cada vez mais importantes. Tornou-se uma administradora capaz, psicodramatista talentosa, pesquisadora sociométrica, escritora, editora, professora. Além disso, continuou dirigindo, costurando, datilografando e dançando.

Nos anos da Segunda Guerra Mundial, a sociometria, a terapia de grupo e o psicodrama tiveram aplicações práticas e um importante reconhecimento. Os funcionários da Cruz Vermelha recebiam treinamento psicodramático e sociométrico para tornar mais humano seu atendimento. Essas técnicas tiveram também um papel importante nas Forças Armadas britânicas. Foram usadas na seleção e no treinamento de soldados e para reduzir as perdas por problemas psicológicos. A psicoterapia de grupo tornou-se o tratamento preferido nos hospitais militares, não somente em vista do custo mais baixo, mas por tratar-se de uma terapia eficaz. “As pessoas ficam doentes num grupo; elas se recuperam melhor num grupo...”.

Acompanhado por Zerka, Moreno visitou inúmeros países para divulgar suas idéias e métodos terapêuticos. Entre seus livros destacam-se Sociometry, Experimental Method and the Science of Society, publicado em 1951, e Who Shall Survive?, revisto em 1953, e vários outros sobrepsicodrama.

Jacob Levy Moreno morreu em Beacon, em 1974, aos oitenta e cinco anos de idade.
 

Fonte: CUSHNIR, Luiz. J. L. Moreno – Autobiografia. São Paulo: Ed. Saraiva, 1997

 

A OBRA

 

Moreno nasceu em 1889, na Romênia (cidade de Bucarest). Viveu uma experiência interessante, que foi a brincar de ser Deus. Segundo ele, foi aí que surgiu a idéia de espontaneidade. Acreditava que no teatro existiam “possibilidades ilimitadas para a investigação da espontaneidade no plano experimental”. Com a criação do “ jornal vivo ”, estavam sendo lançadas as raízes do Sociodrama. Em 1931, introduziu o termo Psicoterapia de Grupo, onde teve sua origem científica. O Psicodrama foi introduzido no Brasil em 1930.

Segundo Moreno, o indivíduo deve ser concebido e estudado através de suas relações interpessoais. Ao nascer, a criança é inserida num conjunto de relações, primeiramente com sua mãe (que é seu primeiro ego auxiliar), seu pai, irmãos, avós, tios, etc.; este conjunto foi denominado de Matriz de Identidade.

O homem para Moreno é um indivíduo social, pois nasce em sociedade e necessita dos outros para sobreviver, sendo apto para conviver com os demais. Assim, ele criou a Socionomia, que significa o estudo das leis que regem o comportamento social e grupal.

A Sociodinâmica estuda o funcionamento (ou dinâmica) das relações interpessoais. Tem como método de estudo o role-playing, que permite ao indivíduo atuar dramaticamente diversos papéis, desenvolvendo deste modo um papel espontâneo e criativo.

A Sociatria constitui a terapêutica das relações sociais, e utiliza como método: a Psicoterapia de Grupo, o Psicodrama e o Sociodrama; como aplicação destes, Moreno vislumbrava a possibilidade de tratamento e de cura do social mais amplo. O Psicodrama é o tratamento do indivíduo e do grupo através da ação dramática. No Psicodrama de grupo o protagonista poderá ser um indivíduo ou o próprio grupo. A Psicoterapia de grupo prioriza o tratamento das relações interpessoais inseridas na dinâmica grupal. No Sociodrama, o protagonista é sempre o grupo e as pessoas estão reunidas enquanto mantêm alguma tarefa ou objetivo em comum
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A espontaneidade, a criatividade e a sensibilidade são recursos inatos do homem. Desde o início ele traz consigo fatores favoráveis a seu desenvolvimento, porém estes podem ser perturbados por ambientes ou sistemas sociais constrangedores.

Moreno não considerava o nascimento como um evento angustiante e traumático, concebendo o rebento humano como um agente participante desde esse momento. O fator E ou espontaneidade é a capacidade de responder adequadamente à situação, utilizada pela primeira vez no nascimento. O homem nasce espontâneo e deixa de sê-lo devido a fatores adversos tanto do ambiente afetivo-emocional (Matriz de Identidade e átomo social), quanto do ambiente social em que a família se insere (rede sociométrica e social).

A Revolução Criadora moreniana propõe o rompimento com os padrões de comportamento, valores e formas estereotipadas de participação na vida social, que acarretam a automatização do homem (conservas culturais).

Para que tenhamos o prazer de nos sentirmos vivos é preciso que nos reconheçamos como agentes de nosso próprio destino. A espontaneidade é a capacidade de agir de modo “adequado” diante de situações novas, procurando transformar seus aspectos insatisfatórios.

Para promover mudanças no ambiente, pensamos e agimos em função de relações afetivas, mesmo que não o façamos conscientemente.

A possibilidade de modificar uma dada situação implica em criar, e a criatividade é indissociável da espontaneidade (esta permite que o potencial criativo se atualize e se manifeste).

Segundo Moreno, a criança aos poucos, com o desenvolvimento de um fator inato, chamado Tele, vai distinguindo objetos e pessoas, sem distorcer seus aspectos essenciais; assim Tele é a capacidade de perceber de forma objetiva o que ocorre nas situações e o que se passa entre as pessoas.

Toda ação pressupõe relação, factual ou simbólica (relação com pessoas reais ou imaginárias, que têm sua presença representada). Toda relação pressupõe formas de comunicação.

O fator Tele influi decisivamente sobre a comunicação, pois só nos comunicamos a partir do que podemos perceber. Para Moreno, Tele é também uma “percepção interna mútua entre dois indivíduos”.

A empatia é a captação, pela sensibilidade dos sentimentos e emoções de alguém ou contidas, de alguma forma, em um objeto. Assim, Moreno escreveu certa vez que “o fenômeno Tele é a empatia ocorrendo em duas direções”.

Segundo Moreno, a transferência equivalia ao embotamento ou à ausência do fator Tele, e como o Psicodrama tinha por objetivo reavivar a espontaneidade e o Tele, a recuperação destes, seriam fatores de saúde mental e criatividade, superando o apego desfavorável a situações do passado. Uma parte do teste sociométrico, o “perceptual”, verifica a capacidade de cada elemento de um grupo de captar os sentimentos e expectativas dos outros em relação a ele.

Um dos objetivos do Psicodrama, do Sociodrama e da Psicoterapia de Grupo é descobrir, aprimorar e utilizar os meios que facilitem o predomínio das relações télicas sobre relações transferências.

O encontro é a experiência essencial da relação télica , é apelo para a sensibilidade do próximo, é apelo da espontaneidade.

É no momento do encontro e no momento da criação, onde há situações em que o ser humano se realiza, afirmando o que é essencial no seu modo de ser.

Moreno salientava que é importante pensar a respeito da interação humana levando em conta, principalmente, o tempo presente; trata-se de averiguar a relação presente e as correntes afetivas, tais como estão sendo transmitidas e captadas aqui e agora.

Segundo este, os “estados co-conscientes e co-inconscientes” são aqueles que os participantes têm experimentado e produzido conjuntamente e só podem ser reproduzidos ou representados conjuntamente.

A resistência interpessoal corresponde a uma resistência a reconhecer certos aspectos próprios, que cada um atribui ao outro, e que freqüentemente se apresenta como resistência frente ao outro; vencida esta resistência, a ação psicodramática permitiria a superação de conflitos co-inconscientes.

 

Fonte: MARINEAU, René F. Jacob Levy Moreno – 1889-1974: Pai do Psicodrama, da Sociometria e daPsicoterapia de Grupo. São Paulo: Ed. Àgora, 1992

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Respostas a este tópico

Acabo de terminar de leer El árbol del conocimiento" de Maturana y Varela y tomé un rato para pasear por los grupos bibliográficos de E=R, cosa que tenía pendiente hace rato.

A partir de mis lecturas del texto de Maturana y Varela, el único párrafo sobre el que hoy discreparía con Moreno es acerca de su idea de que 

"... assim Tele é a capacidade de perceber de forma objetiva o que ocorre nas situações e o que se passa entre as pessoas"

dado que esa condición de "objetividad" no podría ser considerada en el contexto cómo los seres humanos aprendemos.

Por lo demás, el mismo texto anticipa de modo notable el valor que tiene el contexto y las relaciones en la construcción de nuestra identidad.

Seguiré indagando.

 

 

 

Olá Lia, Moreno escreveu em uma época de profunda influência da Escola de Chicago de Sociologia e do positivismo americano. Apesar de não poder ser chamado de maneira nenhuma de positivista, expressões deste tipo garantiam uma certa cientificidade na época... anos 30 é preciso lembrar. Maturana escreve muito depois. Anexo um trecho de meu TCC de Psicodrama que pode ajudar a entender Moreno. 

Lía Goren disse:

Acabo de terminar de leer El árbol del conocimiento" de Maturana y Varela y tomé un rato para pasear por los grupos bibliográficos de E=R, cosa que tenía pendiente hace rato.

A partir de mis lecturas del texto de Maturana y Varela, el único párrafo sobre el que hoy discreparía con Moreno es acerca de su idea de que 

"... assim Tele é a capacidade de perceber de forma objetiva o que ocorre nas situações e o que se passa entre as pessoas"

dado que esa condición de "objetividad" no podría ser considerada en el contexto cómo los seres humanos aprendemos.

Por lo demás, el mismo texto anticipa de modo notable el valor que tiene el contexto y las relaciones en la construcción de nuestra identidad.

Seguiré indagando.

 

 

 

Anexos

"O nosso mundo precisa de um corretivo, uma glorificação do ato criador, um asilo para o criador, um refúgio para as almas sedentas e famintas que só lutam pelos silêncios e grandezas dos momentos, que dedicaram suas vidas, com infinita modéstia, à transitória realidade do momento e se desligaram da glória permanente da imortalidade" - J.L.Moreno, que se pergunta, fazendo referência ao ato de criação de Deus, por que nos dedicamos tanto em compreender o filho, o resultado da criação, e ignoramos aqueles 7 dias envolvidos no processo de criação de mundos e dele mesmo. 
"Mas aquele que, quando o filho ainda estava dentro dele, estava radiante e cristalino, depois da separação tornou-se dono de um filho, possuidor de um valor que, por vezes, parecia-lhe muito íntimo, glorificador de seu passado, mesmo quando esse passado era tão somente o seu ontem". (Revolução Criadora, in Psicodrama).

Trechos de meu TCC de formação como Psicodramatista  Anexo o texto inteiro

Talvez não se possa falar em um único Moreno em termos de epistemologia, sendo necessário observar o conjunto de suas ideias e situá-las historicamente, como propõe Fonseca (2008). Este autor propõe uma subdivisão da obra de Moreno em quatro fases, uma filosófica-espiritual (Palavras do Pai, 1920), a teatral (O teatro da espontaneidade, 1924), uma terceira sociométrica (1934), marcada pelo lançamento do Quem sobreviverá? (1934) e a quarta e ultima clínica ou psicoterapêutica, que gerou a trilogia em português chamada de Psicodrama, volumes I a III  (1946-1959-1969).

Durante a adolescência, importantes leituras marcaram o jovem Jacob Levy Moreno: a Bíblia, o Zohar, escritos de educadores como Rousseau, Pestalozzi e de filósofos tão variados como Bergson, Peirce e Spinoza (FONSECA, 2008). Alguns autores como Sprague (1998) entendem o judaísmo e o marxismo como as forças motivacionais da juventude de Moreno, infelizmente sem citar claramente as fontes. O fundamento do pensamento de Moreno se deixa mais bem pesquisar na obra de seu mais importante biógrafo, René Marineau (1998) que tece um completo panorama da construção intelectual do médico romeno-austríaco.

Quando se trata, no entanto, de procurar na própria fonte, encontra-se na obra de Moreno (1992, p. 29) referências explícitas a duas influências filosóficas: “Tive dois professores, Jesus e Sócrates. Jesus, o santo improvisador e Sócrates, que de maneira curiosa é o que mais chega perto de poder ser chamado pioneiro do método psicodramático”.

Tanto Jesus quanto Sócrates foram pensadores e agentes sociais de mudança que nada nos legaram por escrito. Além disso, têm em comum o fato de terem sido condenados à morte pelas sociedades de suas respectivas épocas. Dizendo isso de forma apenas metafórica, foram seguidos por ‘apontadores’ e ‘registradores’ que organizavam muitas vezes a partir da memória as lições e os acontecimentos ocorridos no campo.

Seria necessário um verdadeiro tour de force de pesquisa, um profundo mergulho de leitura e uma esmerada capacidade introspectiva e teórica para identificar as raízes do pensamento de Moreno em sua fase filosófica-espiritual, que fica então de fora deste trabalho. No Quem Sobreviverá, que aqui é consultado tanto na sua edição de 1992 quanto em edição de 2008, encontramos importantes fundamentos para a obra de Moreno do ponto de vista metodológico, mesmo que por vezes paradoxais e conflitantes. O Livro Psicodrama foi consultado principalmente no que tange ao seu primeiro e terceiro volumes e o livro O teatro da espontaneidade em sua recente tradução e edição brasileira de 2012.

Acredita-se aqui que só é possível entender o Moreno de Quem Sobreviverá se este for lido com chamadas lentes ‘fora da caixa’. Moreno foi um precursor em muitos sentidos de sua carreira. Sua genialidade e sua assumida megalomania e o fato de ter entrado em controvérsias com ícones como Freud e Marx esconde e mascara por vezes inovações e invenções feitas por ele. Estes aspectos ocultam também por vezes as pedras fundamentais que ele lançou, tanto no campo técnico, como no teórico-metodológico, bem como influências a outros gênios da época, como Martin Buber.

Moreno (1992) afirma, portanto claramente o seu interesse no homem acima dos procedimentos científicos tradicionais, sublinhando com todas as letras a sua visão humanista. Está interessado em estabelecer encontros com o eu real e não com as sombras. Deixa, no entanto claro que este encontro não ocorre sempre de forma suave e amorosa. Faz questão em sua obra de fundamentar seu conceito na palavra alemã Begegnung (encontro) que possui em sua raiz a palavra gegen (contra). Ou seja, todo encontro real, franco e aberto é também confronto, é dialógico na medida em que é encontro afetivo, mas também é dialético na medida em que pontos de vista diferentes e por vezes opostos vêm à tona. 

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