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Edgar Morin (2011) => Humanidade contemporânea: Abismo ou metamorfose? “Quando um sistema é incapaz de tratar seus problemas vitais, ou se desintegra, ou se revela capaz de suscitar um metassistema ap

Convido para lermos e comentarmos aqui a seguinte obra do Edgar Morin:

 

 

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15/05 às 05h32

A via para o futuro

Antonio Campos* http://www.jb.com.br/antonio-campos/noticias/2013/05/15/a-via-para-...

Abismo ou metamorfose. Os dois caminhos para encarar o contemporâneo. “Quando um sistema é incapaz de tratar seus problemas vitais, ou ela se degrada, se desintegra, ou se revela capaz de suscitar um metassistema apto a tratar de seus problemas: ele se metamorfoseia”. Diz o filósofo e pensador francês, Edgar Morin, no seu recente livro A Via.

Vivemos em um mundo de inúmeras crises. Conflitos religiosos, políticos e étnicos que podem desencadear guerras de civilizações. Crises econômicas. Degradação da natureza. Excesso de tecnologia e de informação. As sociedades tradicionais estão em derrocada e mesmo à modernidade. Já estamos na pós-modernidade.

Em seu ensaio sobre o contemporâneo, Morin reúne o disperso e sistematiza um pensamento sobre o futuro da humanidade. Ele traça, em seu livro, uma via para a reestruturação do pensamento e práticas coletivas em nossa sociedade, através do conceito da metamorfose (processo simultâneo de autodestruição e autorreconstrução em uma organização em que a identidade é mantida e transformada em alteridade), que seria uma nova origem. E diz o francês: “Sinto-me conectado ao patrimônio planetário, animado pela religião do que religa, pela rejeição daquilo que rejeita, por uma solidariedade infinita...”.

Não se resignar. Eis o caminho inicial da mudança e a esperança será ressuscitada no coração da atual desesperança e não será mais sinônimo de ilusão. O poeta espanhol Antonio Machado nos ensina: “Caminhante não há caminho, o caminho se faz ao andar”. A salvação da humanidade pela metamorfose é a via que o sentimento de esperança nos ajudará a trilhar. “Onde mora o perigo é lá que também cresce o que salva”, jádizia Hölderlin.

* Antônio Campos - Advogado, Conselheiro Federal da OAB, Editor, Escritor, Membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto.

Entrevista: Edgar Morin – Le Monde Brasil

Postado por Rodolfo em 08/01/2013

Publicado em: Atualidades. Deixe um comentário

O futuro da humanidade

http://historiaonline.com.br/2013/01/08/entrevista-edgar-morin-le-m...

Para o sociólogo e filósofo Edgar Morin, veterano da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra, transformações invisíveis que acontecem neste momento em nossa sociedade escondem as sementes da construção do improvável. “Entre a desilusão e o encantamento existe uma via que é a da vontade e da esperança”, anuncia

por Silvio Caccia Bava

Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris, em 8 de julho de 1921. Fez seus estudos universitários em História, Sociologia, Economia e Filosofia. Licenciou-se em História, Geografia e Direito. Durante a Segunda Guerra Mundial, participou ativamente da Resistência Francesa. É diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês). Em 1991, tornou-se codiretor do Centro de Estudos Transdisciplinares de Sociologia, Antropologia e História (CETSAH) − tutelado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e pelo CNRS −, que em 2008 passou a se chamar Centro Edgar Morin. Doutor honoris causa por mais de trinta universidades e premiado internacionalmente, durante vinte anos Morin consagrou-se à pesquisa de um método apto a encarar o desafio da complexidade que se impõe na contemporaneidade não apenas ao conhecimento científico, mas também aos problemas humanos, sociais e políticos. Essa pesquisa culmina com a proposta de uma reforma do pensamento apresentada por meio de seus livros divididos em macrotemas. Com mais de 60 livros publicados, destacam-se O método, em seis volumes, Ciência com consciência, Introdução ao pensamento complexo e Os sete saberes necessários para uma educação do futuro.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASILO senhor tem o costume de dizer que não sabe sobre o futuro. Mas, em um de seus diários, o senhor diz que está pessimista com o futuro, o futuro da humanidade, e que as probabilidades não são boas − por isso mesmo é necessário acreditar nas improbabilidades. Essa é uma questão muito importante, porque as improbabilidades acontecem em contextos históricos. Como nós pudemos ver na Primavera Árabe, as revoluções não conseguem garantir novos governos democráticos e populares. Para que surgissem governos democráticos e populares em alguns países da América Latina, movimentos sociais e redes de cidadania construídas ao longo de mais de trinta anos atuaram de maneira muito importante. Um mundo em transformação requer um projeto de transformação e uma rede de sustentação social e política desse projeto. E nós sabemos que o novo não nasce do nada, nasce de mudanças qualitativas, de saltos às vezes imprevisíveis que apontam um sentido comum, mas que partem da realidade atual. Isso também coloca a questão de um programa de transição. Mas, mais do que tudo, coloca a questão de quem serão esses novos atores que vão operar essas mudanças.

EDGAR MORINEm primeiro lugar, é preciso definir o que é probabilidade. Para um observador situado em um lugar e em um tempo dados, o conhecimento do processo histórico no qual se encontra é o que lhe permite projetar o futuro. Se hoje projetamos o futuro, o que vemos? Vemos a proliferação dos artefatos nucleares, a degradação da biosfera, uma economia cada vez mais em crise, o crescimento da desigualdade, toda uma série de desastres. Há também alguns processos positivos, mas eles permanecem invisíveis ou são pontuais. O improvável já ocorreu na história da humanidade. O provável não é definido, permanece incerto. Nós podemos observá-lo em diferentes épocas da história. Eu o vi em 1941, quando havia uma grande probabilidade de dominação nazista por toda a Europa. Os soviéticos, com a defesa de Moscou, e os japoneses, bombardeando Pearl Harbor, o que forçou a entrada dos Estados Unidos na guerra, fizeram as probabilidades mudar. Isso para dizer que, quando as probabilidades são negativas, eu não fico desesperado, eu me ponho em defesa de um programa.

Não acredito que se deva pensar em um projeto de sociedade; é necessário, sim, indicar um caminho. É essa a dificuldade. Quanto ao programa de transição, que conheci através de Trotsky, bem, não acredito em programas, mas em estratégias. É que um programa já está determinado antes mesmo da caminhada, e o caminho é uma corrente que vai no sentido favorável. Vamos avaliar a situação: será que podemos mudar o caminho? Aparentemente não.

Ao longo da história, podemos identificar que ocorreram mudanças de caminho a partir de acontecimentos isolados, menores, invisíveis, como as mensagens de Buda, de Jesus, de Maomé, ou mesmo o socialismo, que no século XIX tinha Marx, tinha Proudhon, que difundiram ideias que dezenas de anos depois se transformaram em forças muito importantes, gerando tanto a social-democracia como o comunismo. Portanto, sempre houve um início modesto das novas forças. Podemos recorrer à velha noção de história, que caminha também por seus canais subterrâneos, que sempre está em movimento, que o presente não está imóvel e que nele atuam forças de transformação invisíveis. De resto, quando você pensa na descoberta da energia atômica, percebe que foi uma descoberta totalmente invisível, uma descoberta especulativa, intelectual, do exercício de pesquisa de alguns físicos. E dez anos depois essa energia se transforma em bombas de destruição. Portanto, existem muitas coisas que estão invisíveis, o futuro não é previsível, é preciso resistir e construir o improvável.

Um pouco por toda parte existem iniciativas muito importantes, dispersas em relação umas às outras. Há experiências na agricultura, na agroecologia, na biologia, na educação, nas cooperativas, há a economia que chamamos de social e solidária. Temos a necessidade de recusar a grande agricultura capitalista industrializada para defender os pequenos proprietários rurais e a agricultura familiar; há uma luta contra os atravessadores, os intermediários; há muitas frentes que se criam em todos os domínios, o que demonstra que tudo pode ser reformado. Tudo: a justiça, a conservação, a produção. Mas eu digo também que esses processos, que começam localmente e se firmam, devem confluir.

O que é preciso reformar? As estruturas sociais e econômicas? Ou as pessoas e a moral? Eu digo que esses processos têm de vir juntos. Porque, se você reforma somente as estruturas, você chega à situação da União Soviética. Mas, se você propõe caminhos individuais ou comunitários, eles fracassam depois de alguns anos. Operando nos dois planos, essa corrente conflui para criar o novo. O grande problema é a metamorfose − prefiro a palavra metamorfose à palavra revolução −, pois penso que em um momento dado, quando um sistema não é mais capaz de tratar suas questões vitais, ou ele se desintegra, ou regride e se torna ainda mais bárbaro, ou é capaz de criar um metassistema, que recicla seu projeto. A metamorfose existe não somente nos insetos, que se transformam em borboletas, mas também na história. A Europa se metamorfoseou da Europa medieval, feudal, religiosa, para a Europa moderna, contemporânea. A metamorfose é possível e torna possível criarmos um novo modo de desenvolvimento e um novo tipo de sociedade que não podemos prever, mas que ultrapassa as expectativas dos indivíduos e da sociedade atual. Penso que é isso que podemos esperar, mesmo que hoje não sejamos capazes de descrever ou imaginar essa futura sociedade.

DIPLOMATIQUEUma pesquisa feita pela Secretaria de Economia Solidária, do governo federal, identificou mais de 42 mil experiências de economia solidária no país. Veja que em nossa sociedade já há sinais de transformação. Mas, paralelamente, existe tal poder no mundo atual − eu falo do poder do sistema financeiro, das grandes corporações −, que mesmo a The Economist assinala que é preciso mudar essa situação. A revista lança um desafio aos governantes: buscar um modelo que contemple, ao mesmo tempo, o crescimento e uma maior redistribuição da riqueza. É uma discussão da transformação e reforma do capitalismo no sentido de manter as estruturas de poder e buscar a estabilidade política promovendo um pouco mais de distribuição da riqueza. É possível pensar nessa metamorfose com esses grandes poderes financeiros que controlam o mundo?

MORINParece-me que a grande dificuldade de lutar contra a dominação do capitalismo financeiro e contra a especulação financeira é que isso só pode ser feito em nível internacional. Por exemplo, para suprimir os paraísos fiscais é necessário que todos os países se ponham de acordo, assim como para taxar a especulação financeira. Penso que há duas ameaças que atemorizam o mundo: uma delas é o capitalismo financeiro, a dominação financeira; a outra é o fanatismo étnico-religioso. Eles se alimentam uns dos outros. A questão das transnacionais está colocada e isso só pode ser tratado em escala planetária. A tragédia é que sofremos da ausência de instituições planetárias dotadas de poder de decisão. O fracasso da Rio+20 criou uma desilusão enorme. É por isso que não progredimos no desenvolvimento da noção de um destino comum para a comunidade terrestre.

Mesmo considerando a ideia de solidariedade internacional que existia, sendo ela socialista, comunista ou libertária, essas ideias não progrediram para enfrentar a situação atual. Agora, quais são as forças sociais que podem agir? Não podemos mais pensar que seja a classe operária, industrial. Em minha opinião, é a boa vontade dos homens, das mulheres, dos jovens e dos velhos, que vão confluir nessa tomada de consciência. E, bem entendido, esse é o destino dos povos que são dominados, oprimidos, e que querem conquistar sua emancipação. E que vão contribuir para o processo de emancipação.

Você falou da Primavera Árabe, que era imprevista, improvável. Desde o início saudei esses acontecimentos com entusiasmo. Escrevi um artigo no Le Monde em que dizia para pensarmos em 1789: foi uma primavera maravilhosa, mas o que aconteceu depois? Aconteceu o Terror, o Termidor, Bonaparte, o Império, o retorno do rei e a revolução de 1848, e depois novamente o Império, e a França só chegou à República no século XX. Há aí uma mensagem: se regenerar no curso da história. Haverá regressões, manipulações, traições, mas a questão é saber se esses governos eleitos e de tendência extremista vão respeitar ou não as regras da democracia. Somos desafiados a ter esse mesmo papel histórico que a Primavera Árabe. Reconheço que as forças de transformação para criar uma nova situação para o planeta são muito débeis, estão dispersas, mas há momentos de aceleração e de amplificação que precisam ser considerados.

DIPLOMATIQUE – Mas a Primavera Árabe demonstra também que, mesmo se tivermos irrupções sociais fortes de movimentos sociais, as acomodações políticas que buscam a estabilidade colocam os conservadores no governo. Vejo que Immanuel Wallerstein está de acordo com o senhor quando diz que ainda teremos de enfrentar muitas crises para abrir o caminho para uma sociedade pós-capitalista.

MORIN– Sim, mas quero dizer que as forças energéticas da juventude na Tunísia e no Egito foram capazes de questionar o sistema atual, mas continuam incapazes de anunciar o novo caminho político. E estão divididas. O que faz falta é um pensamento político. A situação demanda um pensamento que não seja somente analítico, mas dê uma direção, um caminho. Hoje, há uma esterilidade total e geral não somente no mundo árabe ou muçulmano, mas também na França. Há uma crise do pensamento político, da capacidade de análise na sociologia mundial. E esse é um fator da impotência atual. É preciso recuperar o pensamento. Jamais haveria o socialismo sem o pensamento de Marx; jamais teríamos um libertarismo sem a contribuição de Kropotkin.

DIPLOMATIQUE – O neoliberalismo, nos anos 1990, terminou com a discussão sobre o futuro. Sua preocupação era administrar a situação presente e melhorar a condição dos mais pobres. Por conta disso não temos uma referência atual, seja do que possa ser a esquerda, seja do que possa ser um programa de transformação no sentido de construir um projeto comum entre os grupos que são diferenciados, mas reivindicam o papel da resistência. Qual é o meio de unificar essas diferenças?

MORIN – O neoliberalismo está em crise. Ele se apresentava como uma ciência, mas hoje sabemos que é uma ideologia. E assistimos à crise gerada por ele. O problema é que sabemos fazer a denúncia, mas não sabemos enunciar o que queremos, qual é o novo caminho. E precisamos caminhar no sentido de construir esse novo caminho comum. Por exemplo, existe todo um conjunto de pequenos camponeses ameaçados pela grande indústria, os pequenos artesãos, o mundo operário − por todos os lados as pessoas são exploradas, alienadas, e tomarão consciência disso. Quando elas tomam consciência − e hoje em dia temos de defender a diversidade, não somente a biodiversidade, mas a diversidade das sociedades −, neste momento estamos no começo de um novo caminho. Não podemos nos iludir, mas também não podemos entrar na desilusão. Entre a desilusão e o encantamento existe uma via que é a da vontade e da esperança.

DIPLOMATIQUE– Qual é a mensagem que o senhor quer dirigir à juventude?

MORIN– Frequentemente, os jovens franceses vêm me encontrar e me dizem que tenho sorte porque, quando eu militava na Resistência, tinha uma causa justa, uma causa bela, que hoje eles não têm. Sua percepção é de que vivemos na precariedade, não temos cultura, futuro algum. E eu lhes respondo que nossa causa tem suas sombras, que não víamos na sua época. Nós libertamos a França em nome da liberdade e contra a dominação. E reafirmamos a dominação sobre a Argélia e sobre nossas colônias. A segunda coisa, eu era comunista; é preciso considerar que Stalingrado foi a maior vitória e a maior derrota. A maior vitória porque barrou o nazismo. A maior derrota porque deu espaço para o stalinismo.

Hoje há uma causa que, em nome da liberdade e contra a dominação, não tem nome; é a causa de toda a humanidade, de todos os povos, de todos os continentes. A humanidade está ameaçada por toda essa loucura, pela busca do lucro, por toda essa insanidade fanática. Minha recomendação é que, aí onde você está, lute pelas mutações, quer elas tenham dimensão global ou local. O desenvolvimento local favorece a melhoria global e a melhoria global favorece o desenvolvimento local. É este o desafio atual: tomar consciência do que hoje são os problemas e se engajar para enfrentá-los. É isso que eu quero dizer para a juventude.

Silvio Caccia Bava

Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

Muito boa iniciativa do Silvio Caccia Bava essa entrevista com Edgar Morin, que considero o maior pensador contemporâneo, com seus 92 anos e tantos livros admiráveis já publicados. De fato, não precisamos de programa de transição ou um projeto de sociedade, como se dizia antigamente, no tempo em que predominava o idealismo, racionalismo determinista e pretensioso. Precisamos apontar múltiplos caminhos que possam confluir, sem ter a certeza de que confluirão numa Via. Já li a obra A Via para o futuro da humanidade. Trata-se da melhor obra de políticas públicas internacionais (transnacionais) que conheço, com uma singular combinação entre análise e síntese.  Morin está apontando múltiplos caminhos e mostrando como eles podem confluir, sob que critérios científicos e políticos. As múltiplas vias potencialmente convergentes constituem a metamorfose improvável, mas não impossível.

Sérgio Luís Boeira

sábado, 30 de março de 2013

O que é possível fazer (Edgar Morin)- João Paulo‏

Estado de Minas - 30/03/2013
http://beneviani.blogspot.com.br/2013/03/o-que-e-possivel-fazer-edg...
O pensador Edgar Morin já passou dos 90 mas não descansa. Sábio além das fronteiras do conhecimento dividido em escaninhos pelas universidades, ele é um exemplo raro de homem capaz de trazer inovações para o pensamento sociológico, político, antropológico e filosófico. Autor de dezenas de livros, Morin criou com a noção de complexidade um novo modo de se aproximar dos problemas da civilização, sem ficar preso em dogmas nem desprezar qualquer forma de conhecimento, religião e arte

Em sua trajetória, elaborou o diagnóstico de nosso tempo, atento para os conflitos étnicos, para a instabilidade política, para a degradação do meio ambiente, para a repetição de padrões viciados de pensamento e ação política. Esse cenário, pouco promissor, se escora em alguns dos descaminhos que se tornaram rota na modernidade, como a mundialização e a universalização do padrão de desenvolvimento ocidental.

Em outras palavras, o que por muito tempo foi tomado como solução (o desenvolvimento industrial e a sociedade de consumo) hoje é o responsável direto pela abrangência do problema. Por meio de seus livros e de sua incansável disposição em percorrer o mundo em busca de diálogo com o novo (o Brasil é um país que faz parte de sua vida), Edgar Morin preparou o caminho para sua mais recente obra, A via para o futuro da humanidade (Editora Bertrand Brasil), que acaba de chegar às livrarias.

O que ele traz de novo é a coragem de apontar caminhos, de estabelecer um plano de ação política para enfrentar os impasses do nosso tempo. Para Morin, não nos restam muitas opções: ou o abismo ou a metamorfose. O que parece ser uma solução fácil, na verdade, envolve uma transformação profunda na maneira de compreender o mundo e se organizar para as mudanças necessárias. Não bastam alternativas ideológicas, do tipo esquerda e direita, mas um comprometimento mais amplo, que abranja desde as formas de pensamento filosófico até as questões do cotidiano.

A via é um livro sobre o futuro da humanidade. Mais que isso, sobre a possibilidade de futuro. Como parte do método que vem fundamentando a reflexão do autor, a primeira indicação pode ser sintetizada na expressão latina sparsa colligo, que significa “reúno o disperso”. Para um cenário em que todos os problemas parecem se juntar para apontar um horizonte de impossibilidade, é preciso criar alternativas que sejam igualmente universais e holísticas. Morin, como Drummond, sabe que vivemos um tempo partido, habitado por homens partidos. Seu empenho é resgatar a totalidade.

Quatro caminhos 


Para pavimentar sua via, o pensador elege quatro reformas que devem se unir para firmar o propósito de verdadeira transformação do destino humano no planeta: as reformas políticas, econômicas, educativas e da vida. São aspectos interligados da mesma experiência; quando uma delas avança, permite que a outra ganhe fôlego. São reformas “correlativas, interativas e interdependentes”. Uma não existe sem a outra e, por isso, são tratadas separadamente apenas para melhor explicitação de seus programas.

Ao tratar do primeiro aspecto, as políticas da humanidade, Edgar Morin propõe uma alteração nos padrões convencionais. Para uma crise singular, uma nova concepção da política. Entre os aspectos destacados por ele estão o que chama de “política da humanidade”, que em vez de se dirigir aos Estados nacionais tem como objeto a comunidade de destino da espécie humana. A Terra-Pátria, em sua unicidade, se torna uma grande pátria comum. 

A política da humanidade se situaria no polo inverso das soluções voltadas para o desenvolvimento, mesmo o chamado desenvolvimento sustentável. Há muito o que aprender, por exemplo, com culturas que operam com outras noções de saber, inclusive as religiosas. A política da humanidade, nas palavras do filósofo, deverá promover uma simbiose entre o que há de melhor na civilização ocidental e as contribuições de outras civilizações, portadoras de riquezas que vêm sendo desprezadas.

A nova política tem como desafios a questão das diferentes culturas e povos, a recuperação da qualidade de vida, o desenvolvimento de uma consciência ecológica planetária, que envolva temas candentes como a energia, a habitação, a produção de alimentos, os transportes, a relação campo/cidade e a água. Além da dimensão programática, trata-se ainda de reinventar formas de convivência democrática e de combate à desigualdade e à pobreza.

A segunda reforma apontada por Morin abrange o pensamento e a educação. O filósofo defende que, para fazer frente aos graves problemas que ameaçam a sobrevivência do planeta e da humanidade, é preciso apostar no novo homem, formando cidadãos poli competentes e multidimensionais. Não se trata apenas de cobrar mais investimentos para a educação, mas de transformar radicalmente nossa concepção acerca do saber e do pensamento. A nova educação precisa superar os impasses da tecnociência (como a excessiva especialização) e avançar rumo a uma democracia cognitiva. Um novo saber que seja também para todos.

Da saúde à morte

Depois da política e da educação, a terceira reforma se volta para diferentes campos da vida social. A começar pela medicina e pela saúde. Morin identifica a crise dos paradigmas sanitários tradicionais, fundados na tecnologia, com suas insuficiências e ambivalências: perda do humanismo, do contato familiar, foco no físico com desprestígio da dimensão psicológica, excesso de estatísticas, ênfase na especialização, monopólios da indústria farmacêutica e enfraquecimento da relação médico- paciente. Um modelo inviável, cada vez mais caro e menos resolutivo.

Além da saúde, a reforma da sociedade propõe nova organização das cidades, com humanização e governança mais inclusiva, com reforço do poder local e das demandas sociais. As reformas abrangeriam ainda novas relações entre campo e cidade, com reforma agrária, valorização de sistemas de produção de alta qualidade ambiental e preservação da biodiversidade. Por fim, no âmbito das reformas sociais, Morin propõe um equilíbrio das relações de consumo e de trabalho.

A quarta reforma, que o pensador define como “reforma da vida”, mira o lado menos tangível e, por isso mesmo, mais profundo da humanidade. Se a civilização está em crise, o homem que habita o planeta e o faz respirar padece dos mesmos sintomas, fazendo de seu microcosmos um símile do inferno que se tornou o mundo. Morin aposta na revolução dos sentimentos, na despoluição da inveja e do ódio, na oxigenação da ética, no império da fraternidade e do perdão. É claro que, mais uma vez, o repertório para construir esse patrimônio não há de vir da ciência e do desenvolvimento. O pensador apela a todas as formas de pensamento, entre elas a religião, o mito e a arte.

Para alcançar esse patamar, em síntese com as reformas anteriores, o homem precisa atentar para dimensões que estão passando batido, apostando na possibilidade de uma outra forma de vida. Quem, em meio à depressão que define nosso tempo, nunca pensou em simplificar a vida e dar valor ao que de fato nos alegra e completa? É esse sentimento latente de revolta que o sociólogo propõe resgatar e tornar real: uma outra vida é possível.

Dialético, Morin termina seu livro tratando do envelhecimento e da morte. Mais que isso: propondo que esses estágios sejam vividos não como derrota inevitável (os velhos se tornaram um incômodo e deixaram de ser respeitados; a morte se tornou um colapso tecnológico de um corpo já sem vida). Avalia projetos que buscam uma velhice feliz, analisa o intento de dissimulação da morte que tomou conta da sociedade da competição e do consumo, propõe a recuperação de rituais laicos e religiosos que evoquem a alegria e os percalços da vida.

A via não é um livro teórico, embora recheado da melhor teoria política, sociológica e filosófica; não é um programa partidário, ainda que estabeleça vias coletivas de reformas necessárias para evitar o abismo que nos mira cada vez mais de perto. Morin reuniu o disperso. O que, em si, já é uma lição e tanto.


 jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br

 

Bem,... antes de mais nada, convém dizer que Morin fala da incerteza. Do fim das certezas anunciada pela modernidade. Portanto, precisamos conviver com o inesperado, impensado, instável. Assim, não podemos prever se haverá transformação, metamorfoses, ou desintegração do sistema, mas apena ter, segundo ele, esperança e, em nosso âmbito de poder, proceder com entusiasmo no sentido das transformações que esperamos.

Lembremos que Morin para conceber a auto-organização do sistema na direção da transformação foi se inspirar, como ele próprio diz, especialmente, nas ideias da biologia de Atlan e na física de Von Foerster. Para ambos o sistema, para se auto-organizar em direção à vida, buscando a neguentropia, mesmo diante da tendência da vida para entropia, é preciso haver uma estabilidade mínima do sistema, sem a qual ele tende a degradação, à entropia, à morte. Agora, além disso, é preciso assinalar que, segundo Von Foerster, é possível o sistema manter a neguentropia, sem negar a segunda lei da termodinâmica. Para respeitar essa lei e considerar também a possibilidade da neguentropia, a organização do sistema, basta pensar em um sistema qualquer não infinito, mas delimitado, finito, distinguido pelo observador, e que esteja aberto para intercâmbios com outros sistemas/ambientes, também distinguidos pelo observador. Quer dizer, um sistema delimitado que mantenha um estado permanente de interação com outro. Nessa interação ele troca energia, informação e organização. Na troca de organização um sistema pode se organizar a expensas da desorganização do outro sistema com quem mantém intercâmbio, sem prejuízo para o sistema desorganizado. Nesse intercâmbio os sistemas criam condições, oportunidades de desorganizar-se - condição primeira para novas organizações - e reorganizar-se buscando uma nova organização, rearranjo, do conjunto de informações e energia indispensável para o sistema se manter com vida.

Morin leva em conta as propriedades do sistema do ponto de vista da física e da biologia para conceber o sistema social. Alinhados com o pensamento de Morin, sublinhamos duas questões fundamentais para a transformação social: a abertura dos sistemas e o intercâmbio entre sistemas (o sistema de ideias, por exemplo). Buscar o diálogo de ideias. Constituir a dialógica. Para a dialógica sublinho três princípios sistêmicos que me parecem indispensáveis: a autonomia e dependência (interdependência), a abertura e fechamento e a recursão organizacional. Sparsa colligo distinguindo e reunindo o diferente e disperso. 

É muito relevante tentar uma síntese e um debate sobre a obra de Morin, assim evitando o silêncio e o esquecimento, embora seja quase inevitável um processo de simplificação ideológica, que deverá sofrer revisões críticas, para renovação do pensamento complexo.

Anoto que Morin não defende o pensamento "holístico", já que para ele o todo é tanto maior quanto menor que a soma das partes, não fazendo sentido trocar o reducionismo da busca obsessiva do particular pela busca obsessiva do todo ou da totalidade. Ele defende o ponto de vista de Adorno, segundo o qual "a totalidade é a não verdade". O pensamento de Morin não é apenas sistêmico, mas também contrário ao sistemismo, a fim de evitar que a noção de sistema se apresente como solução, quando é para ele também parte do problema. A noção de sistema sofre um forte crítica e revisão no volume 1 da série La Méthode, ficando de certa forma subordinada às noções de organização e de interações.

O pensamento complexo de Morin também não é dialético, na medida em que não visa uma síntese como alternativa da luta entre os contrários (tese e antítese). O movimento da diversidade na unidade e da unidade na diversidade é para ele necessariamente aberto, dialógico, não simplesmente dialético. Ele vê a esperança no seio da desesperança e também o oposto disso como algo inelutável. O pensamento complexo busca superar, sem abandonar, as contribuições de muitos autores dialéticos, como Heráclito, Marx, Hegel, etc. No livro "Meus filósofos", ele faz uma síntese das influências que recebeu de diversos autores, não apenas de filósofos, mas também de religiosos, cientistas, artistas, literatos.

Morin é assumidamente um autor marginal, desviante.

Ao tratar da Escola de Frankfurt, no livro "Meus Filósofos", escreve o seguinte:

"Como disse anteriormente, adotei definitivamente as palavras de Adorno: `a totalidade é a não verdade´. Em meu período na revista Arguments, parecia claro para mim que a verdade estava nos dilaceramentos, nas contradições, no fim de todas as sínteses afortunadas. O conhecimento humano é mutilado, parcial, contraditório. É tomando consciência de nossos limites racionais, epistemológicos, cognitivos que podemos nos direcionar para a lucidez crítica. Nesse sentido, escrevi: `É a partir do reconhecimento do dilaceramento e da contradição que podemos evitar as magias, fetichismos, petrificações do espírito´. (p. 124).

Sérgio Luís Boeira

Nedio, boa noite.

   Em função dos seu comentário, creio que seria interessante uma reflexão comparada entre neguentropia e autopoiese (Maturana). Mais elementos em:

     BIBLIOTECA HUMBERTO MATURANA

      http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana?xg_source...

     MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco (1973) De máquinas y seres vivos.

     Autopoiesis la organización de lo vivo.pdf

     https://docs.google.com/folder/d/0B-YLV8egGwSuWE8tc3N1R1BjUW8/edit?...

Grato pela colaboração.

Claudio


nedio antonio seminotti disse:

Bem,... antes de mais nada, convém dizer que Morin fala da incerteza. 

Sérgio, boa noite.

     Creio que você pode achar interessante:

Evolução Teoria Sistemas = tratar relações e padrões. Mais qualitativa que quantitativa incorpora mudança na ênfase característica do pensamento sistêmico - objetos para relações, da quantidade para qualidade...

http://escoladeredes.net/group/bibliotecafritjofcapra/forum/topics/...

 

 Ciência da Complexidade: o reencontro das Ciências Exatas com as Naturais

http://escoladeredes.net/group/ecoloucos/forum/topics/ciencia-da-co...

Grato pela colaboração.

Claudio


Sérgio Luís Boeira disse:

É muito relevante tentar uma síntese e um debate sobre a obra de Morin, assim evitando o silêncio e o esquecimento, embora seja quase inevitável um processo de simplificação ideológica, que deverá sofrer revisões críticas, para renovação do pensamento complexo.

Anoto que Morin não defende o pensamento "holístico", já que para ele o todo é tanto maior quanto menor que a soma das partes, não fazendo sentido trocar o reducionismo da busca obsessiva do particular pela busca obsessiva do todo ou da totalidade. 

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