Escola de Redes

Redes Sociais + Escola: a sociedade da informação como uma sociedade da aprendizagem

"Falta à escola abordar o sentido da existência"
Frei Betto

Educação se faz com o corpo inteiro

Nunca se falou tanto na necessidade de uma escola plural, interdisciplinar, multicultural, holística. Uma escola que cuide da formação de um “ser integral”.

E, se até há alguns anos, essa necessidade era apontada pelos estudiosos da Educação numa concepção totalizante do processo educacional, baseada na não-fragmentação do conhecimento e no entendimento de que os seres humanos não são formados apenas de cognição, hoje é também uma exigência do mercado de trabalho. Algumas empresas, atualmente, no seu processo seletivo, pretendem averiguar, inclusive, a capacidade de sustentação emocional dos candidatos, além do seu potencial para trabalhar em equipe, dentre outras atitudes.

Mas, paradoxalmente, e por mais que estejamos vivenciando essa realidade, a escola – filha direta e dileta da tradição cartesiana – só se preocupa com a quantidade de informações que consegue passar (passar sim, e não construir). Ela continua se restringindo apenas à transmissão do patrimônio universalmente constituído, ignorando a reflexão sobre o contexto em que vivemos e pouco se importando com o potencial de modificação da realidade.

Essa idéia me faz lembrar de uma história infantil, de Ruth Rocha, chamada “Quando a escola é de vidro”, que começa assim:

“Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito. Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes... Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chagava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É, no vidro! Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não! O vidro dependia da classe em que a gente estudava. Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho. Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior. E assim, os vidros iam crescendo á medida em que você ia passando de ano. Se não passasse de ano era um horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado. Coubesse ou não coubesse. Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros. E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.”

Ao dicotomizar o sentido da aprendizagem, do sentido da existência, a escola separa o espaço do conhecimento do espaço da vida, dificultando a reflexão sobre o cotidiano. Como se o aumento da violência urbana não tivesse nada a ver com as políticas salariais, sociais e outros ais; como se a poluição do meio ambiente não tivesse nada a ver com interesses econômicos inconfessáveis.

Vivi uma experiência que exemplifica bem essa questão: fui chamada para dar aula particular para um aluno de 15 anos, que estava cursando, na época, a sétima série de um colégio da classe alta do Rio de Janeiro. Ele era redator-chefe do jornalzinho do colégio e estava, ironicamente, com notas péssimas em Língua Portuguesa. Ah, ele também tinha uma banda de rock, onde era baterista. No nosso primeiro encontro, pedi que ele me falasse um pouco de sua experiência de músico. Em seguida, pedi que escrevesse sobre esse fato. Imediatamente e, diga-se, com muita rapidez e fluência, escreveu um ótimo texto de duas páginas. Li tudo e propus que começássemos a analisar o primeiro período do seu texto. Ele me olhou, muito surpreso, sem entender exatamente o que eu pedia que fizesse, e comecei a explicar, dizendo que iríamos verificar, naquele parágrafo, quais elementos da estrutura sintática estavam presentes, tais como: sujeito, predicado, adjuntos, tipos de verbos etc. Ao que ele, absolutamente surpreendido, me perguntou: e quando eu escrevo tem isso?! Ou seja, para ele, o conteúdo da disciplina Língua Portuguesa não tinha a menor relação com o que ele falava ou escrevia. Isso é assustador! Não se tratava de um aluno desinformado, muito pelo contrário, tanto era atento ao mundo e competente na desenvoltura com a Língua, que escrevia regularmente no jornal do colégio. Mas, vivia massacrado pelas “orações subordinadas substantivas objetivas diretas”, que não faziam o menor sentido para ele.

Continuamos educando para a competitividade e para o sucesso. Para o “tem que dar certo, sempre, a qualquer custo”. Permanecemos ignorando as questões fundamentais dos seres humanos, como se os medos, frustrações, fracassos, morte não fizessem parte da vida dos nossos alunos. E, diante dessas situações, a instituição se cala e finge que elas não acontecem.

Um amigo meu sempre diz que, se não fôssemos perder todos os alunos do colégio que, juntos, coordenamos, deveríamos colocar uma faixa na frente do prédio, onde se leria: “Aqui preparamos para o fracasso”. Porque, fundamentalmente, nosso compromisso é com o ser humano. E se conseguirmos ajudar a formar o caráter e a personalidade dos nossos alunos para lidar com as adversidades da vida, estaremos cumprindo, inequivocamente, o nosso papel.

A escola continua distante do mundo e, pior, distante, dos próprios seres que a constituem.

Mais do que nunca, é preciso re-humanizar essa instituição formadora de homens e mulheres. Precisamos de pessoas sabidas, mas precisamos, fundamentalmente, de pessoas dignas, com boa formação de caráter, éticas e solidárias. É preciso socializar valores de justiça e respeito.

Talvez seja necessário lembrar que o ato de ensinar, supõe refazermos o caminho que nos trouxe até um determinado conhecimento. Talvez seja bom lembrar, também, que o sentido etimológico da palavra pedagogo é aquele que conduz, o guia, o mestre. E aí teremos aquele que retoma um caminho já percorrido, ampliando o já conhecido e formando novas concepções.

O ser humano já sabe do que é capaz de realizar. Só está faltando fazer melhor.

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Como recriar o fazer pedagógico (escolarizado) na Rede?
Como a Educação na Rede pode colaborar com a construção de uma sociedade mais consequente?
Como professores e alunos se comportam diante de uma proposta educativa inovadora?

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Respostas a este tópico

Muito instigante sua proposta Denise. As escolas continuam formando ovelhas para o abate, lento e melancólico. A ração do rebanho é o consumo, controlado e dosado pela competitividade anestésica. As melhores ovelhas, as que assimilam as regras do jogo, receberão dos pastores as "melhores" pastagens. Algumas vão pastar na Suíça, vão para Oxford, para Harvard. Depois, quando retornam, como diria George Orwell, não sabemos mais se são ovelhas ou pastores. O que importa é, simplesmente, perpetuar o rebanho, as tecelagens, os abatedouros, os açougues, as Daslu's e os feirões da madrugada, no Bras. O resto? "Fais parte" do progresso e do desenvolvimento da nossa espécie racional. Apesar de tudo, ainda tenho fé. $ertamente antes do BBB - 666 encontraremos outros caminhos. Beijos e $u$$e$$o na desconferência da CIRS.

Olá Denise.

Não sei como vou conseguir acompanhar tantos temas de interesse nestes open spaces! :-)
Por agora, envio o link para o texto da Ruth Rocha que vc citou, livre para download na biblioteca da Rede Românticos Conspiradores. Fraterno abraço, Luiz CJr.

Quandoaescolaedevidro.pdf

Quatro sugestões aqui, para começar a "desorganizar" esse papo de escola:

1) Buscadores e Polinizadores (na versão que está na coletânea "2009: 10 escritos sobre redes sociais"

2) AEL

3) SIEMENS, George (2008): Uma breve história da aprendizagem em rede

4) SIEMENS, George (2004): Conectivismo: una teoria de aprendizaje para el mundo digital
Não há palavras para exprimir o reconhecimento pelos valiosos recursos que a E=R, alias a rede, me tem proporcionado!

Feito o desabafo, aqui fica uma sugestão: estou lendo um livro de Jonah Lehrer cujo título da edição portuguesa é "Como decidimos - tome as melhores decisões baseado na neurociência", e que, em estilo de documentário, explica a visão da neurociência sobre a decisão e portanto sobre a aprendizagem. É possível encontrar paralelismos com a conceção de rede que o Augusto (por exemplo) tem divulgado e também argumentos fortes para a abordagem da aprendizagem segundo o princípio do conectivismo.

Bem hajam todos e todas!
Obrigada, Roberto, pela acolhida.

Já não é mais tempo de observarmos e lamentarmos. É tempo de fazer.

A situação é tão perversa que nem os professores (também formados para o abate) se dão conta que o papel deles é fundamental para a mudança necessária. Eles, que deveriam puxar o carro da indignação e da transformação, também vivem como zumbis: perdidos e com medo.

Mas tenho muita esperança que, na marra, as coisas comecem a tomar outro rumo. Afinal, o que estamos deixando de presente para os que virão não é nem um pouco bonito. E é no caos que a gente acaba avançando, né?

Um grande abraço

Roberto Carlos Barboza disse:
Muito instigante sua proposta Denise. As escolas continuam formando ovelhas para o abate, lento e melancólico. A ração do rebanho é o consumo, controlado e dosado pela competitividade anestésica. As melhores ovelhas, as que assimilam as regras do jogo, receberão dos pastores as "melhores" pastagens. Algumas vão pastar na Suíça, vão para Oxford, para Harvard. Depois, quando retornam, como diria George Orwell, não sabemos mais se são ovelhas ou pastores. O que importa é, simplesmente, perpetuar o rebanho, as tecelagens, os abatedouros, os açougues, as Daslu's e os feirões da madrugada, no Bras. O resto? "Fais parte" do progresso e do desenvolvimento da nossa espécie racional. Apesar de tudo, ainda tenho fé. $ertamente antes do BBB - 666 encontraremos outros caminhos. Beijos e $u$$e$$o na desconferência da CIRS.
Oi, Luiz

Obrigadíssima pela dica e pela acolhida.

Estou aqui há pouco tempo e, abusadamente, já propondo essa discussão. Senti a seriedade - sem perder a ternura e o humor - da Escola, e o foco me interessa muito de perto. Espero compartilhar muita coisa com o grupo.

Sou coordenadora pedagógica de um colégio de Ensino Médio Técnico, no Rio de Janeiro - é uma cooperativa de educadores - e estou experimentando um trabalho com alunos e professores, diretamente na web, na plataforma do Peabirus.

Tenho todas as dúvidas do mundo, muita intuição e nenhum medo de errar. Creio que a Escola de Redes nos ajudará muito.

Um grande e fraterno abraço procê também.

Luiz de Campos Jr disse:

Olá Denise.

Não sei como vou conseguir acompanhar tantos temas de interesse nestes open spaces! :-)
Por agora, envio o link para o texto da Ruth Rocha que vc citou, livre para download na biblioteca da Rede Românticos Conspiradores. Fraterno abraço, Luiz CJr.

Quandoaescolaedevidro.pdf

Valeu, Augusto!

Já havia lido boa parte das suas recomendações. Elas já fazem parte dos meus argumentos...

Agora, estou indicando as sugestões para os meus professores, para embasar as nossas discussões quinzenais.

O trabalho, na escola formal, é lento. Digo que andamos com o carro e tiramos o danado do atoleiro, ao mesmo tempo.

Como o meu foco são os professores, fico buscando a curiosidade deles que se perdeu no pó da estrada. E, sem curiosidade, e sem revisão das "verdades" inculcadas, a gente avança muito pouco.

Muitíssimo obrigada pelo apoio a nossa discussão.

Obs.: se não tiver lugar para mais essa no Open Space, podemos nos reunir embaixo da mangueira...

Um grande abraço

Augusto de Franco disse:
Quatro sugestões aqui, para começar a "desorganizar" esse papo de escola:

1) Buscadores e Polinizadores (na versão que está na coletânea "2009: 10 escritos sobre redes sociais"

2) AEL

3) SIEMENS, George (2008): Uma breve história da aprendizagem em rede

4) SIEMENS, George (2004): Conectivismo: una teoria de aprendizaje para el mundo digital
Olá Denise,

Além da formação de professores e mudanças institucionais eu gostaria de discutir o que jovens podem fazer de modo independente visto que suas escolas provavelmente não oferecem condições adequadas de formação e os processos de melhoria são muito lentos.

Poderiam formar AELs? Equipes de formação independentes?
Que atividades e estudos poderiam realizar?
Que tipo de apoio precisam para tornar isso possível?

Será um prazer conversar com você e os demais colegas!

Abraços!
Olá Denise

A minha história nessa escola de vidro também teve as suas particularides. Eu segui no mundo acadêmico, mas sempre tentando desorganizá-lo a partir de autores sempre vistos como "marginais". E agora sinto mais o desejo de desorganizar a escola, pois estou em voltas com um tema que está na moda, mas que é fundamental para pensarmos em rutpturas das hierarquias, que é o da inclusão da chamada pessoa com deficência. A maioria dos chamados inclusivos querem "incluir" nessa escola de vidro, que foi criada para excluir aqueles que não se modelam. Quem sabe conversamos um pouco´em Curitiba. Forte abraço, Guga Dorea
Oi, Guga

Vamos conversar sim!

Espero que você tenha conseguido desorganizar um pouco o mundo acadêmico. Eu não consegui... entrei e saí rapidinho.

Quanto à escola, esta tem sido a minha meta: desconstruir alguns modelos preestabelecidos que as pessoas repetem, repetem, repetem, sem nem saber o motivo e quebrar os vidros...

O desafio é desler o mundo.

Um abraço

Denise
Oi, Régis

Você só fez pergunta difícil, menino!

Vamos lá.

Tudo vai depender do nível de organização desses jovens. É possível fazer, sim, muita coisa, mas o poder auto organizativo dos jovens não é lá essas coisas (tô falando de uma faixa dos 14 aos 18). Um pouco mais à frente, a coisa muda de figura (em torno dos 20 anos), eles já tem um amadurecimento maior e poder de convencimento para com os outros.

Pro primeiro caso, acho que a coisa só funciona se tiver um chefe de excursão, ajudando a pensar e a decidir.

Para os outros, é só lançar a semente. É mais uma questão de orientação.

Mas de qualquer maneira, para iniciar um processo é preciso que os participantes vejam sentido no que irão fazer; comprometam-se com esse fazer.

Tem que ter um foco, um projeto que os envolva. Projetos sociais são sempre mais empolgantes.

Acho imprescindível que as atividades utilizem diferentes linguagens - e que os jovens aprendam a linkar as suas ideias. Um filme, que lembra uma música, que leva a uma notícia de jornal, que culmina na criação de um gráfico etc.

Eu não tenho resposta, ainda, para os estudos formalizados. Estou em pleno processo de construção com meus professores e alunos.

Vou gostar demais de conversar com você também.

Um abraço

Denise

Régis Tractenberg disse:
Olá Denise,

Além da formação de professores e mudanças institucionais eu gostaria de discutir o que jovens podem fazer de modo independente visto que suas escolas provavelmente não oferecem condições adequadas de formação e os processos de melhoria são muito lentos.

Poderiam formar AELs? Equipes de formação independentes?
Que atividades e estudos poderiam realizar?
Que tipo de apoio precisam para tornar isso possível?

Será um prazer conversar com você e os demais colegas!

Abraços!

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