Escola de Redes


Na minha última conversa com Manuel Castells (no dia 12 de junho, na Cinemateca Brasileira, durante a realização do Festival de Ideias 2013: ver foto) demoramos muito pouco - quase nada - para estabelecer uma sintonia sobre um ponto fundamental: as dinâmicas interativas dos mundos altamente conectados, emergentes neste século, estão configurando ambientes favoráveis à uma nova reinvenção da democracia.

Na época da conversa já havia começado a escrever - em abril deste ano - meu livro (ainda em elaboração), intitulado A Terceira Invenção da Democracia; e ainda não tinha lido o livro dele, Castells: Networks of Outrage and Hope: Social Movements in the Internet Age (Cambridge: Polity Press, 2012).

Só agora estou lendo a tradução brasileira do livro de Castells: Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet (Rio de Janeiro: Zahar, 2013). O posfácio, escrito para a edição brasileira, é muito ruim. Mas o livro é bom, sobretudo o capítulo 4, intitulado Uma revolução rizomática: os Indignados na Espanha, no qual ele relata e analisa a movimentação social que começou no início de 2011 e que ficou conhecida em virtude da grande manifestação do 15M em Madri e chamou a atenção do velho mundo político pelos seus inusitados lemas: "Outra política é possível", "Pessoas unidas funcionam sem partidos", "A revolução estava em nossos corações e agora enche as ruas" e "Não sou contra o sistema, o sistema é que é contra mim".

Há muita concordância em vários pontos. Em especial gostaria de citar excertos de três seções do mencionado capítulo. Então, citando Castells agora:



REINVENTAR A DEMOCRACIA

"Não houve decisão formal, mas todos concordaram na prática, desde o início do movimento. Este não teria líderes, fosse em âmbito local, fosse no nacional. Nesse sentido, nem porta-vozes foram reconhecidos. Cada um representaria a si mesmo e a mais ninguém. Isso levou à mídia à loucura, já que em qualquer ação coletiva os rostos são ingredientes necessários de sua técnica narrativa. A fonte desse antigo princípio anarquista, geralmente traído pela história, não era ideológica no caso desse movimento, embora ele se tornasse um princípio fundamental, aplicado pela grande maioria de seus atores. Estava presente na experiência das redes da internet, em que a horizontalidade é a norma e há pouca necessidade de liderança, porque as funções de coordenação podem ser exercidas pela própria rede, mediante a interação entre seus núcleos.

A nova subjetividade apareceu na rede. A rede torna-se o sujeito. A rejeição da liderança também foi consequência das experiências negativas que alguns ativistas veteranos haviam vivenciado no movimento por justiça global e em várias organizações radicais de extrema esquerda. Mas também resultou de uma profunda desconfiança em relação a qualquer liderança política organizada, depois de observarem a corrupção e o cinismo que caracterizavam os governos e os partidos tradicionais. Essa busca de autenticidade por uma nova geração que entrou na política rejeitando a realpolitik define fundamentalmente o próprio movimento, embora isso fosse por vezes criticado internamente, por militantes não atualizados, como buenismo (bom-mocismo). Mas a reivindicação de legitimidade na construção de uma nova forma de política só podia ter credibilidade se posta em prática na atividade cotidiana do movimento.

[...]

Reafirmou-se como axioma do movimento que a não violência era essencial. Em primeiro lugar, porque a violência, amplificada pela mídia, mesmo quando não provocada pelos manifestantes, alienaria o apoio da população. De modo mais fundamental, porém, opor-se à violência, em todas as suas formas, e independentemente da origem, é um princípio básico da nova cultura da paz e da democracia que o movimento deseja propagar. Assim, a desobediência civil é adequada, incluindo algumas formas ousadas, como bloquear edifícios sentando-se nas portarias ou acorrentando-se a portões. Mas nunca é correto envolver-se em violência ativa ou mesmo reagir a ataques violentos da polícia.

A questão da violência foi debatida em assembléias e recebeu sempre a mesma resposta da grande maioria do movimento. Envolver-se em violência, ainda que justificada, contradiz a própria essência daquilo que constitui o tema do movimento e faz retroagir às velhas táticas da ação revolucionária que abandonaram a integridade ética em favor da expressão do ódio, transformando-se, nesse processo, no mesmo mal a que se fazia oposição. Os Indignados foi um movimento pacífico, cuja coragem permitiu a deslegitimação da repressão violenta, atingindo assim uma primeira e importante vitória no coração dos cidadãos."

Continuando com as citações de Castells:

"Para uma corrente profundamente autorreflexiva do movimento, o que importa é o processo, mais que o produto. Na verdade, o processo é o produto. Não que o produto final (uma nova sociedade) seja irrelevante. Todavia, essa nova sociedade vai resultar do processo, não de um projeto preconcebido daquilo que o produto deveria ser. Essa é a verdadeira transformação revolucionária: a produção material da mudança social, não a partir de objetivos programáticos, mas das experiências conectadas dos atores do movimento... É por isso que a não violência é uma prática fundamental, pois um mundo não violento não pode ser criado pela violência revolucionária. Por pensarem que essa lógica não produtivista do movimento é a transformação mental mais importante, eles aceitam a lentidão do processo e se preparam para uma longa jornada, pois a falta de pressa é uma virtude. Ela permite a autorreflexão, torna possível corrigir erros e fornece espaço e tempo para se desfrutar o processo de transformação do planeta como prelúdio à celebração do novo mundo que se está construindo. "Somos lentos porque vamos longe" foi um dos lemas mais populares do movimento.

Nessa longa jornada, os ritmos se alternam, às vezes aceleram, às vezes se acalmam. Mas o processo nunca para, mesmo que permaneça invisível por algum tempo. Há raízes da nova vida se espalhando por toda parte, sem um plano central, mas se movendo e estabelecendo redes, mantendo o fluxo de energia, esperando a primavera. Porque esses núcleos estão sempre conectados. Há núcleos de redes da internet, em âmbito local e global, e há redes pessoais, vibrando ao ritmo de um novo tipo de revolução cujo ato mais revolucionário é sua própria invenção".

Leiam o livro do Castells.

Para ver o estágio atual em que está (ou estava, em 7 de julho de 2013) o meu A Terceira Invenção da Democracia, clique aqui

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