Escola de Redes

7 PONTOS PARA ENTENDER POR QUE AS MANIFESTAÇÕES DE HOJE SÃO DIFERENTES (E UMA MESMA CANÇÃO)

1 - Em 1970, quando Chico Buarque compôs Apesar de você, vivíamos em plena ditadura militar no Brasil. Agora, em junho de 2013, não (felizmente).

2 - Lutávamos àquela época por liberdade (embora não estivéssemos ainda convertidos à democracia). Agora também (mas não lutamos hoje contra a limitada democracia realmente existente na sua essência, quer dizer, no que ela tem de democrático: as multidões que saem às ruas neste memorável junho de 2013 estão expressando um descontentamento com um velho sistema que - do modo como está organizado - sentem não mais representá-las).

3 - Antes havia liderança, programas políticos, estratégia, táticas. Agora não há. Há milhares de micromotivos diferentes que se combinam e recombinam por emergência.

4 - Antes não vivíamos em uma sociedade altamente conectada (e nem havia as ferramentas virtuais que permitem a interação em tempo real ou sem-distância). Agora vivemos no dealbar de uma sociedade-em-rede (e temos a Internet e as midias sociais, como o Facebook, o Twitter, além da telefonia celular).

5 - Antes a dinâmica era mais adesiva e participativa. Agora é mais interativa.

6 - Antes havia assembleísmo, recrutamento para organizações hierárquicas, militantes obedientes às suas direções que atuavam como agentes no meio da "massa" para conduzi-la. Agora temos interativismo (ativismo interagente, no qual cada pessoa comparece nos seus próprios termos e desobedece aos que querem mandá-la) compondo uma espécie de sistema nervoso fractal de imensas multidões.

7 - Antes a fenomenologia da interação - a contaminação que se alastra de forma distribuída, seguindo uma dinâmica epidemiológica, peer-to-peer - não podia se manifestar de modo perceptível (como reverberação, múltiplos laços de realimentação de reforço, clustering, swarming, cloning, crunching). Agora a fenomenologia da interação está acelerada, contraída no tempo de sorte a poder ser percebida e assistimos, em vários lugares do mundo, a incidência cada vez mais frequente de aglomeramentos, enxameamentos, contaminação viral por proximidade, imitamento nas vizinhanças e contração do tamanho social do mundo (ou redução dos graus de separação).

Mesmo com todas essas diferenças, por algum motivo, a velha canção de Chico Buarque parece expressar a mesma emoção das multidões que vão às ruas, 43 anos depois.

E podemos cantar nas praças outra vez.

APESAR DE VOCÊ

Chico Buarque (1970)

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
La, laiá, la laiá, la laiá

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Respostas a este tópico

Estou acompanhando / interagindo e gostando...

Show de bola Augusto. Ontem fui pra Paulista e o que se ve é exatamente o que vc diz. Cada um com seu cartaz, com seu motivo para estar la, com razões multiplas que se entrecruzam. Alguns poucos que tentavam "organizar" a manifestação só eram seguidos pelo seu pequeno grupo que era ínfimo perto da multidão de indignados e felizes manifestantes que claramente desobedeciam quem quer que seja. Sem partidos, sem sindicatos, sem manipulação! Coisa linda de se viver.

Ontem foram ao menos 1 milhão nas ruas em todos os rincões deste pais. Tudo sem convocação centralizada, tudo junto, motivos variados, porem semelhantes na indignação com o sistema representativo que não representa o verdadeiro desejo das pessoas. São dias historicos. Estamos assistindo a emergencia da nova democracia. Lindo. Salve Chico!

Augusto, tinha acabado de colocar um post no Face com outra letra do Chico:"Num tempo / Página infeliz da nossa história / Passagem desbotada na memória / Das nossas novas gerações / Dormia / A nossa pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações / Seus filhos / Erravam cegos pelo continente / Levavam pedras feito penitentes / Erguendo estranhas catedrais". Nesse ponto nós estávamos iguais a hoje, com nossa pátria sendo subtraída. A diferença é que naquele tempo existiam lados opostos bem demarcados e hoje a pluralidade e as redes fez estas linhas divisórias se extinguirem, mas alguns radicais de esquerda não aceitam e querem nos classificar de direita. Como assim? isso ainda existe? esse jovens que estão na rua não estão nem aí para direita/esquerda. Querem soluções para seus problemas.

Hoje de manhã vendo as imagens das manifestações me emocionei e chorei.

Tenho 54 anos, sou dessa geração que se organizava e saía às ruas e há muito tempo venho sentindo que minha voz está muda diante de tantos desmandos.

A nossa rotina até então eram notícias de corrupção, insegurança, má gestão de recursos públicos, relapso, impunidade, etc..  

Com isso, o sentimento de indignação vai enfraquecendo,  sendo apagado como uma velha imagem que desbota com o passar dos anos.

Foi preciso esse sangue novo, essa conexão vibrante aparecer para nos  chacoalhar e lembrar a todos que  juntos podemos.

também.



José Gilberto Formanski disse:

Estou acompanhando / interagindo e gostando...

Sou também dessa geração que lutou contra a ditadura. Nasci em 64 e me eduquei politicamente na luta por democracia, Aos 18 anos já pintava os muros e organizava passeatas e manifestações, sob a orientação de minha turma de uma organização hierárquica, fundamentada no leninismo, com rígida disciplina. Para nós naquela época a massa precisava ser conduzida por sua vanguarda organizada (claro, que achávamos que essa vanguarda era nós).

Comecei pela organização no grêmio estudantil. Refundamos a UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas) e 1981; fudamos a UMES, a entidade estudantil da nossa cidade (Belém) em 1982. Nossos manuais ensinavam que as pesseatas, além de instrumento de agitação e propaganda política, eram também campo de treinamento e recrutamento de novos quadros militantes. Enfrentamento com a política de forma destemida revelava o temperamento do militante que tinha que ser treinado, na luta diária, para a revolução vindoura. A Campanha de 1982; luta por eleições diretas em 1984; Eleição Constituinte em 1986; e a proclamação da Constituição Cidadã foram momentos memoráveis. Passei a ver a democrfacia como direito universal e não mais como tática para a conquista do poder e a implantação da ditadura do proletariado.

Na universidade, percebi que, a medida que a democracia ia se afirmando, mas autonomia eram manifestadas por aqueles que Felix Guatarri denominou de grupelhos. Afinal, "somos todos grupelho", afirmava.  Passei a me interessar pela  ciência política e percebir que até mesmo dentro do partidão existiam os grupelhos. Como evitá-los na sociedade ?

Impossível. Assim foi sintomático uma disputa para o centro Acadêmico de Comunicação em que uma coligação de forças de alguns partidos ditos de esquerda (parte do PT, junto com oPCdB e outros) se uniram para conquistar e aparelhar o centro acadêmico que dirigiamos sem partidarismo, o que era considerado um equívoco. Após algumas rodas de conversas alguém, despretensiosamente, disse algo que parecia banal de tão óbvio: "O Centro Acadêmico é dos estudantes, não de partidos políticos". Dormi pensando nisso e no dia seguinte propus uma nova estratégia para a disputa da eleição:ao invés de registrarmos 13 membros com funções  específicas, formamos uma chapa com mais de 80 estudantes. Cada diretoria agrupou quantos alunos quisessem fazer parte da direção do Centro Acadêmico, ou seja, os eleitores eram a chapa. A chapa eram os eleitores, ninguem estava ali representando ninguem. Todos eram dirigentes e dirigidos. O resultado já sabiamos antes da votação. Uma fragorosa derrota ao grupelho aparelhador. Nas passeatas passamos a observar, já nequela época (1990)  que um grande número de estudantes paticipavam espontaneamente, sem bandeiras ou camisetas dos diversos grupelhos atuantes nas universidades. Ao invés de hostilizá-los, passamos a interagir com eles, começando por amplificar nos potentes carrso de som, os cartazes que eles traziam manuscritos, transformando as frases em palavras de ordem. Afinal, já haviamos detectado em uma pesquisa de opinião a crescente rejeição a partidarização do movimento, o que levou a criação do movimento "DCE Acadêmico" que foi vitorioso na eleição pro DCE. Houve seleção de currículo em que o principal critério de participação na chapa era o desempenho acadêmico do aluno na universidade.

Assim, as manifestação de hoje refletem o estado latente que vem se fortalecendo com a iminência das redes distribuídas. Aonde estava a UNE, os partidos políticos de esquerda ou centro-esquerda ? Como andam muito ocupados com a dicivão de beneses e com os conchavos de bastidores para as eleições de 2014, foram pegos de surpresa. Quando acordaram com o barulho das ruas, foram pra janela ver o que carnaval fora de época era esse. Quando viram que era uma passeata, se apressaram em pegar suas bandeiras e descer pra manobrar as "massas desorientadas". Foram surpreendidos pela "manobra das massas". Encurralados, foram humilhantemente escurraçados da passeata que não ajudaram a organizar pelo receio de desestabilizar o status quo atual, do qual são fiadores e participes, com assento palaciano. Só que o palácio está sitiado.

belo texto.

Augusto, c viu a manifestação do movimento Passe Livre de que é apartidário, mas não antipartidário?

Augusto, eu acrescentaria o whatsapp, onde várias conversas privadas para grupos menores estão acontecendo com a formação de grupos com mais afinidade e aparentemente isso está facilitando a construção de projetos.

Na minha idade, ver a  juventude na rua é uma alegria e uma esperança de que a sociedade brasileira ainda vive e pode se fazer ouvir.

Quem estuda Rede precisa ajudar a construir esta democracia bebê brasileira. As instituições principais e seus representantes estão comprometidos com a manutenção desse sistema de privilégios antidemocráticos. Se não for agora este impulso pela vida social pode explodir ou sucumbir! Não sei o que é pior!

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