Escola de Redes

Sobre as tentações militantes que acossam alguns participantes das manifestações de rua em São Paulo e alhures

AUGUSTO DE FRANCO

(16/06/2013)

 

Participei de muitas manifestações de rua. A mais famosa ficou conhecida como "Passeata dos 100 mil". Não eram assim tão espontâneas, nem convocadas peer-to-peer como algumas que, felizmente, vemos hoje. Eram articuladas centralizadamente ou descentralizadamente (quer dizer, multicentralizadamente), não distribuidamente (e se alguém ainda não entende essa diferença - entre descentralizado e distribuído - não poderá entender quase nada do que vou dizer aqui).

Eu fazia parte, via-de-regra, de um desses centros. Meu objetivo e os dos meus camaradas não era evitar a violência e sim provocá-la. Queríamos desmascarar a ditadura militar para desestabilizá-la. Assim, queríamos que as forças repressivas reprimissem de fato violentamente as manifestações. Não éramos suicidas e não queríamos matar ninguém, mas um cadáver produzido pela repressão seria politicamente muito bem-vindo. Um cadáver era uma bandeira preciosíssima. Então nos organizávamos para o confronto, ou para desencadear o confronto. Íamos armados de vários objetos, desde coquetéis molotov, bombas caseiras, bolinhas de gude e rolhas (para derrubar os cavalos), forquilhas de pregos soldados para furar pneus... Enfim, nos preparávamos como quem vai para a guerra. Afinal, éramos militantes (e a origem da palavra diz quase tudo). Não éramos agentes da paz e sim da guerra.

No contexto da guerra não corríamos o risco apenas de levar cacetadas, ter a cabeça quebrada ou, eventualmente, vir a morrer em consequência de ferimentos infligidos no confronto com as tropas repressoras. Se fôssemos pegos - alguns de nós, pelo menos - seríamos presos e condenados, torturados ou mortos. Como fomos.

A diferença para as manifestações de hoje - no Brasil e em vários países, pelo menos do ocidente - é que estávamos lutando contra uma ditadura. Tínhamos a legitimidade de quem estava lutando contra a autocracia. Mas embora falássemos em democracia frequentemente, não estávamos convertidos à democracia e, na verdade, não tínhamos a menor noção do que era democracia. Éramos analfabetos democráticos. Democracia era, para nós, um conceito instrumental, um recurso de agitação e propaganda. Democracia era a bandeira para derrubar a ditadura e depois, quando a ditadura fosse derrubada... bem, aí erigiríamos o nosso próprio governo: autocrático, sim, mas do-bem, de esquerda, dos que querem redimir a humanidade, salvá-la do capitalismo, da dominação, opressão e exploração das elites, da burguesia, daquele 1% (como se diz hoje) que comanda e controla nossas vidas (a vida dos 99%, do povo, do povão, dos dominados, oprimidos e dominados).

Os militantes e ativistas de hoje - em sua maioria (não todos) - não percebem tal diferença e confundem ditadura com democracia (sim, com esta sofrível democracia, já se sabe, limitada, formal e representativa, reinventada pelos modernos). Alguns, que resolveram adotar como símbolo a máscara do filme "V de Vingança" (2006), não apreenderam corretamente a metáfora do roteiro dos irmãos Wachowski: na história estava-se lutando contra um regime em crescente processo de autocratização, contra uma ditadura. Não, não captaram que não é tudo a mesma coisa. Que Madri não é Cartum, Nova York não é Pyongyang e São Paulo não é Teerã.

Às vezes penso numa anedota. Gostaria de entrar em contato com os caras que publicam manuais de Ação Direta para armar a militância, nos Estados Unidos e em vários países europeus, e agora também aqui no Brasil, para conversar com eles sobre como andam os processos que estão articulando em Pequim, Havana e Luanda... (risos e se só eu ri, haverá um problema).

Ah! Não estão? Parece que eles (ou algum deles) - tão ocupados em preparar a derrubada do capitalismo global em três dezenas de democracias formais - não têm mesmo muito tempo para se preocupar com as tenebrosas 50 ditaduras que remanescem neste século 21 e sob as quais ainda vivem bilhões (sim, mais de 2 bilhões) de pessoas. Deles não se ouve um pio sobre isso.

Mas neste ponto - a democracia -, curiosamente, não há grande diferença entre o que fazíamos nos nossos centros convocadores de outrora e o que faz boa parte dos centros de militantes ou ativistas que hoje querem convocar manifestações de massa. Sim, os de hoje, em sua maioria, também não têm a menor noção da democracia, embora - a despeito da consciência que não-têm - podem fazer parte, sim, como nós fizemos, de uma corrente de democratização.

Mas há, felizmente, outra diferença. Nós convocávamos mesmo, de modo mais centralizado do que distribuído, a massa: para arrebanhá-la, conduzi-la, instrumentalizá-la (sempre para um bom propósito, é claro), enquanto alguns de hoje (não todos, felizmente) imaginam tolamente que estão convocando, de modo descentralizado, as manifestações da multidão. É uma diferença, do ponto de vista da democracia, a favor dos de hoje. Nós, os de ontem, agíamos muito pior do que os de hoje. Embora os de hoje não saibam disso. E nem percebam que a sua impotência em convocar, organizar, instrumentalizar, liderar, conduzir, não é consequência de qualquer erro que estariam porventura cometendo: é apenas um sinal de que a estrutura da sociedade está configurando um ambiente mais favorável ao processo de democratização. Quanto menos eles - os militantes e ativistas adversariais - podem, mais pode a sociedade (quer dizer, a rede social).

Mesmo assim, alguma influência haverá, sobre as manifestações de rua de hoje, dos grupos que se preparam para a guerra. Não são todos, por certo. Talvez nem a maioria. Ainda bem. Mas bastam alguns grupos determinados a provocar a repressão policial violenta para desencadear um confronto de consequências imprevisíveis, provavelmente desastrosas. Eu mesmo (juntamente com outros) fiz isso, e várias vezes. Muitos poderiam fazer, se quisessem. Por exemplo, se as manifestações forem relativamente reduzidas, com até, digamos, 30 mil pessoas, precisa-se apenas de umas 30 pessoas (cada uma com 10 pessoas conhecidas no seu entorno) para fazer isso. Iniciada a espiral da violência, a coisa anda sozinha e corre solta. A indignação popular com a repressão policial-militar às manifestações de rua tende - sobretudo nas democracias formais, onde a polícia e o exército não podem matar abertamente as pessoas, a não ser quando isso é caracterizável como acidente derivado do confronto - a engrossar as manifestações. Quem não ligava para o assunto, passa também a se indignar. Milhares de novos manifestantes aderem aos protestos. Novos agentes provocadores surgem também, espontaneamente, em função da dinâmica que foi desencadeada. De 30 passam para 300, 3 mil... Se a violência continua, de parte a parte, pode-se desestabilizar até mesmo o regime político. E aí?

Bem, aí o poder, é claro, não vai para o povo como pensam os babacas e sim para os destacamentos que estiverem organizados para empalmá-lo: para alguém mais preparado para fazer isso (organizado top down, hierárquica e autocraticamente) do que aqueles ativistas desprecavidos de boa-vontade e, sobretudo, do que as pessoas que foram às ruas manifestar sua legítima indignação, comovidas por um senso de justiça e solidariedade. Se isso acontecer haverá um retrocesso no processo de democratização. Sim, estou descrevendo aqui a gênese de um processo de autocratização a partir de movimentos de massa. Pode? É claro que pode.

Isso não acontecerá, todavia, se multidões ocuparem as ruas. Quando centenas de milhares, milhões, saem as ruas, não há mais repressão possível. Mas multidões de pessoas conectadas - e formadas a partir de miríades de micromotivos diferentes (compondo uma grande murmuration) - não são massas arrebanhadas. Bem... aqui começa nossa conversa logo após o fim do (velho) mundo (único).

Uma multidão de milhões não pode ser convocada centralizadamente, nem mesmo descentralizadamente. Ela acontece por um mecanismo distribuído próprio da rede. Ela é a manifestação de uma fenomenologia da interação, um swarming (enxameamento). Felizmente, swarmings - como o que aconteceu em Madri (a propósito da tentativa de falsificação, pelo governo de Aznar, da autoria dos atentados da Al Qaeda em março de 2004, atribuindo-a falsamente ao separatismo basco) ou no Egito (a manifestação na Praça Tahir que foi decisiva para a queda do ditador Mubarak em fevereiro 2011) - não podem ser planejados por um grupo centralizado, não podem ser urdidos por um comitê central e nem podem ser convocados por meios broadcasting. Só ocorrem quando se trafega pelos canais próprios das redes, por meios P2P, ou seja, quando o fluxo percorre os múltiplos caminhos de topologias distribuídas. São necessários muitos feedbacks, muitos laços de retroalimentação de reforço, muitas reverberações, para que pequenos estímulos provenientes da periferia dos sistemas estáveis afastados do estado de equilíbrio, possam se amplificar de modo a modificar o comportamento dos agentes do sistema como um todo. Só quem pode fazer isso é a rede, não hierarquias.

Pode-se, no máximo, tentar clonar as estruturas distribuídas das redes sociais realmente existentes (e é bom não confundir as redes sociais, quer dizer, as pessoas interagindo segundo determinado padrão mais distribuído do que centralizado, com as mídias sociais, as ferramentas interativas - como o Facebook e o Twitter) e procurar atuar de modo coerente com elas. Atuar de modo coerente com a estrutura e a dinâmica de mundos distribuídos significa fazer netweaving: mais do que cortar e quebrar, tecer, alinhavar. Ou seja, ser mais interativista do que ativista (militante).

Nada de organizar destacamentos. Interagir para clusterizar (sim, tudo que interage clusteriza). Distribuir para enxamear (sim, tudo que interage, a partir de certo grau de distribuição, conectividade e interatividade, pode enxamear). Conectar para contrair o tamanho social do mundo, quer dizer, para ensejar e acelerar o crunching (o amassamento que ocorre em Small Worlds Networks) que está mudando não apenas a estrutura e a dinâmica, mas a natureza daquilo que chamamos de sociedade humana.

Mesmo assim, não se sabe - e é bom que não se saiba de antemão - se os fenômenos mencionados vão acontecer. Eles podem acontecer e podem não acontecer. O importante é não tentar instrumentalizar os outros, mobilizá-los para o confronto, insuflar um ânimo adversarial, construir e demonizar inimigos O importante é não iniciar uma espiral de violência. O importante é construir a paz e não a guerra.

A democracia nunca nasce da violência. Não há um caso, um único caso na história. A primeira democracia, a democracia dos antigos gregos, não nasceu assim: os atenienses frequentadores da Ágora não organizaram um atentado ao tirano Psístrato ou ao seu filho Hipias, nem, muito menos, insuflaram uma rebelião popular. O protagonismo daquela nascente dinastia autocrática foi interrompido, sim, mas por ação pacífica. Os democratas simplesmente proclamaram um édito em que dispensavam os serviços do autocrata. Clístenes, Efialtes e Péricles não tomaram o poder tirânico para exercê-lo da sua maneira, simplesmente dispensaram esse poder (quer dizer, recusaram-se a reproduzi-lo do modo como estava estruturado: e é a isso, precisamente, que chamamos de primeira invenção da democracia). A democracia dos modernos também não se estabeleceu a partir de nenhuma guerra, ainda que tenha ficado constrangida a se transformar (e a se rebaixar) em um modo de administração política do Estado-nação, este sim, uma estrutura desenhada pela guerra e para a guerra. Esta, aliás, é a principal razão dos limites que a democracia atualmente existente impõe ao processo de democratização e, inclusive, mais do que isso, a razão da sua falência, agora anunciada pelos novos movimentos da sociedade-em-rede.

A terceira democracia, quando vier, também não virá por meio de uma guerra. Por que? Ora, porque a democracia é um modo pazeante das relações. Ela é o contrário da autocracia, que só pode se manter com base na guerra. Ela não é um lugar para se chegar e sim um modo de caminhar que desconstitui autocracia na medida em que recusa combater e vencer para derrotar inimigos (reais ou construídos como pretexto para justificar uma estratégia de poder).

As democracias não nascem de rebeliões, nem de revoluções entendidas como atos violentos de remoção dos antigos ocupantes dos cargos de poder e sua substituição por novos ocupantes. Todos os processos que foram assim desencadeados produziram mais autocracia, não mais democracia. Estreitaram a brecha democrática que foi aberta, uma ou outra vez na antiguidade e na modernidade, na civilização patriarcal e guerreira. Restringiram em vez de ampliar as liberdades.

As primeira medidas dos governos revolucionários que chegaram ao poder pela violência foram, via de regra, a abolição da liberdade de imprensa e da liberdade de organização, a instalação de polícias políticas e a ereção de monstruosos aparelhos estatais de repressão. Ademais, provocaram verdadeiros genocídios, os maiores de que se tem notícia na história. 

As democracias não são originadas em eventos épicos, em grandes batalhas, mas são resultados de processos moleculares, de dinâmicas de rede (sim, se não houvesse uma rede social em Atenas, com significativo grau de distribuição, a conversação na praça do mercado que deu origem à primeira democracia não teria acontecido). As democracias não são regimes de heróis, de visionários desvairados que querem conduzir rebanhos, de líderes manipuladores, de utopistas vidrados em suas fórmulas para redimir a humanidade e salvar a espécie humana por meio de grandes confrontos épicos, de batalhas titânicas. A democracia é lírica, é um modo de convivência pacífico e pacificante, voltado para transformar inimizade em amizade política e - para lembrar John Dewey (1939) - praticado pelas pessoas comuns.

Atribui-se ao Mahatma Gandhi o dito de que não existe um caminho para a paz, a paz é o caminho. O mesmo pode ser dito da liberdade, da materialização do ideal de liberdade como autonomia e da democracia como modo pazeante de regulação de conflitos. Não existe caminho para a democracia: a democracia é o caminho. Se queremos uma nova democracia, mais democratizada ou radicalizada, não há outro caminho senão a democratização.

Sim, vamos ocupar todas as ruas. Amanhã, depois e quando desejarmos. Que sejamos multidões formadas por iterações de um-mais-um, não rebanhos reunidos e manipulados, massas uniformes e indiferenciadas gritando palavras de ordem fabricadas em algum covil de militantes tarados ou seguindo bandeiras de partidos autocráticos e oportunistas. Seremos milhares, centenas de milhares, milhões: mas um-a-um, pessoas únicas cada um de nós, pensando com nossas próprias cabeças, compartilhando nossos desejos de mudança horizontalmente, com nossos próprios emaranhados e recusando diretivas daqueles hierarcas ou proto-hierarcas que querem nos conduzir.

Não à guerra. E que a paz esteja conosco!

Nós não somos os anônimos. Somos aqueles que têm muitos nomes. E temos nossos próprios rostos. Não somos mais um indivíduo numa massa uniforme de mascarados com a mesma máscara. Não queremos ser mais uma parte em qualquer coletivo: queremos ser o todo naquela parte que somos porque cada um de nós é unique.

Não queremos substituir o velho mundo por outro que também seja único. Sabemos que muitos mundos são possíveis, desde que consigamos construí-los em nossa convivência.

Somos muitos, sim, mas um-a-um: nada de rebanho, nada de seguimento de lideranças, nada de caminhos pré-traçados para um porvir radiante, nada de revoluções épicas, nada de transformações cósmicas capazes de produzir um novo céu e uma nova terra. O novo céu será a composição fractal de muitas terras, de muitas redes tecidas por nós: liricamente!

Nós somos os que desobedecem, no dia a dia, nos pequenos gestos, salvando os mundos em que interagimos um instante de cada vez e não em formidáveis batalhas episódicas. Nós não achamos que todo mal que nos assola será redimido quando vencermos algum grande inimigo. Sabemos que o único inimigo que existe é aquele que constrói inimigos para lutar contra eles.

Não somos nem queremos ser heróis ou santos, que fugiram da humanidade porque não se achavam bons o bastante. Heroísmo ou santidade não convêm a seres humanos.

Não temos mais raízes: temos antenas. Não pertencemos a grupos e não erigimos organizações, não construímos diques e não lançamos âncoras para nos proteger da correnteza, para escapar do fluxo caudaloso... Não temos medo do abismo da interação. Quando o abismo nos olha, pulamos nele.

Nós somos as pessoas comuns.

Exibições: 1967

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Respostas a este tópico

Meu caro.

Concordo em gênero, número e grau. Sou da geração dos caras pintadas, mas ao contrário da maioria, não fui às ruas, nem o Coletivo Anarquista do qual eu era articulador. E isso por uma simples razão... Quem leu Ortega & Gasset sabe: "A massa age por instinto" e enquanto eu não soubesse quem iria ganhar com isso, não nos movemos. Me recuso a servir de massa de manobra de outrem.

Desejo boa sorte à nova onde de protestos. Que se torne rotina, mesmo atrapalhando minha volta pra casa.

As cenas captadas por uma pequena câmera (celular?) no metrô de São Paulo ontem a noite são belíssimas. Só não acertaram ainda no slogan final. Não é bem "O povo unido jamais será vencido" e sim "As pessoas conectadas e interagindo não podem ser mais comandadas e controladas" (não rima, mas é mais isso do que aquilo). No início da década de 90 já brincávamos que "O povo desunido (no sentido de não arrebanhado centralizadamente) jamais será vencido". O conceito de povo é um horror (a primeira vez que foi empregado - nos conta Joahannah Arendt, se não me engano - designava contingente de tropas). São pessoas, pessoas consteladas em multidões, por meio de grandes swarmings, como tivemos ontem, o 17J que já está na história do Brasil (seja lá o que isso for, não o swarming - o enxameamento como fenomenologia da interação - e sim o Brasil).

http://www.facebook.com/gutadefranco/posts/4375864935042

 

 

Ótima reflexão! É uma dos melhores textos que li sobre essa onda de protestos que está se alastrando (infelizmente, parece que viraram protestos genéricos demais) e sobre suas possíveis conseqüências (positivas ou negativas). Quiçá todo adorador de ditaduras dos anos 70 não desse uma de coitadinho hoje em dia e tivesse revisto seus valores, ensinando às novas gerações o valor da participação política civilizada.

Não dá para a mídia esconder...

As pessoas se conectam e transmitem ao vivo via celular para internet.

As mídias são várias: POSTV, twitcasting... E usam G1 para controlar as distorções dos acontecimentos.

http://www.youtube.com/watch?v=L2Z1D_w1Vxs

Dimas Dion de Silva Santos disse:

Não dá para a mídia esconder...

A mídia não está escondendo nada. De onde você tirou isso?

Estou acompanhando....

8 PONTOS (retirados da entrevista na CBN)

1 - Em alguns lugares (como São Paulo e Rio) o que aconteceu no 17J (17 de junho de 2013) foi um swarming mesmo (quer dizer, um enxameamento: a manifestação de uma fenomenologia da interação que só pode ocorrer em sociedades altamente conectadas). Foi o primeiro swarming claramente identificável (e contraído no tempo a ponto de poder ser percebido) no Brasil (semelhante ao 13M e ao 15M em Madri e em outras cidades espanholas e ao 11F na Praça Tahir, no Egito).

2 - Foram as maiores manifestações de rua desde as dos carapintadas (que antecederam o impeachment de Collor em 1992). Com características inovadoras desta feita: não foram convocadas centralizadamente, não havia liderança (e sim multiliderança, múltiplas lideranças emergentes e eventuais) e uma prova disso, em São Paulo, é que não foi propriamente um ato, as passeatas se bifurcaram, percorreram e ocuparam várias localidades da cidade (na verdade, pararam mesmo São Paulo).

3 - Minha estimativa é que 300 mil pessoas saíram às ruas no Brasil. A avaliação de 65 mil pessoas feita para São Paulo é incorreta (aqui teve mais ou menos o mesmo número de manifestantes do que no Rio de Janeiro, senão mais). Além disso a movimentação ocorreu em dezenas de cidades brasileiras (além das capitais).

4 - O vandalismo, onde houve, foi lateral, pontual. As multidões enxameadas se manifestaram pacificamente e coibiram atos violentos.

5 - As manifestações expressaram um descontentamento com a relação Estado-sociedade ainda vigente. O sentimento generalizado - difuso porém identificável - expressava uma indignação com a velha política, sobretudo com os partidos. A multidão gritando "Sem partido, sem partido" e constrangendo os militantes partidários a recolherem suas bandeiras, indica uma clara recusa à privatização da política.

6 - Enfatizo também que não se trata mais de massas convocadas por organizações centralizadas, mas de multidões de pessoas consteladas de modo distribuído (e que se não entendermos isso não vamos entender nada).

7 - Como o Estado e os governos a partir de agora vão poder se comunicar com essa sociedade altamente conectada e com graus crescentes de interatividade? Não sei a resposta. O Estado e os governos vão ter que descobrir um modo de se conectar mais e interagir mais, por dentro e para fora. Ressalto que os agentes políticos ainda não estão entendendo nada quando pedem por lideranças para negociar. Mas não existem lideranças capazes de representar esse tipo de movimentação. E nem se trata propriamente de negociação. Embora um dos elementos desencadeadores dos protestos foi o aumento das passagens de ônibus, as movimentações expressam uma pauta variadíssima (que vai desde as fortunas gastas com a Copa vis-a-vis à péssima qualidade dos serviços públicos, passando pela indignação com a corrupção política generalizada até o descontentamento com certas leis antidemocráticas que vêm sendo aprovadas pelo Congresso Nacional: como a PEC 37 e o projeto de lei que tenta manietar o Supremo Tribunal Federal).

8 - Concluo dizendo que o sentido mais geral de tudo que vem acontecendo nessas novas expressões políticas da sociedade-em-rede, no Brasil e em outros países, aponta para uma reinvenção da política, para uma reinvenção da democracia.

O POTENCIAL TRANSFORMADOR DO PRESENTE CONVIVIDO

Sobre a alegria da convivência na Avenida Paulista ontem (18 de junho de 2013) a noite.

Vocês já viram crianças brincando? Pois é. Elas não ficam calculando para quê servem suas brincadeiras. Simplesmente fluem, se comprazendo na fruição da convivência. 

Não há um objeto oculto, externo, urdido, planejado, uma engenharia, uma instrumentalização do tipo: estou fazendo isso para alcançar aquilo. Quando brincam, estão se apossando do presente, vivendo-o em plenitude. E se alegram (porque - como cantou o Vinicius no Samba da Bênção - é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, ela é assim como a luz no coração).

Bem... depois as crianças são ensinadas de que isso não leva à nada, que pessoas responsáveis, sérias, não devem brincar, desperdiçar seu tempo com bobagens. E aí viramos adultos e não brincamos mais, perdemos a capacidade de fazer alguma coisa pelo que ela é e nos pomos então a organizar a nossa vida para alcançar objetivos imaginários e abstratos que não estão contidos no ato em si. 

Quando acontece alguma coisa boa, inédita, nem percebemos o potencial transformador da novidade que se constelou porque ficamos logo pensando para onde aquilo vai nos levar, como vai ser o amanhã e o depois de amanhã. Essa alienação do presente acomete, sobretudo, os que querem organizar os outros, conduzi-los para algum lugar (que, na verdade, eles não sabem onde é). 

Na Paulista, ontem a noite, me contou a Guta de Franco, configurou-se um ambiente parecido com uma TAZ (Zona Autônoma Temporária do Hakim Bey), mas creio que muitos não perceberam o potencial revolucionário do que se constelou ali. Em virtude da termos sido infectados, desde a primeira infância, com a ideia instrumental de alcançar objetivos (e de organizar os outros), não nos permitimos viver o que de fato pode mudar o firmware da sociedade de controle. É quase uma tara, muito comum em militantes (esses seres deformados que querem conduzir os outros para algum lugar no futuro: que não existe e não pode existir na medida em que só temos o presente). 

Refletindo sobre isso, acho que devemos prestar atenção ao que dizia aquele judeu marginal de Nazareh e nos tornar crianças outra vez. Reaprender a brincar.

Interessante....Emergência.


taí o arquivinho... 


Augusto de Franco disse:

Anexos

Boa noite!

Vejo as manifestações como se cada brasileiro tivesse dentro de si, um dragão, crescendo a cada dia, aumentando o incômodo pessoal. De reprente esses dragões são colocados para fora com o seu hálito de fogo para que cada um volte a ter a paz "interior" . Como na cultura chinesa a simbologia do dragão é a fonte de sabedoria e força, todas as feras se reuniram para a destruição do mal. Enfim, é uma guerra em busca da paz. Vale dizer que os dragões estão se defendendo de um Monstro chamdo Governo que vinha atacando, consumindo o brasileiro aos poucos.

Ailza Gabriela Almeida Amorim

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