Escola de Redes

Algumas pessoas me perguntam por onde podem começar a construir uma rede. Geralmente respondo: – Comece conversando consigo mesmo!

Temos uma usina interna de interatividade. Nossa atividade mental nos mantém em um conversar solitário que, na maior parte do tempo, nem nos damos conta de que está em ação.

Nossos pensamentos se realizam através das palavras. Encadeamos pensamentos organizando idéias expressas em frases. Compomos parágrafos que conectam memórias e sensações. Tudo emerge como um texto meio desconexo mas que faz pleno sentido para quem está pensando sua própria narrativa.

Se você perceber este seu fluxo interno de pensamentos poderá identificar palavras que normalmente compõem seu universo linguístico. Claro, não pensamos com palavras que não conhecemos. Neste universo de palavras conhecidas que flui em nossos pensamentos está impressa nossa história pessoal, nossas explicações sobre o que vivemos em nosso passado.

Temos em nosso linguajear interno uma pessoa completa, falando o tempo todo!

Então, eu pergunto, se temos uma pessoa dentro de nós que fala, e que podemos ouvi-la a qualquer momento, então quem é este outro que escuta? E mais, estes dois podem conversar?

Faça uma experiência, se é que você já não a fez: fale seus pensamentos em voz alta enquanto os pensa. Siga, de preferência sozinho para não parecer maluco, falando o que pensa durante alguns dez ou quinze minutos, e perceba como este seu falar de algum modo influencia seu fluxo de pensamentos.

O som da própria voz, a necessidade de organizar o fluxo não-linear de pensamentos em uma narrativa verbal minimamente coerente e até o pequeno esforço de articular os músculos de sua face, apenas estas coisas já afetarão seu pensar.

Nossos pensamentos não estão em algum lugar dentro de nós, prontos para serem pensados. Eles surgem num fluir conversacional interno em uma experiência íntima de socialização! Nossos diálogos interiores são expressões de nossa linguagem em um espaço relacional privado.

Não podemos nos aproximar da experiência íntima do pensar de uma outra pessoa, pelo que se sabe não temos esta capacidade. Mas podemos seguir percebendo nossos próprios pensamentos, a qualquer momento.

Veja por exemplo quando você se vê em uma situação inesperada, mas ainda com alguns instantes antes de reagir por impulso. Perceba que em um momento como este é possível perceber a formação de um pensamento numa construção de palavras que irá, logo a seguir, determinar sua reação à situação que se apresenta.

Note que este o pensamento que vai determinar sua ação pode ser ouvido e até dá tempo de você pensar sobre algo sobre ele! Então você pode escolher entre agir como seu pensamento surgiu ou seguir sua reflexão sobre o que você pensou! Uma escolha simples mas que já amplia seu campo pessoal de expressão, certo?

Assim funcionam as conversações, elas trazem novas possibilidades, novas escolhas para nossas vidas. Mesmo conversando consigo mesmo, encaixando frases é possível ter um ganho significativo acerca das possíveis ações em nossas vidas.

Este é um grande benefício das redes sociais, trazer constantemente reflexões diferentes sobre o viver de cada um. E nestas diferenças vamos nos modelando uns aos outros de modo livre espontâneo, realizando e especificando nossa espécie humana.

Agora, para ampliar ainda mais suas possibilidades, converse com alguém sobre o que você conversou consigo mesmo. O resultado pode mesmo até melhor, certo?

Se você quiser conversar um pouco mais sobre este tema e aprofundar suas reflexões, participe do círculo reflexivo que estarei organizando no OPEN SPACE da CIRS 2010.

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Respostas a este tópico

Gostei! Nunca tinha pensado sob esse prisma. Valeu!
Esto que compartes me hizo recordar la época en que me comunicaba esribiendo cartas sobre papel. Muchas veces he pensado/revivido/actualizado el recuerdo de cierta magia que me sucedía al escribir de de puño y letra.
Escribir de puño y letra obliga a ralentar el pensamiento y a ponerlo en contacto con todo el cuerpo. Pensamiento y emoción se unen en el acto de escribir. El escribir cada palabra suele darme tiempo, me pone en ritmo con lo que estoy desenvolviendo, un desenvolver la idea que se anuda al trazo de mi mano y que va siendo ante mis propios ojos, se aclara el entendimiento y toma vuelo y crece casi sin darme cuenta.

También me hizo pensar en el valor de la oralidad y la condición de estar presente que ella significa cuando las personas se encuentran compartiendo un mismo espacio. Recordé también un conocido texto de Platón donde Sócrates previene Fedro de las desventajas de la escritura:

"... Porque es olvido lo que producirán en las almas de quienes las aprendan, al descuidar la memoria, ya que, fiándose de lo escrito, llegarán al recuerdo desde fuera, a través de caracteres ajenos, no desde dentro, desde ellos mismos y por sí mismos. No es, pues, un fármaco de la memoria lo que has hallado, sino un simple recordatorio. Apariencia de sabiduría es lo que proporcionas a tus alumnos, que no verdad. Porque habiendo oído muchas cosas sin aprenderlas, parecerá que tienen muchos conocimientos, siendo, al contrario, en la mayoría de los casos, totalmente ignorantes, y difíciles, además, de tratar porque han acabado por convertirse en sabios aparentes en lugar de sabios de verdad."
Gracias y cordiales saludos,
Lía
A explicação sobre uma experiência nunca substituia a experiência. Escrever sobre algo que vivemos nos traz uma nova experiência reflexiva sobre o que vivemos e, obviamente, traz uma nova experiência. Apenas os humanos tem essa capacidade de refletir em sua linguagem sobre a própria linguagem, não é mesmo?

Percebo em sua fala um cuidado na criação de um contexto favorável à reflexão. Você fala do ato de escrever como uma atenção consigo mesmo, um espaço de amorosidade onde o que é dito é escutado! Isso é muito bacana.
O mais interessante deste conversar interno, é que quando nos identificamos como aquele que escuta a voz interna, conseguimos nos ver e ver a vida através de um novo angulo, mas consciente e mais amplo. Acredito que este conversar interno é o primeiro passo para o auto-conhecimento e se conhecendo e sabendo como se relacionar consigo mesmo, fica mais fácil de relacionar com as outras pessoas que fazem parte da sua rede...
Olá Luiz

Gostei muito de suas reflexões. Para uma pessoa fechada como eu, mas que tem imenso diálogo consigo mesmo e consegue, na medida do possível, olhar o outro como ele realmente é e escutá-lo de fato, esse exercício que você propos é muito instigante. Senti o que voce disse como algo relacionado à política dos afetos de Espinosa. Não sei o que acontecerá no CIRS mas espero estar nessa exeperiência com vce. Forte abraço, Guga

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